Notas iniciais
Bem, espero que curtam! Sem mais enrolações... Boa Leitura! ^-^

Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como benção!

PESSOA, Fernando. Mensagem.

A criança de faces delicadas se achava amparada por macias almofadas, estas com que sua mãe sempre enchia sua larga cama em tais ocasiões, no intuito de lhe promover o maior conforto possível. Na verdade, de nada adiantavam, mas sorria a mulher em agradecimento todas as vezes, porque sentia que isso a acalmava. Desfrutava de um de seus poucos momentos alegres ao vê-la lhe sorrir de volta.

Albafica era o único filho do Imperador da Tecelagem, Arnan Genero, e da conceituada poetiza Rachel Graellis Genero, e nascera com uma rara doença, que degradava aos poucos todas as suas células. Para ele, fazer mínimos movimentos era um grande esforço e todo tipo de contato físico, até mesmo o mais simples toque, era doloroso. Por causa disso, o menino vivia recluso em seu quarto, na companhia apenas dos pais, de alguns poucos empregados e, claro, dos profissionais de saúde que iam e vinham.

Albafica vivera cinco anos de sua amarga vida. E, segundo todos os médicos que o haviam examinado se ele chegasse até os dez seria um milagre. Literalmente, seu corpo tinha pulado todas as fases normais da existência humana e ido direto para a desfalecência. Entretanto, mesmo diante do parecer negativo dos médicos, seus pais continuavam tentando encontrar uma maneira de salvá-lo.

De seu recanto, observava o médico, mais um deles, preparar uma seringa para perfurar seu debilitado corpo. E reuniu as poucas forças que tinha a fim de se manter firme diante daquilo, pois seus pais, como de costume, o assistiam de um canto. Se sua mãe notasse que o novo tratamento não estava surtindo efeito algum, entraria em desespero. Da última vez, ela havia passado mal. Estar doente é doloroso e limitador, não queria isso para ela. De maneira alguma.

Prendeu a respiração e desviou o olhar ao sentir a agulha perfurar seu braço. Sentiu como se uma faca penetrasse sua carne, mas, por um milagre, conseguiu reprimir o grito de dor. Segurou tanto a respiração, que seu rosto chegou a corar. Felizmente, ninguém, nem o médico, percebeu sua encenação.

Após guardar os instrumentos na maleta, o homem se ergueu e se despediu, sendo acompanhado pelo coxo Arnan para fora do recinto. Rachel ocupou a cadeira onde o médico estivera e apanhou uma mecha de cabelo do filho, tomando cuidado para não tocá-lo.

Era tão pequeno, franzino e pálido... Os cabelos azuis que nem o limpo céu da tarde pareciam fios de seda entre seus dedos e os olhinhos a fitá-la duas gemas de lápis-lazúli. Seu lindo menininho, seu mais precioso bem, por que a vida tivera que ser tão cruel com ele? Não era justo que ele não pudesse correr por aí tal como seu espevitado afilhado. Não era justo que não pudesse beijá-lo nem confortá-lo em seus braços. Seu pobre e lindo menininho...

— Quero tanto que melhore, meu querido... — murmurou ela, cerrando os olhos. — Faria qualquer coisa para vê-lo curado.

E lá estava o pesar visceral que machucava mais a criança do que qualquer outra coisa do mundo. Sua mãe era uma mulher ainda jovem e muito bela — a mais bela que já vira —, mas quando fazia aquela expressão pesarosa parecia muito mais velha e cansada. E por sua causa, sempre por sua causa. Infeliz destino.

Destino infeliz... Que rouba toda felicidade, seria demais permitir alguns momentos de compaixão? Por mais humildes que fossem? Deixe que minha pequena rosa seja feliz, deixe... Leve a mim! Leve a mim! Mas tenha piedade dele. A poetiza rogava em silêncio.

Tudo o que quero é que ela seja feliz. Pensou Albafica, com uma dor corpórea e um misto de culpa e gentileza no olhar. Como sempre, sua mãe usava um vestido negro, a cor da espera — à espera do fim de seus anos. Albafica precisava tirá-la daquele pesar, demonstrar que havia ali algo mais digno de atenção e cuidado do que sua condição.

— Eu já disse hoje o quanto a senhora é bonita? Ou que ficaria ainda mais bonita se sorrisse?

Rachel ouviu a voz baixa e infantil de Albafica e sentiu a pequena mão dele cobrir a sua, então abriu os olhos. Ele não havia reclamado do procedimento médico, mas as marcas roxas que tinha nos braços estavam bastante evidentes. Devia estar sentindo dor, e ainda assim a estava elogiando e sorrindo. Está tentando me distrair... Igual ao Arnan.

Os olhos dela se encheram de lágrimas, que não demoraram a cair.

Albafica não queria que a mãe chorasse, mas o maldito carma de fazê-lo infelizmente lhe perseguia. E tudo indicava que perseguiria até o fim de seus amargos dias. Esse pensamento pesou em seu coração.

— Por favor, não chore, mamãe — pediu, angustiado, fechando um pouco os dedos ao redor dos dela. Foi doloroso, mas tinha que fazê-lo enquanto ainda era capaz.

Em sua solidão, Albafica sempre se perguntava o porquê de ter vindo ao mundo. Se não teria sido infinitamente melhor para os pais e para si mesmo se tivesse morrido antes de nascer, como os quatro bebês que o antecederam. Se não tivesse sobrevivido, Rachel ainda poderia ser mãe e talvez o próximo filho dela fosse saudável, podendo receber o carinho dela e retribuí-lo sem mergulhar no purgatório.

— Rachel — O patriarca dos Genero surgiu à porta, chamando pela esposa. Ao se dar conta de que ela chorava, sua expressão rígida endureceu mais. — Seu editor está no telefone. — Ela começou a negar. Tudo o que queria era ficar ao lado do filho, e obviamente isso não passou despercebido por Arnan. — Vá, eu fico com Albafica — prontificou-se ele não dando espaço para recusas e, apoiando-se em sua bengala negra, entrou no quarto.

À Rachel restou apenas concordar e Albafica a soltou, permitindo que se retirasse.

— Como se sente? — Arnan perguntou assim que a esposa se foi. Ele também usava preto, salvo a gravata que era vermelha como as gemas das joias da esposa.

O garoto engoliu em seco diante das palavras do pai, não sabia se contava a verdade ou se continuava fingindo que se sentia melhor. Mas antes de falar, precisava retornar a sua posição habitual. Não estava acostumado com aquela posição e quanto mais deixasse o braço esquerdo dobrado, com a mão que acarinhara a da mãe sobre o travesseiro, mais dificuldade teria para estendê-lo depois.

Bem devagar, Albafica tentou mover o braço para pô-lo de volta ao lado do corpo, mas acabou esbarrando o úmero no qual o médico injetara a medicação numa almofada e soltou um gemido. Nada disso escapou ao olhar severo do pai.

— Como se sente? — Arnan repetiu e acrescentou — Não minta para mim.

Diferente da mãe — que possuía olhos verdes cheios de carinho mesmo quando tristes e cabelos que emprestavam cor aos raios do Sol de seus sonhos e um sorriso que lhe cedia calor —, o pai nunca sorria e ficava assustador quando aborrecido por causa do tapa-olho e das cicatrizes que lhe cobriam o lado esquerdo do rosto. O Imperador da Tecelagem não era do tipo que gritava, sua postura austera, suas palavras ásperas e seu olhar de gelo eram mais do que suficientes para assegurar obediência. Era muito difícil enganá-lo, então Albafica se rendeu.

— Pior que na última consulta — confessou, encolhendo-se diante do profundo e suspirado “eu sabia” de Arnan.

— Por que permitiu que Rachel lhe tocasse? — Arnan remexeu a bengala negra, fazendo o peixe dourado da base girar ao redor de si mesmo.

— Mamãe não tocou, fui eu. — Arnan estreitou o olho e Albafica vacilou. — Estou com medo, pai. Tenho medo de como ela vai reagir. Não quero que nada de ruim aconteça a ela.

— Não quer, hein? — murmurou seu pai, coxeando até a porta e a trancando. Após o que retornou para perto da cama e se sentou na cadeira, apoiando a bengala na mesinha de cabeceira ao lado da cama e cruzando os braços a frente do peito. — Eu conheço um método que poderia ajudá-lo a superar essa doença...

— Isso realmente existe?!

— Posso terminar de falar, Albafica? — O garoto silenciou. — Ótimo. Caso tentássemos e desse tudo certo, não só aumentaríamos sua expectativa de vida para muito além do que a medicina tem estimado, como você adquiriria resistência e força o bastante para se movimentar e sair dessa cama. No entanto, esse método não é seguro, ele pode falhar. Se tratando do seu corpo frágil, é muito provável que falhe. E se falhar, você morrerá bem antes do previsto pelos médicos.

Ele fez uma pausa, estendendo a mão na direção do braço esquerdo do filho e um brilho dourado o envolveu, fazendo com que levitasse até o lado do corpo dele. Albafica piscou os olhos, impressionado. Seja lá o que o pai tivesse feito, aquele fora, sem dúvida, seu primeiro movimento sem dor. O brilho desapareceu e o patriarca dos Genero voltou a falar:

— Mais uma coisa, se funcionar, você não vai morrer, mas não terá ninguém, pois seu sangue será muito mais nocivo que o meu e tudo o que ele tocar morrerá.

Essas palavras foram um balde d’água fria nos devaneios do garoto.

Se é assim, não poderei me casar, então do que adianta permanecer neste mundo? Albafica se perguntou, confuso. Se aquela proposta partisse da mãe entenderia, mas era estranho vindo do pai. Afinal, para Arnan, um herdeiro que não podia dar continuidade a sua linhagem era inútil. Então, de que adiantava salvá-lo?

Certa vez, durante uma crise violenta de dor e choro, Albafica perguntara ao pai por que não lhe deixava morrer em paz e recebera como resposta: “você é o único herdeiro que tenho e terei, logo não posso descartá-lo. Não até esgotar todas as alternativas”. Arnan fora tão frio que suas lágrimas cessaram. Para ele, sua pessoa em si não importava. Se morresse, ele não choraria por ter perdido um filho, mas sim por não ter alguém de seu sangue para confiar seu império quando chegasse seu momento de partir. Choraria pelos Genero e não por Albafica. De certa forma, o garoto sentiu alívio ao se dar conta disso, pois o machucava demais saber que era responsável pelo sofrimento dos outros. Pelo menos, o pai não sofria por sua causa.

Mas, então, por que ele decidira salvá-lo se sabia que não teria utilidade alguma? Albafica queria saber, mas teve medo de perguntar. Ainda que inesperada, a proposta do pai era a primeira fonte de luz visível em seu caminho. Não podia pô-la a perder por causa de sua curiosidade. Caso não desse certo, tudo bem. Preferia viver menos a continuar sofrendo e fazendo quem lhe amava sofrer.

— Então, qual é a sua resposta, Albafica? — Arnan quis saber, com um olhar complicado.

Mesmo que seja por poucos instantes... Ainda assim, eu quero deixar de apenas existir.

— Eu aceito, pai.

¢¢¢

O som das crianças brincando no andar inferior da fábrica chegava como doces ruídos aos ouvidos de Albafica. O cavaleiro de ouro estava no quarto cedido por Henrico¹, deitado numa simples cama de vime.

A batalha do dia anterior parecia ter sido num tempo distante. A morte que lhe era certa, agora não passava de um natural medo humano. Seu cosmo não guardava nenhum resquício dela, nem seu corpo cicatrizes.

Ao desmaiar, acabado pelo efeito da Lâmina de Rizao, levara a certeza de que Seward findaria com o sopro de vida que lhe restava, indo em seguida atrás de Dégel. Porém, quando despertou estava de volta a Grécia, com o bebê que estivera em posse do Espectro ao seu lado e Hasgard velando seu sono.

O mecânico lhe contou que sentira uma forte cosmo-energia no quarto e fora checar, mas que ao chegar esta já havia se dissipado. Ao invés dela, encontrara-os deitados na cama. O grande homem não lhe fez perguntas, apenas pediu que descansasse e levou o pequeno para uma das educadoras do Filhos do Amanhecer que hospedava por ali.

Assim que se viu sozinho, Genero decidiu que a destruição da biblioteca pessoal do pai não podia esperar mais. Aqueles livros continham informações que poderiam não apenas ser usadas contra o exército da deusa da Sabedoria, como também contra todos os seres humanos. Um prato cheio para loucos como Hades. Não podia admitir que suas existências perdurassem.

A presença dos Espectros em Jamiel significava que o Deus do Submundo sabia sobre os Quatro Selos e os desejava para si. Não poderia permitir que as informações sobre eles, por mais vagas que fossem, caíssem nas mãos dele. Sem falar que temia pela vida de Dégel. Seward havia sobrevivido à luta, poderia muito bem ter ido atrás do russo, querendo informações. Precisava se mexer.

Iria se levantar para retornar a mansão Genero, entretanto à garota de longos cabelos negros que lhe falara em Jamiel surgiu em pleno ar, aconselhando-o a permanecer onde estava. Ela lhe contou que um dos Quatro Selos — Balan, a Justiça — dera um fim na Estrela Celeste Guardiã, após o que os trouxe de volta a Grécia. Albafica sentiu certo alívio ao saber que o Espectro de Seven se fora, mas se viu envolto num número maior de perguntas.

O que um dos Quatro Selos havia ido fazer em Jamiel? Como ainda podia estar vivo? Quem era aquela garota e por que estivera em Jamiel? Por que estava ali agora? Eram algumas de suas muitas perguntas.

A menina prometeu esclarecer tudo, e disse que concordava com seu pensamento sobre a biblioteca de Arnan, no entanto não achava apropriado que fosse ele a destruí-la e pediu que enviasse alguém em seu lugar. Só uma pessoa passou pela mente do rapaz: Julian Solo. Então tratou de ligar para ele. Era uma escolha arriscada, sabia disso. Afinal, Poseidon poderia ser tão perigoso quanto Hades se assim o desejasse, mas não podia recorrer a mais ninguém. Se pelo menos soubesse aonde Athena estava ou tivesse como contatá-la...

Felizmente, assim que o Deus dos Mares ficou sabendo da busca empreendida pelo irmão, concordou em ajudar. Um problema a menos... Desligou o telefone e ficou quieto por um momento, apenas observando aquela moça.

Ela era pequena, devia ter no máximo um e cinquenta de altura, e os lisos cabelos de azeviche por pouco não lhe alcançavam os pés. O rosto era delicado e oval e os olhos de um azul tão suave e claro quanto as águas de um rio davam mais graça a ele, fazendo conjunto com a pedra falciforme incrustrada em sua testa. A pele de um moreno-escuro vibrante era coberta por uma longa túnica negra que deixava apenas suas mãos, pés e parte dos ombros à mostra. Pela aparência, Albafica não daria mais do que treze anos à ela. Mas as aparências podem enganar, ainda mais considerando as circunstâncias em que haviam se conhecido. Ela também o observa, porém mais calma do que curiosa.

Armaduras Especiais... A mente do rapaz fugiu à cena. Armaduras Especiais era o epíteto mais conhecido dos Quatro Selos que auxiliam Athena em sua interminável missão de proteger as pessoas da Terra. De acordo com a interpretação de Trant das Ruínas de Lemúria, deviam ser deusas que de alguma forma haviam sido transformadas em armaduras. Deusas fadadas à servidão e ao anonimato. Sobretudo anonimato. Então, o que uma delas havia ido fazer em Jamiel? Será que Athena a enviara? Se fosse isso não teria sido infinitamente melhor enviar um de seus cavaleiros?

— Athena não enviou minha irmã até nós — disse a moça de longos cabelos negros, tirando o pseudo-cavaleiro do transe. — O senhor dela que decidiu nos ajudar.

Ela disse “minha irmã”? Albafica estranhou, mas preferiu perguntar outra coisa.

— Senhor dela? Pensei que os Quatro Selos fossem servos de Athena...

Ela piscou, ficando quieta por um momento.

— De certa forma, nós somos — Nós?! Então essa garota também é um Selo?! Ela fez uma careta. — Desculpe-me por isso, Amo. Já faz alguns séculos desde a última vez que conversei com alguém e muito mais tempo com alguém que não conhece os termos do Acordo. Irei lhe explicar tudo.

Com uma expressão determinada, ela deu dois passos na direção da cama, mas logo parou, parecendo apavorada e retrocedeu, olhando-o humildemente, e perguntou:

— Eu poderia me sentar ao seu lado, Amo?

Aquilo o chocou. Ela é uma deusa e está pedindo permissão a mim, um ser humano? Nunca pensou que veria coisa semelhante acontecer, ainda mais consigo. Ela continuava de pé aguardando por sua resposta.

— Ahn... É claro, sente-se.

Ela sorriu e voltou a se aproximar, acomodando-se numa pequena parte da beirada da cama.

— Após o término da Titanomanquia, os irmãos e irmãs de Zeus decidiram presenteá-lo por tê-los libertado de sua clausura. Ptolomeu os ajudou a preparar o presente e nós, as deusas que foram chamadas de Zetares, nascemos. Nós nos tornamos as principais servas do rei dos deuses, suas protetoras e suas amigas. E depois do roubo do fogo da carruagem de Apolo e do florescer do infeliz fruto da curiosidade de Pandora, nosso grande senhor nos incumbiu de tomar conta da humanidade no lugar de Ptolomeu e Epimeteu.

— Eu pensei que Zeus não gostasse da humanidade — Albafica murmurou.

— É verdade que o senhor Zeus tinha ciúme dos humanos, pois, após sua criação, Ptolomeu, que lhe era um amigo querido, muito se afastou dele a fim de cuidar das crianças de barro. Mas, achava-os criaturas interessantes por sua natureza inocente e pura e que muito divergia da natureza divina. Como o castigo de Ptolomeu e o traiçoeiro presente de Epimeteu, muitas das obras atribuídas a vontade de Zeus não passaram de decisões oriundas de votações do conselho olimpiano.

— Então, Zeus não é um rei absoluto em todas ocasiões.

Ela assentiu e prosseguiu com o relato sobre as Zetares.

— A maioria dos olimpianos não se opôs a nossa nomeação. Contudo, o bom titã nos moldou para sermos diferentes dos deuses do Olimpo. Ele nos ligou a humanidade, o que nos permitiu sentir todas consequências que os males libertados por Pandora lhe causaram. Nós tentamos ajudá-los por intermédio dessa ligação, formando contratos com os humanos e emprestando nossos poderes a eles... Porém, isso fez com que as outras divindades não nos vissem com bons olhos. E os feitos de alguns zetharos foram tamanhos que não só ocasionaram grandes catástrofes, como fizeram os deuses se sentirem ameaçados. E então o que meu Amo e o senhor Trant descobriram em Lemúria aconteceu.

— Foram destituídas.

— Exatamente. Nossa líder, Merkuya, foi condenada ao Tártaro e o restante de nós à reclusão no Agelkeia, no Olimpo, de onde não poderíamos interagir com os terrenos. Mas, por intermédio de Zeus, seis de nós, dentre as quais Aégis, o escudo de Zeus, e Nike, o báculo de Athena, fomos eleitas para auxiliar Athena em seu novo cargo. Ares idealizou nossa transformação em armaduras, ele disse que deveríamos lembrar que fomos criadas para proteger e servir aos deuses e não para sentir e tomar decisões. E Hefesto ficou encarregado de nossa conversão. Nike, Aégis, Canphôra, minha irmã Balan e eu conseguimos manter nossas almas e consciências, mas Merkuya, que teve a alma acorrentada e lançada ao Tártaro, tornou-se apenas uma armadura dotada de resistência divina.

— E quanto a Posse? Qual é a real relação que vocês têm com ela?

— Nosso grande senhor Zeus escolheu Athena para assumir a maioria de nossos deveres, mas secretamente permitiu que o controle da Posse, que sobrepuja até o de Athena, ficasse com Merkuya. E, como meu Amo também sabe, além de sermos os instrumentos que distribuem o cosmo de Athena pelo globo, somos responsáveis por avaliá-la constantemente. Esses são os termos do Acordo.

Albafica repassou todas as informações que Dégel extraíra das ruínas. De fato, estava escrito que a força que governara a Terra antes de Athena havia sido convertida e transformada nas armaduras de osso e Ikhor para guardar o juramento de Athena, mas também auxiliá-la e supervisioná-la em sua missão. Graças ao Legado da Deusa sabia que se os Selos fossem destruídos ou sua lealdade mudasse a Posse detida por Athena estaria comprometida. Resumidamente, isso tudo indicava que os verdadeiros controladores da Posse eram os Quatro Selos e não Athena, sendo eles capazes de ajudar na manutenção dessa ou de trocá-la de mãos. O filho do Imperador da Tecelagem acabou por assentir e perguntar:

— Você disse que Merkyua está presa no Tártaro, isso quer dizer que a Posse não pode ser tirada de Athena a menos que ela a entregue, correto?

A pequena deusa negou com um aceno de cabeça.

— Embora o detentor da Posse possa abdicar dela em benefício de outro, como a senhora Athena já fez uma vez para salvar a vida de um dos santos cavaleiros, um Hospedeiro do Selo Merkuya que tenha conseguido evoluir para um zetharos poderia mover a Posse de mãos a seu bel-prazer. Nem mesmo nós, os outros Selos, poderíamos impedi-lo.

Isso queria dizer que se alguém do Exército do Inferno ou o próprio Hades conseguisse pôr as mãos em Merkuya, a Terra seria coberta pelas trevas. Preocupado, Albafica questionou a deusa:

— E se alguém quisesse obter um Selo? Há alguma forma tomá-lo de seu hospedeiro ou zetharos?

— Se for um hospedeiro, não. Pois este ignora a própria condição e o controle do Selo pertence apenas a ele mesmo. Então, caso o hospedeiro morra, ele simplesmente escolherá outro hospedeiro aleatório e se transferirá para ele. Mas se tratando de um zetharos, a história é outra. Um zetharos detém controle sobre sua armadura especial. Isso quer dizer que, caso ele seja subjugado e morto por alguém que tenha conhecimento sobre o Selo e um cosmo poderoso o bastante para contratá-lo, o direito ao controle deste passa a tal pessoa.

Genero engoliu em seco, cada vez mais preocupado. Será que os hospedeiros das outras três armaduras se tornaram zetharos? Será que Hades está perto de achá-los? Por Athena! Se achá-los, nada vai ficar no caminho dele!

— Se o senhor está se perguntando se alguém como Hades seria capaz de roubar um dos Selos, a resposta é depende — disse a pequena deusa de olhos límpidos, outra vez como se lesse sua mente. — Almas divinas não podem fazer contrato com Zetares, no entanto se Hades estiver num hospedeiro humano poderoso, ele poderia usar a alma deste para firmar o contrato.

Um hospedeiro poderoso o bastante para formar um contrato. Para que Hades tivesse condições de cumprir sua maldita demanda, seria necessário um hospedeiro ideal para a alma dele. Será que ele já tem esse hospedeiro? Provavelmente, não. As manobras utilizadas pelo Imperador do Inferno até agora não chegavam nem perto das demonstradas nos registros das Guerras Santas anteriores. Os poderes estavam sendo restringidos para manter seu recipiente atual.

Santa Athena! Albafica rogava pela segurança de Dégel. Não fora exagerado ao temer que os servos de Hades descobrissem sobre as Armaduras Especiais. Torcia para que o amigo tivesse, pelo menos, conseguido ficar fora do alcance dos Espectros. No fim, pouco importava avisar Athena sobre tudo isso. Ela nada poderia fazer, ainda mais estando fraca como estava.

Athena... Será que ela sabe aonde Athena se encontra. Abriu a boca para perguntá-la, mas as palavras ficaram entaladas em sua garganta. Aquela garota era uma Armadura Especial, um dos Quatro Selos. Se na condição de deusa o chamava de amo e estava se dando ao trabalho de lhe contar todas aquelas coisas queria dizer que tinham algum tipo de ligação especial. Uma ligação mais especial do que a de um Selo e seu hospedeiro. Afinal de contas, os hospedeiros não sabem que há uma Zetar consigo.

— Então, eu sou seu hospedeiro? — indagou, com a garganta seca.

— Você era, Amo — ela falou, confirmando suas suspeitas. — Até ontem.

Então, se descobrirem que ela está comigo... Balançou a cabeça para afastar tal pensamento e acabou se dando conta de que ainda não sabia uma coisa.

— Dégel encontrou nas ruínas os epítetos dos Quatro Selos. A Cura, a Justiça, a Sábia e a Mestra — disse Genero, vendo-a assentir, incentivando-o a prosseguir. — Certamente, Merkuya é a Mestra, mas eu ainda nem sei o seu nome. Qual das outras três é você?

— Pois não, Amo. Eu sou Áureon, a Cura.

Albafica estancou, perplexo. Então, fora por causa dela que não tinha morrido, mesmo após usar a Lâmina de Rizao. Ela salvou a minha vida. Era por causa do poder dela que se sentia tão bem agora. Não, não só a minha, mas também a daquele bebê, corrigiu-se, lembrando que a caverna das ruínas havia ficado com uma atmosfera venenosa após seus ataques.

— Obrigado — agradeceu, envergonhado por não ter notado antes.

— Não é assim que funciona. Então, por favor, não me agradeça, Amo.

— Como não lhe agradecer?

— Nosso contrato consistirá de uma troca equivalente. Eu lhe emprestarei meus poderes e você me deixará permanecer com você. Entende? Sua alma é minha casa. Essa é a primeira vez em muitos séculos que tenho alguém para conversar, estou tão feliz que seu cosmo tenha crescido tanto. — Os claros e expressivos olhos azuis-turquesa dela assumiram um brilho esperançoso, mas o tom de voz seguiu comportado. — Então, por favor, aceite o contrato e me permita ficar com você.

— Então, eu posso escolher não firmar um contrato com você? — quis saber Albafica, sério.

— Ahn... Sim. — Ela pareceu sem-graça.

— E se eu fizer isso, o que você fará?

— Terei que me mudar para outra alma.

— E se eu aceitar? Terei que fazer alguma coisa, além de lhe emprestar minha alma? — continuou ele, ainda sério.

— Terá que me dar um nome — respondeu ela, comedida. Tinha um olhar complicado, mas o cavaleiro detectou a expectativa no fundo deste. — E em troca eu insuflarei uma Marca em sua pele, o símbolo de nossa união, que crescerá à medida que nossos laços forem se estreitando e que permanecerá viva até que o contrato finde.

— Um nome? Mas já não se chama Áureon?

— Áureon é meu nome divino. Como meu zetharos, você deve me dar um nome humano. Pelo qual eu serei chamada enquanto nosso contrato durar. É parecido com o que acontece com quem se torna um cavaleiro. Meu Amo já era Albafica, mas quando se tornou um cavaleiro de Athena, passou a ser Albafica de Peixes. É parecido, só que o contrário. Eu tenho o nome da minha armadura e você deve me dar um nome humano.

— Entendi — disse o cavaleiro de ouro, dando um mínimo sorriso.

A ocasião em que seu pai apresentara o Elo Carmesim como opção para combater sua doença lhe veio a cabeça. Havia notado que o olhar que Arnan tinha daquela vez era semelhante ao que Áureon demonstrava agora: expectante. Ainda que o dela fosse comedido e o dele impessoal. O olhar de Arnan sempre era severo e impessoal. Ao longo dos anos, vinha interpretando isso como sinal de frieza e desinteresse. Agora já não sabia o que pensar.

Qual é a resposta para minha pergunta, pai? Perguntou-se, sentindo-se incomodado. Não via e nem falava com Arnan desde que visitaram juntos a mansão Solo, há dois dias. O pai nunca tirava os olhos de si por tanto tempo. Primeiro meu namorado e agora meu pai... Mal saber Albafica que o deus responsável por enviar os Espectros até Jamiel detinha o controle sobre Arnan.

A pequena deusa-selo tinha chegado mais para perto e fitava seus olhos, aflita. Provavelmente, conseguia sentir sua angústia. Inspirou e expirou fundo, organizando seus pensamentos, e se ajeitou na cama. Não podia ficar amolando Áureon com suas preocupações, não era correto. E aquele não era momento para se perder em pensamentos. Devia uma resposta a ela.

Deu um sorriso a Zetar, o que a fez franzir a testa.

— Não se preocupe — tranquilizou-a e prosseguiu, recordando-se de algo que nunca ouvira. — Eu estou bem, Agathia.

Notas finais
Glossário: Henrico¹ = variante italiana de Henrique, significa senhor do lar ou governante da casa. Agelkeia do grego, líder ou protetora do povo. Zetharos são os humanos que fizeram contrato com as Zetares, recebendo parte de seus poderes. Obs.: Obviamente, essa não é a Agathia do TLC. Só dei o nome em homenagem a ela. Obrigada pela atenção! Bjinhos! Até a próxi! ~-^/