Alicent Hightower: A Rainha Verde
7 Carrascos
Alicent começava a entender o motivo pelo qual Rhaenyra talvez tivesse rejeitado Sor Criston; seu escudo juramentado se provava um idiota sanguinário por completo, estava preste a jogar a causa de seu filho no lixo.
—Ainda acho que devia reconsiderar, meu filho. — implorou Alicent, nos aposentos do Rei. — Esses lordes são reféns valiosos, de nada vale derramar sangue nobre e irritar as outras casas entregando-os ao carrasco!
Seu filho, que cada vez mais andava bêbado, encheu uma taça de cristal com vinho dornês até a boca. Um pouco do líquido transbordou pela borda, fazendo um fio fino da bebida escorrer pelo vidro.
—As outras casas vão aprender a me respeitar e a me temer —Respondeu Aegon, pegando a taça de forma abrupta e a levantando, fazendo o líquido balançar, criando pequenas ondas e fazendo a bebida cair pelas beiradas, fazendo o vinho escorrer pelos seus dedos. — Sor Criston tem razão —Ele disse acenando para o Chefe da Guarda Real, que fazia guarda no canto do aposento. —, um Rei legítimo não deve pedir ou implorar por nada. Se não me respeitarem pela minha legitimidade, então será pelo medo!
Alicent balançou a cabeça. Já era ruim o bastante seu filho ter matado todos os caçadores de ratos da fortaleza; um rei não pode ser visto como um tirano, não importava quanta legitimidade e quantos dragões tivesse. O Rei Maegor, o Cruel, teve o maior dragão de todos, e isso não impediu que todos os lordes de Westeros se rebelassem contra ele.
—É como tem de ser, Vossa Graça —Disse Criston, que agora usava a corrente de ouro da Mão do Rei —Eu sei que a Rainha Viúva tem medo e dúvidas, como todas as mulheres têm, e que só quer o melhor para o seu filho, mas ela logo irá ver que isso é para o melhor. Vossa Graça deve ser vista e respeitada como o rei que é.
Alicent ignorou o comentário do Guarda Real e Mão.
—Um rei deve ser sábio. —Ela disse —E não pode se levar pelo medo ou a raiva, meu filho.
Aegon balançou a cabeça.
—Um rei deve ser firme. —Ele retrucou — Quando mais novo, vi meu pai, que sempre fora tão amável, mandar arrancar as línguas da esposa, irmãos e filhos de Vaemond Velaryon, tudo porque falaram que os filhos da puta da minha irmã eram ilegítimos, o que era a mais simples verdade.
—Aegon, eu sei que seu pai cometeu erros, mas isso…
—Não, Senhora minha mãe —Ele a interrompeu —, meu pai era um rei. Ele sempre foi visto como fraco, mas quando ele foi confrontado, não ficou calado, e mostrou o que aconteceria com quem lhe desafiava. Chega de ser fraco e tentar a paz; está na hora de mostrar meu poder.
Seu pai também foi o homem que negou seu direito ao trono, deixava seu tio humilhar-lhe, e nada fez quando os bastardos de Rhaenyra arrancarem o olho de vosso irmão.
—Meu rei — insistiu Alicent —, essa ação pode ter graves consequências. Permita-me falar com esses lordes, tentar convencê-los de que…
—Não! —Seu filho a interrompeu, falando como um rei. —Eles já tiveram sua chance antes, se não aceitarem agora, vão ser mortos. Esta é minha ordem final, mãe. Não quero mais ouvir isso.
Vendo-se derrotada, Alicent abaixou a cabeça e fez uma vénia profunda ao seu rei, e saiu do aposento, ainda de cabeça abaixada.
Se Helaena estivesse aqui, lamentou-se, talvez eu conseguisse convencê-lo. Mas a filha estava perdida, não só pela raiva contra seu irmão e marido, como pelo pesar. Alicent temia que sua filha nunca mais sorrisse.
Sor Criston veio atrás dela.
—Vossa Graça —Chamou o Guarda Real.
Alicent se virou, de cabeça erguida e olhar firme. Dirigiu um olhar frio ao homem de manto branco. Sor Criston usava a corrente de Mão do Rei, várias mãos feitas de ouro entrelaçadas entre si. Aquela corrente, a rainha sabia, não lhe pertencia, ele não era digno dela.
—Sor Criston. —Ela disse, friamente.
—Eu espero que essa pequena querela entre nós nos afaste. —Ele disse —Ambos queremos o bem para o rei, e, acima de tudo, para o reino. Eu confiei na senhora, e fui seu escudo juramentado, porque eu acreditava -e ainda acredito- que a Senhora era o melhor caminho para defender a honra dos Sete Reinos contra a depravação de Rhaenyra. Assim como sei que foi por isso que a senhora confiou em mim, e por isso sou muito agradecido.
Eu confiei em você porque lhe vi derrubar Sor Harwyn e esmagar o crânio de Sor Joffrey, seu metido a besta que se veste de benfeitor branco.
Alicent apertou os olhos, olhando-o com raiva. Se aquele homem achava que transformar seu filho numa espécie de açougueiro aos olhos dos súditos, ele era mais burro do que ela jamais poderia esperar.
—E como pretende fazer isso? —Ela o questionou — Enchendo todos os espinhos da Fortaleza com cabeças até onde a vista alcança?
Sor Criston se mostrou impassível aos comentários dela.
—Eu permaneço com as minhas palavras —Ele lhe respondeu. —Um rei não é um pedinte, majestade.
E você não serve como Mão do Rei, quase lhe disse, mas estava farta de olhar para aquele homem idiota e incompetente. Ao invés disso, lhe dirigiu um sorriso para Sor Criston.
—Sabe, Sor Criston, tem razão — ela disse, num tom quase que de alegria—, é meu dever proteger o reino contra as profanações de Rhaenyra… Mas sinto que falhei; deixei escapar um deles e agora ele me aflige constantemente.
—Qual, minha Rainha?
—Deixei o idiota do amante que ela jogou fora ficar ao meu lado, e agora ele se acha importante e acredita que pode tomar decisão em assuntos de estados.
Sor Criston arregalou os olhos, olhando-a chocado e profundamente ofendido.
—Tenha um bom dia, Sor! — Alicent disse, virando-se e deixando-o para trás.
Algumas horas mais tarde, após rezar no septo, Alicent foi até a sala do trono. Enquanto andava por uma galeria, um rato passou por ela, fugindo de um gato laranja, mas logo o predador saltou nele e mordeu seu pescoço, erguendo-o em sua boca e balançando-o várias vezes. O pobre bichinho guinchava e tinha vários espasmos, se debatendo debilmente. Alicent fez uma careta, enojada com a cena, e voltou a retomar seu caminho, enquanto o gato, ainda com o animal morto na boca, pulou em uma janela.
Seu filho Aegon estava sentado no trono de ferro, usando a coroa de rubis do conquistador por cima da cabeleira loira platinada. O pequeno conselho se reuniu numa mesa em frente ao trono de ferro.
Alicent ficou em pé, ao lado do trono do filho, passando por Sor Criston, sem olhá-lo no rosto, que ficou em pé, do lado oposto ao dela, vestindo sua armadura de escamas brancas e usando a corrente de mãos de ouro. Seu outro filho, Aemond, ficou ao lado de Sor Criston.
Será que ninguém me apoia?, pensou Alicent, irritada e solitária. Ninguém lhe parecia dar ouvidos. Todos escutavam as loucuras ignóbeis de meu marido, pensou a rainha de forma ressentida, mas todos me questionam, como se eu fosse uma mulher assustada e ignorante.
Todos os lordes que haviam se recusado a jurar lealdade ao seu filho foram trazidos ante o trono de ferro; eram eles os lordes Butterwell, Stokeworth, Rosby, Hayford, Merryweather, Harte, Buckler e Caswell e a Lady Fell. Todos eles estavam fracos pelo longo período nas celas negras e estavam com os calcanhares e pulsos presos por correntes.
—Vocês têm uma escolha —Disse Aegon, do alto de seu trono. —Se ajoelharem e me jurarem lealdade, ou serem decapitados por traição.
Um murmúrio tomou conta do salão por uns instantes, e os lordes e cavaleiros se entreolharam.
—Eu o aceito! —Disse Lorde Stokeworth, se ajoelhando e abaixando a cabeça —Sou seu fiel seguidor, meu rei!
—E eu também! —Gritou lorde Rosby, dobrando o joelho, seguido por lorde Butterwell.
—Mais alguém? —indagou Sor Criston, dando um passo para à frente.
Lady Fell deu um passo fraco para à frente, fazendo as correntes chacoalharem.
—Eu posso não ter feito o juramento para sua irmã quando esta era mais nova —Ela disse —Mas ela é a herdeira de seu pai, o Deleite do Reino, e a minha legítima rainha. Rhaenyra Targaryen era quem deveria estar sentada nesse trono, não você, seu usurpador bêbado. —Ela cuspiu. —Pode me matar, minha honra e bom senso valem mais do que uma vida de subserviência e adulação para uma facção de perjurios como a sua.
Lorde Merryweather também deu alguns passos à frente.
—Você não é nosso rei! —Ele disse —Prefirimos morrer do que dobrar nossos joelhos. Se os dobrarmos, será para sua irmã, ou para o carrasco!
Alicent viu seu filho ficar escarlate de raiva.
—Que assim seja então! —Ele se levantou e olhou para Sor Criston. —Leve-os daqui e mate-os! Mate todos!
Sor Criston assentiu e deu ordens para que os guardas levassem os prisioneiros para o pátio.
Isso não vai nada bem, pensou Alicent, vendo que quase ninguém respeitava o direito de seu filho.
Uma estrutura de madeira foi montada no pátio do castelo, com bloco de madeira no centro, ao lado dele, o carrasco esperava suas vítimas em pé, com um machado na mão e uma terrível máscara preta no rosto. Chovia pesadamente, castingando o corpo daqueles que não tinham como se proteger. Os servos, cavaleiros, guardas, Lordes e Ladys se reuniram para ver. Alicent subiu numa estrutura de madeira, onde um enorme estrado foi montado e coberto por um imenso pano preto com franjas vermelhas. Foi ali que ela finalmente encontrou seu pai.
—Não quis ver a total burrice de meu neto —Ele disse —, mas achei melhor vir, caso precisasse de alguém para lhe dar apoio ao falar com ele... Embora, imagino eu, isso isto não fará diferença, não ê?
Alicent balançou a cabeça.
—Ele não me escuta, pai —Ela disse, frustrada. —Nada fará ele mudar de ideia. Acho que perdeu totalmente o juízo.
—Não fique triste, Vossa Graça —Disse uma voz atrás dela, ao se virar, ela viu que era Lorde Larys —Sei que vosso filho ainda a tem em grande prestígio em seu coração.
—Que os deuses lhe escutem, Lorde Larys —Pelo menos ela ainda tinha esse companheiro, por mais estranho que ele fosse.
Seu filho se sentou no alto do estrado onde Alicent estava, em uma enorme cadeira adornada. Ele fez um sinal para Sor Criston e este mandou trazerem os prosioneiros.
—Finalmente, um espetáculo aqui! —Brincou seu filho, Aemond.
—Quieto, filho! —Repreendeu Alicent —Não é momento para piadas!
Seu filho revirou o olho púrpura.
E assim foi, um a um, os lordes e cavaleiros foram decapitados, enchendo o cesto do carrasco com suas cabeças. Quando Lady Fell foi decapitada por último, Aemond disse:
—Aquela buceta velha devia ter tido um fim pior por desafiar um rei. —Disse Aemond —Acho que ela, assim como puta da minha irmã, esquece o seu lugar. — Ele se virou para Alicent —É importante a mulher que sabe seu lugar, não é mesmo, mamãe?
—Quieto! —Disse Alicent, aborrecida pelo comentário do filho. —Tente se lembrar do seu lugar, Aemond!
Seu filho comprimiu a boca, irritado, com seu lábio tremendo.
—poucos me apoiaram —Reclamou Aegon, quando estavam na sala do Pequeno Conselho, enquanto enchia uma taça de vinho.
—Pelo menos você tem apoio de duas grandes casa da Coroa, filho. —Alicent tentou acalmá-lo, mas a verdade é que sua atitude custou outras grandes casas.
—Mas ainda falta matar os rebeldes —Disse Criston —Ainda temos que lídar com aqueles que ousam lhe desafiar em suas próprias terras.
Aegon o olhou de soslaio.
—Que quer dizer?
—Quero dizer Lorde Darklyn de Valdocaso esqueceu seu lugar, e que devemos lembrá-lo.
Alicent não gostou daquilo.
—Darklyn não é longe daqui—Ela disse —, mas também não é longe de Pedra do Dragão. Rhaenyra e sua facção podem mandar seus dragões.
Sor Criston sorriu.
—É exatamente com isso que estou contando, Vossa Graça.
Aegon franziu o cenho.
—Qual seu plano, Sor Criston?
—Deixe que Rhaenyra venha —Ele disse —Estaremos preparados para ela.
Alicent interveio:
—Não! O dragão de Aegon não é grande o bastante para combate!
—Ele não estará sozinho —Disse Criston olhando para Aemond.
O olho bom de Aemond brilhou.
—Vhagar estará ao seu lado do rei, ajudando-o a matar Rhaenyra.
—Não sabemos se ela virá! —Alicent disse, consternada.
—Se ela não vier é fraca —Disse Criston —E, caso mande outros, o derrubaremos com Sunfyre e Vhagar.
Alicent se virou para Aegon.
—Por favor, Vossa Graça, me escute...
Aegon a calou, levantando um mão.
—Já basta, mãe. —Ele ordenou— Este assunto não é para os corações frágeis das mulheres. Vá para os seus aposentos.
Alicent olhou em volta e percebeu que ninguém se oporia em nome dela. Derrotada, ela fez uma vénia.
—Vossa Graça —Derrotada, ela abaixou a cabeça e saiu dos aposentos do conselho.
Vingança é para os homens, pensou, armargurada, para as mulheres, resta apenas dever e pesares
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