Alice
1 Capítulo único
Notas iniciais
– Alice, eu vou repetir a pergunta mais uma vez. Por que você fez isso com a enfermeira? – O médico com óculos de armação redonda, a encarava com uma expressão agonizante.
Tesoura, porta, corredor, enfermeira, espanto, tesoura, olho, gritos, sangue. As coisas martelavam a cabeça de Alice. Um gato. Seria coisa de sua cabeça? Ele possuía um olhar diabólico. ‘’Mate-a, mate-a, perfure seus olhos’’. Alice nunca soube que gatos poderiam falar. ‘’Me de uma gota do seu sangue, Alice, vamos fechar o contrato’’. E Alice furou o próprio dedo com a tesoura, o gato lambeu a gota de sangue. ‘’ Que maravilha, sinta a real insanidade, minha cara Alice’’. E Alice sentiu.
Perfurar olhos de outra pessoa pode ser desagradável. ‘’Que droga, isso suja o meu lindo vestido azul.’’ Alice pensou. ‘’Azul e vermelho pode ser uma combinação bonita, então vamos continuar sujando’’. O segundo olho se foi. Gritos. Eram gritos que ecoavam na mente dela, e pelo corredor inteiro.
– Por que há tanto barulho? – Alice sussurrou
– Faça-os parar – o Gato sorriu
Alice cortou a língua da enfermeira. Mais gritaria, só que de outras pessoas. Seguraram-na pelos braços. Arrastaram-na até uma cadeira de rodas. Por mais que se contorcesse, eles a apertavam mais. Alice desistiu. E foi imobilizada por fivelas na cadeira.
– Meu Deus, por quê?! – A irmã da enfermeira gritava na poça de sangue.
– Me desculpe – Alice sorriu.
E agora o médico gritava com ela.
– Por que, Alice?!
Ela saiu do devaneio depois do tapa que marcou seu rosto.
– Não vê que tenho pressa? O que você fez? Não há explicação, meu Deus! Você não tem mais jeito! Podem levá-la! – o médico ordenou os enfermeiros.
– Uma ajuda? – O gato perguntou. Só Alice podia ouvi-lo. Ela concordou. As fivelas em suas mãos se afrouxaram e ela se levantou.
Os dois enfermeiros gritavam de horror, como se algo os assombrasse, mas não havia nada. O Médico não sabia o que era aquilo. Tirou seu relógio de bolso do casaco e olhou. Meu Deus! Estava atrasado.
– Você só se preocupa com a hora, senhor Doutor? – Alice perguntou.
O médico tropeçou no tapete e caiu deitado no chão enquanto Alice se aproximava.
– Você é louca! – Ele gritou
– Nós somos todos loucos aqui – Alice sorriu e o gigante relógio de madeira e ferro despencou da parede esmagando a cabeça do médico.
– Bom trabalho minha cara – o gato sorriu – Isso vai te dar poder – um frasco com líquido vermelho apareceu na mesa do doutor. ‘’ Beba-me’’ estava escrito. Alice bebeu.
Sangue. Amargo. Mas bebeu até o fim.
– A diretora do hospital vai vir atrás de nós – Ela falou
–Você não será encontrada. Quem se colocar no seu caminho não importa, irei resolver o problema. Eu cuidarei da sujeira. – o gato falou – Pegue a chave no bolso do médico.
Alice agachou, sujando suas meias de sangue. Seus joelhos já estavam ralados. Pegou a chave da saída da clínica.
– Estava tão atrasado... Por que não saiu mais cedo, Doutor? – Alice arrancou o relógio da mão dele para saber quanto tempo tinham.
As próximas horas passaram rapidamente, com muito sangue, pessoas implorando misericórdia. Estava com a tesoura em uma mão e o relógio em outra. O gato trazia os maiores medos das pessoas e Alice só terminava o trabalho, rasgando as gargantas que soltavam os gritos mais estranhos que já ouviu na vida.
– Prendam-na! Se necessário, vocês tem a minha autorização para matá-la. – A diretora, com seu vestido preto, falou no fim do corredor, enfurecida.
Seus ‘’guardas’’ correram na direção de Alice. Mas nenhum deles contava com o elemento surpresa. Os seus próprios medos. Causados pelo gato.
– Eu cuido da diretora – Alice falou com raiva. A pessoa que aprisionou todos aqui. Que causava sofrimento. Todos aqueles choques. Gritarias. Remédios. Remédios. Injeções. Remédios.
Não sabia de onde vinha aquela força. Mas Alice a usou. Derrubou a diretora. E montou nela.
– Tchau – Alice sorriu
Dessa vez não usou as tesouras. Alice perfurou o pescoço da diretora com as próprias unhas. E só largou quando os sons de agonia pararam.
– Estamos perto da saída – o Gato falou.
Seguiram por mais dois corredores e chegaram até a grande porta de saída. Ninguém veio impedi-los.
– Matamos todos eles? – Alice perguntou
– Sinceramente, eu não sei. Agora você tem que vir comigo. – o Gato falou.
– Só se libertar os pacientes – ela exigiu.
O gato concordou impaciente. E destrancou todas as portas dos quartos dos pacientes com problemas mentais.
– Pronto.
– Como posso ter certeza? – Alice perguntou
– Apenas tenha.
Alice usou a chave para abrir a porta. E os dois desceram as escadas da entrada, indo até a rua de paralelepípedos. O sol estava sumindo no horizonte. O chão se abriu revelando uma decida, para algum tipo de ambiente quente. O cheiro de enxofre chegou a incomodar. Alice podia perceber que havia labaredas de fogo. O gato começou a descer.
– Estamos indo para onde? – Alice questiona.
– Ao meu país das maravilhas – respondeu.
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