Alice's Key
10 Bônus: Criança
Notas iniciais
O sonho do menino
Era tão pequenino
Que nunca falaria
E jamais conseguiria
— Meu amor, você não pode brincar hoje por causa do machucado. — mamãe falou passando os dedos no meu cabelo.
Os pássaros estavam cantando, então, deveria estar sol. O primeiro dia de sol em uma semana. Eu gostaria de ir brincar lá fora e rolar na grama, sentir o cheiro dela. O vento passando e levando as folhas para longe, preparando Maravilhas para o inverno.
Eu ainda estava deitado, só esperando o dia passar. Ou ficar com fome, o que acontecesse primeiro.
Acordei normalmente sentindo um formigamento no pescoço, e depois descobri que tinha me cortado ali.
Como? Não sei. Por que? Nem sei como, vou saber o porquê?
Quando? Ontem, tenho certeza.
Ouvi passos vindo na direção da casa, e sentei, tirando a cabeça do colo da mamãe.
— Vou atender, já volto. — ela beijou a minha testa e saiu. — Você veio ver ele, querido? Pode entrar, o Kit está no quarto.
— Por um momento pensei que ela fosse me chamar de Khristian. — comentei, enquanto ele entrava. — Como foi ontem, Kaz?
Zak estava parado encostado no batente da porta, seus olhos estavam assustados, e tremia como se tivesse visto um fantasma. E suas mãos se esfregavam de maneira nervosa.
— É você? — ele perguntou.
— Idiota, quem mais seria?
Ele caiu no chão, os tremores se tornando mais intensos. Saltei da cama e o abracei.
— Eu fiquei com tanto medo... — soluçou.
Eu era um ano mais velho que ele, mas... Agora, ele parecia ainda mais novo.
— O que aconteceu, Kaz? Por que você...
Um grito, soluços, Zak em colapso, cogumelo.
— Zakshees, me diga o que aconteceu.
As palavras vazaram de sua boca como a água de uma cachoeira, e conforme ele contava eu me lembrava. Fez sentido ele estar tão assustado, nervoso e preocupado.
— Eu estou bem, e você também. Isso que importa.
— Eu só queria... Só queria ter dito antes.
...
Tão jovem e inocente
Sua mãe era negligente
Seus sonhos permaneciam
E, ao mesmo tempo, sucumbiam
Seus olhos claros me encaravam com expectativa, e seu nervosismo parecia aumentar.
— Eu sei que demorei, mas eu achei que você ia gostar. Por isso que eu fiz o cachecol, é melhor que aquelas golas altas que você reclama o tempo todo, mas se não gostou, não precisa usar.
— Quem disse que eu não gostei? — sorri, colocando meus braços em volta dele. — Obrigado.
— Um presente maravilhoso, Zak. E combina com o suéter e o resto. — minha mãe falou — Não sei porque uma criança tão linda gosta tanto de ficar de suéter e calça moletom.
— É confortável! — argumentei.
— Então você é da família. Agora vão brincar, que o inverno já começou!
Minha mãe era divertida, eu queria parecer mais com ela... Psicologicamente.
Fisicamente, de vez em quando, me confundem com uma garota.
— Vamos correr, Zak! Sentir o vento nos cabelos! Ouvir os pássaros a cantar, e pisar nas flores!
— Elas são chatas e fúteis, apesar disso, não merecem tanto ódio.
Revirei os olhos e comecei a correr na direção da floresta das sombras.
— Espere! — Kaz gritou, quando já estava no meio das árvores.
— Venha logo! — berrei, diminuindo o ritmo.
— Você é rápido demais, Tik.
— Ou você que é lerdo?
Ele me encarou com desgosto. Tão diferente daquela criança frágil de minutos atrás. E muito melhor. Sua respiração estava um pouco descompassada, parecia tão vivo. Gostaria de mantê-lo assim para sempre.
— Você sabe onde estamos? — questionou depois de alguns minutos andando.
— Não. — continuei andando, até sair em uma clareira.
Com um moinho, olhei para Kaz de relance, seus olhos começavam a adquirir um brilho raivoso.
— Posso ter só dez anos, mas tenho certeza que esse ódio que sente pela sua irmã não é natural.
— Não tenho boas imagens dela. — murmurou, virando o rosto.
— Ela só tem sete anos! Faça-me o favor.
— Minha mãe me odeia por causa dela. Sabe disso.
Porque, Vida, você faz as pessoas boas sofrerem tanto? Ele é um amigo tão sensível, amável, cuidadoso, preocupado e leal. Meu melhor amigo. Não gosto de vê-lo sofrer.
— Vamos ver a Callyda? O cogumelo fica perto daqui. — pediu, segurando a minha mão.
— Tanto faz, só não quero falar com ela. Não entendo nada do que ela diz.
— Você entende, mas não compreende.
— Tanto faz.
Jonas nos recebeu alguns metros antes de sua casa, ele ainda tinha a aparência de cinco anos de idade, e... Poderia ser chamado de fofo.
— O Kaz quer ver a sua irmã.
— Eu sei. A Cally pediu para eu vir aqui, ela está esperando o Xis desde ontem, quando ele saiu.
— O que você veio fazer aqui ontem? — indaguei, curioso.
— É... — seus lábios começaram a tremer — Terminar o cachecol.
— E?
— Aulas.
— Para separar os dois dons que você me falou? Eu poderia ter te acompanhado! Já faz dois meses que aquilo aconteceu, poderia ter vindo junto.
— Então venha comigo a partir de hoje. — seus lábios se curvaram levemente.
...
Um toque de amor
Pode causar um tremor
Um sorriso no rosto
Que aumenta com gosto
— Eu detesto ela! Sempre se achando, ela grita comigo o tempo todo! Afirma que eu quero ser o chapeleiro e induzi todos a concordarem comigo. Imagina se ela descobrisse a verdade.
— Kaz, você está com raiva, é melhor se acalmar.
— Não me peça para acalmar. Aquela... Criatura faz tudo o que bem entende! Até me ameaçou! E só tem doze anos!
— Ruivinha de Copas, hein? Parece a Rainha Vermelha. — comentei deitando na grama. — Você fez a sala pegar fogo mesmo?
— Completamente sem querer, quem disse que ela ouviu?
— Ela queimou a perna, isso se tornará um trauma.
Ele deu de ombros, pouco se importando, mas eu sabia que estava magoado.
— Seus olhos ainda estão vermelhos, tem certeza que passou a sua raiva?
— Claro que sim! — exclamou lançando os braços para o alto.
— Sua capa está pegando fogo, e a grama também.
Kaz fechou os olhos com força. E as chamas começaram a diminuir, mas sua respiração começava a ficar difícil, e suas pernas tremiam.
— Eu não consigo. Quando a gente briga é quase que ativar uma bomba que ficou sem explodir por décadas.
— Gostei da comparação. Você sabe que ficar muito tempo usando esse poder acaba ficando sem forças depois, né? E quem se vira com o menino grande inconsciente sou eu. — revirei os olhos, vendo as nuvens passarem.
— Quem mandou ser baixinho?
Passou mais algum tempo, eu tentei me controlar. Ainda ouvia as fagulhas e sentia a fumaça inexistente. Callyda, maldita borboleta azul, mandou eu ficar quieto e deixar ele recuperar o controle sozinho.
Isso é difícil.
— Me ajuda. — sua voz estava embargada e fraca, o que fez eu me levantar com um pulo, a tempo de pegá-lo nos braços.
— Criancinhas... Tem um orgulho de ferro. — sussurrei, e ele riu.
— Quero dormir.
— Só depois que se acalmar. — sentei com ele no meu colo e sua cabeça no meu ombro, seus olhos estavam pesados, então Zak fazia força para se manter acordado, mas parecia fora de órbita.
— Tik... Eu te amo.
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