Alianças de Sangue e Ferro
28 O Rugido de Dois Príncipes e o Choque do Reino
O silêncio profundo da madrugada em Versalhes foi estraçalhado por um grito que não vinha das tavernas ou dos pátios, mas do coração dos aposentos reais. Alice despertou com uma dor que parecia rasgar sua alma, as mãos cravadas nos lençóis de linho.
— Lucas! — o grito dela foi um alerta que o fez saltar da cama em um segundo.
Lucas não hesitou. Ele correu para o corredor, sua voz ecoando pelas galerias enquanto chamava pelos médicos, pela parteira e, acima de tudo, pela mãe. Katherine apareceu em minutos, envolta em um robe de seda, mantendo a calma gélida que a situação exigia.
— Chamem os médicos! Agora! — ordenou a rainha, enquanto Ricardo surgia logo atrás, com a mão no punho da espada, como se pudesse lutar contra a própria natureza para proteger a linhagem.
A saleta anexa ao quarto transformou-se em uma sala de espera de agonia. Os médicos e a parteira entraram, e a porta foi fechada, mas os gritos de Alice atravessavam a madeira como adagas.
— Eu quero o meu pai! — a voz de Alice soou aguda, carregada de dor. — Ricardo! Lucas! Não me deixem sozinha!
A quebra do protocolo foi imediata. Ricardo e Lucas ignoraram as tentativas dos médicos de mantê-los do lado de fora. Eles entraram. Ricardo segurou a mão da filha com a força de um guerreiro que entrega sua vida, enquanto Lucas se ajoelhou ao lado dela, limpando o suor de sua testa e sussurrando promessas de amor entre cada contração.
— Força, minha loba. Só mais um pouco — pedia Lucas, o rosto pálido de terror, mas a voz firme para ela.
Após horas que pareceram séculos, um choro forte e vigoroso preencheu o quarto. A parteira ergueu uma pequena criança, limpando-a rapidamente.
— Um menino! — anunciou a mulher. — Um príncipe forte para a França e para a Inglaterra!
Lucas e Ricardo soltaram o ar que pareciam segurar há horas. Alice relaxou por um segundo, o rosto pálido e banhado em lágrimas, sorrindo ao ouvir o choro do filho. O herdeiro estava ali. O dever estava cumprido. Eles estavam seguros.
Mas a paz durou apenas um suspiro.
Alice subitamente arqueou o corpo, um grito ainda mais alto e gutural escapando de seus lábios. Suas mãos voltaram a apertar os braços de Lucas com uma força sobrenatural.
— Dói! — ela clamou, os olhos arregalados. — Ainda dói! Tem algo errado!
Os médicos trocaram olhares alarmados, e a parteira rapidamente voltou para a posição, levantando os lençóis. O silêncio que se seguiu no quarto foi de puro choque.
— Pelos céus... — sussurrou a parteira, as mãos trêmulas. — Não acabou. Majestades, afastem-se... vem outro!
Ricardo deu um passo atrás, os olhos arregalados como se visse um milagre ou um fantasma. Katherine, na porta, paralisou. Outro?
Alice lutou com o resto de energia que lhe sobrava. Com um último esforço que a deixou à beira do desmaio, um segundo choro, tão alto quanto o primeiro, ecoou pelas paredes de mármore.
— Outro menino! — exclamou a parteira, em êxtase. — Gêmeos, Majestades! Dois príncipes!
O choque no recinto era palpável. Na história daquela linhagem, gêmeos homens eram uma raridade absoluta, uma benção e um desafio político sem precedentes. Ricardo olhava para os dois netos, completamente chocado, sem palavras pela primeira vez na vida.
Lucas, no entanto, não olhava para os bebês. Ele beijava as mãos de Alice, chorando de alívio por vê-la respirar, exausta mas viva.
— Dois, Alice... — ele sussurrou, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Você não faz nada pela metade, não é?
Katherine aproximou-se, observando os dois pequenos herdeiros. Um sorriso astuto e vitorioso cruzou seu rosto. A aliança não estava apenas selada; ela estava duplicada. A França e a Inglaterra nunca mais seriam as mesmas.
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