Aliança de Sangue
1 Prólogo
Notas iniciais
À noite, companheira do lado mais obscuro de um ser rugia alto, mas o céu naquela noite de outono não estava estrelado, ao contrário o céu desabava em água. As ruas da pomposa e elegante Inglaterra eram regadas por grossos pingos. Era como se o a noite chorasse.
Mas a pessoa que estava dentro daquele automóvel não ligava para a chuva que caía, ultimamente nada era importante para si. Sua vida era mergulhada em tédio, nada lhe atraia ou detinha seu interesse. A jovem acomodada no carro preto olhava pelos vidros, porém seus olhos azuis não reparavam em nada. Sua face juvenil, de traços delicados, pele alva e lábios rosados uma expressão quase irritada.
Quem seria o culpado de tal espírito? Simples. A jovem que aparentava seus 16 anos, dona de uma beleza angelical, sedosos fios dourados, ternos olhos azuis e um corpo perfeitamente moldado, estava farta do jeito que sua vida seguia. Havia acabado de sair de mais uma festa que era obrigada a comparecer. Até tentara, mas não pode suportar a mediocridade daquela sociedade.
Por que seu pai tinha ido, suportara o máximo que pôde. Não agüentava aqueles homens tentando cortejá-la, mostrando o quanto era viris, fortes e poderosos.
Mas foi quando o veículo parou no semáforo que algo pareceu atrair a atenção da jovem. Moveu saindo de sua posição de descanso e seus olhos vibraram diante do que via. Não entendeu bem, pois não era a primeira vez que deparava com algo assim, mas em especial aquela capturava sua atenção.
Ignorando a chuva, o frio e que se molharia abriu a porta do veículo e saiu em meio à avenida, atravessando em sentido a minúscula loja que vira. O motorista chamara por si, mas ele não era importante naquele exato momento.
Seguiu em frente como que hipnotizada pelo que via. Era pequeno, porém lhe pareceu acolhedor! Não que as flores lhe chamassem a atenção assim, apesar de parecer frágil não era dada a romantismos ou mesmo a delicadezas, dada sua origem tão peculiar.
Tão perdida estava em seus pensamentos que não percebeu que já estava na porta de uma pequena floricultura. A porta era de vidro e ela pode ver seu interior com facilidade.
Mas onde ele estava? Havia um rapaz parado à porta no lado de dentro da loja. Decidiu por entrar. Quando empurrou a porta, e o pequeno sino balançou fazendo um barulho que a seus ouvidos foi suave.
— Como ele é lindo! – Não pode deixar de exclamar em pensamento. O rapaz lhe sorriu, e seu sorriso era tão terno e verdadeiro, que ela sentiu-se aquecer por dentro, apesar de toda frieza que carregava em si.
— Boa noite! – Ele falou com sua voz calma.
— Ah! Boa. — A jovem ditou suavemente. Nem sabia ao certo por que tinha entrado ali, só tinha noção que sentia que sua existência dependeria de ir ali.
— Posso ajudá-la? Quer algo para presente ou para si mesma? — A voz calma ditou sem pressa.
A jovem que trajava um vestido de gala andou pelo local sem pronunciar nada parecia avaliar tudo com cuidado, disfarçadamente, mas no fundo ela esquadrejava o rapaz, sua beleza, a aura que detinha que lhe atraía.
— Quero um arranjo de Liziantos brancos. – Pediu a jovem. Aquela flor era a marca registrada de sua família, a qual tinha séculos de tradição.
O dono da pequena loja sentiu um arrepio tomar conta de si. Aquela voz aveludada e macia chegando a seus ouvidos fez com que cada poro de seu corpo vibrasse, e ele foi incapaz de impedir que um pequeno sorriso brotasse em seus lábios movendo para fazer o que a donzela pedira.
Os dois tão envolvidos naquele momento peculiar achavam alheios ao que sucedia perto dali. Embaixo da tensa chuva correndo o máximo que seus pequenos pés permitiam. Sua face carregava assombro e medo, e seu coração pulsava como um cavalo galopante.
Seus olhos queimavam, e as lágrimas teimavam em querer sair, mas ele não queria deixar, tinha que ter sorte, pela sua própria sobrevivência.
Um ser pequeno, de fios loiros e orbes tão azuis quanto o mar. tentava o máximo que podia fugir de seu algoz. Aquele que aprendera a servir, mas que lhe tratava com tamanha crueldade, que lhe deixava marcas na pele, e na alma.
Passou correndo descalço por entre becos escuros, tentava em vão esconder-se dele, mas aquele homem parecia saber exatamente para onde ele ia. O desespero tomara conta de si, não suportava mais ser castigado por erros que nem sabia que cometera.
Corria cada vez mais depressa e foi ai que viu uma luz acesa. Tinha que correr para lá. Não tinha mais onde se esconder, seu coração parecia que ia saltar de seu peito dado o medo que o atormentava.
Aproximou-se da porta havia uma moça tão linda lá dentro, que de tão encantado que ficou quase esquecera que o motivo de estar ali era uma fuga.
Empurrou a porta de vidro e sentiu o aroma doce das flores. A moça olhava de maneira intensa para o rapaz que preparava algo que não sabia o que era. Nenhum dos dois pareceram perceber a terceira presença. Aproveitando-se disso, o garotinho escondeu-se por traz de alguns vasos e flores. Esperava que dessa vez ele não o encontrasse.
Seu coração batia rápido, sua respiração ofegante e rápida mais ainda assim fazia um esforço tremendo para não ser visto. O frio começava a se fazer presente, já que se encontrava ensopado pela forte chuva, que aos poucos se tornava tempestade.
Mas, para desespero dele, o casal havia percebido sua presença. O rapaz sentiu que ele estava com medo, então decidiu deixá-lo ali, fosse o que fosse quando sua cliente saísse conversaria com ele.
— Aqui está moça! — A voz suave e gentil do homem ditou entregando um belo buque de Liziantos. Seus olhos parecia não ter brilho, mas ainda assim, estavam fixados nela.
— Ah Obri... — Porém suas falas não terminaram. A mulher de fios dourados sentiu aquela energia, a conhecia, e sentia como era maligna, não que isso a assustasse ou fosse indiferente, mas sim, por não suportava o dono dela.
— Olha o que temos aqui! Lady Elora Llasa. Quanto honra em vê-la. — O homem com a voz grave ditou. Os olhos azuis agora estreitos voltaram para o homem. Não sabia definir ao pé de letra, mas aquele homem sempre a desagradara, e só o tolerava em parte por causa de seu pai.
O mesmo era alto e dono de um corpo moldado por batalhas. Os olhos eram frios, se poderia dizer desumanos e vis, onde parecia se divertir diante das mais bizarras atrocidades. Seus cabelos loiros escuros eram arrepiados, em um penteado desigual. Todavia tal postura ou aura exalada não abalara à jovem, mas Elora, como ele havia chamado, sentiu que o humano logo atrás de si estremecera.
Sabia que aquele ser causava tais sensações. Contudo o que mais lhe chamou atenção fora a criança. Essa tremia gritantemente, e o pequeno coração pulsava de uma forma que parecia que iria explodir.
— Pena que não posso dizer a mesma coisa Lord Wiverny. O que faz aqui? Não acredito que veio comprar flores. — Ela disse de maneira zombeteira, mas ainda mantendo sua postura altiva e delicada de ser.
— Posso ajudá-lo, senhor? — O proprietário da loja indagou no que se pôs em frente à jovem. Ele parecia sensível as coisas, e sentiu que aquele homem era perigoso, e não negou as ganas de proteger à tão delicada flor.
— E por que eu iria querer esse lixo? Não! Estou à procura de algo mais valioso e sei que está aqui. — Disse o tal sujeito Winverny no que passou a esquadrinhar o local realmente a procura de algo.
O tom da voz daquele sujeito não agradou o jovem de longos fios loiros, de pele alva e dono da modesta loja. Percebeu quem aquele homem estranho procurava, e indagou-se se seria pai do pequeno garoto, se fosse, deveria ser um monstro para o pequeno anjo se encolher todo e tremer daquela forma.
Voltara-se mais uma vez ao cavalheiro que estava ali e proferiu com firmeza. Não havia gostado da forma como ele se referiu a sua humilde, mas muito bem freqüentada floricultura.
— O senhor deseja alguma coisa?! — Falou aproximando mais ainda daquele ser que lhe causava repugnância. — Se não tenho nada que queira senhor, faça o favor de retirar-se da minha loja.
Radamanthys de Wyverny não gostou nem um pouco daquela criatura insolente, querendo ditar regras a ele. Um lorde e que poderia facilmente acabar com ele.
Não deu ouvidas as palavras do dono da loja e continuou sua busca. Quando enfim achou o que procurava não teve tempo de capturá-lo, Asmitha já havia puxado o menino para junto de si. Estava com pena dele, nunca vira alguém tremer tanto e não era de frio.
— Solte-o! — Ordenou Radamanthys. — Eu sou o responsável por ele e ele fugiu de mim. — Falou com visível impaciência.
— Não é difícil imaginar por que ele fugiu de você. — Fora Elora que se pronunciara. Nesse instante os olhos do menino encontraram os dela. E algo dentro da moça pareceu enternecer, um sentido de mãe talvez, o certo é que ela sentia que precisava protegê-lo, não era uma criança era um anjo, e aquele canalha o estava aterrorizando.
— Vem cá... — Chamou o menino com voz suave, e mais uma vez antes que Radamanthys pudesse colocar as mãos nele, o peuqeno foi afastrado dele e assim Elora o trouxe para junto de si.
Abaixou-se devagar ficando quase na altura do menino, sorriu para ele e percebeu o quanto o garoto estava machucado, as roupas estavam rasgadas, e seus bracinhos tinham marcas de uma surra recente. Por algum motivo aquilo a enfureceu.
Olhou para o Lord Wyverny e disse seca e autoritária.
— Ele não irá mais com você!
O homem ficou enfurecido, havia se controlado até ali, mas agora já era seu limite.
— Quem pensa que é Elora!? — Ditava com ódio. — Ele é meu, ele me pertence!
— Pertencia! Wyverny. — Elora ditou calmamente.
Radamanthys então se precipitou contra a moça, e para sua surpresa e dela o rapaz entrou a frente rapidamente e se pronunciou de forma altiva.
— Como ousa desacatar essa senhorita? E ainda atormentar esse pobre garoto, não irei permitir isso, senhor.
Radamanthys sorriu da atitude do rapaz. Era até louvável, mas não tinha paciência para aquela cena de cavalheirismo.
Não precisou de muito esforço agarrou o rapaz pelo pescoço e com uma força descomunal, jogou contra a parede, ele até tentou levantar, mas perdeu os sentidos em seguida.
Elora ficou muito irritada com tal atitude. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, o menino se colocou a frente dela, e dando-se por vencido, decidiu se entregar, não podia permitir que aquele homem ruim machucasse a única pessoa que havia o tratado com carinho.
— Tudo bem... Eu vou com você! Mas não a machuque. – A voz infantil ditou. Era possível ver atrás dela o quanto ele estava debilitado.
Elora sentiu algo em si ser tocado. Coração? Não, seres como ela não tinham isso, ou tinham?
— E quem pensa que é para me dar ordem moleque? Irás comigo nem que eu tenha que matar essa cidade inteira. – Radamanthys ditou andando em passos firmes para perto do menor, a fim de por as suas mãos sobre ele, contudo o que se seguiu o fez recuar.
A jovem em uma velocidade surpreendente se pôs a frente da criança, e seus olhos outrora azuis como o céu de um dia de verão se tornaram vermelhos como o sangue. Suas presas se mostravam agudas, e suas garras afiadas.
— Eu disse: ele me pertence agora... Procure outra presa, verme. – A jovem de aparência requintada e educada disse friamente. Se sua aparência relatava algo delicado e frágil, sua real essência era outra bem diferente.
— Seu pai não está aqui para lhe proteger menina prepotente... – O loiro alto grunhiu ao que seus olhos tomaram a mesmo tom vermelho, e sua aura maligna se tornara maior ainda, porém a de Elora poderia se comparar a sua, igualmente vil.
— Não preciso de proteção. – Estava claro que os dois logo partiriam para uma batalha surreal.
— N-não... – O menino disse fracamente. Não queria que ninguém se ferisse por sua causa, mas sentia seu corpo dormente, como se algo o impedisse de se mover, para então tudo se tornar escuro, e seu juvenil corpo sutilmente repousar no chão.
— Está querendo que ele não saiba de sua real face doce Elora? – O ser ditou colocando em posição de ataque, porém antes que qualquer um dos dois fizesse algum movimento menor que fosse uma terceira voz, ao mesmo tempo mansa e potente ecoou pelo local:
— Posso saber com que pretensão se põe a atacar minha filha, Radamanthys? – O ser detinha maior poder do que os dois juntos. A jovem abaixou a guarda em sinal de respeito, jamais desobedeceria seu pai.
— Shion Llasa, líder do clã Assamita, quanta honra. Pensei que estivesse bajulando aquele que se intitula... – Porém não terminou sua fala, pois uma forma tão grande se sobrejulgou sobre ele, que o poderoso Radamanthys Wiverny fora obrigado a ajoelhar. Não era por livre vontade que fazia aquela posição que se julgaria reverência, e sim por que o homem de longos fios loiros, olhos verdes e curiosos sinais exerciam sobre si tal poder.
– Com quem acha que está falando?! — Ditava Shion com visível irritação e autoridade. -Pensa que sou um de seus escravos?
– Não! Apenas desejo o que é meu! — Seus olhos mostravam sua total insubordinação e desrespeito, mas obrigava-se a isso por saber que se fizesse qualquer movimento mais feroz corria o risco de perder o garoto.
– E o que é seu aqui Wyverny? -Shion agora olhava para sua filha e a criança adormecida perto de dela.
– O garoto... Ele me pertence! — Radamanthys estava agora apreensivo, sentia que estava prestes a perder o seu prêmio.
– Aonde está o documento de propriedade? — Shion o maior ditou friamente.
Viu o inglês olhá-lo com mais ódio do que antes, se é que isso fosse possível.
Não se sentiu abalar por isso, e não por que o outro não fosse capaz de fazer qualquer coisa para ter o menino, não por que o temia, nem um pouco. Olhou para Elora e lhe dirigiu a palavra
–Minha filha, pode me explicar o que está acontecendo?
Elora o olhou suave e terna. Nem parecia a mesma de instantes atrás.
Ela apontou para o rapaz que estava desacordado no chão.
Shion pareceu não gostar nada do que viu. Primeiro por que detestava o fato de que alguns vampiros, sim vampiros era isso que eram, seres da noite e sugadores de sangue, tratavam os humanos como meros alimentos, não tinham respeito por aquelas criaturas, tão frágeis e que ele de certo modo admirava.
– Por que deseja o garoto?! Quem é ele Radamanthys Wyverny? -Shion perguntou ao loiro mais baixo.
– Não lhe devo explicações da minha vida Shion! — Ditava o outro entre dentes. — Ele é meu.
Elora então pronúncia voltando a assumir a expressão assustadora e fria de outrora.
– Não! Se quiser me enfrentar que seja, não tenho medo de você seu verme. -Ditou Elora.
Shion a olhou com orgulho, sua filha que estava sempre apática e enervada com sua vida, agora mostrava querer algo verdadeiramente. E se aquela pequena criatura era o motivo disto, não o deixaria partir do lado dela nunca mais.
— Pertencia, pois agora não pertence mais. Ele não é sua cria, seu filho ou tem o poder da marcar nele... A partir de hoje ele é propriedade de minha filha. E se ousares chegar perto dele, terá que enfrentar o julgamento de desobediência. Vai me enfrentar Radamanthys? — Shion disse firme e altivo.
O outro ser da noite, vil e sagaz que se achava subjugado se viu diante de um precipício. Tinha ciência que não poderia fazer nada contra o homem a sua frente. Não contra Shion Lhasa, líder dos Assamitas, e melhor amigo do rei dos seres das trevas.
O que seria lendas se não mera imaginação humano, uma criação tola para apaziguar seus medos e crenças. Mas toda lenda tem seu fundo de verdade, e nunca e conforme os livros relatam. Alheio ao fato, os olhos humanos tão poderia tomar ciência dos poderosos seres noturnos, que viviam entre eles.
Seres cuja existência era secular, cuja sobrevivência era o néctar que circulava nas veias de humanos ignorantes que era alheio a obscura realidade.
Continua...
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