Alice e o Mundo De Escuridão
3 Sonhos desesperadores
Notas iniciais
“—Vamos, acorde, Alicia! Acorde...!” — Soou uma voz. Alicia tremeu. Seus olhos estavam fechados e sua mente muito confusa.
“Vamos, acorde”, dizia ela a si mesma, tentando abrir os olhos, que pareciam estarem colados.
“Abra-os, abra-os!”— Primeiro, Alicia ouviu as vozes doces e encantadoras dos pássaros. Depois, lentamente, a luz começou a invadir seus olhos. E por fim, a garota finalmente conseguiu enxergar onde estava.
A grama alta e viçosa roçava em seus pés. Tinha morrido. Só podia ter sido isso. Olhou bem ao seu redor, para as árvores altas e esverdejantes.
Poderia ter ficado ali, parada, apenas observando a paisagem. Era algo tão lindo de se ver, que ela não se cansava, nem sentia vontade de se mover. Apenas olhar era o suficiente.
Então, as nuvens brancas feito algodão foram se tornando cinzentas. E depois, eram do mais puro negro. Alicia sentiu seu coração bater mais forte. Aquele lugar já não parecia mais tão belo.
O céu também começou a escurecer. O vento começou a bater forte nas árvores, fazendo suas folhas recém-apodrecidas se espalharem.
Então, uma gota caiu na mão de Alicia. Era uma gota de um líquido viscoso, negro e mal-cheiroso. Começou então a chover gotas daquele líquido, fazendo Alicia tremer.
Quando a garota achava que era impossível algo mais acontecer, uma voz fria e impiedosa falou. Tinha um tom maléfico, brutal e macabro. Alicia sentiu suas entranhas tremerem ao som daquela voz.
—Muito bem, miin-nnha gaarotinha! Muito be-be-bem, mesmo...
—Quem é você? O que você quer comigo? – Quis perguntar Alicia. Porém, não o fez. Seus lábios estavam colados, e sua voz não queria sair.
—Não precisa me temer, Alicia... Você precisa apenas me... Obedecer! — A voz silvou, agora quase gritando. Alicia tentou respirar fundo, mas seus pulmões pareciam estarem sendo compridos.
O líquido que chovia do céu parou de cair, e as nuvens pareciam estar descendo até a terra, onde Alicia estava.
A boca da garota conseguiu se abrir e murmurar algumas palavras:
—Q-quem é... v-vo-vo-vo...c...?
—NÃO LHE INTERESSA! — Gritou a voz, agora furiosa. Alicia sobressaltou-se num pulo, tremendo.
—O-o q-q-q... V-você q-quer de m-m-mi-im? – Murmurou, fracamente, Alicia.
—Você fala como se eu fosse uma vilã. Pare de gaguejar, garota. Não farei nada com você! Só peço que você faça um favorzinho... Para mim.
Alicia conseguiu levantar as sobrancelhas com grande esforço. O que aquela coisa poderia querer?
—Há um certo objeto meu que foi roubado. E eu quero que você o recupere para mim.
—E por quê você mesma não o recupera? – Perguntou Alicia, depois de reunir um pouco de coragem. A Voz ficou um pouco mais fria e arrogante depois dessa pergunta.
—VOCÊ ACHA QUE, SE EU PUDESSE RECUPERAR O QUE ME FOI ROUBADO, EU TERIA PEDIDO AJUDA À VOCÊ?
A Voz estava agora gritando. Alicia queria pedir desculpa, pois os pêlos do seu braço estavam arrepiados e aquela conversa não estava rumando para um lugar muito bom. Mas sua voz não saía novamente. Seus lábios estavam colados.
—VOCÊ TEM EXATAMENTE UMA SEMANA PARA ME ENTREGAR AQUILO QUE ME FOI ROUBADO.
“Mas afinal, o que lhe foi roubado?”, pensou Alicia. A Voz imediatamente respondeu.
—Procure pelo Chapeleiro, garota, e pergunte em meu nome. Ele saberá lhe responder.
Alicia só conhecia um chapeleiro, e ele era dono de uma mercearia.
—UMA SEMANA, ALICIA! UMA SEMANA!! — A Voz gritou, e então desapareceu por completo. As nuvens negras avançaram então para Alicia, e começaram a cobri-la por inteiro. A garota tentou gritar, mas nenhuma palavra saía de seus lábios.
Então, uma outra voz soou na sua mente. Uma voz pura e simples, que lhe pareceu extremamente parecida com a sua.
“Alicia, por favor! Alicia...”
Então as trevas cobriram o corpo de Alicia, e um breu profundo foi tudo o que ela conseguiu enxergar.
—____
—Alicia! Alicia, acorde! – Braços tocaram sua pele, e Alicia lentamente abriu seus olhos. Viu apenas um total desconhecido, que tinha cabelos grisalhos e pele bronzeada. Ele sorriu para ela quando ela acordou.
Alicia percebeu que estava num quarto de hospital, deitada numa maca. Ao lado dela, havia uma cômoda com remédios, e espalhadas pela sala, haviam mais macas.
—Finalmente, garota. Achei que você nunca acordaria. – O médico continuava a sorrir estranhamente para ela, como se Alicia fosse uma pobre coitada ou algo assim.
—Poderia se levantar, senhorita? Por favor? Pode voltar para a sua sala agora. – Alicia continuou deitada. Sua sala? Como assim?
—Senhorita, por favor... – A expressão bondosa e carinhosa do médico parecia estar ficando impaciente. – Sr. Kiddney, venha pegar a garota, por favor.
Um homem forte entrou no quarto, e segurou Alicia pelos dois braços.
—Retire-a daqui, por favor. – Falou o médico, quase friamente. Alicia foi carregado pelo Sr. Kiddney para fora do quarto. Tentou se debater, mas pouco adiantava. Não escaparia daqueles braços de maneira alguma.
Enquanto tinha seu “primeiro passeio de reboque”, Alicia e Kiddney passaram por vários corredores cinzentos e sem-vida, que fediam a remédio. Alicia percebeu então que vestia uma camisola branca de seda, que se ajustava pessimamente a seu corpo. Ela fez uma careta ao notar que a camisola estava muito apertada.
O “passeio de reboque” chegou ao fim quando Kiddney, depois de passar na frente do que Alicia achou serem mil portas, abriu uma porta dupla de madeira e jogar Alicia lá. “Jogar” no péssimo sentido, porque ele literalmente jogou ela, sem cuidado nenhum, fazendo-a tropeçar nas cadeiras e cair esparramada no chão.
“Ótimo. Tratamento VIP o que eu recebi.”, pensou Alicia enquanto levantava do chão.
Com um frio na barriga, Alicia percebeu enfim onde estava. O quarto onde estava tinha várias macas, cada uma em um canto. Três crianças estavam sentadas num tapete felpudo, com olhos vazios e expressões vazias.
Já tinha estado num lugar como aquele uma vez, quando seu pai tinha levado sua avó para lá, e ela foi obrigada a ficar esperando numa sala para visitas. Uma clinica psiquiatrica. Era esse o nome dado para o lugar.
Alicia suspirou longamente. O que estava fazendo ali, afinal de contas? O que tinha acontecido com o Sr. Lewis? Sim, pois quando esse dera o fermento para ela, algo aconteceu. Disso ela tinha certeza. Apenas ainda não sabia o quê.
De repente, seu coração desacelerou.
“Alfred”, pensou ela de olhos arregalados. O que, afinal de contas, tinha acontecido com seu irmão? Passado o momento de raiva, agora Alicia se arrependia amargamente de ter deixado ele sozinho na rua.
Seus pensamentos foram interrompidos por uma voz clara e bem definida de alguém ao seu lado.
—Olá, novata! Qual é o seu nome? – Alicia olhou para o lado. Um menino que parecia ter, pelo menos, uns doze anos, era quem tinha falado. Ele tinha belos cabelos loiros sujos, e olhos castanhos tristes.
—Meu nome é... Por que você quer saber meu nome, oras?
—Ok, então. Meu nome é Charlie. Prazer em conhece-la, ó Dama Sem-Nome. – Falou Charlie, ironizando a parte do “Dama Sem-Nome”. Alicia não pode evitar, e deu um sorriso para ele.
—Meu nome é Alicia. Bem, é... – Alicia não sabia o que dizer. Que tal se explicasse que inexplicavelmente um bondoso comerciante começou a falar coisas estranhas, então ela desmaiou e acordou naquele lugar? Não, não. Alicia não queria dizer nada àquele desconhecido.
Alicia grunhiu quando uma forte pontada de dor na sua cabeça apareceu.
—Alicia? Hum... Bonito nome, o seu.
Alicia então se sentiu zonza. Sua visão começou a embaçar, e ela começou a suar.
—Alicia? Alicia, você está se sentindo bem...? – Perguntou Charlie, com uma expressão preocupada no rosto. Alicia sentiu o corpo pender para a frente. Ela sentiu o ar esvoaçar seus cabelos, como se estivesse caindo de um precipício.
Charlie tentou agarrá-la a tempo. E então tudo escureceu.
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