Alice
1 capítulo único -- drabble
A seringa nas veias, os olhos distantes. “Se provar disso, poderá voltar ao País das Maravilhas”, mentia ele.
Não estava num buraco de coelho, nem no campo de margaridas num tediosamente quente dia de verão. Ah, não! O coração de neve de Alice já não mais se comparava aos joviais começos dos domingos. “Eu quero um desses”, pediu ela. “Uma libra” exigia o outro. “Impossível, não tenho dinheiro”, murmurava de mal humor. E ele parava o mundo dela:
“Então, nada de Maravilhas para você, Alice”.
Ela enfim, moribunda, abaixava a alça da manga fofa do vestido de ninfeta e ajeitava as meias soquete. Colocava no olhar o seduzir da vulgar inocência. Vestia-se de aprendiz de prostituta, marcava o mundo com os lábios vermelhos.
“Pago qualquer coisa”, dizia no ouvido de um. “Você sabe que preciso”, sussurrava no de outro.
xxx
Uma tragada, duas tragadas. Paraíso. A euforia momentânea, a suja felicidade diminuta. Se chapeleiro me visse, ele me entenderia. Agora um pequeno separar do pó de arroz do submundo; uma, duas. Perfeito.
Mel da insanidade, esperanças perdidas. Andava nos campos eternos de morangos gigantes; Rainha Vermelha, sua cafetina; Chapeleiro entenderia, não entenderia?
Alice arranca as asas da borboleta. Alice, de meninice. Os cabelos tingidos de castanho-escuro, as meias já rasgadas, o vestido de trapos. Ah, Alice de fantastiquisse. Perdera a compostura, jogara-se na lama. Alice, de maluquice.
Fale com o autor