De fato, para ela, a vida era uma droga só.

Seus pais morreram, Alexander, seu marido, morrera, e de uns tempos para cá, ela viera pensando em como era ela morrer. Mesmo com o by InstantSavings\">dinheiro dele, sua vida não passava de um chiqueiro mais moderno. Em sua concepção, ao morrer, não importava como, o espírito ia para algum lugar (que lugar era esse ela pouco se importava), mas antes visitava quem ama mais que tudo. Desfrutava momentos com ele ou ela. E então, ficava com o ente querido ou ia para qualquer outro lugar. Simples, não?

Alice desejava mais que tudo reencontrar Alexander. Em qualquer lugar. Na porcaria do inferno! Qualquer lugar.

E por isso, mesmo que distraidamente, em festas importantes que só seu marido corretor ia, e que agora ela frequentava, em homenagem a ele, Alice pensava em todas as formas de se matar possíveis. Estrangulando-se. Esfaqueando-se. Cortando os pulsos, e por ai vai. E para os mais exaltados e para lá de depressivos, um tiro na cabeça, para espalhar bastante sangue e deixar todos boquiabertos. Nossa, vejam só como Alice morreu. Dando um tiro na cabeça, depois se estrangulando, depois cortando os pulsos, depois, depois, depois... Em sua concepção, Alice sorria ao ver suas tantas mortes. Queria realizar todas. Às vezes já se perguntara se estava tão fissurada no ato do suicídio quanto em reencontrar Alexander, e...

– Senhora, está bem? – perguntou um homem, o garçom da festa chique, vestido como um garçom deve se vestir. Quem ousa intrometer-se em nosso mundo?! Rugiu Alice na sua cabeça.

- Sim, por quê? – perguntou ela, erguendo o rosto maquiado docemente.

O garçom aparentava estar preocupado. Sua tez lembrava a de um filme, um desenho maluco em que o personagem fazia uma cara estranha do banheiro, possivelmente...

- Desculpe, madame, mas a senhora estava sorrindo de forma estranha e falando qualquer coisa, com um olhar hipnotizado e tal... Foi aquela senhorita ali que pediu para perguntar.

Seguindo o dedo do garçom, Alice viu Rita, a secretária de Alexander, acenar displicentemente, sorrindo.

Uma lembrança estava aflorando em sua mente, ela não gostava dela, mas seu cérebro insistia. Era uma lembrança de ela mesma indo para o escritório do marido, e, quando abriu a porta, Rita estava se beijando com Alexander, os dois parecendo curtir muito. Até que eles perceberam a chegada dela e sorriram, como se a convidasse. Depois disso, ela fora embora e nunca mais se falou nisso, mesmo quando, logo depois, Alexander chegou.

Não podia ter essa lembrança. No final, ela mesma se perguntara se foi um sonho. Foi, não foi? Alice amava Alexander. Era um casal perfeito. Ora, vão todos à...

E com um lampejo em sua cabeça, ela tomou a decisão, iria embora hoje mesmo, iria fazer a maior algazarra. Um calor aflorou de sua barriga, a sensação de que no final tudo ia sair bem. E, além do mais, aquilo fora demais para ela, aquela desgraçada da Rita ainda me dá um aceno. Meu Deus, como estou cansada! Ela iria tomar satisfações com Alexander, sua vida, seu casamento, a esposa perfeita. Não mais. Alexander iria ser só seu!

- Tudo bem, obrigado, rapaz, muito mesmo. Eu já vou.

Com isso, se levantou, quase derrubando a bandeja com vários copos de uísque do garçom. Todos olhavam para ela. Alice sentia os pensamentos indo até ela seguido de uma raiva abrasadora feita por ela mesma.

Ah, coitadinha, já corna e viúva. Pelo menos a solidão que vai ter depois vai estragar os chifres. E risadas.

Esperta, hein? Matar o marido e depois pegar o dinheiro? Ah, se eu fosse mulher teria feito a mesma coisa. E mais risadas. Uísque, risadas, uísque, risadas.

Combinação perfeita, hein, marujo?Uísque e risada, pensou ela e deu um sorriso de escárnio. Um sorriso de determinação. Enfim, matar-se.

Rita não parecia ter nenhum remorso por Alexander. Apenas mais um para roubar. E assim Alice deixou tudo para sempre. Quem era Rita? Que droga é alta sociedade de um país?

E saiu para o vento frio da noite.


A banheira borbulhava na temperatura mais alta. Alice observava a banheira aconchegante, fumegante, ótima para morrer. Ela olhava, fascinada.

Estava nua, devido ao frio, seus braços engelhados. Sua pele branca esperando, quase pedindo seu próprio sangue, que ele escorra lentamente no corpo, como um verdadeiro elixir.

Em seu banheiro bonito, com banheira num box, e chuveiro em outro. Leves pijamas de seda aguardavam no quarto em que dormia com seu amor. Apesar de não ter vontade inicialmente, achou que devia uma satisfação a todos com quem convivia, por que a bela e séria, esposa perfeita, Alice, se matou? Ela escrevera num guardanapo os seguintes dizeres que justificavam seu ato:

“Fui me encontrar com Alexander. Visita rápida, talvez. Não sei para onde vou depois, mas espero me encontrar com ele e quem sabe, com meus pais. Eu quero que quem herde o escritório, já que quem era a herdeira era eu, a mãe de Alexander, Vera, receberá tudo. Por favor, que ela desfrute como quiser. A minha única exigência é a demissão da secretária de Alexander, Rita Skrey, por motivos que só eu, meu marido e ela sabemos. Não há nada mais que eu deseje ser esposa dele no outro mundo. E se não existir nada, quero ele em qualquer droga de lugar que for”.

Alice já segurava a gilete, pronta para tudo. Sua idéia para a morte perfeita era a mais pura possível, simples assim.

Respirou determinada. Sua vida nova estava a um... Digamos, a uma morte de distância. Deveria pensar em Alexander e por um instante, um instante insignificante, ela pensou em desistir. Mas não, não agora, pronta.

Mais uma vez, respirou fundo. Agora.

Ocorreu quase em câmera lenta. Com a mão, ela descreveu um meio círculo antes de atingir, com as mãos trêmulas, o pulso direito. Pelo tato, mesmo segurando a gilete, ela sentiu o pulsar quase religioso, novo e cheio de vida. Foi quando fechou os olhos e fez o movimento que acarretou um grito agudo naquela mansão vazia. Lá fora, gatos vira-latas levantaram as cabeças espertas para aquele enorme urro de dor na janela da casa grande.

O sangue começou a escorrer, grosso e muito vermelho. Salpicou sua mão inteira, melou o piso ladrilhado e brilhante. Um sangue no meio da riqueza. Sempre fora assim que ela imaginara o patrimônio do marido, um sangue no meio da riqueza. Não tinha dúvidas que a riqueza com o emprego de corretor fora roubando, talvez matando para manter a boca de certos intrometidos fechada. E aquilo era um bom exemplo.

Oh, meu Deus, minha cabeça está dando voltas.

Mas a dor logo foi substituída por algo estranho. Uma sensação de prazer, como uma anestesia. Uma droga muito poderosa que a fizesse sentir prazer em se machucar.

Alice suspirou, sorrindo. Agora, o pulso esquerdo. Dessa vez foi fácil. O sangue brotou da mesma forma, quente e bastante vermelho. Pelo lado bom, não era um sangue anêmico, não que isso importasse em algo, porque se fosse, teria acabado da mesma forma: sem ninguém para fazer parte.

Cambaleando, Alice seguiu para a banheira fumegante. Como se fosse uma piscina muito gelada, ela pulou, pouco se importando se espalharia água pelo banheiro enorme.


De fato, a banheira estava fervendo, de fazer queimar a pele. Literalmente.

Agora, não era um grito de prazer, mas de dor pura, na forma mais terrível. Sentia sua pele sendo queimada sem piedade, pulverizada, a pele vermelha, os gritos de dor eram incessantes, mas ela tinha que ficar ali, queimando, o rosto começando a ser deformado, passando de vermelho leve para um vermelho de queimadura, piorando rapidamente para cada grau.

Pareceu uma eternidade, mas a dor finalmente passou, veio aquele fogo maravilhoso, e Alice começou a rir. Rir histérica e incessantemente.

Agora era só esperar, o pulso sangraria, estava queimada graças à banheira.

A água ainda estava quente, mas sua temperatura diminuíra um pouco. Deu para ela aquietar-se e esperar, silenciosa.

Alice pensou em tudo que ocorrera em sua vida. As amigas que traiu, com seus namorados, por pura futilidade. O que já deixara passar por amor a Alexander, e, acima de tudo, sua lembrança do cesto, aquela ela se lembraria para sempre.

Foi no dia em que Alexander morrera. Era de noite. Preparavam-se para uma festa beneficente, em que seu marido seria a estrela da noite, já que ele mandara construir um loteamento para as pessoas pobres.

Ele estava no banheiro tomando banho, enquanto ela já estava pronta, usando um vestido de gala negro.

Decidiu pegar algo para comer na cozinha, algo que matasse a fome um pouco para a festa. Quando desceu, ela pegou um biscoito, talvez. Mas antes olhou para o cesto de roupas sujas, que ficava num quarto anexado a cozinha, que em geral ficava de porta aberta. Alexander atirara a camisa de botão branca logo quando voltara do trabalho, e uma mancha vermelha atraíra o olhar dela, uma coisa muito estranha.

Encaminhou-se para lá, e pegou a camisa suada, um formato perfeito de lábios com batom vermelho, na gola da camisa. Ela começou a chorar. Então Rita ainda continuava com ele! Desde a primeira vez que ela os flagrara, Alice pensava que eles tinham parado. Não! Meu Deus!

Com raiva, ela jogou a camisa, mas quando esta bateu no cesto, um barulho de papel, no bolso da camisa do marido.

Furiosa, ela avançou para o bolso e viu que era um papel todo dobrado. Alice o desdobrou e leu o bilhete com um garrancho terrível:

“Oi, Alexander. Te amo, querido, tu enganou tua esposa direitinho, ou ela também não se queixou, não é? Passiva, ou gosta da galha, certo?! Em breve você vai botar ela para fora da sua casa, & enfim nos casaremos, hein? Eu só quero dizer que quero ter tu só pra mim, & então a gente será livre. Amanhã ficarei até mais tarde, ok? Gosto muito de você, viu? Beijos, eu te aguardo”.

“Rita Skrey, seu amor”.

Quando terminou de ler o bilhete, seus olhos brilhavam de fúria. O que mais lhe irritou foi o fato de Alexander se engraçar e ainda dizer que amava ela, uma maldita filha-da-puta que ainda escreve errado!

De repente, um clique no seu cérebro, sabia que não ficaria assim. Sua vida não devia ser assim. Ela chorou por muito tempo, ali, ajoelhada ao lado do cesto, até recuperar o controle. Seus olhos não brilhavam só de raiva, eram olhos desvairados, de loucura.

Agarrou os cabelos e os arrancou, seu coque, penteado da moda, desmanchou-se completamente. Sentia-se um trapo. Traída, humilhada.

Resmungando, louca, foi para a cozinha, e tateou, apressada, derrubando todas as gavetas, todas as comidas. Achou uma gaveta com facas e tirou a maior, um verdadeiro cutelo. Virou a cabeça para o lado e disse para ninguém, o cabelo desgrenhado escondendo o rosto sombrio:

- Eu sei, vou matá-lo, não se preocupe.

Ouviu passos nas escadas, e quando virou-se, Alexander, só de toalha e molhado, descia as escadas.

- O que é, Alice? Caramba, que droga é essa aqui? Anda, estou apressado!

Lentamente, ela virou o rosto, a cara uma máscara de ódio. Ela urrou:

- SEU PORCO TRAIDOR, VOCÊ ME TRAIU COM AQUELA PORCARIA DE SECRETÁRIA, VOCÊ...

Alexander parou um momento depois suspirou, entendendo tudo.

- Não, eu...

- Ahhhhhhh!

Com um grito, Alice atirou o cutelo em Alexander, e pego de surpresa, ele ficou parado, e a faca atingiu em cheio sua cabeça, como se lá tivesse um ímã que a atraísse.

Alexander caiu pesadamente, e fez um barulho oco no chão. Não se mexeu mais, Alice começou a rir histericamente. Por fim, perdeu as forças e caiu também.

Aos poucos, foi recobrando a sanidade. Olhou ao redor alarmada. Meu Deus, o que eu fiz! Olhou, assustada, para todo os alimentos espalhados, os talheres, as gavetas derrubadas, e finalmente, para o corpo seminu do seu marido no chão. O cutelo estava cravado na testa, com o sangue escorrendo.

Alice se levantou repentinamente, e foi guardar tudo aquilo. Na mente, um só pensamento: Jesus, não posso ir presa, não posso. E se descobrirem?

Mas quando começou a arrumar, pensou melhor: A polícia vai pensar que foi um roubo deixando tudo espalhado, não vou arrumar, só limpar toda a cozinha, o corpo dele, a faca,o cesto, tudo das minhas digitais, já que toquei.

Foi um trabalho árduo, em que ela usou uma técnica que ela vira nos filmes e seriados. Ela expandiu todo o trabalho, de modo que a casa ficou (queria acreditar ela) totalmente limpa.

Mas algo parecia errado. Qualquer idiota perceberia que fora ela, até pela sua cara, e ela seria presa. Triste fim para uma triste pessoa, hein?

De repente, uma dor se alastrou pela sua cabeça. Era repentina e atroz, se instalando em uma parte ínfima, e depois se expandindo pelo seu corpo. Era como se Deus a castigasse, o Diabo, ou os dois, que eram a mesma coisa, mas também não eram. A visão começou a falhar. Se tivesse que morrer agora, que alegria! Era isso que a vida trazia, afinal, não?

E, com um baque seco, Alice caiu no chão, sem se mexer mais.


Todos na festa beneficente ficaram se perguntando onde estavam o casal Alexander. Até um amigo próximo sair da festa e ir à casa ver o motivo. Tudo estava escuro e ele teve que arrombar a porta, num ridículo golpe de alguém que está profundamente embriagado.

Andou pela casa e não viu nada. Quando chegou a cozinha, a primeira coisa que vira foram os pratos quebrados pelo chão, Alexander estendido coberto de sangue e Alice estendida no chão, mas não se viam sinais de sangue.

Imediatamente, ele parou. Aquele remédio contra pressão que tomava parou de fazer efeito e ele gritou de susto. A bebida saíra completamente do seu corpo. Rapidamente, correu atrás de um telefone e discou 190.

Sua tez era pálida e suava descontroladamente.


Alice foi acordando lentamente. As coisas primeiro andavam lentamente, como uma valsa no meio do caos, depois foram aumentando de velocidade até aparecer perfeitamente em seu campo de visão a cara de um policial. Ele lhe contava como fora encontrada ali e o que acontecera.

Ela não sabia por que tivera o desmaio de repente. Mas sabia que algo ocorrera naquele desmaio. Algo estranho e que não podia entender.

Algo antes da entrada triunfal do amigo de Alexander.

A polícia estranhamente aceitou tudo, sob sua explicação de que estava em cima, na cama, quando ouvira um barulho. Pensava que fosse Alexander fazendo um breve lanchinho, mas quando desceu, viu dois ladrões revirando tudo e o corpo morto do seu marido no chão, depois disso tudo ficou escuro e não se lembra de mais nada, explicou uma sofrida senhora Alexander, longe dos repórteres que cercavam a casa.

- Mas por que ele estava só de toalha? – perguntou o detetive Borges.

- É... Ele... Tínhamos uma festa para ir, de modo que ele foi tomar banho e quando terminou, decidiu comer, não é?

Os policiais de nada desconfiaram. Parecia milagre.

Quando todos saíram da casa deles, o clique no seu cérebro soou mais uma vez, e tudo o que ela mentira passou a ser verdade em sua concepção, e assim todos acreditaram, inclusive ela mesma. Toda a lembrança de ela ter matado o marido sumiu, preenchida pela ilusão dos ladrões.

E assim foi, até agora.


O clique ocorreu uma terceira vez naquele tempo todo, Alice na banheira. Ela soube quem matou mesmo seu marido. Ela, fora ela que matara.

Sua vida já se esvaia. O sangue correra, e Alice pensou que todo o sangue do seu corpo ia sair. A banheira esfriara, naquele tempo todinho.

A Morte estava próxima, ela sentia. Aquela porcaria de história sobre a Morte ser a dama sombria mas gentil era mentira. A Morte, ela sentia, era um ser brutal, sem piedade, pelo menos para ela. Ela sentia...

A porta do banheiro se abriu sozinha, dando caminho para o antigo quarto deles, que se encontrava às escuras. Com a vista embaçada, ela viu dois imensos olhos vermelhos vigiando-a, esperando-a morrer.

O que é isso?! Deus, o que é isso?

Ela pensou que fosse o próprio marido, vindo pegá-la depois do que ela fizera e Alice quis voltar atrás, voltar naquele teia quase impossível de se locomover para trás, só indo em frente, e em frente. Mas era tarde demais, não havia como retornar. Era só aquilo.

Mas de repente ela soube. Aquilo também era seu marido, cumprindo sua vingança, mas também era outra coisa, uma coisa monstruosa, e ela soube. Era aquilo que acontecia com quem fez o que ela fez.

Se matar.

Os suicidas viram eternamente escravos daquilo. E quem mata é perseguido para sempre pela sua vítima.

Mas o que fazer com quem mata e se suicida?

Alexander fez um pacto com aquilo e se fundiu a ele, só pode ser isso, pensou desesperadamente Alice.

Estava escuro, mas ela enxergou a sujeira daquela coisa. E a coisa falou, lentamente, rindo, deliciando-se com a dor. Era a voz daquilo misturada a voz grossa de Alexander.

Venha, meu amor, vamos ser felizes...

Notas finais
Deixe um review ou um comentário. Sua crítica é bastante importante. Espero que gostem. Minha primeira fanfic aqui no Nyah!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!