Alice
1 "Eu faço o meu destino!"
Notas iniciais
É meio infantilidade achar que tudo irá acontecer do jeito que você quer, quando você quer e da maneira que você quer. Claro, quando éramos crianças nossos pais faziam tudo para nós, mas às vezes faziam coisas para o nosso bem. Por exemplo, você pode estar numa brincadeira incrível, quase matando o terrível dragão e salvando a princesa, e sua mãe te obrigada a largar o brinquedo e ir tomar banho. Ou quando você está com os pés descalços e é obrigado a colocar o sapato. Claro que quando crescemos, descobrimos o porquê das ordens. Você deve tomar banho, para ficar limpo ou você deve colocar o sapato para não pegar um resfriado e ficar doente. Mas no meu caso, pelo menos nesta parte da minha vida, eu não vejo o porquê de me mandar para um internato em Manhattan.
Meus pais disseram que é para o meu bem, que lá vão cuidar bem de mim, enquanto eles resolvem os problemas por aqui. Internato Mirabili, que nome mais gozado. Pior seria o seu significado: País das Maravilhas em latim. Como se ficar morar em uma escola fosse realmente uma maravilha.
Eu estava em casa, assistindo TV, provavelmente pensando em alguma coisa mais interessante para fazer. Quando eles entraram em casa, com umas sacolas.
–Alice!- disse minha mãe – Compramos isto para você. – Então abri uma das sacolas, e dentro de uma caixa estava um celular. Todos na cidade já tinham um celular, pode ser dos mais simples, mas tinham. Eu era a única entre minhas colegas que não possuía o mesmo. Então eles decidiram comprar. E não economizaram, compraram logo o mais caro, o mais inovado.
–Meu Deus! Eu não sei nem o que dizer, obrigada. Era realmente o que eu queria!- Eu os abracei, nem imaginando a bomba que viria depois.
Ficamos a tarde toda vendo as funções do meu novo celular. Comemos pane tone, que eles também trouxeram, e bebemos suco de uva.
–Obrigada! Mal vejo à hora de ir para a escola e mostrar para as meninas! – eu disse com uma empolgação.
–Alice, infelizmente você não vai poder fazer isso. – meu pai disse, e então veio a bomba. Eu perguntei o por quê. –Sinto muito, mas inscrevemos você num internato.
E foi assim que agora estou aqui, encolhida no trem, enquanto o resto das pessoas acena para os acompanhantes. Eu poderia acenar para meus pais? Poderia. Mas eu não quero. Eu não posso. Como eles podem me abandonar desta maneira? Querendo decidir tudo por mim, querendo me controlar. Mas não. Não vou aceitar isto. Pensei em fugir ontem a noite, mas desisti. Não sei o porquê ao certo, mas tudo bem. O trem começa a andar, e eu me recosto na minha poltrona. Me em cubro com uma pequena manta e tento dormir, pois não dormi nada na noite anterior.
Algumas horas depois, a moça anuncia que já chegamos a Manhattan, e que devemos arrumar nossas bagagens. Junto tudo em minha pequena mochila e desço do trem. Procuro o nome do internato em algum lugar e quando finalmente acho, entro em uma fila onde há várias meninas da minha idade super empolgadas. Queria eu poder ter essa animação toda.
♦
Assim que chego ao internato, me encaminham a direção. Caminho por um longo corredor repleto de fotos das grandes conquistas do internato. Então, me deparo com uma porta enorme, com uma placa escrita “direção” com letras bem cursivas. Bato na porta e logo recebo como resposta um “pode entrar.” Abro a porta delicadamente, e entro na sala. Ela é realmente enorme. Suas paredes são todas preenchidas por enormes prateleiras de livros. Seus pisos são da cor laranja, como o por do sol. Ainda mais, ela tem cheiro de caramelo, meu doce preferido.
–Você deve ser a Alice!- Uma mulher, não muito jovem e nem muito velha, me recebe com um abraço. – Muito prazer, sou a diretora. Chamo-me Sra. Collins. Sente-se. — Eu a obedeço sem excitar.
Sento-me em uma cadeira macia, com algumas almofadas vermelhas, combinando com o macio tapete por onde eu piso, com um pouco de dó. O cheiro de caramelo vem devido ao aroma de algumas flores na mesa da Sra. Collins. Nunca tinha visto este tipo de flor em casa, ou em lugar algum.
–Fez uma boa viajem? – diz ela, me acordando dos meus pensamentos. Confirmo rapidamente com a cabeça. – Sei que você deve estar chateada de ter sido mandada pra cá, mas quero que saiba que faremos o possível para você se sentir em casa.
–Pode ser meio difícil. Tenho uma personalidade forte. – digo.
–Nada é impossível!- ela sorri e eu retribuo. – Gostaria de uma xícara de chá?
–Tudo bem. – respondo. Um chá agora iria muito bem, não estou acostumada com este frio.
Ela se levanta de sua cadeira, que pelo o que percebi é meio curvada, com seus apoios todos enrolados. Ela acompanha o piso laranja até um criado mudo, onde uma linda chaleira está posicionada. Ela coloca alguns cubos de açúcar na xícara, enquanto fala algo sobre o internato. Quando me entrega a xícara, eu praticamente não consigo mais ouvir nenhuma palavra de sua boca. Fico tão impressionada com o gosto do chá que tenho de parar a conversa para perguntar qual é o sabor.
–É uma erva que cultivamos na horta do internato, ao norte. – Ela aponta pela janela para um distante moinho de vento, onde acho que fica a tal horta.
Termino de beber o chá até saber a localização de meu quarto, que fica poucos metros da biblioteca. Ela me entrega um papel e explica o caminho que eu devo seguir, agradeço e sem mais cerimônias saio à procura de meu quarto.
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