Alice S Memories
17 Capítulo 16 O Sorriso do Gato
Notas iniciais
Voltou a caminhar pela floresta, até se deparar com um lugar mais aberto, onde poderia ver o céu, e se viu sob o céu iluminado pela lua escura a floresta era densa ao redor, emersa em um espesso nevoeiro, havia arvores por toda volta, e em meio as muitas, e em seus galhos patas com longas garras projetando-se para fora, para agarrar suas vitimas sendo elas inocentes ou não andavam sem fazer som algum, Alice parou de repente e olhou para trás e para frente repetidas vezes, quando sentiu uma sensação estranha como se tivesse mais do que apenas a companhia da floresta, seu coração começou a bater acelerado , ela avançou alguns passos por aquele lugar, como se procurar se distrair com qualquer coisa a fizesse esquecer tal sensação desagradável naquele momento, andou um pouco tempo até que em meio a escuridão vislumbrou um vulto imóvel entre as arvores pouco adiante, e se aproximando mais, percebeu que era uma outra casa, muito pequena, e como a anterior parecia em ruínas, as paredes cinza, mas que aparentemente deveriam ter sido vermelhas, estranhou esse fato, era a segunda casa que encontrava ali e que também estava abandonada, ao menos aparentemente e em questão de conservação, enquanto passava pelas proximidades da mesma ficou olhando a estrutura, um fraco e quase imperceptível cheiro de pimenta pairava no ar, esse era o segundo ponto mais estranho, algumas coisas ali pareciam ligadas a aromas, mas isso não tinha importância ao seu ver, com sua curiosidade aflorando novamente sentiu vontade de se aproximar e quem sabe espiar pela janela, mas quando o fez seu rosto empalideceu ao ver o que havia do lado de dentro, mesmo que estivesse escuro no interior da casa, percebia-se que a janela daquele cômodo pertencia a cozinha, louças quebradas e espalhadas sob a mesa e chão, talheres e panelas, cobertos de poeira, também jogados.
E ao fundo havia a silhueta alguém sentado em uma cadeira, tinha a cabeça caída para frente, a pele ressecada que de um tom de verde doentio, os ossos aparecendo sob seus pulsos e dedos, roupas velhas e rasgadas indicando que já estava ali há muito, um corpo apodrecendo, Alice recuou cobrindo a boca com as mãos enquanto sentia formar uma bola em seu estomago, andava para trás pensando em sair correndo dali, mas seu pavor foi sobrepujado por outro, quando de longe, um som sobrenatural ecoou na floresta provocando-lhe um arrepio na espinha, um pequeno estalido chamou sua atenção e pulou com a cor desaparecendo ainda mais de seu rosto, cerrou os punhos como se esperando algo, mas nada veio.
Colocou as mãos na cabeça.
—Alice, não! Você está voltando a ficar louca como antes, não, na verdade está ficando pior, mais louca ainda.—Dizia a si mesma quase em pânico, com medo de perder o controle de repente, afastou-se dando as costas para a construção, andando rápido, queria se afastar daquela casa e da visão horrível que havia vislumbrado em seu interior, e sem que percebesse, era observada.
Inicialmente sentiu alívio, durante horas ela tinha andado perdida em meio aquelas escuridão infinita de arvores, mas apenas de se ver longe daquela casa sentia-se melhor, estava distraída agora em sua caminhada, mas seu pequeno momento de paz não perdurou muito mais, quando um riso baixo e silvado se fez presente, ela parou de forma brusca, com medo de se mover no primeiro instante.
As listras quase negras ficavam escondidas dentro da escuridão envolvente proporcionada pelas folhas das arvores que ocultavam seu pelo brilhante.
Com cautela olhou por cima do ombro e a procura de onde havia vindo aquele riso hediondo que lhe fizera ter quase arrepio de medo.
Tudo voltara a ficar em silencio de novo, mas agora mais do que antes, acima podia ver o céu mascarado por nuvens cinza quase negras, ao menos aquela floresta não era tão fechada naquela parte, mas mesmo assim era escura, ou seria outra floresta? Nunca saberia.
Mesmo que a luz da lua pudesse penetrar ali, as nuvens jamais permitiriam que alcançasse o solo da floresta, realmente aquele lugar tinha uma paisagem macabra, assim como o riso que ela procurava agora a quem pertencia.
Era o gato e ele não queria dar-lhe o gosto de vê-lo tão rápido, normalmente preferia passar despercebido ante aos outros, dando-lhes a ilusão de invisibilidade, suas habilidades com os pés o faziam desaparecer rapidamente, que parecia desaparecer no ar, ele riu de novo, fazendo com que o coração de Alice quase saltasse pela boca, isso o fazia se sentir satisfeito, espreitar uma presa.
Então ele abaixou-se inclinando o corpo para frente, estava perto, tanto que se ele quisesse poderia ouvir seu coração assim como sua respiração nervosa, e ainda se escondia nas sombras quando seus olhos amarelos caiam sobre a figura dela, não era mais aquela pequena Alice, era diferente, tinha crescido obviamente, estava mais alta, embora ainda estivesse com o vestido azul, seus cabelos estavam mais longos, mas a fita estava lá também, riu de novo com isso, ele tinha imaginado que ela ainda usaria a fita, apesar das mudanças óbvias, o rosto era inconfundível, mas estava mais definido os olhos haviam mudado, aquele brilho havia se perdido dando lugar a uma sombra, mas ainda sim ficou surpreso de certa forma, ela havia mudado bastante. E ela alheia a este vigia não sabia mais onde procurar de onde vinha aquelas risadas estranhas, então parou embaixo de uma arvore, para o qual o gato a seguiu e foi silenciosamente deitando em um galho pouco acima dela, ainda escondido entre as sombras das arvores, ele lambeu os beiços. “O que ela diria?” ele se perguntava, quando se revelasse, “O que faria?”.
Ela não poderia saber o que havia acontecido ali há muito tempo, sim era verdade que ela estava crescida agora, o que indicava que os anos também havia transcorrido no mundo dela de alguma forma, embora ali a contagem de tempo fosse completamente diferente, ela não sabia disso pois havia ficado muito pouco, e também não havia se passado muito tempo realmente se não ela já estaria morta.
Ela bateu o pé irritada. –Maldição, que merda é essa?—Se perguntava impaciente, sem saber da presença do gato ali, ela não sabia, não se lembrava de nada, e mesmo que lembrasse, não poderia saber que tudo havia mudado, tudo o que tinha conhecido um dia, quase todos estavam mortos agora, que os corações mais inocentes foram os que se tornaram mais corrompidos, mais sombrios, porque seus donos eram os que sempre tiveram alguma sombra escondida por trás da loucura, mesmo que os próprios não soubessem disso naquele tempo, o país das maravilhas da sua infância não tinha mais o que chamar de maravilhoso.
Mas ela não sabia.
E somente aqueles, assim como o gato, que sempre tiveram um pouco mais de loucura e malicia haviam sobrevivido, então ele resolveu se fazer presente, com a pata agarrou um galho perto de si e o quebrou produzindo um está-lo, ela praticamente saltou com o susto, realmente foi pega de surpresa, seus olhos azuis procuraram nas arvores a origem dele.
—Mas que inferno...—Sussurrou para si mesma evidentemente com medo não conseguia controlar seu arsenal de palavra chulas da época do Rutledge, ele iria mostrar-se em breve, tinha de fazer isso, queria saber qual seria sua reação e que expressão se faria em sua face, o que faria depois? Ele não tinha certeza, poderia deixá-la viver? Ainda tinha que decidir.
—Olá?—Ela disse, na tentativa de obter alguma resposta, mas só houve silencio, andou um pouco, a nevoa se tornava mais densa aos poucos.—Olá!—Disse mais uma vez antes de sua voz perder-se em meio ao nevoeiro e ficar tudo quieto de novo.
Olá.—Foi a voz que veio em resposta de repente, ela parou de andar virando-se para direção que pensava ter vindo.—Quem está aí?
—Quem não está lá?—Ele respondeu, estranhamente a voz que pareceu familiar,ela especulou, parecia uma voz que havia permanecido pairando no fundo de sua memória há muitos anos, mas seus ouvidos podiam estar enganando-a. Pensamentos obscuros passavam pela mente dele enquanto a observava, até que sorriu,então Alice pode ver um sorriso, dentes pontiagudos apontaram iluminados na escuridão, era muito visível através da névoa, e ela finalmente soube de quem era aquele riso de antes, não precisava perguntar, algo estranho se apossou dela, talvez medo, mas não um medo que fazia ficar em alerta, que fazia o coração bater rápido preparando o corpo para fuga, um sentimento de medo desconhecido, que faz o corpo gelar e suas pernas fraquejaram, e acabou caindo com tudo de joelhos no chão, apoiou as mãos na terra, “O que era aquilo, medo? Por quê?” ela se perguntava em pensamento, levantou o olhar para de repente ver o que seria um gato deitado preguiçosamente sob o galho de uma arvore, Alice virou um pouco o rosto querendo disfarçar enquanto olhava de lado em direção ao felino, mas ele já parecia estar a espera dela, quando sorriu novamente fitando-a, e ela não pode deixar de olhar na direção do mesmo, encarando-o com espanto e a boca entre aberta.—“Esse sorriso.”—Pensou, quando o gato deixou apenas de sorrir para falar.
—Olá.—Disse o gato suavemente, e sorriu com prazer.—Você caminhou bastante?—Continuou ele quebrando silencio, sua voz parecia cheia de zombaria, mas soava intimidadora ao mesmo tempo, Alice teria ficado ali imóvel assim que ele falou, se não tivesse visto um coelho falar de horas e uma lagarta arrogante fumar, mas quem disse que isso importava, aquele sorriso a deixou com um medo aterrador momentos atrás e sobre a lagarta, ela não tinha tanta certeza se havia visto ou não, era bem provável que não.
—Bem, Olá.—Ela falou um pouco desconcertada e se levantando aos poucos quando sentia suas pernas voltarem ao normal.—Caminhei?—Repetiu depois mais em forma de pergunta.
—Você...Eu.—Começou a dizer passando as garras sob a madeira do galho, ele percebia o quanto o medo dela era forte, que quase podia sentir seu sabor.
—Você também..?—Proferiu somente.
—Isso depende—Falou apoiando a cabeça sobre as patas da frente.
—Depende o que?—Ela perguntou sem nem mesmo entender.
—De onde eu vim.—Completou calmo.
—E de onde veio? He...—Interrompeu-se levando a mão a testa, se perguntando o que estava fazendo agora.—Bom acho que isso não importa.—Falou em voz alta tentando se concentrar ao menos seu medo havia diminuído.
—O que importa?—O gato falava sorrindo novamente.
—Nada.—Respondeu secamente, ele sorria abertamente quando voltava a falar:—Você pretende me fazer uma pergunta?
De alguma forma aquela criatura pareceria ser a única a estar se divertindo ali, era lógico visto que deveria ser pelo fato dele estar em seu próprio lugar, ou a palavra certa seria território? Talvez não devesse se deixar abalar por coisa como essa, e engolindo seu orgulho disse:—Por favor me ajude...
Ao que ele respondeu:.—Porque? Claro, minha cara, em que você precisa de ajuda?
—Não é obvio?—Simplesmente disse exasperando, e ele sorriu.
—Eu estou perdida.
—Ah.—Suspirou o gato não parecendo nem um pouco comovido por sua situação.—Porque você se perdeu?
Que tipo de pergunta era aquela? Ele era estúpido, ou estava fazendo alguma brincadeira apenas para irritá-la e se divertir com isso maldito gato, não tinha nada melhor para fazer? Pensava apertando as unhas contra a palma das mãos em um gesto de auto controle.
—Como você se chama?—Tentou mudar de assunto, quando o via ajeitar-se preguiçosamente sobre o galho.
—E como é o seu nome?—Ele perguntou também sem responder a ela, agora sentia vontade estapeá-lo, mas ainda sim conseguiu manter-se calma.
—Alice, e você?
—“Alice”, como é interessante.—Refletiu.
—Só me diga, quem diabos é você?—Perguntou em um resmungo.
—Quem diabos sou eu?—Ele pareceu fingir-se de confuso, e ela acabou refazendo a pergunta e excluindo o “diabos”.
—Qual é o seu nome?—Tentava dizer calma e claramente para que ele entendesse.
—Eu???—Indagou apontando para si mesmo, como se fosse algo obvio.—Não se lembra de mim?—Alice negou maneando a cabeça, da forma mais paciente e educada que podia.
—Então quer saber o meu nome de novo...bem, eu tenho um grande, mas você pode ma chamar de Chessur.—Respondeu o gato, e Alice não demorou para concordar com um “Ok”.
—Mas se você saque quem eu sou, como sabe disso?—Ela resolveu se arriscar na pergunta.
—Quem não saberia quem é você?—A voz saiu suave novamente, mas carregada de algo estranho.— A-l-i-c-e?—Prosseguiu lentamente, mas dando ênfase em todas as letras do nome dela.—Já faz algum tempo não é?—Continuou, olhando-a com seu grande sorriso permanente.—Você não se lembra mesmo de mim?
—Me lembrar? De você? Seria difícil não me lembrar de um gato que sorri e muito menos que fala, acho que eu não esqueceria se tivesse visto isso alguma vez em minha vida sabe, nem mesmo em Rutledge.—Voltara a erguer a voz sem perceber, começando a falar coisas que nunca dizia a ninguém e se interrompeu.
—Não???—Aquela criatura parecia querer irritá-la com aquele modo lento e debochado de falar, Alice cruzou os braços virando o rosto para o lado, estava tentando não ficar nervosa de novo por algo como aquilo, suspirou e olhou para o gato novamente.
—Muito bem, acho não precisava dizer quem era nem como sabe quem sou eu, e quer saber nem me interessa mais.—Falou da forma mais calma que podia.
—Quem sou eu? Sou Chessur já disse isso a você, e você já se apresentou uma vez antes dessa, só que já faz algum tempo. —Ele ia se levantando e andando sobre o galho, e Alice pode ver suas garras longas atritando com a madeira, percebendo que sob elas e algumas partes daquela pelagem escura que lembrava mais um roxo sobre um cinza escuro quase preto, haviam manchas marrons e vermelhas escuro, que mais pareciam sangue, e os dentes afiados que formavam aquele sorriso horrível.
—Me lembro de alguém que sorria assim...—Ela acabara pensando alto enquanto estava olhando-o como se dissesse algo muito distante.
—Quem Alice?—Ele falou para ela, enquanto seu corpo começava a ficar transparente lentamente, ela saiu desse devaneio.
—...alguém que está desaparecendo...—Ela mal havia terminado de falar e o gato havia sumido completamente, não olhou em volta pensando ser besteira já que havia desaparecido bem diante de seus olhos e quando ousou dar um passo ela viu ele reaparecer no alto de outro galho pouco a frente, ele pulou da arvore ainda nas sombras, em outro galho bem a frente dela e levantou a cabeça com a parte da frente do corpo abaixada como se fosse saltar novamente e olhava para a garota, realmente não seria um animal normal nem de longe pensava agora, era maior do que qualquer gato que já havia visto, teria facilmente o tamanho de um felino de tamanho médio como um puma, mas aquele evidentemente era um gato em todas as suas feições embora com um aspecto mais distorcido e medonho.
—Sabia que você está atrasada?
—Acho que sim um coelho falou algo sobre isso.—Respondeu pensativa olhando para alguma coisa qualquer.
—Por quer voltou somente agora?—Ele falou alisando a própria calda.
—O que quer dizer, com somente agora?—Perguntou, ignorando o fato do “voltou”.
—Porque me pergunta?—Ele respondeu a ela com outra pergunta, ela fez uma cara de desgosto sentindo vontade de dizer algo desagradável, mas não disse, era melhor assim.
—Por nada.
—Errado.—Ele disse inclinando a cabeça para o lado em um gesto simples, aparentemente aquela “conversa” nunca chegaria a lugar algum.
—Há mais alguém por aqui?—Tentava ser educada mais uma vez, fazendo uma pausa.—Outras pessoas?
—Bem...bem...—O gato começou novamente.—Há sim mas...—Fazia uma pausa como ela, enquanto fazia sua própria análise, olhando para a menina que parecia ter alívio nos olhos quando ele falava.—Eles não são exatamente normais...e não completamente insanos também, mas...
E parava de falar somente para ver a expressão dela mais uma vez, o alivio se esvaia a cada apalavra assim como a curiosidade e desagrado aumentavam, “Sempre curiosa Alice, sempre, sempre...” Pensava ostentando o sorriso, quando também percebia confusão naquela mente perturbada.
—O que estou tentando dizer é que, os outros.—Se interrompia novamente.—...não são o que eram antes.
—Não entendo bem o que quer dizer...Chessur.—Ela disse lentamente, pronunciando o nome dele numa tentaiva de obter algo mais.
—Você pode dizer que não entende.—Sorria.—Aqueles que não estão mortos, ou a serviço do governante, estão definitivamente...loucos.
Logo que terminava de falar ele desaparecia de novo e pegadas começaram a fazerem-se sozinhas no chão e ela acompanhou-as até dentro da floresta onde haviam duas trilhas muito mal cuidadas e as arvores debruçavam-se sobre as mesmas, quando olhou para cima de uma arvore onde as pegadas terminavam viu o gato novamente.
—Você!—Proferiu de forma seca.
—Eu?—Indagava ele novamente sentando sobre as patas traseiras, levantou a pata suja e a lambeu lentamente, o tempo todo olhando para ela.
—Ok, tudo bem, não tem importância.—Começou ela novamente em mais uma tentativa, ter alguém ali era melhor do que nada, apesar de isso parecer não levar a lugar algum.—Chessur, você pode me ajudar?
—Errado de novo!—Disse ele alegremente.
—O que?—Apenas resmungou olhando-o.
—Não é uma questão de saber se que posso, mas se eu vou.
—Então, você vai me ajudar?—Alice disse por entre dentes.
—Claro que sim.—Respondeu ele com entusiasmo, ela parecia pensativa, se lembrando de onde estava.
—Chessur.—Resolveu começar mesmo assim.
—O que você quer?
—Este lugar .—Continuou.—Onde exatamente é “aqui”, que lugar é este?
—Aqui é aqui, e penso que você tenha visto seu nome quando atravessou o portão.—Disse friamente, fazendo com que todo aquele entusiasmo de antes nem parecesse ter existido, e fazia isso lambendo e passando a pata atrás da orelha algumas vezes.
—Wonderland?—Supôs recordando do único nome escrito sobre aquele velho portão de ferro.—Parece mesmo que eu já estive aqui?—Ela não sabia bem que palavras escolher, o gato apenas balançou a cabeça em um sim silencioso.
—Mas eu não me lembro de ter estado aqui uma vez sequer.—Voltava a ficar pensativa.“Talvez algo tenha mudado para que eu não me lembre”, era o que vinha a sua mente no momento.—Chessur.—Chamou mais um vez.—Aconteceu alguma coisa aqui?
—Oh, aqui.—Começou ele.—...é realmente incomodo falar disso.
—Te incomoda?—Aquilo não estava ajudando só a fazia ficar confusa novamente, mas tinha de continuar insistindo mesmo que fosse apenas mais loucura.—E porque?
—Este lugar mudou, tudo aqui mudou.—Cheshire dizia lentamente, e ela queria perguntar o que exatamente havia mudado ali, mas não saberia definir essa diferença por não ter nenhuma lembrança daquele lugar, talvez não valesse a penas saber ainda.
—Bem, então eu poderia perguntar outra coisa?—Propôs e ele fez um sinal com a pata para que ela continuasse.
—Sabe qual caminho devo tomar para sair daqui?
—Hm isso de novo, você não deveria ter tanta certeza sobre sua segurança a ponto de fazer a mesma pergunta em tempos diferentes. —Ele falou coçando o queixo e olhando para cima.
—Por favor, preciso que me diga se souber. —Insistia ignorando o comentário dele.
—Favores, no momento não estou oferecendo favores...hm já estava me esquecendo de dizer: Coisas realmente ruins acontecem aqui.—Informou ele.—Sim, você vai ver isso.—Dizia entre dentes, Alice olhava para aquele animal de forma desconfiada, era muito estranho, cheio de deboche e ainda sim assustador, ela não disse nada, parecia que no fim de frases desse tipo era melhor ficar quieta.
—Mas, pois bem então, é você quem está perguntando, só não se arrependa depois...—Dizia de repente.—Mas só que isso também depende de para onde você deseja ir dessa vez.—Completou se lembrando de ter dito aquilo já uma vez.
—Eu queria sair dessa floresta, não importa o caminho ou quanto tempo leve, não importa.—Falou em quase suplicio.
—Oh... que descuido, de fato você não sabe nada sobre esta terra alterada, e se esqueceu de todos os caminhos, e mesmo assim pedi para ir a qualquer caminho.—Dizia ele ainda olhando para cima, até baixar aqueles intimidadores olhos amarelos para ela novamente.—Como quiser, se não importa, como antes.—Ele se recostou aconchegando-se no tronco, enquanto movia lentamente a cauda.—Então também não se importa com qual caminho tomar e o que encontrar no fim de cada um não?
—É eu me esqueci de muitas coisas...mas não tem importância...só quero um caminho para seguir—Ela disse com desdém, mas depois pensando um pouco.—Espera, mas quero que um desses caminhos de em algum lugar em todo caso.
—Claro, claro isso com certeza, só não sei, se gostara dos destinos aos quais eles levam, não são muitos os que restaram que ainda tem a mente um pouco sã.—Ele disse.—Os habitantes daqui tem sido tomados por algo nesses tempos, mas isso não importa não é mesmo? Você mesma disse isso certo? Então eu também direi novamente.—Ele se sentou e apontou com a pata direita para uma direção.—Naquela direção fica a casa do Chapeleiro.—E com a pata esquerda da mesma forma apontando para a direção oposta a outra.—E naquela direção fica a Lebre de Março.—Os olhos do felino pareciam quase reluzir nas sombras do floreta enquanto seu sorriso passava uma aura de insanidade e malicia que Alice não percebia conscientemente, os dentes afiados se sobressaíam quando ele continuava o que dizia.—Mas como você disse que não importa, vá visite qualquer um deles que queira, porque ambos são loucos.—Falou como se tivesse dando de ombros e ia se debruçando no galho da arvore.
—Loucos? Mas eu não quero ver mais gente louca, já vi por tempo suficiente.—Retrucou.
—Impossível.—Ele disse arranhando o galho e olhando rapidamente para ela.
—Impossível?—Repetiu sem entender, mas temendo o que ouviria.
—Você não tem saída.—Fez uma pausa para bocejar e voltar a sorrir como sempre, se posicionou no galho como um animal pronto a dar o bote enquanto seus olhos amarelos e brilhantes fixavam-se em Alice, ela instintivamente recuou, mas ele não se mexeu e continuou a falar.—Nós todos aqui somos loucos, eu sou louco, você é louca.
—Você não tem direito de dizer isso...Ela rebateu entre dentes.—... mesmo que seja verdade, como você saberia?—Ela ainda perguntava ríspida, como se estivesse na defensiva esperando algo, pensando se ele fosse saltar pra cima dela para atacar, como um gato comum seria para lhe arranhar como Dinah algumas vezes já fizera quando estava brava e ela insistia em pega-la, mas ele não era um gato comum, fugia de todos os padrões normais, e jamais poderia compará-lo com Dinah.
—Deve ser, ou então não teria voltado para cá. —Afirmou o gato e ele começou a desaparecer devagar novamente, e desta vez bem lentamente, começando pelo final da calda e terminando pelo sorriso, que permaneceu ali onde ele estava por algum tempo depois do resto ter desparecido, ela ainda ficou olhando caso ele reaparecesse, isso não aconteceu, mas ela não esqueceria aquela criatura tão fácil com seu sorriso eterno e enlouquecedor.
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