Alive

1 Capítulo único


Notas iniciais
Espero que gostem! Beijos :)

A luz da manhã entra lentamente em meu quarto fazendo-me despertar. Pisco algumas vezes me dando conta que o dia começou. Olho para o relógio digital e já beirava às sete horas. Levantei relutante e fui fisgada por uma tontura. Normal, pensei. Isso me rodeou praticamente a vida toda e continuaria me rodeando, era como um costume, mania ou seilá. Visto minhas pantufas e vou até o guarda-roupa, quando o abro uma melancolia me invade. Quando chego na cozinha minha mãe está preparando café, usa seu terninho cinza com o emblema da empresa onde trabalha como recepcionista a quase seis anos.

– Bom dia, mãe. – Digo sem animação, o que para ela, era normal.

– Bom dia, querida. Como dormiu? – Serve café e toma um gole.

– Como sempre, mal. – Sirvo café para mim também.

– Oh querida. – Ela me abraçou com sua mão livre. Revirei os olhos com seu tom melancólico. – Preciso ir. Não beba muito café e qualquer coisa me ligue.

– Ok. – Ela me entregou sua xícara com um sorriso.

Acenei para ela enquanto saia pela porta da frente. Nossa casa não era grande, mas era aconchegante. Termino meu café e vou para o banheiro. Depois de escovar os dentes me olho no espelho. O estado do meu cabelo é deprimente, ele costumava ser esvoaçante e comprido, eu os tingia de preto, mas agora ele está curto e fraco, com sua cor natural castanho escuro.

– Vai demorar no banheiro, filha? – Ouço a voz do meu pai do outro lado da porta.

– Já vou sair! – Respondo e alguns segundos depois saio.

– Bom dia! – Diz ele ao me ver.

– Bom dia. Estou atrasada! – Digo quando percebo as horas.

Dou um beijo rápido em seu rosto e corro para pegar a mochila no quarto.

*Poof*

Dou de cara com um garoto na rua e meus óculos de grau quase foram ao chão, mas me assusto ao ver um sorriso em seu rosto em vez de xingamentos.

– Desculpe. – Digo e coloco novamente os fones de ouvido que haviam caído e os óculos.

Ele acena com a cabeça e volto a andar. Alguns segundos depois uma mão envolve meu braço. Era o garoto.

– Desculpe incomodar, mas poderia me dizer onde fica a escola São Francisco? – Ele pergunta meigo.

– Hum, três quadras naquela direção. – Aponto para frente.

– Muito obrigado! Você está indo para lá?

Ah não, não quero companhia.

– Não… – Minto e acho que ele nota.

– Tudo bem, tenha um bom dia.

Apenas aceno com a cabeça e ele começa seu trajeto. Ele era um pouco mais alto que eu, loiro, olhos verdes. Vestia uma calça jeans azul, camisa branca e uma jaqueta de couro cor caramelo, até que era bonito.

As aulas se arrastavam e agradeci quando finalmente chegou o intervalo. Depois de deixar os apressados saírem da sala eu saio. Odeio me misturar e não tenho amigos. Gosto de ficar sozinha, na verdade me acostumei, pois não era assim a alguns anos atrás. As pessoas se afastaram de mim depois que descobriram que eu estava doente, não tenho nada contagioso ou algo do tipo, mas as pessoas são ignorantes e só pensam nelas mesmas, ninguém quer andar com uma doente.

Escolho a mesa de sempre no espaçoso refeitório, fica logo na entrada, perto da janela e o melhor, ninguém para incomodar.

– Licença. – Ouço uma voz familiar sentando próxima de mim.

Ah não, o garoto loiro! Meu corpo começa a entrar em combustão, eu menti para ele e agora ele me olha com um leve sorriso no rosto.

– Olá. – Diz educado.

– Oi. – Digo sem conseguir encará-lo.

Ele começa a comer seu lanche e eu faço o mesmo. Algumas pessoas passam nos olhando estranho, faz quatro anos que ninguém senta ao meu lado no refeitório, na sala de aula ou em qualquer lugar, sempre faço os trabalhos sozinha e fico sem parceiro nas atividades em grupo, mas hoje em dia isso nem me incomoda mais. Depois de comer seu lanche ele me fuzila com o olhar.

– Porque mentir? – Ele sorri.

– Costumo andar sozinha… – Digo silenciosamente.

– E, provavelmente comer e estudar também.

Afirmo com a cabeça e ele não tira o sorriso leve do rosto.

– Você não é daqui, correto? – Pergunto já imaginando a resposta.

– Não, me mudei fim de semana passado.

– Hum.

Começo a procurar meu celular nos bolsos do moletom e só ai me lembro que o deixei na sala, assim como meu óculos. Droga.

– Algum problema? – Ele pergunta.

– Não, nada.

O sinal toca e suspiro em alívio. Não estou acostumada a conversar, ainda mais com estranhos, já estava aflita. Quando me levanto ele estica seu braço, estendendo a mão. Arregalo os olhos.

– Sou Vladimir.

– S-sou Luize. – Fraquejo.

– Até mais, Luize. – Solta minha mão e o vejo ir embora.

O sinal de saída toca e minutos depois já estou no portão da escola. O sol brilha fortemente e uma brisa balança levemente meus cabelos. Não tiro os óculo pois sem eles mal enxergo e retiro meu fone do bolso de trás da calça. Começo com meus passos lentos de volta para casa. Ah minha casa, sinto sua falta.

– É sempre tão sozinha? – Ouço aquela voz novamente. Vladimir.

– Sim. – Paramos um ao lado do outro.

Ele olha atentamente meus fones e os retira guardando no bolso de sua jaqueta.

– Hey! – Grito.

– Calma, devolvo quando você chegar em casa, é falta de educação ficar com isso nas orelhas enquanto falo com você.

– Como assim “quando você chegar em casa”? – Pergunto incrédula.

– Vou te acompanhar. – Ele sorri.

– Isso eu notei, mas por quê?

– Porque eu quero. Vamos.

Voltamos a andar, eu apenas o olhava por baixo do cabelo. Por que diabos ele está fazendo isso? Pena? Fico vermelha de raiva só de pensar, não preciso da compaixão de ninguém.

Continuamos a andar sem trocar nenhuma palavra até chegarmos em minha casa. Até que enfim. Suspiro.

– Chegamos. – Anunciei.

– Já? – Ele me olha.

– Sim.

Ele me devolve o fone.

– Foi um prazer Luize. – Sorri e não sei porque sorrio também.

Quando Vladimir começou a andar um esqueitista passa o levando junto, me assusto e quando vejo os dois estão embolotados no chão. Eu queria fugir dali, mas por impulso ajudo Vladimir. O esqueitista levanta-se sozinho e sai andando antes que eu possa xingá-lo.

– Você está bem? – Agora ele está em pé.

– Acho que torci o tornozelo. – Ele franze o cenho.

– E cortou sua bochecha. – Aponto e ele passa mão sujando o indicador com sangue.

– Droga. – Resmunga e depois sorri.

– Qual a graça? – Arregalo os olhos sem entender.

– É meu primeiro dia de aula e acontece isso. – Ele ri mais.

– Você mora longe daqui? – Eu não deveria deixá-lo ir assim.

– Mais um quilômetro e meio.

Nossa, porque tão longe?

– Olha, eu não deveria fazer isso, você é um estranho. – Começo a arrastá-lo para minha casa.

– O que está fazendo? – Ele pergunta meio assustado.

– Vou cuidar dos seus machucados. – Destranco a porta da frente.

– Por que?

Droga. O que eu digo? Não posso mentir de novo.

– Você foi legal comigo e você não pode ir para casa assim. – Falo sem encará-lo.

Abro a porta e ajudo a sentar-se no sofá.

– Já volto, vou buscar a maleta com remédios e curativos.

Ele assenti e entro casa a dentro com medo que meu pai esteja em casa, se soubesse que trouxe um estranho aqui me colocaria de castigo. Entro no banheiro e retiro a maleta branca do armarinho. Volto correndo para a sala.

– Consegue tirar o sapato? – Pergunto e ele assenti o tirando. Observo seu tornozelo inchado. – Consegue mexer?

– Sim, está quebrado?

– Acho que não, apenas torceu, mas seria bom passar no hospital para fazer um exame.

– Ok.

Enfaixo o tornozelo como posso, pois não tenho o material necessário. Logo me ajoelho ao seu lado para limpar o corte em sua bochecha, noto que estou perto e recuo. Ele grunhi.

– Machuquei? – Pergunto.

– Ardeu… – Ele me observava trabalhar, o que me deixou nervosa. – Como sabe fazer essas coisas?

– Passo muito tempo em hospitais.

– Trabalha?

– Não.

– Voluntária?

– Não. – Fecho a cara, não gosto de tocar no assunto.

– Então?

– Apenas passo muito tempo em hospitais. – Termino o curativo no rosto e fecho a mala bruscamente. – Está pronto, acho que consegue andar. – Ele me observa.

– Qual é o seu segredo Luize?

– Você precisa ir, tenho dever de casa. – Abro a porta.

Ele entende o recado e começa a mancar.

– Até amanhã, Luize.

– Até.

Ele sai e eu suspiro aliviada fechando a porta.

***

A semana passou devagar. No outro dia Vladimir se desculpou por ter feito aquelas perguntas, eu o desculpei e desde então ele passou a me acompanhar em todos os lugares, às vezes era meio chato, eu estava acostumada a fazer tudo sozinha e ter alguém que até me ajuda com as compras do supermercado me assusta um pouco, mas hoje era o dia de visitar a Dra. Martins, minha médica, eu teria que arrumar um jeito de escapar de Vladimir por hoje.

Já estava na hora de ir embora e eu estava esperando Vladimir no portão da escola, alguns minutos depois ele apareceu ofegante.

– Porque demorou? – Pergunto olhando seu rosto, agora o machucado era apenas uma leve cicatriz

– Fui guardar meus livros. – Começamos a andar. – O que vai fazer hoje?

Droga. O que vou fazer?

– Preciso fazer umas coisas.

– Que coisas Luize?

– Coisas…

– Ok, fazemos suas “coisas” e depois podemos ir comer sorvete?

– Não vou conseguir me livrar de você né?! – Ele sorri triunfante.

– Não!

– Bom, se prometer não perguntar nada...

– Ok, não pergunto nada.

Chego exatamente na hora da consulta e a Dra. Martins está me esperando. Dou meu nome para a recepcionista rapidamente e me dirijo ao consultório.

– Espere aqui. – Digo a Vladimir que assenti.

Entro no local já familiarizada.

– Ola Luize, como está? – A Dra. pergunta.

– Como sempre.

– Bom, não vamos nos prolongar, sente-se. – Ela me indica a poltrona.

Sei o que vai acontecer e sei da dor, odiava sextas-feiras. Ela se aproxima com sua agulha e eu abaixo a cabeça para a Dra. ter fácil acesso à minha nuca que está com parte do cabelo raspada. Quando a agulha penetra me enrijeço, aquela dor aguda é uma tortura e minha cabeça dói muito. Ela retira a agulha.

– Pronto. – Ela coloca um algodão no locar perfurado. – Alguém vem lhe buscar?

– Vim com um amigo. – Continuo sentada me recuperando.

Ela suspira e fica em silêncio por alguns segundos.

– Luize, porque não retomamos o tratamento? Poderíamos prolongar…

– Minha vida? – A interrompo. – Nós sabemos que nada disso vai adiantar, sabemos que cedo ou tarde vou sucumbir.

Ela não diz nada e força um sorriso abrindo a porta para mim.

– Até semana que vem então.

– Até. – Aceno e saio.

Quando Vladimir me vê saindo vem em minha direção, ajudando a manter-me em pé.

– O que fizeram com você? – Pergunta preocupado.

– Vamos sair daqui, por favor.

Ele obedece e me leva até uma praça próxima. Respiro o ar puro, ahhh… Nos sentamos em um banco de concreto. Vladimir me olhava atentamente, sei que quer saber o que está acontecendo, sempre invento desculpas sobre as tonturas e dores de cabeça.

– Você realmente quer saber? – Pergunto.

– Sim. – Ele responde firme.

Suspiro. Por onde começar?

– Bem, alguns anos atrás descobri que tinha um tumor na cabeça, sempre tive tonturas entre outras coisas, mas demoraram a descobrir porque está em uma parte muito delicada e “escondida”. Foi feita uma cirurgia, mas nada adiantou, o tumor voltou, mesmo depois das quimioterapias e infinitos remédio e injeções. Agora toda semana venho retirar o líquido que esse tumor produz na minha cabeça e uso óculos pois o tumor afetou minha visão.

– Isso não tem cura? – Pergunta com o rosto impassível e meus olhos enchem de lágrimas.

– Não. Poderiam tentar prolongar meus dias, mas, de qualquer forma, vou morrer. – Uma lágrima cai, droga.

– Eu sinto muito. – Ele diz e eu o olho séria.

– Vladimir, não quero compaixão. Todos que souberam se afastaram, espero que não faça o mesmo. – Não posso negar que ele me fez bem, mesmo em pouco tempo que nos conhecemos. Ele se aproxima e eu me arrepio.

– Nunca faria isso Luize!

Nesse momento sinto uma vontade incontrolável de abraçá-lo e faço. Ele me devolve o abraço na mesma hora. Ele me olha com ternura, estou perto, perto demais. Fico ofegante.

– Calma, Luize. – Ele diz e é como se ele me controlasse. Me acalmo.

Seu rosto se aproxima mais e mais até que nossos lábios se tocam. Droga. O que estou fazendo? Quando paramos o tímido beijo eu falo.

– Não quero te machucar e sei que vou.

– Esqueça isso Luize…

O beijo novamente.

***

Quase um mês havia se passado e eu havia me apaixonado por Vladimir, me odiava por isso mas, também, estava amando cada momento com ele, eu estava cada vez mais doente, mas agora eu estava completa, estava preparada.

Era sábado e havíamos combinado de ir no shopping, eu estava pronta usando jeans azuis, blusa preta e um casaquinho branco. Logo quando chegou lhe dei um beijo e saímos, eu estava quase sufocando de tanta dor, mas fiquei quieta. Eu aproveitava cada segundo com ele, pois não saberia quando seria o último.

– Quer sorvete? – Me perguntou quando chegamos ao shopping.

– Prefiro algo mais quente. – Gelado não era uma boa ideia sendo que minha imunidade andava baixa.

– Chocolate quente então?

– Ótimo.

Começamos a andar e o mundo girou, droga. Eu estava sentido que ia cair, minhas pernas amoleceram.

– Luize? – Vladimir chamou, mas eu já estava caindo.

Ele me pegou nos braços e começou a correr, não sei para onde, pois desmaiei.

A claridade branca invadia meus olhos, pisquei. Eu morri? Não, eu reconheço esse lugar, um quarto de hospital. Como vim parar aqui?

VLADIMIR POV.

Eu podia ver Luize do outro lado do vidro, isolada. Porque? Porque tão jovem e inocente? Queria poder dizer que a amava e que estaria com ela, mas como?

Vi seus pais se aproximando e a senhora sua mãe me abraçou.

– O que aconteceu Vladimir? – Ela perguntou já chorando e abraçou seu marido logo depois.

– Estávamos no shopping e ela desmaiou.

– Ela não disse nada?

– Não…

Antes que eu dissesse mais a Dra, Martins me interrompeu.

– Acho melhor estarem preparados. – Disse calmamente. – O tumor tomou boa parte de seu corpo e está matando cada órgão rapidamente, ela não tem muito tempo.

– Podemos vê-la? – Pergunta a mãe.

– Se forem rápidos, mas apenas um de cada vez.

Por mais que me doesse concordei em seus pais irem primeiro, sei que ela também me olhava com dificuldade pela vidraça, mas cada suspiro que dava, agora, era uma vitória.

Depois de dez minutos chegou minha vez. Meus olhos estavam úmidos, mas não queria chorar na sua frente.

– Luize, amor. – Ela me olhou.

– Vladimir. Dor. – Ela dizia com dificuldade por entes os tubos.

– Não se esforce…

– Meu. Fim. – Uma lágrima brotou em seu rosto. – Você. Melhor. Coisa.

– Você também foi a melhor coisa que eu tive. Eu te amo Luize.

– Também. Te. Amo.

– Está preparada?

Ela assentiu, segurei sua mão.

– Feche os olhos… – Ela obedeceu. – Pense em coisas boas, pense em nossos momentos juntos e em quanto seus pais te amam.

Observei seus aparelhos, seu coração batia fraco. Ela sorriu.

– Adeus. – Ela disse.

Seu sorriso aos pouco se desfez e apertei sua mão. Ela estava indo. Seu coração parou e não pude conter as lágrimas.

– Durma doce Luize. Durma.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!