Alicerce

2 Capítulo 1


Notas iniciais
Olá! Então, espero que gostem desse primeiro capítulo. Gostaria que lessem o capítulo ouvindo Crazy in Love da Bey, versão 50 Shades, mas é super opcional mesmo! Nathan Ross é interpretado pelo Matthew Daddario.

E eu quero voltar para casa, para você
Mas casa é só uma sala cheia dos meus sons mais seguros.
— Troye Sivan.

Austria Hall andava decididamente pelo Campus da New York University, similar a como se colocava em meio a um desfile. Seus olhos felinos, tomados pela já tão conhecida adrenalina, penetravam em cada mínimo detalhe do lugar, sem se desviar de seu objetivo. Sentia o quão feroz estava se comportando ao encarar um grupo de estudantes, estupefatos por estarem frente à frente com uma das mulheres mais desejadas da atualidade.

Era incrível o poder que exercia sobre aquelas pessoas, mesmo sem ter o mínimo controle disso. Poderia não estar em um de seus melhores momentos, e sua fama estar sendo corroída pelos inúmeros boatos que inventavam acerca de sua saúde, e ainda assim era idolatrada.

Seus cabelos loiros voavam à medida em que se deslocava em perfeita sincronia, e seu visual estava tão impecável quanto sua imagem. Ria internamente ao pensar o quão ridícula poderia estar parecendo naquele momento, mas não se importava. Faria de tudo para proceder com sua reputação de femme falate, ainda que esta estivesse desgastando-se gradativamente.

Quando entrou em um dos corredores, obteve o vislumbre do homem a qual estivera procurando há tanto tempo. Ao observá-lo de longe, vira que este era exatamente como Nathan descrevera. Era um pouco bonito, mas estava longe de ser o tipo de homem que conseguiria o feito de levá-la para cama. Na verdade, estava longe de até mesmo ser o tipo de homem que iria querer levá-la para a cama.

Ótimo, pensara. O homem que cuidará de mim é a porra de um hippie, que provavelmente tem uma estufa de maconha.

— Jeremy Howard, estudante de psiquiatria? – perguntou-o ao chegar um pouco mais perto dele, tal qual logo assentiu, sem demonstrar estar afetado por estar perto de uma celebridade. – Sou Australia Hall, sua parceira. Será uma honra trabalhar com o senhor.

Uma semana antes

Seu suposto companheiro vinha até ela com uma garrafa de vinho branco em mãos, parando ao vê-la na sacada, olhando para ponto algum daquela vista.

— A Bela Adormecida acordou, pelo visto. – disse Nathan, prostrando-se ao seu lado, de costas para a cidade. – Espero que tenha dormido bem depois do escândalo de ontem.

— Aquilo não foi nada, Ross.

— Mas é claro que não... Até ser chamada no tribunal, né?

— Um processo a mais na minha lista não vai fazer diferença, afinal. Não foi culpa minha se aquele cara estava saidinho demais. – respondeu, sem desviar seus olhos da esplêndida vista para a cidade de Nova Iorque. Sua voz estava saindo arrastada, talvez fosse por conta do tanto que bebera na última noite. – Aliás, ele era até bonitinho, não sei por que não dei uns beijos nele depois.

— Puta merda, Aus. Você deu uma joelhada no cara em rede nacional, e depois saiu do palco pedindo desculpinha.

— Vai dizer que não gostou?

— É claro que eu não gostei. Achei sensacional. – riram juntos, enquanto dava um longo gole em sua bebida. – Ele merecia isso desde aquele dia em que me perguntou se eu era passivo ou ativo, no meio de uma entrevista. Por acaso eu tenho cara de quem dá?

— Preciso mesmo responder?

— Vai se ferrar, Australia. Você e aquele cara.

— De qualquer forma, esse cara é um desgraçado. Mas eu acho que minha assessoria não gostou tanto assim.

— Por que?

— Estão falando que foi algo inconsequente, e que não estou cuidando direito da minha saúde. – respondeu, vendo o clima ficar um pouco mais sério. Nathan, por mais que fosse um idiota e adorasse uma boa treta, também se preocupava com ela. Mesmo que não dissessem em alto e bom som, todos sabiam o porquê dela estar agindo assim. – Disseram que estou correndo risco de perder a maior parte dos meus futuros contratos. Incluindo o da VS.

— Eles estão tentando contornar a situação, né? Quero dizer, esse é o trabalho deles, ajudar quando as merdas estão acontecendo.

— Não sei se eles ainda podem fazer algo por mim. – suspirou pesadamente. Nathan a encarava com o olhar firme, enquanto ela continuava a observar a cidade. – As coisas não andavam muito bem desde o último escândalo, quando eu fiquei com o namorado da Gigi Hadid. Agora só parece estar piorando. E o pior de tudo é que está tudo acontecendo fora de controle.

— Realmente, deve ter sido uma merda dar uns beijos no Zayn na festa da namorada dele.

— Vai à merda.

— Olha pelo lado bom, pelo menos você se tornou a garota problema favorita do país.

— Me parece um título muito honorário, senhor Ross. Uma pena que os investidores não pensem da mesma forma.

— Ninguém poderia resistir a uma loirinha magrela igual você, querida. Muito menos aqueles velhos babões cheios da grana ao te imaginar desfilando com uma lingerie vergonha e asinhas de borboleta no show da VS. É quase como ver o paraíso.

— Nossa, me sinto muito mais reconfortada por saber que estão querendo me pedofilar. – falou, rindo. Nathan a acompanhou, assentindo. Eram uma dupla estranhíssima, mas ainda assim se completavam. Dois modelos muito requisitados, e mesmo assim pareciam ser tão diferentes um do outro. Seu melhor amigo, tão distraído e relaxado, parecia ser apenas um estudante de faculdade em um apartamento de luxo no Upper East Side. Já Austria parecia ser a prostituta que o acompanhava. – Vamos parar de falar nisso, por favor!

— Sobre o que quer falar, lindinha?

— Quero saber algo de utilidade pública... Qual é a boa de hoje, Nate?

— Estava esperando você perguntar isso. – falou, com um sorriso malicioso.

{...}

Austria estava com muita, muita raiva.

Ao questionar sobre seu destino naquele dia, nenhum de seus possíveis pensamentos chegavam perto da visão que tinha naquele momento.

Sua expressão era, no mínimo, cômica. Além de estupefata, a raiva havia tomado tanto de si que não conseguia abrir sua boca, nem formular uma frase sequer que pudesse tirá-la de lá.

— Bom dia, senhorita Hall! – disse-lhe com uma falsa alegria. Já era de se esperar, pois aquele homem nunca gostou dela. Sua face era tomada por pequenas rugas que insistiam em se desenvolver. Apesar dessas pequenas marcas, aproximando-se, poderia ver que não aparentava velhice, e sim rigidez. Sua palidez dava certo destaque aos olhos escuros que examinavam-na minuciosamente. Não passava dos quarenta anos, e mesmo que tentasse ser relaxado e divertido, ainda pareceria assustador.

— Só se for pra você, doutor. – respondeu. Ouviu uma risada vinda dele. Ele a conhecia muito bem, afinal.

— Senti tanto a sua falta, minha querida!

— Não sou sua querida. – retrucou.

— Pelo visto andou lendo os livros que eu recomendei... – disse, se levantando do seu assento e indo pegar uma pasta onde se encontrava os últimos exames e anotações do psicólogo de Austria. – Então, você prefere o Maxon ou o Aspen?

— Ambos, juntos. Não suporto a America, e acho que eles dariam um bom par se tramassem contra ela. Mas você não pode opinar nisso, já que é um velho idiota.

— Fico feliz em saber que sua percepção sobre mim não mudou nem um pouco. – para sua infelicidade, as palavras duras ao qual dirigia o doutor não o afetava mais. Ele apenas levava na esportiva, por muitas vezes ignorando-a. – Vejo que não há muita melhora desde a última vez que conversamos, senhorita. Posso saber o porquê?

— Não é da sua conta, velho. – disse ao pegar uma das revistas em cima de sua mesa e folheá-la. – Acredita que estão fazendo audições para o filme de um livro qualquer aí e não me chamaram? Isso é um ultraje!

— Da mesma forma que esqueceram de te contatar sobre os testes para as novas Angels da Victoria Secret's? – perguntou. – Veja bem, Australia, não sou seu inimigo aqui. Só quero te ajudar, e seus próximos contratos dependem do meu diagnóstico. Se eu disser que não há ao menos um mínimo percentual de melhora, não haverá mais trabalho. E sem trabalho, não há mídia, muito menos popularidade. Não queira virar uma daquelas estrelas que somem do nada e só voltam para fazer parte de matérias do tipo "Saiba como tal pessoa está agora depois de anos".

— Acabou o discurso? – suspirou, cansada. Ouvia o mesmo sermão todas as vezes que comparecia em seu consultório, o que era uma vez a cada duas semanas. Não aguentava mais. – O que quer saber? Quando foi a última vez que eu fiz xixi, qual a cor e a consistência dele? Ou melhor, quantas vezes eu faço cocô na semana?

— Está tomando seus remédios regularmente? – perguntou, ignorando seu comentário sarcástico.

— Se regularmente quer dizer uma vez na vida e outra na morte, sim, estou tomando.

— Austria, você precisa... – começou a falar com seu tão conhecido tom de quem diria um sermão de duas horas consecutivas, entretanto, foi interrompido antes que pudesse continuar.

— Ter mais responsabilidade e não depender da minha assistente, pois já tenho dezenove anos e sou praticamente uma adulta. É, tô ligada.

— Você é impossível, criança. – disse, rindo ironicamente ao perceber o tipo de paciente que encaminhavam para ele. Tudo bem, era um ótimo psiquiatra formado em uma das Ivy League, mas se contentaria com pacientes que o respeitassem e seguissem suas prescrições. – Qual foi o último surto?

— Acho que você e o mundo inteiro viram a joelhada mortal de Austria Hall, né.

— Aquilo foi épico, sinceramente. – os dois riram juntos ao se lembrar da cena, o que não durou muito, pois logo após voltaram ao assunto anterior. – O que vem sentindo ultimamente?

— Tenho estado muito estressada, e minha vontade de beber está cada vez mais persistente. Mas finge que eu não te disse isso, já que, pela lei, não tenho idade o suficiente para beber. – disse, olhando para suas próprias mãos. – Também tive uma crise de pânico esses dias, quando estava sozinha em casa. Foi horrível. Eu comecei a me arranhar e, juro por Deus, senti que havia alguém dentro de casa, correndo atrás de mim. Quando consegui ligar para o Nathan e ele chegou, eu estava chorando muito. Nunca passei por isso antes, doutor.

Ficou alguns segundos em silêncio, recebendo suas palavras e a examinando com uma expressão impassível. Foi por pouco tempo, porém Austria estava começando a se sentir desconfortável com seu olhar. Depois de um tempo, perguntou: — Você sabe o que isso quer dizer, querida?

— Eu não sou louca, doutor. Por favor, não interprete o que falei como loucura.

— Não se preocupe, garota, não estou te julgando. Apenas te direi que isso é um fruto da sua falta de responsabilidade. Se você se medicasse corretamente, talvez estivéssemos em uma situação diferente.

— Tentei milhares de vezes tomar esses remédios, só que eles não surtem efeito algum em mim... Não sei o que fazer.

— Estava pensando em... Ah, esquece, não acho que a senhorita irá se propor a algo assim.

Austria bufou, e o respondeu: — Mano, não sei se você reparou, só que por hora não há nada o que se fazer por mim. Por isso, qualquer merda que você me disser eu tô dentro.

— Pois bem... Nietzsche afirmou uma vez que é absolutamente impossível ao sujeito pretender ver ou conhecer algo além de suas próprias experiências. – dissera pausadamente.

— Onde quer chegar com isso? – perguntou desconfiada.

— Pretendíamos lançar um novo tipo de medicamento, parecido com o placebo. Pessoas portadoras de doenças mentais, tais como o Transtorno Dissociativo e Borderline, que são tratáveis e não tão severas quanto a Esquizofrenia, normalmente se acometem do problema por conta de uma experiência ruim vivida no passado. Por isso, nossa teoria era de aplicar o mesmo motivo que fez a doença se alastrar para fazer com que diminuísse.

— Tipo lobotomia?

— Não, longe disso! Faríamos com que a pessoa tivesse experiências contrárias à sua experiência ruim. Como um paliativo. Quase igual a forma aplicada para fazer alguém esquecer uma experiência traumática e diminuir seu número de crises de pânico toda vez que se lembrasse do ocorrido, entende?

— Não me parece verídico e eu não consegui entender merda nenhuma do que me disse.

— Compreendo. Nunca iria fazer nada para prejudicá-la, já que o sucesso de nosso procedimento e a minha carreira depende de como ocorrerá a sua melhora. A escolha é sua, Australia. Terá o tempo que for preciso para pensar sobre isso, e se aceitar, estaremos assinando um contrato para autenticar a sua decisão. Também irei de recomendar alguns dos melhores alunos da instituição onde leciono para ser um de seus instrutores.

— Vou pensar nisso.

Notas finais
Sei que muitos não leem as notas finais, mas aqui sempre comentarei um pouco do capítulo. Espero que entendam que a Austria sofre de Borderline, por isso a personalidade dela está suscetível a mudanças o tempo inteiro. Ela, assim como os portadores da doença, vive de extremos. Ela nunca é um meio termo, ou tem um certo esteriótipo. Uma hora ela pode gostar de alguém, em outra odiar. Num momento ela está sendo fofa e gentil, em outro uma ogra. Saber disso é essencial para poder entender a nossa querida modelo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.