Alive

1 The Last Night


Notas iniciais
Gente, bem vindos! Essa é a minha primeira fanfic original e espero que gostem. Já peço desculpas antecipados caso encontrarem algum erro tanto de grafia quanto na história, e se acharem algo me avisem, em.
Boa leitura, e nos vemos lá em baixo!

Do lado de fora da janela a neve, mesmo no fim do inverno, insistia em cair. Os pequenos flocos pareciam flutuar no ar, caído graciosamente, como uma dança ensaiada. E, aconchegada na poltrona, como um gato manhoso, Lilly não desviava os olhos daquele espetáculo.

— Você gosta da neve? – uma voz atrás de si despertou-a de seus devaneios.

Lilly, como acordada de um sonho, virou-se para frente completamente alienada ao que estava acontecendo. A mulher na poltrona ao lado lhe encarava sugestivamente.

— O que?

— Eu perguntei se você gosta da neve? – a mulher repetiu a pergunta calmamente como se, ao invés de uma garota de dezesseis anos, estivesse conversando com uma criança.

Lilly passou os seguintes segundos em silencio avaliando a mulher. Samantha era jovem, a seu ver não deveria ter mais do que vinte e sete anos, mas apesar da pouca idade e do pouco tempo de profissão que tinha, foi recomendada como a melhor psicóloga de toda a cidade de Dawnwood. Seus cabelos eram louros e ela insistia sempre em mantê-los em um perfeito coque. E os óculos que ela usava, vez ou outra, acabavam por teimar em cair e se apoiar na ponta do fino nariz.

— Sim – Lilly respondeu desinteressada

Samantha balançou a cabeça em afirmativa e baixou o olhar para o bloco de anotações que continha na mão, o qual Lilly podia jurar que não havia nada escrito já que suas últimas duas consultas foram passadas em completo silencio.

— E você gosta por algum motivo especial? Uma lembrança, talvez?

Lilly apreciava o esforço que a psicóloga fazia para manter uma conversa fluindo, no entanto, não estava nem um pouco intencionada a ajudá-la nisso. Ela não sabia por que não podiam manter o ritmo de suas consultas anteriores; se sentar, olhar para nenhum ponto especifico e deixar que o silêncio se perpetue. Esse, na verdade, era um ritual o qual ela estava se acostumando.

Quando percebeu que não receberia resposta alguma, Samantha aprumou seu corpo, ajeitou os óculos e encarou Lilly com o que a garota acreditava ser o máximo de impaciência que uma psicóloga poderia demonstrar.

— Você vai ter que falar sobre isso com alguém, Lilly – a mulher começou com uma voz calma e neutra – Você pode não querer falar comigo, mas vai ter que se abrir com alguém. Pense nisso como uma bexiga, se você ficar simplesmente guardando as coisas dentro de si, sem se permitir uma válvula de escape, você vai acabar explodindo.

Lilly encarou a mulher como se cada palavra que ela tivesse dito não passasse de besteira, o que para si era verdade. A garota não estava interessada no que as amigas tinham para dizer, nem no que a mãe tinha para dizer – se bem que da sua boca não saíram muitas palavras recentemente -, então, com certeza, não queria discutir seus problemas com uma mulher que mal conhecia e que, pelo simples fato de ter alguns diplomas na parede, achava que poderia entendê-la.

— Eu não quero falar sobre isso – a garota disse entre dentes. Sua cabeça já estava começando a latejar novamente.

— Lilly, não é assim que você vai resolver os seus problemas...

— Cala a boca! – Lilly levantou a voz e instantaneamente se arrependeu. Ela estava começando a perder o controle.

Lilly ponderou se a mulher gritaria de volta para ela, mas tudo o que Samantha fez foi abaixar e levantar olhar.

— Agora sim estamos chegando a algum lugar. Já faz duas semanas, Lilly. Você pode gritar, pode chorar, na verdade você deve fazer coisas assim. Você tem que esboçar alguma reação porque o que aconteceu com você...

— O que aconteceu comigo... – Lilly interrompeu a mulher. Ela balançou a cabeça como se refletisse consigo mesma, e com a voz alterada continuou – O que aconteceu comigo foi que a minha irmã morreu. Ela morreu e a culpa é minha. Agora, a não ser que você tenha realmente tenha algo útil para dizer, eu gostaria que você respeitasse o meu luto e calasse a boca.

No momento em que Lilly se calou ela soube que precisava sair dali. A sensação de claustrofobia a estava dominando. E antes que ela pudesse fazer algo ainda mais estúpido como chorar, ela se levantou e saiu da sala.

— Até breve, Doutora Lawday.

Lilly andou pelo corredor a passos apressados e saiu do prédio antes que alguém pudesse dizer alguma coisa. Assim que alcançou o lado de fora um vento gélido se chocou contra ela, mas isso não a fez parar. Ela continuou andando até uns dois quarteirões em diante quando, virando em uma viela, ela se apoiou contra uma parede. Suas pernas estavam tremulas e ela não sabia dizer se pelo esforço da corrida ou se, finalmente, elas haviam cedido ao seu desespero. A respiração ofegante deixava marcas no ar gélido. E por maior que fosse seu esforço para se concentrar em algo, em qualquer coisa, tudo o que passava por sua mente eram as lembranças que ela tanto queria esquecer.

A música soava alto em seus ouvidos. Seu corpo se mexia em um ritmo agitado fazendo movimentos, que Lilly nunca imaginou conhecer até essa noite. E em sua mente rodava a duvida se toda aquela animação e descontração era derivada dos dois pequenos copos de batida que havia bebido um pouco mais cedo. E se a resposta fosse sim ela sabia que as amigas estavam certas ao afirmar que ela não sabia beber.

Mesmo estando um pouco alienada ao que estava acontecendo o olhar de Lilly não deixou passar despercebido o pequeno tumulto que começou a se formar na porta dos fundos, que dava para um pequeno quintal.

Will, o anfitrião da festa, tomando passagem sobre a multidão que se formava, começou a gritar desesperadamente para que alguém chamasse uma ambulância. O primeiro pensamento de Lilly, como ela imaginou ter sido o de muitas outras pessoas, foi que alguém deveria ter bebido em excesso e desmaiado. No entanto, quando pode ver o olhar espantado de algumas pessoas na multidão ela soube que era mais do que um pequeno acidente.

Imediatamente, ela começou a fazer seu caminho para fora da casa. Ela desceu os degraus da varanda e alcançou o gramado. Ouvindo um barulho atrás de si, Lilly se virou e viu Violet e Chloe seguindo em sua direção.

— O que aconteceu? – perguntou Vi.

— Eu não sei, acho que alguém se machucou – respondeu Lilly

A propriedade de Will era, na verdade, uma casa de campo. E todo terreno era cercado por uma floresta e que em diante levava a um rio. Desse modo, Lilly realmente começou a se preocupar, levando em conta o perigo de que algum bêbado tivesse adentrado a floresta.

A aglomeração de pessoas se tornava gradualmente maior e por isso Lilly demorou um pouco para conseguir alcançar o centro e ver o que realmente estava acontecendo. No entanto, no momento em que colocou os olhos na cena desejou nunca ter feito isso. Ela sentiu sua cintura sendo segurada e se sentiu grata por quem quer que tenha feito isso, pois, se não, ela sabia que teria desmoronado.

Sob uma esteira estava estendido o corpo da sua irmã.

O cheiro forte de ferrugem parecia invadir suas narinas. E em suas mãos Lilly podia jurar ainda haver resquícios de sangue daquela noite. Já havia se passado duas semanas ainda assim a cada maldita noite as imagens do corpo estirado da sua irmã voltavam para atormentá-la seja consciente ou enquanto dormia.

Tudo havia acontecido rápido demais. Lilly lembrava-se daquela noite como quem se lembra de um sonho conturbado. Em sua mente havia apenas pequenos resquícios de cada cena; gritos, machucados, uma sirene e sangue. E até o momento em que ela havia chegado ao hospital ela não conseguia realmente acreditar que aquilo estava acontecendo.

Sua mãe havia sido a primeira pessoa a estar com ela no hospital. Ela havia recusado a presença das amigas e de qualquer outro que se oferecesse, pois sabia que a presença de alguém ali só tornaria tudo mais real. E enquanto ela estivesse sozinha ela ao menos poderia fechar os olhos e viver uma ilusão. No entanto, no momento em que ouviu os passos apressados da mãe em sua direção soube que a sua fantasia havia terminado definitivamente.

Foram horas decorridas com ambas sentadas no sofá. Não havia nada, nem uma notícia, nem uma informação, nem mesmo uma palavra, pois ambas não se arriscavam a quebrar o silencio. E depois de um tempo, Lilly lembrava-se, o excesso de branco fez com que ela começasse a se sentir mal, ela estava começando a se sentir claustrofóbica. No entanto, antes que ela pudesse ter de fato uma crise, um médico havia chegado com informações.

Lilly nunca se esqueceria da expressão na cara do doutor. Um misto de tristeza e pena que ela conhecia muito bem, pois não havia uma vez que ela pensava em seu pai e não se lembrava dessa expressão na face das pessoas. E naquele momento, um segundo antes de as palavras serem ditas, Lilly já sabia o que aconteceria.

O diagnostico oficial era hemorragia cerebral. O médico havia explicado em palavras que Lilly precisou ouvir diversas vezes para entender. Em resumo pelo que Lilly pode inferir tudo havia ocorrido devido a uma forte pancada na cabeça que, na visão do médico, provavelmente havia sido causada por um tombo ou uma queda. E olhando para sua mãe, cujo rosto já estava banhado pelas lágrimas, acenando afirmativamente para o médico Lilly teve vontade de gritar. Como, por Deus, sua irmã podia ter morrido com uma simples pancada na cabeça? Essa era uma pergunta a qual Lilly buscava incessantemente a resposta.

Dizem que o tempo cura tudo. Para Lilly, no entanto, os dias seguintes serviram somente para que ela se afundasse mais. E no dia do funeral, no momento em que o caixão foi levado para baixo, ela sentiu como se estivesse indo junto também.

Uma semana havia se passado sem que Lilly tivesse sequer vontade para abrir a janela do quarto. Não havia ninguém que ela quisesse ver e nada que ela quisesse ouvir. O silencio e a escuridão bastavam para satisfazê-la no momento. Entretanto, como uma borboleta, ela foi forçada a sair do casulo.

Lilly já estava acostumada a ser consolada. Na época em seu pai fugiu, abandonando a esposa e as duas filhas, não havia uma boca da qual não saiam palavras gentis direcionadas a sua família. Ela, portanto, já previa como as coisas iriam acontecer assim que ela resolvesse colocar os pés para fora de casa. Mas não foi necessário tanto, pois antes mesmo que ela saísse suas amigas, Chloe e Violet, insistiram em vê-la. A visita havia sido boa, afinal. E Lilly tinha que confessar que havia chorado como há muito tempo não fazia na frente de alguém.

Sua mãe, depois de passar por sua própria reclusão, decidira que era hora de voltar a vida normal. Se é que havia uma vida normal depois do que havia acontecido. A primeira coisa que foi decidida era que Lilly entraria imediatamente na terapia. Decisão que ela repudiou completamente, mas para não abalar ainda mais sua mãe concordou sem hesitar. A segunda coisa, e a que Lilly mais temia no momento, era a retomada da rotina o que significava para ela ter de voltar à escola.

Lilly não havia se esquecido da cena na festa e apostava que nenhum dos outros convidados também. E a simples hipótese de ter que conviver com pessoas que viram e provavelmente falariam sobre o que aconteceu era o suficiente para fazer um arrepio subir por suas costas.

Lilly bateu sua cabeça com força contra a parede do prédio o qual ela se apoiava. Ela sentia uma dor cada vez maior e sabia que não havia nada que pudesse fazer quanto a isso, pois não havia remédio que pudesse apagar as lembranças, ou mesmo a perda.

Respirando profundamente ela ajeitou seus cabelos castanhos, e só foi reparar que os seus dedos estavam praticamente congelados quando ela foi arrumar seu cachecol. Ela pegou seu celular no bolso do casaco pesado que estava usando e viu que já eram quatro horas. Meia hora havia se passado desde que ela saiu do consultório da psicóloga e, segundo as suas contas, já estava na hora de voltar, esperar por sua mãe ir buscá-la e mentir dizendo que, sim, as consultas estavam ajudando muito.

Ela terminou de ajeitar suas roupas e, quando se sentiu decente o suficiente, saiu da viela. Na calçada ela olhou para ambos os lados, mas ninguém parecia ter visto ou se importado com a sua situação minutos atrás, o que a deixou aliviada. Do outro lado da rua, em uma Starbucks, Lilly pensou ver uma figura conhecida. E, realmente, após encarar por alguns segundos ela viu que se tratava de ninguém menos que Luke Harris. Em desespero Lilly fez o que primeiro lhe veio a cabeça: tentar tapar o rosto com o cabelo. Ela jogou algumas mechas do longo cabelo e espiou por entre os fios.

Lilly xingou mentalmente o fato de vê-lo. E agradeceu em seguida por ver que ele estava entretido com alguma outra coisa. Não que ela esperasse que ele a cumprimentasse, ela sabia que isso não era provável de acontecer, mas ela queria evitar a tudo custo a vergonha de que ele a pegasse na situação em que estava. Lilly bufou de ódio de si mesma. Ela não deveria ter vergonha de nada, Luke era quem devia ter vergonha. Ele era o namorado da sua irmã e ele estava com ela naquela noite. E nem assim situou-se a aparecer no enterro ou a prestar qualquer homenagem.

Enfurecida, Lilly seguiu seu caminho. O trajeto de volta demorou mais tempo, pois agora ela não estava correndo. Ao chegar à frente do consultório, um pequeno prédio de dois andares, ela se sentou em um pequeno banco na entrada. Não demorou mais do que cinco minutos para que ela ouvisse a buzina do carro da mãe.

— E então, como foi? – a voz de sua mãe era doce e baixa. Ela lançou um sorriso singelo na direção da filha e Lilly, mesmo sem a menor vontade de sorrir, retribuiu. A garota podia ver o esforço que a mãe estava fazendo para tentar se mostrar forte, e Lilly podia ao menos fingir que acreditava nisso.

— Foi tudo bem. Eu só me esqueci de marcar a próxima consulta, então vou ter que ligar lá amanhã.

— Certo.

Lilly ligou o som e o carro foi embalado por uma melodia calma de uma musica romântica qualquer. Mesmo sem perceber a garota começou a cantarolar baixinho a letra da canção enquanto batucava os dedos na própria perna seguindo a melodia. Pelo retrovisor ela olhou para a mãe e, mesmo que ela ainda fosse jovem e muito bonita, a única coisa que se destacava em seu rosto eram as enormes olheiras.

— Você quer sair para jantar hoje? – sua mãe quebrou o silencio desviando Lilly de seus pensamentos.

A voz de sua mãe parecia animada, mas Lilly sabia que era apenas uma mascara. Ambas não queriam ter quer ver outras pessoas tão cedo.

— Não, eu prefiro comer em casa. Nós poderíamos pedir alguma coisa. – Lilly sugeriu, mesmo que sua vontade de comer fosse praticamente nula.

Ao chegar em casa, um pequeno sobrado amarelo, Lilly abriu a porta de entrada e respirou profundamente o que era o cheiro do seu refugio assim como do seu pior pesadelo. As lembranças aqui eram mais fortes, mas ainda sim ela preferia sua casa a qualquer outro lugar.

— Eu vou subir – Lilly avisou sua mãe que respondeu com apenas um acenar de cabeça.

Ela subiu as escadas e virou para o corredor onde ficavam os quartos. A sua direita tinha uma porta a qual ela nem ousava tocar. Era o quarto da sua irmã. Lilly seguiu até o fim do corredor até seu próprio quarto. Fechou a porta e em seguida a janela próxima a cama, e se deitou. Puxou os cobertores por cima da cabeça e se permitiu voltar para o seu casulo. Ela não estava realmente com sono, mas não demorou muito para que o seu cansaço emocional a abatesse. Por fim, a última imagem que ela teve antes que adormecer foi do dia do enterro, da lápide de sua irmã com os seguintes dizeres:

Laurie Panlow

Amada filha e irmã.

Notas finais
Muito obrigada a quem leu e chegou até aqui, um beijo para todos vocês.Essa história é muito importante para mim, então, por favor deixem um comentário tanto se tiverem gostado quanto se não, afinal, criticas construtivas nos ajudam a melhorar! Vou tentar postar o próximo capitulo em breve.
Beijinhos, até mais! Rafa.