Alien Panic

66 Crise 66 - Amor Terráqueo


Depois de passar poucas e boas nas mãos de piratas espaciais, finalmente podia prosseguir com minha vida normal. Deu um pouco de trabalho recuperar a matéria do dia que perdi, mas nada que fosse muito complicado. Ainda bem. Estrela não foi para o colégio hoje, mas ela já tinha mandado uma mensagem explicando que precisava mandar alguns relatórios para seus superiores referentes à prisão dos piratas espaciais. É, a burocracia está no universo todo mesmo. De qualquer maneira, o dia na escola estava bem sossegado. Acho que nada podia dar errado. Pois é, como eu disse, acho.

Era hora do intervalo. Aproveitei para ir ao banheiro tranquilamente, como sempre faço. Assim que terminei de lavar as mãos e saio pela porta, sou praticamente capturado por mãos misteriosas. Seria um novo alienígena infiltrado? Não, não era. Era apenas um garoto um pouco maior do que eu, usando o uniforme do colégio. Tinha olhos verdes, mas cabelos castanhos bem bagunçados. Achei que meu cabelo era estranho, mas ele tinha um jeito bem esquisito de olhar.

— Finalmente. Finalmente consegui falar com você em particular! — disse ele, com uma cara de felicidade e entusiasmo que, bem, estavam me deixando assustado.

— Desculpa, quem é você mesmo? — indaguei.

— Sou o Bartolomeu da sala B do segundo ano — disse ele — Pode me chamar de Bartô!

— Bartô? — repeti — E você queria falar comigo?

— Bem, não é bem com você que eu queria falar, mas acho que é mais fácil começar por você — continuava ele.

Devo dizer que não estava entendendo nada do que aquele garoto estava falando. Ele precisava ser mais claro.

— Apenas quero dizer que vou começar a lutar a sério a partir de agora!

— O quê? Eu não estou entendendo nada do que está dizendo!

— Não se faça de desentendido. Você não está saindo com ela?

— Ela quem?

— A garota mais linda e inteligente deste colégio e talvez de todos os outros...falo da Estrela!

— O QUÊ?! — exclamei.

— Nunca vi vocês se abraçarem, mas a representante da sua classe garantiu que há 80% de chance de vocês estarem juntos — disse ele.

A Bruna espalhando essas coisas. Que novidade. De qualquer maneira, era mentira. Eu não estava saindo com a Estrela nem nada do tipo. Além disso, o meu coração já pertencia à outra pessoa.

— É mentira — falei — Não estou saindo com a Estrela. Somos apenas amigos.

— É mesmo?

— Claro — tentei explicar.

— Será mesmo? — Bartô continuava a duvidar — Seja como for, não irei desistir dela tão fácil.

— Então, você gosta da Estrela?

— Foi paixão à primeira vista — falou ele — Tudo começou...na semana passada.

E lá vamos nós para mais um flashback.

* Flashback do Bartô (Ponto de vista dele) *

Eu estava saindo do colégio, lendo avidamente minha última edição da revista Ufãs, quando, sem perceber, esbarrei naquela linda e adorável garota. O esbarrão derrubou minha revista. Ela não disse nada. Apenas pegou minha revista nas mãos e a devolveu para mim. Já estava esperando algum piadinha ou provocação com o tema, afinal, garotas não costumam se interessar por ufologia. Foi quando ela abriu a boca e disse o seguinte:

— Vocês tem uma imagem muito atrasada sobre alienígenas — disse ela. Feito isso, ela apenas virou as costas e foi embora. Fiquei em silêncio por alguns minutos. Começou a chover e eu sequer abri meu guarda-chuva, tamanha foi minha admiração. Aquelas poucas palavras foram suficientes para me fazer perceber que Estrela não era uma simples garota que aceitava as informações passivamente. Ela esbanjava inteligência e pensamento crítico. Podia sentir isso apenas de olhar para ela. E foi aí que percebi o sentimento que inundou meu coração: paixão. Aquela garota foi feita para mim.

* Fim do Flashback *

— Então...você se apaixonou pela Estrela por essas simples palavras? — perguntei. Se bem que, pela descrição, era o tipo de coisa que Estrela diria mesmo.

— Você não entende? — falei — A maioria das pessoas não analisa a ufologia a fundo. Eu costumo ler a revista Ufãs por ser um dos periódicos mais respeitados sobre vida extraterrestre do planeta, mas sempre mantenho minha postura crítica diante daquilo que leio. Talvez os alienígenas não sejam seres monstruosos como a mídia comum pinta. Talvez eles sejam até parecidos conosco.

Na verdade, depende muito do alienígena. Mas, esperem um pouco, aquele cara...afinal, o que ele sabia sobre aliens?

— Você...tem alguma experiência com aliens? — perguntei.

— Não, mas é o meu sonho! — disse — Sempre me interessei por ufologia, mas é muito difícil achar pessoas que discutam essa área seriamente.

— Mesmo? — falei, tentando disfarçar e querendo sair dali o máximo possível antes que eu falasse o que não devia.

— É verdade — prosseguiu Bartô — Há muitos eventos, mas a maioria deles são apenas feitos sem nenhuma base. Para se ter uma ideia, alguns anos atrás um garoto maluco organizou um evento de ufologia na garagem da casa dele para dizer que viu um OVNI, mas no fim foi revelado que era só um dirigível fazendo propaganda de uma marca nova de feijão.

Ele parecia gostar mesmo de alienígenas. Mas ele devia tomar cuidado com o que deseja.

— E você acha que a Estrela tem interesse nisso?

— É claro. Se fosse o contrário, ela não teria me dito aquelas palavras.

— Mas você tentou falar com ela depois?

— Eu tentei, mas não tive muito sucesso — dizia Bartô, se lamentando — Depois que me recuperei do choque da paixão à primeira vista, procurei saber quem ela era no dia seguinte, uma sexta. Daí, tentei falar com ela no intervalo do colégio, mas acabei fui impedido pelo balde da moça da faxina.

— Pelo balde?

— Sim. Assim que tentei me aproximar, enfiei o pé no balde, tropecei e acabei caindo com a cara na lixeira. Mas isso não foi o pior..

— O que mais aconteceu?

— Tentei falar com ela na hora da saída, mas bem na hora que fui tentar estabelecer um contato, o rapaz que estava limpando as janelas do prédio do lado deixou cair um balde de água que me atingiu bem na cabeça.

Ainda bem que não foi um vaso.

— Ela não veio para a escola depois disso, mas perguntei para alguém da sua sala e a representante, que por acaso estava passando por ali, disse que você estava saindo com ela.

A Bruna...passando por acaso...nunca.

— Mas não é verdade. Somos apenas amigos, mas...não sei se Estrela tem planos de namorar alguém.

— Eu só gostaria de conhecê-la. Quero trocar algumas ideias sobre alienígenas sobre ela.

Bom, ela certamente sabe muito a respeito disso, bem mais do que ele imaginava.

— O que você quer que eu faça?

— Se é tão amigo dela, pode conseguir um encontro para nós dois, não pode?

— Eu?

— Sim, por favor, meu grande amigo...err...como é o seu nome mesmo?

— Vitor — falei.

— Isso. Vitor. Por favor, fale com Estrela — disse ele, implorando com os olhos — Eu seria o homem mais feliz do mundo se pelo menos conseguisse trocar mais algumas palavras com ela de novo.

— Eu não posso garantir nada, mas...você parece sincero.

— Muito sincero.

— Bem, posso tentar.

— Mesmo? Obrigado, você é mesmo um grande amigo, apesar de ser baixinho.

— Não precisa agradecer...

— Obrigado, obrigadão mesmo — ele repetiu, saindo de cena, não sem antes quase derrubar o vaso de plantas que estava ali do lado. Acho que encontrei alguém mais atrapalhado do que eu. Voltei para a companhia de Mabi e Eduardo (sem Estrela por perto, só me restava segurar vela) e contei para eles o que aconteceu. Mabi achou isso muito...singelo.

— Que fofo — disse ela — Então a Estrela está arrasando corações aqui na Terra, heim?

— Isso é interessante — comentou Eduardo — Gostaria de entender como Estrela trata de relacionamentos afetivos.

— Ela parece ser uma workaholic — falei — Não acho que ela se interesse por muita coisa além do trabalho dela.

— Muito irônico esse garoto gostar de ufologia, não acham? — comentou Eduardo — Talvez Estrela possa revelar sua verdadeira identidade para ele sem problemas.

— Não — falei — Isso ia causar uma confusão enorme.

— Acha mesmo? Pelo menos ele já acredita na existência de extraterrestres, o que já é muita coisa — falou Eduardo — Seja como for, vai mesmo levar isso adiante?

— Na minha opinião, acho que devemos tentar pelo menos marcar um encontro com os dois — disse Mabi — Melhor ele falar logo o que sente e aceitar a rejeição do que ficar se iludindo. Não concorda?

— Eu? Ah, sim, claro, claro — falei. Eduardo apenas riu. Que ele não tinha chances, eu já tinha certeza, mas prometi ajudar. Bem, depois da aula entraria em contato com Estrela. Vamos ver o que ela acha disso.

Notas finais
No próximo capítulo, veremos o que vai sair disso. Até lá! :)