Alice e o Mundo De Escuridão
1 Prólogo: A luz se apaga
Notas iniciais
Faíscas saíram quando as espadas se chocaram. Alice estava se sentindo um pouco zonza, mas não se importava com isso. As nuvens vermelhas gotejavam sangue, deixando os braços da garota salpicados.
A luta prosseguia feroz. Alice não via um palmo do que estava adiante do seu nariz. Apenas lutava. Apenas movimentava sua espada.
Então acabou. O grito da Rainha de Copas cortou o ar, e Alice atravessou a barriga de um dos guerreiros de sua inimiga. Tinha acabado. E aquela seria a última vez que mataria alguém.
Ela avançou em meio aos destroços e cadáveres jogados no meio do chão vermelho e duro. A Rainha estava ajoelhada, sendo subjulgada pela sua irmã, a Rainha Branca. Alice não pode evitar um sorriso bobo.
—A GUERRA CHEGA AO FIM! – Gritou a Rainha Branca, sorrindo. Ela, me permito dizer, era bonita. Não explendorosamente linda, mas bonita. Tinha cabelos longos e ondulados, de um prateado intenso e surreal. Trajava uma armadura de batalha completa, e tinha uma pele pálida salpicada pelo sangue que chovia das nuvens vermelhas.
Os guerreiros da Rainha Vermelha se renderam. Dizia-se no reino que eles antes foram cartas participantes de um Baralho Mágico, e que, usando Magia Negra, a Rainha Vermelha os transformou em humanos. Humanos no sentido de andar, de possuir carne e osso. Por que por dentro de cada um deles, não existia nada há não ser um profundo vazio.
Grunhidos saltaram da boca da Rainha. Antes, Alice teria ficado com medo. Mas agora só olhava aquilo com nojo.
A Rainha Vermelha, à primeira vista, era a mulher mais linda do universo. Seus cabelos eram ondulosos e sedosos, vermelhos feito fogo. Tinha os traços mais finos e delicados possíveis, e os olhos mais estonteantes de todos. Isso, lógico, à primeira vista. Por que após você conhece-la bem, a podridão de sua alma se reflete em seu belo rosto. Alice, que antes a achava a mais bela, agora só conseguia enxergar um monstro.
—Amaldiçoada seja você, Alice! – Murmurou a Rainha. Não era a primeira vez que sua boca proferia essas palavras. Já era a terceira vez em que Alice se intrometia no País das Maravilhas: a primeira foi quando ainda era criança, a segunda quando uma adolescente, e aquela, a última de todas, quando ela era quase uma senhora de idade, nos seus cinquenta anos.
—Há tempos que você roga pragas para mim, Rainha! E nunca, na minha opinião, uma dessas maldições irão pegar em mim.
Um sorriso malicioso se formou nos lábios vermelhos da Rainha.
Alice não enxergou aquele sorriso, pois um dos guerreiros da Rainha Branca tinha vindo até ela.
—Os exércitos da Maldosa Rainha foram presos. Os fugitivos que simpatizavam com ela também. O exército da Bondosa Rainha Branca prevaleceu. Viva a Verdadeira Rainha! A guerra acabou!
Formou-se então uma comemoração do exército da Rainha Branca. Todos gritando feito loucos, exuberantes. Uma guerra de tantos anos finalmente finalizada! Como não podiam estar felizes?
Alice então perdeu-se em pensamentos. Há muito tempo achava que a guerra tinha começado quando ela chegou no País das Maravilhas, quando era uma criança. Mas agora já não pensava assim. Percebia que aquela guerra tinha começado desde que a Rainha pôs suas nádegas reais no trono real. E agora tudo tinha acabado.
Então uma gargalhada fria cortou o ar, e o som do metal atravessando carne zumbiu nos ouvidos de todos. Alice tentou se mover, mas estava paralisada no chão. Literalmente paralisada. Não conseguia mais se mover. Ninguém no Campo de batalha parecia capaz de fazê-lo.
Mas Alice então enxergou o que tinha acontecido, e viu a Rainha Branca ajoelhada no chão, uma adaga a lhe espetar a carne, introduzida por meio de uma brecha na armadura.
Não, não pode ser possível..., pensou Alice, o pesar e a dor roendo o seu interior.
Outra gargalhada ressoou no Campo de Batalha, dessa vez ainda mais fria e malévola. Alice já sabia quem era sua dona. A Rainha Vermelha.
A Maldosa Rainha do País das Maravilhas parecia ser a única, entre todos as pessoas ali presentes, capaz de se locomover e de falar. Ela caminhava por entre as pessoas que mais pareciam ser estátuas, gargalhando, sua podridão sendo exibida em seu belo rosto.
—Achou mesmo, minha cara irmã, que poderia me vencer? Achou mesmo que eu, a Verdadeira Rainha de Copas, poderia me deixar ser burra o suficiente para não me prevenir de sua vitória, e assim sendo, de minha derrota? Pois bem, minha doce irmãzinha, morra sabendo que fracassou. – O tom de voz da Rainha era cruel, fino e era dito em tom de escárnio. Sempre que ela utilizava esse tom com as pessoas, Alice sentia seu interior tremer de medo. Aquela voz era de dar arrepios.
A Rainha Branca gemeu, o sangue molhando sua armadura. Ela estava morrendo, disse Alice tinha certeza. E ninguém poderia fazer nada para impedir isso.
—Você não irá vencer, irmã. D-disso eu m-me asseguro... – Sussurou, gaguejando, a Rainha Branca, enquanto tentava puxar a adaga de peito esquerdo. A Rainha Vermelha apenas gargalhou friamente.
—Ora vamos, minha cara. Dê-se por derrotada! Há anos que luto por minha vitória, e isso eu consegui. Ninguém poderá me impedir de assumir um trono que já é meu por direito!
As nuvens tornaram-se mais espessas, mas o sangue parou de pingar. Uma tempestade parecia querer desabar. Uma tempestade de verdade.
Mais uma gargalhada. Mais outra sessão de arrepios.
Então, algo aconteceu. Uma canção dócil e meiga saiu dos lábios pálidos da Rainha Branca. Lentamente, as estátuas que eram os humanos puderam se mover levemente. Raízes saíram do chão, prendendo os pés da Rainha Vermelha. Essa, por sua vez, começou a gritar enquanto se tornava, lentamente, comida de raíz de árvore.
Alice sabia qual era aquela raíz de árvore em questão. Era A Raiz da Prisão, que servia de castigo àqueles que a Rainha Branca condenava. Ela te fincava ao chão, e depois de algum tempo, você lentamente ia virando madeira. Ninguém nunca tinha ouvido falar de um modo de reverter esse processo de “madeiramento”.
—NÃOOOO! AMALDIÇOADA SEJA VOCÊ, MINHA IRMÃ! QUE TODOS OS SEUS ANOS DE MORTE SEJAM CRUÉIS E TRISTES, E QUE TODO ESSE MARAVILHOSO MUNDO SOFRE NA PODRIDÃO E NA ESCURIDÃO.
Então ela, com sua única mão livre, pegou uma carta vermelha do bolso de suas vestes e jogou no chão:
—SOFRA, MUNDO, A MINHA MALDIÇÃO! O PÁIS DAS MARAVILHAS, POR TODA A ETERNIDADE, SERÁ OBRIGADO A FICAR NA MAIS COMPLETA DAS TREVAS. TODO O BRILHO SE ESVAIRÁ, E TODA A LUZ SE APAGARÁ. MONSTROS TERRÍVEIS RASTEJARÃO POR ESSE CHÃO; OS MORTOS CAMINHARÃO ENTRE OS VIVOS, E TODAS AS PRAGAS POSSÍVEIS SE ESPALHARÃO... E AQUELES QUE SOBREVIVEREM À TUDO ISSO, SERÃO INFELIZES! MORTALMENTE INFELIZES!
Alice queria faze-la parar, mas infelizmente ainda estava se soltando do chão. A Rainha Branca suspirou algumas palavras, mas nada fez para contradizer a irmã.
—Você pode ter me vencido, Rainha Branca, mas não acabou! NUNCA AC...BA...RRR... – Sua frase se perdeu enquanto seu rosto era transformado em madeira. As raízes lentamente se desprenderam do seu corpo, e voltaram ao subterrâneo.
Os guerreiros da Rainha Branca estavam suando frio, aterrorizados com as palavras amaldiçoadoras da Rainha Vermelha. Mesmo assim, caminharam na direção da Rainha, que estava agora deitada no chão com a adaga espetada na pele. Formou-se então um grande círculo, cada pessoa tentando falar algo para sua superior.
Então uma voz suave falou.
—Vocês ouviram, caros guerreiros e minha cara Alice, o que a minha não-tão-adorável-irmã disse.
Ninguém respondeu. Não era uma pergunta propriamente dita.
—Estamos amaldiçoados. – Disse Alice, para sua própria surpresa. Todos pareceram concordar, e a Rainha sorriu levemente.
—Sim, sim. Estamos amaldiçoados.
—Há algo que você possa fazer?
—Nós vamos morrer?
—E os nossos filhos?
—A Rainha Vermelha está morta?
As perguntas não paravam de jorrar sobre a Rainha Branca, que apenas assentia. Então, de repente, um berro fez-se ouvir dela.
—Eu tenho pouco tempo de vida e não poderei responder à todas as perguntas. Por isso, peço o silêncio e a atenção de vocês.
Todos se calaram, e ficaram escutando atentos.
—Vocês acabaram de ouvir, creio eu, minha adorável irmã recitar uma antiga maldição. Digo “antiga”, pois foram nossos ancestrais que a criaram, para um dia onde todo esse mundo estivesse perdido e fosse necessária a sua destruição.
O olhar da Rainha cruzou com o de Alice. A garota já tinha ouvido falar desse método na Terra. Diziam ser um botão nas máquinas, o qual você apertava e ela se auto-destruía. Sim, autodestruição. Era disso que a Rainha Vermelha estava falando.
—Sei que há uma lenda de que a Rainha Vermelha tem um Baralho Mágico, capaz de fazer coisas praticamente impossíveis. É verdade. Ela tirou todo o seu exército de lá. E lá, dentro dele, há uma carta, a Carta da Maldição.
O silêncio prosseguiu entre todos.
—Agora é tarde demais. Todo esse mundo está condenado a um castigo eterno. E respondendo a algumas perguntas, eu não posso fazer nada para reverter a situação. Não, não. Se vocês vão morrer? Oras, queridos... Posso ser a Rainha e saber mais do que todos sobre as maldições, mas eu não cheguei a ponto de virar vidente...
Alice soltou um sorrisinho enquanto os guerreiros da Rainha Branca quase caíam na gargalhada.
—Mas e a Rainha Vermelha... Morreu? – Soou uma voz no meio de todo o exército. Imediatamente a expressão da Rainha Branca endureceu. Ela suspirou, e só então falou.
—Não, longe disso. Ela só está aprisionada a uma maldição que, igual a todas as outras maldições, tem uma contramaldição.
Essa afirmação ficou no ar. Nem tudo estava perdido! Havia uma contramaldição para tudo, isso a Rainha Branca tinha deixado claro...
—E qual seria a contramaldição dessa a qual esse mundo foi submetido?
A Rainha suspirou novamente, dessa vez ruidosamente. O sangue já se espalhava por todo o gramado. Sua pele estava pálida, e seus olhos pareciam querer se fechar. Ela gaguejou algo inaudível.
—Como? – Perguntou Alice, correndo para o meio do círculo.
—N-não é possível s-saber. Desculpem-me, mas... – Então ela começou a tossir, seus olhos começaram a ficar leitosos. – Só a Rainha Vermelha s-sabe e...
Morta. A Rainha Branca tinha morrido.
Os guerreiros todos começaram a chorar. Lágrimas rolaram pelo rosto de Alice, que se limitou a abaixar a cabeça. Mas então algo aconteceu.
As nuvens, que estavam começando a ficar brancas, escureceram de uma hora para a outra. A chuva desabou sobre o chão, mas não uma chuva de água: uma chuva de água negra, pegajosa, pungente... Trevas.
Trevas começaram a cobrir cada uma das pessoas que ali estavam. Um grande buraco se abriu no meio do breu que era o céu, e uma gigante serpente negra deslizou do céu até o chão, exalando trevas.
Não, não pode ser... Está acontecendo... A maldição está começando...
Alice sentiu o corpo pender. Seus olhos se fecharam lentamente, e o ar não entrou mais por suas narinas. Seus pulmões começaram a se comprimir, e Alice gritou, gritou...
As trevas cobriam o corpo de Alice... Sim, sim. As trevas. A luz tinha se apagado. Agora só eram trevas...
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