Alice no País dos Pesadelos
2 I. Sammy
Alice ficou boquiaberta por um momento. A casa, que parecia a mansão da família Addams por fora, por dentro estava mais para o castelo rústico. Assim que se entrava na casa, havia uma escadaria larga que se dividia em dois caminhos no final com corrimão que batia em seu quadril a mais ou menos 8 metros de distância da porta. O chão era de carpete vinho. Cheshire estava deitado esfregando as costas nele do lado de Alice. Do lado direito da escadaria havia quadros com borda de ouro, um sofá de couro com uma estante cheia de livros e bibelôs de prata bem ao lado, e mais atrás havia um corredor. Alice olhou para cima, ainda com a boca meio aberta. No teto havia sancas de ouro e lustres do que parecia ser cristal( ou vidro mesmo). Do lado esquerdo da escadaria ela só conseguiu ver uma estátua de gesso e talvez uma fonte. Aquele lugar era tão grande que Alice precisaria de um mapa. Ou quem sabe de dois.
Sua avó muito-que-bem-conservada estava descendo as escadas pelo lado direito. Cheshire se espreguiçou nas pernas de Alice e ela o pegou no colo.
– Então, o que quer ver primeiro? Marie me disse que você é curiosa. Com certeza quer explorar um lugar tão grande – Ela disse ao se aproximar. – A direita tem uma biblioteca enorme e a esquerda tem a cozi-
– Cozinha, por favor. – Fazia horas que ela não comia. Sentia o ácido derretendo seus órgãos e sua felicidade aos poucos. – Posso te chamar de tia? Não vou conseguir te chamar de avó
– Claro que pode! Assim me sinto até mais jovem – disse, sorrindo e piscando um olho.
A cozinha era bem mais do que Alice esperava. Por um momento ela pensou que estivesse no céu. O mármore era branco, a geladeira era branca, as cadeiras, a parede, o chão, a mesa era de cristal... as únicas coisas que faziam contraste eram as flores coloridas que enfeitavam o chão ou o balcão.
Da próxima vez eu trago um óculos escuros comigo. Cheshire enterrou a cabeça em seu braço, provavelmente se escondendo da luz.
– Oh, a luz te incomoda?
– Não, é que por um momento eu pensei que tinha morrido e tal… — respondeu, com os olhos semicerrados já de dor.
Sua tia riu. Era um som doce e contagiante, mas Alice estava ocupada tentando não ficar cega para rir junto com ela.
– Desculpa a pergunta, tia... mas quantos anos a senhora tem?
Ela deu um sorriso seco pra si mesma enquanto pegava um suco rosa da geladeira.
– Ah não, desculpe, é que você parece até mais nova que a minha irmã – disse rapidamente, tentando se corrigir.
Agora sua tia-avó dera um sorriso verdadeiro com uma risadinha baixa. Alice não conseguiu não sorrir junto. Ela irradiava bondade. Normalmente pessoas muito boazinhas a irritava, mas Sammy parecia ter uma bondade materna e doce, e não agitada e aparentemente falsa como algumas garotas de seu colégio.
– Tenho 55! Tive sua mãe quando tinha 15 anos... e sua mãe teve sua irmã com 15 também! Ser avó com 30... – Ela riu de novo. – Sua irmã também me chamava de tia idade. – Ela serviu o suco rosa no copo e o entregou para Alice.
Ela deixou Cheshire em cima do balcão e bebeu o suco. Estava levemente incomodada. Desde que nasceu Marie era sua mãe, e não sua irmã. Alice sempre ficava com um looping quando se referiam a ela como sua irmã. O suco rosa parecia mais iogurte de morango do que suco.
– Vou preparar o almoço, ok? Do que você gosta? – disse ela, já indo para a dispensa.
– Qualquer coisa... eu acho. – ela deu uma risadinha no final.
– Então vou fazer lasanha! – disse sua tia, da dispensa.
– Tia... essa casa... quero dizer... você é rica, não é?
Ficou um silencio de 2 segundos antes de ela responder.
– Praticamente, Alice. – Ela conseguiu sentir sua tia sorrindo.
– Então porque continua aqui? É longe de tudo... E você parece tão legal... e eu só tenho a minha mãe...
– Essa casa tem valor sentimental pra mim, criança... quantos anos você tem?
– 15, senhora.
– Eu me mudei pra cá quando tinha cinco... Eu, minha mãe e minhas irmãs... – Ela saiu da dispensa com um pacote de massa e um de molho — No inicio, não tinha essas grades do lado de fora. Era só essa casa, o campo e a floresta... Quando minha irmã mais nova se perdeu na floresta pela primeira vez, nossa mãe quis construir um murinho, mas não tínhamos dinheiro... Então ela só implorou para que a pequena Catelyn não voltasse pra floresta mais... Mas não funcionou. – Ela tinha pego alguns legumes e temperos e começara a cortar, de costas para Alice. Sua faca era quase assustadora. Seu cabo era pequeno e sua lamina era grossa, longa e afiada. — Sabe, dormíamos no mesmo quarto. Ela sempre dizia que gostava muito da floresta por causa dos bichos que tinham lá. Mas aqui não tinha... Não tem bicho nenhum... Até que teve uma noite... Eu estava dormindo, ela também. Eu acordei quando ouvi um barulho vindo do saguão e depois o portão se abriu. Catelyn estava correndo em direção a floresta de novo. Ela não parecia com medo... na verdade ela parecia estar seguindo alguma coisa... Eu gritei pelo nome dela, acordei a casa toda mas... Não conseguimos mais acha-la. – Ela foi falando cada vez mais devagar até parar. Alice estava suando frio. Odiava histórias de terror. Cheshire estava com os olhos fixos em Sammy também. E ela conhecia aquela posição. Ele também estava tenso. Sua tia parou de cortar e olhou para frente, ainda de costas para Alice. Quando falou, sua voz estava rouca e obviamente ela estava lembrando muito profundamente do assunto. – Foi a ultima vez que eu vi Catelyn.
Ela virou-se devagar para Alice. Aquela faca em sua mão estava a deixando mais tensa do que já estava. Sua tia estava com os olhos vazios e sorrindo forçadamente. Suas rugas estavam mais marcadas agora. Alice colocou os pés no chão, pronta pra correr a qualquer passo.
– Tia?...
Pareceu que haviam estalado os dedos em sua frente. Sammy piscou levemente confusa. O brilho natural de seus olhos havia voltado. Ela olhou para Alice, agora realmente enxergando-a e sorriu verdadeiramente.
– Desculpe, querida. Não devia te preocupar com essas histórias. Não devia...
Ainda com os pés no chão, Alice perguntou.
– E sua outra irmã? E a sua mãe?
Sua tia travou de novo.
– Elas foram assassinadas. Ali, do lado de fora.
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