Alicent estava em seu sono profundo até ouvir uma voz lhe chamando e sentir um leve toque de uma mão.

Abrindo os olhos, embora um pouco sonolenta, ela percebeu que era Sor Criston com um servo.

—Vossa Graça–Disse Criston–, um servo quer falar com a senhora.

Isso despertou Alicent.

Será que finalmente chegou a hora?

—A Rainha me mandou avisar–Disse o servo, sem fôlego e com nervosismo na voz–, quando o rei…

—Entendo–Respondeu a Rainha. A hora havia chegado.

Ela mandou a dama de companhia que estava com pegar o roupão de Alicent e a vestir.

—Venha comigo, Sor Cristo–Disse Alicent após amarrar o roupão–Temos que ser rápidos.

O cavaleiro branco assentiu e a seguiu. Após saírem, ele trancou a porta dos aposentos de Alicent. Nenhum daqueles dois iria sair dali.

—Que horas são?–Perguntou Alicent.

—Hora da Coruja, minha Rainha.

É nessa hora que Viserys tomava seu hipocraz, pensou

O quarto do rei ficava no andar de cima, logo acima dos aposentos de Alicent.

Quando Sor Criston abriu a porta dos aposentos, Alicent entrou e foi até a cama de seu marido.

Ao empurrar as cortinas da cama, ela o viu. O rei Viserys I, seu marido, o homem com o qual ela ficou casada por vinte e três longos anos e teve quatro filhos.

Ele parecia estar em um profundo e aconchegante sono. Dormindo confortavelmente em sua enorme cama.

—Meu rei?–Chamou Alicent, tocando uma mão no ombro de seu marido–Viserys, querido?

Ele estava mesmo morto. Viserys havia partido deste mundo.

—Majestade?–Chamou Sor Criston–o Rei se foi.

—Sim–Concordou Alicent–O Rei está morto.

Não havia tempo a perder. Ela não podia se dar a esse luxo.

Alicent voltou-se para Sor Criston.

—Acorde a todos os seus irmãos juramentados–Disse Alicent–, mande todos eles acordarem os membros do pequeno conselho e os avisá-los que devem se reunir em meus aposentos imediatamente.

—Em seus aposentos?–Questionou Criston.

—Sim. E mande o empregado até as Celas negras da fortaleza, não podemos correr nenhum risco.

Ele assentiu.

—E o rei?–Criston questionou.

—O rei dorme–respondeu Alicent–Ele dorme até eu falar que não.

Ao voltarem para o seu quarto, Criston pegou o jovem Servo e o levou com ele, enquanto Alicent mandava sua empregada, Talya, a ajudar a se vestir.

Alicent não viu motivos para chamar o chefe da guarda da cidade, Gwayne era seu irmão mais velho. Ele cuidaria para que os interesses da patrulha estivessem alhinhados.

Eles viram e vão me escutar, pensou. Ela sabia que apenas o rei, a Mão ou um Regente poderiam reunir um conselho, mas ela passou as últimas duas décadas garantindo que iriam ouvi-lá. Rhaenyra estava longe, isolada em Pedra do Dragão por anos, junto de seu novo marido, Daemon, brincando de fazer mais filhos.

Eles não tocaram em meus filhos, pensou Alicent. Não podia arriscar, Daemon era um ser incontrolável e perigoso, ele sempre humilhou os filhos dela, sendo sempre aplaudido por Rhaenyra; até mesmo espancou o mensageiro que o avisou de seu casamento.

Se ele fez tudo isso enquanto o Rei era vivo, o que faria agora que nada o deteria? Não, ela não deixaria ele tocar em um fio de cabelo de seus filhos e nem de seus netos. Nem ele e nem as crias bastardas de Rhaenyra.

Só por cima do meu cadáver frio, pensou Alicent. Viserys deveria ter lhe escutado quando ela indicou que casassem Rhaenyra e Aegon, mas ele não a ouviu; assim como nunca ouvia o pai de Alicent quando ele pedia para que Aegon fosse o herdeiro, assim como não a escutou quando ela implorou por vingança quando as crias de Rhaenyra arrancaram um olho de seu filho Aemond, sangue do sangue do próprio Viserys, ferido pelas mãos de um bastardo.

Você deveria ter me escutado, Viserys, agora tudo o que for acontecer também é sua culpa.

Ela poderia ter tentado casar seu amado primogênito, Aegon, a Rhaenyra após a morte e o período de luto da princesa pelo seu falecido marido, Laenor; poderia até ter tentado se livrar dos bastardos Strong depois… Mas sua mil vezes maldita enteada e Daemon Targaryen tinham que estragar tudo de novo; não respeitando o período de luto de ambos e se casando apenas alguns meses após a morte de seus respectivos cônjuges.

Isso estragou os planos de Alicent, toda a morte de Laenor foi planejada à toa e, para piorar, agora sua tola enteada estava unida com o príncipe Daemon, seus planos nunca poderiam ter dado mais errado; apenas talvez se Qarl estivesse vivo para falar a verdade. Alicent teve que se contentar em casar a sua bela e jovem Helaena com Aegon; seu filho precisava ter herdeiros de puro-sangue o quanto antes.

Pelo menos serviu para atrair as atenções de culpa a Daemon, pensou, quase todos acharam que aquilo tudo estava sendo muito conveniente para o tio da princesa herdeira.

Lembrava-se como aquela união entre sobrinha e tio enfureceu o Rei, a corte e até a plebe; ninguém aceitava um desrespeito tão descarado com os cônjuges mortos. Mas nada foi feito. Viserys passou por cima do ódio e deixou o amor fraterno e paterno falar mais alto.



Seu marido pode ter sido amável, mas nunca teve o pulso de um rei. Ele sempre se deixou levar pelo amor que tinha por Daemon e Rhaenyra; não importava o que fizessem. Não importava os erros, as brigas, as contradições… Viserys era um homem amável, isso Alicent não poderia negar, mas também não poderia negar que ele não tinha material para ser rei.



O pai de Alicent e Mão do rei, Sor Otto, chegou antes de todos em seus aposentos.

Apesar de tudo, Viserys também amou Alicent e seus filhos, o bastante para também ouvir os pedidos de sua esposa e se reconciliar com um velho colega; mesmo que esse antigo colega e conselheiro odiasse Daemon. A Mão do Rei é o segundo em comando após o monarca e é quem manda em tudo na ausência do rei, e foi esse cargo a quem o falecido marido de Alicent confiou ao pai dela.

—Minha filha–Disse Otto–, aconteceu finalmente?

—Sim, meu pai, meu marido já não está mais entre nós.

Seu pai refletiu por um momento.

—Então já não podemos mais perder tempo–Seu pai botou a mão no ombro de Alicent–Não podemos fracassar, filha. O que estamos prestes a fazer… Pode colocar nossas cabeças nos espigões da Fortaleza.

—Nossas cabeças já correm risco de qualquer forma–Disse Alicent–Vamos pelo menos tentar evitar isso.

—Então não fracasse, Alicent–Disse Otto–Não é o momento para falhar e mostrar fraqueza.

A Rainha assentiu.

—Eu não vou, pai. Prometo.

Seu pai dependia dela tanto quanto seus filhos e netos; caso Daemon subisse ao poder, ele não perderia tempo em matar seu principal rival na corte e pai da mulher que deu a luz aos filhos que o distanciaram do trono.

Quando os outros membros do conselho chegaram, Alicent vestiu a sua armadura pessoal de Lady e se preparou para finalmente se colocar em combate. No mundo dos homens, eles tinham armaduras e espada, para os homens e mulheres Targaryen, dragões. Porém Alicent não tinha nada disso, mas estava sempre usando as armas que tinha: cortesia e inteligência, foi assim que conquistou o povo, foi assim que conquistou os lordes, e seria assim que conquistaria esse pequeno conselho. Essa era mais uma batalha na qual ela estava disposta a lutar.

Alicent sabia o que precisava ser dito. Ela sabia o que dizer nesse momento, era hora de colocar todas as cartas na mesa.

Ela se lembrou do velho rei Jaehaerys, ela cuidou dele quando estava em seus últimos dias; dando banho, lendo, passando simples momentos juntos, sem as dores de cabeça da corte. A rainha cuidou do rei, em troca, ele deixou para Alicent algo que ela poderia usar: o Grande Conselho de 101.

Alicent rezou para que a Velha a iluminasse com sua lambada, que o a mãe lhe desse forças necessárias e que, caso o Velho Rei estivesse a vendo, que a guiasse para ter sucesso.

Sua mão guiou os Sete Reinos durante 50 anos em vida, pensou Alicent, por favor, que sua mão me guie mesmo durante sua morte.

E lá estava o pequeno conselho de Alicent: seu pai, sor Otto Hightower, Mão do Rei; sor Criston Cole, senhor comandante da Guarda Real; o grande meistre Orwyle; lorde Lyman Beesbury, mestre da moeda, um homem de oitenta anos; sor Tyland Lannister, mestre dos navios, irmão do Senhor de Rochedo Casterly; Larys Strong, chamado Larys Pé-Torto, Senhor de Harrenhal, mestre dos segredos; e lorde Jasper Wylde, chamado Barra de Ferro, mestre das leis.

Alicent tinha confiança em Sor Criston, seu pai Otto, Larys Strong e tinha quase certeza que Jasper Wylde e Tyland iriam seguir conforme a sua música; mesmo um deles já tendo tentado conquistar Rhaenyra.

Uma parte dos lordes estava confusa, não entendiam uma reunião do conselho numa hora como aquela e no quarto da rainha.

—Meus senhores–Disse Alicent–, peço perdão por acordá-los a essa hora da noite, mas temos um assunto a tratar: O meu marido, Rei Viserys, acaba de nos deixar.

Os lordes se entreolharam, um pouco surpresos com o fato, mas já deviam imaginar que deveria ser algo do tipo; o marido de Alicent já estava fraco de saúde há meses.

O Meistre Orwylle se prontificou em listar e lembrar os ritos de passagem:

—O septão Eustace deve ser convocado para executar os ritos finais e rezar pela alma do rei. Um corvo precisa ser enviado a Pedra do Dragão imediatamente para informar a princesa Rhaenyra sobre o falecimento do pai dela. Será que Sua Graça, a rainha, não gostaria de escrever a mensagem para suavizar a má notícia com algumas palavras de condolências? Os sinos sempre são tocados para anunciar a morte de um rei, alguém precisa cuidar disso, e claro que temos que começar a fazer nossos preparativos para a coroação da rainha Rhaenyra…

Sor Otto Hightower o interrompeu.

— Tudo isso precisa esperar — declarou ele — até a questão da sucessão ser resolvida.

Um silêncio tomou conta do aposento e todos olharam para Sor Otto. Alguns o olhavam como se questionassem sua autoridade.

—Como Mão do Rei—lembrou Sor Otto para aqueles que pareciam duvidar de seu poder–, eu tenho o poder de falar com a voz do rei, até de se sentar no Trono de Ferro na ausência do rei. Viserys concedeu me deu essa autoridade de governar os Sete Reinos, e até chegar a hora do nosso novo rei ser coroado essa regra prevalece.

— Até nossa nova rainha ser coroada— disse lorde Beesbury em um tom petulante.

— Rei — insistiu a rainha Alicent, zangada pela ousadia daquele velho— O Trono de Ferro por direito deve ser passado para o filho legítimo mais velho de Sua Graça.

Lorde Beesbury a olhou em desafio. O velho mestre das moedas era uma peça velha, estando em seu cargo ainda durante o reinado do velho rei Jaehaerys; porém, diferente de Alicent, ele não estava disposta a se lembrar que foi o velho rei quem escolheu o filho homem para herdar e que reuniu um grande conselho que escolheu coroar a linhagem masculina.

—Rhaenyra é mais velha que o vosso filho Aegon e seus irmãos, Vossa Graça–lembrou o idoso—, e tem mais sangue Targaryen, além do fato de ter sido escolhida como herdeira pelo nosso falecido rei.

Aquilo irritou Alicent, sentindo um veneno subir nela.

—Meu falecido marido só foi rei porque o grande conselho de 101 assim decidiu–lembrou Alicent–E esse conselho apenas o escolheu pois ele era um homem.

—Isso não muda a decisão de Viserys–respondeu Beesbury, irredutível em suas ideias.

—A Rainha está certa–Disse Lorde Jasper–O direito do trono deve sempre ir para a linhagem masculina. O Velho rei assim decidiu e devemos respeitar a vontade do mais amado rei Targaryen.

—Rei esse que você também serviu, Lorde Beesbury–Lembrou Alicent–Você o serviu e sabe que ele considerou o príncipe Baelon como herdeiro no lugar de sua neta, Rhaenys. Devemos respeitar sua vontade póstuma e de todos os lordes que assim desejaram no grande conselho.

—E ignorar a memória do também Rei Viserys? —Questionou Beesbury em desafio–O rei que foi escolhido pelo conselho? O rei ao qual a senhora era casada e lhe deu filhos? Por que devemos desconsiderar os desejos dele? Porque ele lhe deu um filho, é isso? É tudo o que importa para vo

Alicent estreitou os olhos.

—Dobre a sua língua, velho–Respondeu–Fale com respeito a Vossa Rainha! Acha mesmo que o Velho rei iria querer uma mulher no trono, ainda mais uma devassa como a Rhaenyra? Ou mesmo os lordes atuais?

—Pois devo lembrar a todos que centenas de senhores e cavaleiros de terras se curvaram à princesa em 105 DC e fizeram juramentos solenes de defender os direitos dela.

—A maioria deles já estão mortos–Respondeu Tyland Lannister–Faz vinte e quatro anos, Eu mesmo não fiz esse juramento. Era criança na época.

—E devemos também lembrar de Aegon, o conquistador—disse Jasper, o barra de ferro–Visenya era a mais velha, mas ele comandava; Rhaena, sua neta, era mais velha, mas nunca foi a herdeira. Assim diz a lei Andala, os direitos de um filho legítimo sempre devem entrar na frente de uma mera filha.

—Ainda mais uma cujo marido é ninguém menos que Daemon Targaryen–Disse Sor Otto–todos nós conhecemos a natureza dele. Não se enganem, se Rhaenyra se sentar no Trono de Ferro, vai ser o Lorde Baixada das Pulgas quem vai nos governar, um rei consorte tão cruel e implacável quanto Maegor foi. Minha cabeça será a primeira a ser cortada, não duvido, mas sua rainha, minha filha, virá logo em seguida.

Alicent ecoou o que o pai disse; ela sabia o que devia dizer, o que os lordes deveriam ouvir para concordar.

— Eles também não vão poupar meus filhos — declarou ela. — Aegon e seus irmãos são os filhos legítimos do rei, com mais direito ao trono do que o bando de bastardos dela. Daemon vai encontrar algum pretexto para mandar matar todos. Até Helaena e os pequenos. Um desses Strong arrancou o olho de Aemond, nunca esqueçam. Ele era um menino, sim, mas o homem é produto do menino que foi, e os bastardos são monstruosos por natureza.

Alicent podia sentir o desespero tomando conta dela com a ideia. Ela sabia que Daemon não correria nenhum, ele não poderia deixar sobrar nenhuma gota de sangue que tivesse direito ao trono; Rhaenyra nunca se importou com os filhos da Alicent, menosprezando Aegon desde que ele nasceu, casando os filhos dela com as filhas de Daemon.

E, mesmo que Daemon e Rhaenyra não fizessem nada, quem iria garantir que os bastardos de Rhaenyra não o fizessem? Eles sempre odiaram os filhos de Alicent e ela não tinha esperanças de que eles seriam piedosos com aqueles que ameaçassem seus direitos de Sucessão.

Dessa vez, Sor Criston também falou:

—Se Rhaenyra Reinar, Jacaerys será o próximo a governar depois dela-–Ele lembrou–Que os Sete salvem este reino se colocarmos um bastardo no Trono de Ferro. Eles vão transformar a Fortaleza Vermelha em um bordel. A filha de nenhum homem estará segura, nem a esposa. Nem os meninos… nós sabemos o que Laenor era.

Alicent não sabia o quanto o Chefe da Guarda Real acreditava no que dizia, mas ela sabia que existia um ódio ali, isso ela sabia. E ódio era tudo o que ela precisava de Sor Criston naquele momento.

—Se fizermos isso — avisou o grande meistre Orwyle-–, vamos acabar tendo guerra. A princesa não vai ficar de lado docilmente, e ela tem dragões.

— E amigos — declarou o velho mestre da Moeda. — Homens de honra, que não vão esquecer os votos que juraram para ela e o pai. Sou um homem velho, mas não tão velho a ponto de ficar de lado docilmente enquanto gente como vocês planeja roubar a coroa dela. — Ao dizer isso, ele se levantou para sair.

Alicent estava furiosa e prestes a dar a ordem para que Sor Criston prendesse o arrogante velho.

Foi então que sor Criston Cole obrigou lorde Beesbury a se sentar e abriu a garganta dele com uma adaga, fazendo o cair e sufocar no próprio sangue, enquanto lutava para respirar.

Todos ficaram em silêncio.

—Então–Disse Sor Otto–, agora que silenciamos as divergências, devemos tratar do assunto em questão: a coroação de meu neto, Aegon.

—E deve ser feita rapidamente–Disse Alicent–Antes que a Princesa descubra ou saiba de algo.

Os lordes assentiram, concordando com as suas palavras.

—Para nossa sorte–Disse Otto–Ela está ocupada em Pedra do Dragão, prestes a parir.

—Pode ser que a prostituta morra no parto–Disse Alicent.

Se os deuses forem bons e Rhaenyra morresse, a causa dela teria uma perda de imagem genuína: todos sabiam que seus filhos eram bastardos e Jacaerys e seus irmãos ainda eram muito novos para se arriscar saindo em batalhas; claro, Daemon e Corlys ainda seriam um problema, mas tinham chance de perder um apoio significativo sem uma rainha legítima para apoiar a causa deles.

Mas ela sabia que Rhaenyra não iria se deixar levar com facilidade.

—Meu filho Aegon deve ser coroado no Fosso dos dragões–Disse Alicent–, ele tem espaço o suficiente para milhares de pessoas e facilmente defensável. Todo o povo deve vê-lo ser ungido pelo Alto Septão e ser coroado pelo Chefe da Guarda Real, Sor Criston. Enquanto isso, eu irei coroar minha filha, Helaena.

Alicent sabia que não teriam a maior recepção do povo quando fossem informados que Rhaenyra não seria coroada, mas ela e a sua filha eram amados pela plebe, passaram anos ganhando atenção e carinho do povo. A Hightower sabia a importância de uma boa imagem para um rei.

—Aegon deve portar a Coroa de rubis de Aegon, o conquistador, e empunhar a espada Blackfyre. Após isso, ele deverá voar em seu belo dragão, Sunfyre.

Era perfeito, seu filho estaria repleto de todos os símbolos Targaryen, ninguém poderia duvidar de sua legitimidade. Rhaenyra estaria longe, isolada em sua ilha com seus aliados quando soubesse da notícia.

—Até lá, ninguém deve retirar o corpo de meu marido do quarto. Qualquer empregado suspeito deve ser preso imediatamente.

Eles passaram horas listando lordes e cavaleiros da corte que poderiam ser apoiadores da Causa Negra de Rhaenyra. Alicent mandou Larys Strong anotar todos os nomes que conhecia.

O pé torto assentiu, pegando papel e tinta.

—Qual das Grandes Casas estaria disposto a apoiar nossa causa?–Perguntou o Meistre Orwylle.

—Grover Tully–respondeu Alicent–, ele é um dos poucos ainda vivos do Conselho de Cento e um… E apoiou o meu marido, concordando que a linhagem masculina prevalece. E, é claro, a casa Hightower.

—Garanto que meu irmão também nos dará apoio, Vossa Graça–Disse Tyland.

Sor Otto assentiu.

—A Casa Tyrell seguirá a casa Hightower–Disse a Mão–Eles dificilmente não iriam apoiar um Vassalo tão poderoso; o que deve atrair as outras casas para apoiar.

Exceto a Beesbury, pensou Alicent.

—E casa Arryn?–Questionou barra de Ferro–O Vale odeia o príncipe Daemon e Lady Jeyne Aryn o expulsou de lá.

—Infelizmente, eu temo que não–respondeu Alicent–Jeyne pode não ter nenhum amor por Daemon, mas, sendo parente da filha do falecido Rei ou não, ela é uma mulher, dificilmente iria contra os direitos de Rhaenyra

Se Rhaenyra morrer talvez o Vale mude de lado, pensou. Ah, seria perfeito.

—E a casa Stark?–Questionou Tyland.

—Eles votaram em favor de Rhaenys no conselho.–Disse Alicent–Claro, agora o lorde é outro, mas o Norte está muito longe de nossos alcances e demoraria muito para entrar na guerra. Devemos enviar corvos apenas para aqueles que temos certeza.

—Sem Stark e Arryn então…–Disse Otto.

—Quem mais apoiaria a nossa, pai?–Perguntou Alicent.

—A princesa terá o apoio do Serpente Marinha e sua frotas–Avaliou sor Otto–, e possivelmente os outros snhores da margem oriental: os lordes Bar Emmon, Massey, Celtigar e Crabb, talvez até a Estrela da Tarde de Tarth. Todos são poderes menores, exceto pelos Velaryon.

"Mandarei cartas Martell, eles tem uma certa rivalidade com o Daemon e o Seroente Marinha desde que eles tomaram os Degraus. Também mandarei cartas aos Greyjoy–Ele se virou para Tyland Lannister–Oferecerei o vosso cargo de Mestre dos navios, Sor. A partir de agora, você será nosso Mestre das moedas".

O Lannister assentiu.

—Como desejar, meu Lorde–Respondeu o jovem Lannister.–Eu irei tratar de proteger o nosso ouro imediatamente, ninguém botará as mão nele, nem mesmo se invadir a capital.

O pai de Alicent pareceu curioso.

—O que pretende?

—Dividir o tesouro, é claro–Respondeu o jovem Lannister–Será dividido em quatro partes. Uma parte será confiada aos cuidados do Banco de Ferro de Braavos por segurança, outra enviada sob forte guarda para meu irmão em Rochedo Casterly, uma terceira para Vilavelha. A riqueza restante seria usada para subornos e presentes, e para contratar mercenários, se necessário.

Sor Otto assentiu sorrindo.

—Sabia que não iria falhar, Sor.

Sor Tyland era irmão gêmeo do lorde de Rochedo Casterly; ele nunca seria herdeiro de nada, a não ser que tentasse.

—E quanto a casa Baratheon?–Questionou Orwyle–Eles são parentes da princesa Rhaenys e os seus filhos. Porém, para nossa sorte, Borros é ainda mais beligerante do que o pai, e os senhores da tempestade menores o seguiriam para onde quer que ele os levasse.

— Então temos que cuidar para que ele os lidere até nosso rei–Respondeu Alicent, não seria um corvo que mandariam para Ponta Tempestade, só isso não bastaria—Sor Criston, já está amanhecendo e meu filho Aemond já deve estar indo treinar, chame-o até mim.

Aemond sabia ser galante quando precisava, e lorde Borros tinha várias filhas, um casamento com um príncipe iria convencê-lo… E, é claro, um dragão imenso como Vhagar sob as muralhas de seus castelo iriam fazê-lo pensar bem antes de se unir a causa de Rhaenyra.

A Mão do Rei se virou para Sor Criston.

—Reúna os vossos mantos branco, vão atrás de cada um dos lordes e cavaleiros que podem ser unir a causa negra de Rhaenyra.

Sor Criston assentiu.

—Como quiser, Lorde Mão

— Não aja com violência a não ser que resistam — ordenou sor Otto Hightower. — Os homens que se ajoelharem e jurarem lealdade ao rei Aegon não sofrerão nas nossas mãos.

— E os que não quiserem? — perguntou o grande meistre Orwyle.

— São traidores — disse o Barra de Ferro — e devem sofrer a morte de um traidor.

—Não! —Respondeu Alicent–Eles serão presos e depois julgados. Não podemos começar o reinado de meu amado filho com um banho de sangue desnecessário.

Era extremamente importante que o reinado de seu filho mais velho começasse sem mortes e um banho de sangue. Isso deixaria uma péssima impressão dele e eles não podiam arriscar, Alicent sabia que Aegon e Aemond não eram amados como sua filha Helaena e seu filho mais novo, Daeron.

—Como quiser, Vossa Graça—Disse Sor Criston, mas Alicent viu em seus olhos que ele discordava.

Ele só conhece a violência, pensou Alicent. Ela se lembrava de seu furioso ataque a Sor Harwyn e a Sor Joffrey. O escudo juramentado dela era agressivo contra a Rhaenyra, o que era ótimo… mas ele claramente não era esperto em outras áreas. Que ficasse apenas na guarda.



—Lorde Jasper–Disse Alicent–, chame seus mensageiros e mande que convoquem o comandante da Patrulha da Cidade e seus sete capitães dos portões para comparecerem à Fortaleza Vermelha. Vamos ver em quais podemos confiar para manter em seus cargos e quais devemos prender.

O homem conhecido como barra de ferro assentiu.

O pai de Alicent se virou para o Grande Meistre Orwylle.

—Escreverei cartas e você irá enviar elas em corvos para Rochedo Casterly, Pyke, Lançassolar, Riverrun e para meu sobrinho em Hightower.

O filho mais novo de Alicent, Daeron, estava em Hightower. Tinha apenas 13 anos…

Descobrir a morte do pai vai deixá-lo arrasado, pensou Alicent. Seu coração apertou ao pensar na dor de seu filho ao saber da morte do pai e ela não estar lá para consolá-lo.

—Devemos tratar logo daqueles que são traidores–Disse Jasper–Não podemos ter misericórdia com eles.

Alicent estava prestes a responder quando mais quieto dos lordes falou.

— Que sejamos os primeiros a jurar — disse ele —, para que não haja traidores entre nós. — Ao puxar a adaga, o Pé-Torto a passou na palma da mão. — Um juramento de sangue — disse ele—, para nos unir, irmãos até a morte.

Alicent olhou para o lorde de Harrenhal. O amável Larys sempre esteve lá para apoiar a causa dela, e durante toda a noite do conselho, nada disse sobre os bastardos de Rhaenyra, mesmo sendo seus sobrinhos.

Ele ajudou ela a restabelecer o pai como Mão do Rei, mesmo que em troca tivesse que matar o pai… E tudo que precisou para convencê-lo foi simplesmente matar o irmão mais velho junto, para se tornar lorde de Harrenhal.

Ele está do lado vencedor, pensou, ele não se importa de fato com a minha causa; só enquanto ela lhe beneficiar.

Todos os homens pegaram a adaga e cortaram suas palmas, mas quando chegou a vez de Alicent, lorde Larys deu um sorriso amável.

—Não há motivos, vossa Graça–Respondeu Larys–A senhora já perdeu um marido hoje, não há razão para se machucar mais.

—E, é claro–Disse Barra de Ferro–, coisas assim não são para mulheres.

Todos os lordes concordaram com as cabeças.

—Sou a maior defensora de meu filho.—Disse Alicent, ultrajada.

—E ninguém duvida disso–Disse Tyland–Mas existem coisas que mulheres devem saber que não são para elas.

—Que seja–Disse Alicent, irritada–Mandem alguém para pegar e cuidar do corpo de Beesbury. Já basta de cadáveres nos aposentos, e não quero esse velho petulante manchando meu tapete.

Quando os lordes se dispersaram para fazer suas tarefas, Alicent ficou sozinha com o pai.

Logo depois, seu filho Aemond entrou no quarto. Um dos mantos branco, Sor Willis Fell, o trouxe.

Alicent despachou o cavaleiro com um aceno da cabeça.

—Então, Aegon é rei? — perguntou Aemond ao entrar nos aposentos— Ou temos que nos ajoelhar e beijar a vagina da prostituta velha?

Ele nem perguntou do pai, pensou Alicent.

—Seu irmão é nosso Rei agora–Respondeu Alicent–Só temos de terminar os preparativos, mas temos uma missão para você.

Seu filho sorriu, o seu falso olho, o olho de safira, brilhou.

—Que missão? Devo comandar os dragões e queimar a puta da minha irmã? Estou louco para derrotar o meu tio.

—Isso seria impensável, Aemond–repreendeu–Pedra do Dragão pode não ter um dragão do tamanho de Vhagar, e Rhaenyra pode não conseguir montar Syrax, mas eles ainda tem Caraxes e Meleys; e Daemon e Rhaenys tem muitos anos de experiência em combate.

Seu filho revirou um dos olhos.

—Que seja–disse Aemond, irritado–o'que quer que eu faça?

—Você irá até Ponta Tempestade–Respondeu Alicent–, conquistar Lorde Borros a nossa causa.

—Seu objetivo é conquistar a mão de uma das filhas de lorde Baratheon — disse seu avô Otto. — Qualquer uma das quatro serve. Encante-a e se case com ela, e lorde Borros vai entregar as terras da tempestade para seu irmão. Fracasse…

—Eu não vou fracassar — disse o príncipe Aemond. — Aegon vai ter Ponta Tempestade, e eu vou ter a garota.

—Boa sorte, meu filho–Disse Alicent–e tome cuidado.

Alicent deu um beijo em sua bochecha, embora ele parecesse não ter gostado.

—O lorde Borros tem um filho?

—Não.–Respondeu Sor Otto.

—Ótimo. Quem sabe assim eu não herde o castelo? Vou deixar a minha futura esposa esperando um herdeiro logo, logo.

Ele se virou e saiu andando, sem dar adeus.

Alicent suspirou, sentindo-se cansada. Seu filho Aemond era terrivelmente impetuoso e indulgente; só poderia rezar aos deuses que nada desse errado em Ponta Tempestade.

—Agora tudo será diferente–disse Otto–e extremamente perigoso.

Os tempos de paz de Alicent haviam acabado quando Jaehaerys I morreu. Ela achou que ser rainha com o amado Rei Viserys I seriam felizes, com Rhaenyra como uma filha... Mas foi o começo de seus desafios e manipulações. Antes ela fez tudo pelo seu pai, depois fez de tudo pelos direitos de Aegon, Helaena, Aemond, Daeron; e também por Jaehaerys, Jaehaera e Maelor.

Ela se lembrava da pequena Rhaenyra, a servindo-a docemente durante a cerimonia, Alicent a chamando de "filha"; o alegre Rei, seu marido, sempre feliz e gentil.

Depois tudo mudou.

Rhaenyra se provou uma jovem incapaz de aceitar outra mulher importante na corte; nunca respeitando as cerimonias em que Alicent devia agir como era: uma rainha. Sua enteada não suportava não ser a primeira mulher do reino e não ser a única a ter as atenções e amores do pai e da corte.

—Sempre foi difícil, Senhor meu pai–Respondeu Alicent–, mas nós sempre lidamos com isso; só vão ficar um pouco piores. Daremos um jeito.

—Sempre demos.–Respondeu Otto.

O filho de Alicent nunca foi um proeminente político como ela e seu avô, nem carismático como Daeron e Helaena, ou habilidoso como Aemond; mas ela iria tratar de tudo para ele. Cuidar para que todo o seu reinado fosse tranquilo.

Sabia que Rhaenyra dificilmente lhe daria paz, mas a filha de Viserys estava há anos isolada em Pedra do Dragão, sua beleza era passado e ela já não tinha nenhuma capacidade política, seu marido era odiado, seus filhos eram bastardos que ela protegia executando aqueles que falassem a verdade… Ela nunca seria uma boa rainha. Nunca colocaria as mãos no trono de Ferro.

Ela não vai machucar meus filhos, disse a simesma, vou proteger essa família. Vou proteger de Rhaenyra, de Daemon, de suas crias bastardas... E, se por acaso eles ousarem encostar um dedo sequer em meus filhos ou netos, ela verá do que realmente sou capaz.