Aliança

1 O peso da ausência


Notas iniciais
Bom, pessoal, não tenho experiência com fic, mas esse casal me intriga desde sempre e fiquei com essa história na cabeça, espero que aproveitem.

Sara encarava o mar azul em toda sua imensidão, era um local belíssimo e seus olhos acompanhavam o movimento de vai e vem das águas e a quebra das ondas, ela inspirou o cheiro da maresia e se sentiu em paz, ela se via vivendo ali mais que meros momentos aportados enquanto iam de lugar em lugar no barco do marido, ela sorriu consigo mesma ao pensar naquele barco, se há 5 anos dissessem que ela viveria num barco com ele, com certeza, ela colocaria uma expressão dura em seu rosto e perguntaria se aquilo era uma piada de mau gosto, mas aqui estava ela vivenciando essa vida, vendo as ondas se formarem e se quebrarem, ‘poderia ser uma metáfora para o meu casamento’ ela pensou.


- Aquí tiene, señora.- informou o garçom tirando-lhe do seu devaneio e lhe servindo uma piña colada que ela lembrava muito bem de não ter pedido.

- Lo siento, pero no pedí esto.- Sara explicou em um espanhol sofrível o que fez o garçom sorrir.

- ¿Lo prefieres en tu idioma?

- Sí, gracias!

- Aquele senhor me pediu para te entregar.- o garçom apontou com o queixo

para um homem 3 mesas a frente e ele ergueu seu drinque em forma de cumprimento.

- Desculpe... Aníbal.- ela leu em seu crachá de aço inox.- Não posso aceitar.

- Nem sempre funciona.- o garçom comentou recolhendo a bebida e Sara sorriu timidamente, ela viu o garçom se afastar em direção ao homem que enviou a bebida e se virou para voltar a olhar o mar, não queria dar margem para interpretação errada de ninguém, ela já estava no planeta terra por tempo demais para saber que um mísero bom dia poderia ser mal interpretado por alguém. Inspirou novamente o cheiro da maresia e relaxou outra vez, talvez ela realmente estivesse em um paraíso.

- Sabe.- uma voz masculina e desconhecida a fez abrir os olhos e virar seu rosto em direção ao homem.- Eu tô começando a ficar com inveja dessas ondas.- Sara viu o tal homem que o garçom apontou, de pé e segurando a bebida que há pouco mandara para ela.

O homem deveria ter a sua idade ou algo próximo daquilo, era bonito, tinha os olhos verdes, alguns fios grisalhos, barba por fazer e tinha a musculatura de seus braços bem definida ‘talvez ele tenha a altura do Gil’ ela pensou.

— Você é mais bonita de perto.

- Obrigada, mas sou casada.- ela respondeu sem rodeios e o homem estreitou os olhos.

- Casada? Não tô vendo aliança na sua mão.

- Minha palavra não basta para você?

- Já levei foras o suficiente para saber quando essa tática é mentira.- Sara revirou os olhos, tudo que ela não queria agora era ter sua paz perturbada por alguém que não sabe ouvir um não.

- Escuta, moço…

- Mark.

- Escuta, Mark, eu não preciso que você acredite em mim, eu só quero que você entenda que eu não quero sua bebida e nem suas cantadas.

- Você…

- Tá acontecendo alguma coisa aqui?- a voz de Gil em muitos momentos lhe parecia música em seus ouvidos e agora não foi diferente. Tanto o tal Mark quanto Sara direcionaram seus olhares para o homem mais velho e ele ergueu a sobrancelha diante do olhar do homem que foi da mão dele, onde brilhava sua aliança de ouro, para seu rosto.- Querida?- ele direcionou seu olhar a esposa e ela suspirou impaciente com a situação.

- Este senhor me ofereceu uma bebida e eu gentilmente recusei, mas aparentemente ele não sabe lidar com recusas.

- Eu… é… hum… me desculpe.

- Você tá pedindo desculpas para mim ou para ele?

- Desculpe, eu achei que você estava mentindo.

- Eu nem deveria precisar dizer que sou casada, por que o meu não já deveria ser o suficiente.

- É, você tem razão, eu… hum… me desculpe, é… aceite essa bebida como forma de desculpa, tá bem?- ele depositou a bebida na mesa e olhou para Grissom, ele não parecia assustado ou intimidado, mas, de repente, apareceu uma feição de respeito que Sara não visualizou sendo direcionada a ela.- Foi mal, cara.- o homem saiu com um passo mais apressado e voltou para sua mesa e quando ele olhou para o casal claramente sua cara tinha uma expressão constrangida. Gil engoliu o riso e antes de se sentar ao lado dela lhe depositou um beijo casto.

- Colecionando admiradores, querida?- ele questionou brincalhão, não era a primeira vez que algum homem paquerava Sara e em alguns casos quase houve vias de fato e não partiu dele nenhuma delas.

- Olha quem fala. “Ai, Dr. Grissom, o senhor é tão inteligente, deve ser fantástico conviver com o senhor”.- Sara imitou uma mulher de voz anasalada que eles encontraram em suas andanças e ele sorriu, ela sempre foi mais vocal que ele quando se tratava de ciúmes e em situações como essas ele achava engraçado.

- Você vai mesmo tomar isso?- ele questionou ao ver Sara levar o canudo da bebida a boca e ela deu de ombros, Grissom buscou com o olhar o homem que há pouco estivera ali, mas encontrou sua mesa sendo limpa por alguém do bar.- Você tomaria se ele ainda estivesse ali?

- Não. Conseguiu falar com o Carlos?- ela perguntou querendo mudar de assunto.

- Sim, teremos que ficar em Tulum por mais um tempo.

- Ah, que triste!- respondeu Sara com um tom irônico e ele sorriu.- Como é sofrível ter que ficar aqui mais um tempo.

- Parece que você gostou daqui.

- Você não?- ela perguntou na defensiva.

- Gostei, Sara, aqui é um paraíso, mas às vezes sinto falta de estar no mar.

- Podemos passear de barco e depois voltamos pra cá.

- É uma alternativa.- ele responde ao aceitar a sugestão.- Então, por que o Don Juan não acreditou em você?

- Por que segundo ele eu não estava de aliança. Humpf! Ele mandou a bebida por um garçom e eu disse que não, aí ele não contente com isso veio ouvir o não pessoalmente. “Casada? Não tô vendo aliança na sua mão”- Sara o imitou e de novo Gil sorriu.- Babaca.- ela xingou e voltou a se concentrar em sua bebida e no mar.


Sara não cansava de contemplar o mar e Gilbert Arthur Grissom não cansava de contemplá-la, ele apoiou seu queixo em sua mão e observou cada coisa de sua esposa, sua feição contemplativa, o bico que ela fazia para sugar o líquido que estava no copo, as marcas de expressões que passavam a integrar seu rosto, seus cabelos que vez ou outra apresentava uns fios grisalhos, ele amava Sara Sidle, ele tinha certeza disso, ele sabia que dizia isso para ela menos do que ela merecia ouvir, mas se certificava de ter atitudes que a fizesse ter certeza de que ele a amava, ele falhou com ela, ambos falharam um com o outro, mas eles conversaram, eles mudaram e ele não conseguia pensar em viver em mundo onde ela não faça parte da sua vida.

— Gil!- Sala estalou os dedos em sua frente e ele despertou do seu transe.- Você está bem? Estava com um olhar tão distante.

- “Se te comparo a um dia de verão és por certo mais belo e mais ameno, o vento espalha as folhas pelo chão e o tempo do verão é bem pequeno. Às vezes brilha o Sol em demasia, outras vezes desmaia com frieza; O que é belo declina num só dia, Na terna mutação da natureza. Mas em ti o verão será eterno, E a beleza que tens não perderás; Nem chegarás da morte ao triste inverno; Nestas linhas com o tempo crescerás. E enquanto nesta terra houver um ser, meus versos vivos te farão viver.”

- Shakespeare?- ela questionou com aquele sorriso jovial que o fez se apaixonar pra ela.

- Soneto 18. Você é um eterno belo dia de verão, Sara, com uma brisa que me faz ansiar por um banho gelado...- ele diz com um tom malicioso e ela estendeu sua mão para ele que a tomou para si e acariciou as costas de sua mão com o polegar.- E me faz querer mais dias como aquele. Há quem persiga o verão ao redor do mundo, mas eu só preciso estar com você, querida.

- Sabe, Gil, eu fiquei muito interessada no seu banho.- a sua fala e o seu sorriso tinham a malícia desenhada e ele não precisava de uma segunda sugestão para pegar sua esposa e dar o fora dali.


O casal pagou a conta e se dirigiram a casa em que estavam hospedados, Gil era um pouco averso a certos avanços tecnológicos, mas tinha que se render, esses aplicativos de locação de casas eram de fato bem conveniente, embora não se furtasse em ver e debater os malefícios que se fazia na mudança do conforto local com a especulação imobiliária, os locais que eles conseguiam sempre viam a calhar e proporcionava a possibilidade de viver com os locais.

Gil Grissom e Sara Sidle entraram na casa de forma cambaleante com beijos entrecortados por risadas ou por se afastarem para se desfazer de alguma peça de roupa, quando chegaram ao quarto só restava cueca e calcinha que prontamente também foram retirados, Gil os parou por um segundo, deixou a palma de sua mão na mandíbula de sara e acariciou o seio de sua face, ela suspirou com o carinho e fechou seus olhos, ele encostou sua testa na dela e a guiou para a cama devagar e ela sabia que naquele momento, aquele ato seria mais que o sexo puramente carnal.


Já era noite e os dois estavam na sala, sentados no sofá, Sara estava deitada no peito dele e repousava sua mão esquerda na barriga dele, ela gostava sentir sua barriga subindo e descendo e ela nunca soube explicar o porquê daquilo, simplesmente gostava, viu seu marido buscar em um serviço de streaming um documentário falando sobre a colonização espanhola e olhou pra TV sem realmente prestar atenção no conteúdo que estava sendo transmitido.


- Sabe, querida, podíamos aproveitar que vamos passar mais tempo aqui e comprar sua aliança.- Gil sugeriu enquanto fazia carinho no dedo anelar esquerdo de Sara, ela ficou em silêncio e ele sabia que ela tinha o ouvido por que no segundo que ele calou sua boca ele sentiu o corpo dela tensionar.- Sara?

- O quê?- ela respondeu um pouco mais ríspida que o normal ‘ou será que foi só impressão?’ ele pensou.

- O que acha de comprarmos sua aliança? Eu posso até ver uma nova pra mim também.

- Isso foi por conta do cara do bar?- ela perguntou levantando de seu peito.

- Não, eu só estava fazendo carinho no seu dedo e lembrei que a gente sempre fala de comprar uma aliança, mas toda vez que atracamos temos sempre que resolver mil coisas em pouco tempo e aí acabamos esquecendo disso.- ela ficou em silêncio.- Sara?- ele viu as feições dela mudar, uma carranca endurecida assumiu o seu rosto e ele não sabia o porque.

- Gil, eu não vou usar uma aliança pra alimentar sua sensação de posse.

- Posse?- ele perguntou estarrecido, Gil Grissom jamais se achou dono dela, muitas vezes ele não se achava sequer merecedor dela.

- Ah, e você vai me dizer que foi coincidência?- ela questionou levantando do sofá.

- Claro que foi, Sara, você sabe que eu não tenho sentimento de posse sobre você! Eu só sugeri por que isso é algo que a gente conversa e não é de hoje. Aliança nenhuma impede alguém de dar em cima da pessoa que a está portando.

- Exatamente, você é a prova viva disso!

- Eu sei! É por isso que não faz o menor sentido isso que você me acusa.

- Não vou comprar aliança, Gil, não vou.- ela impôs e saiu pisando da sala pisando duro. Ele foi em seu encalço sem entender o por que algo tão simples se transformou numa discussão.

- Onde você vai, Sara?- ele questionou ao vê-la trocar de roupa.

- Vou correr, Gil.

- Querida…

- Eu preciso correr, Gil.- ele continuou a encará-la e a viu trocar de roupa em silêncio, ele repassou toda a conversa em sua mente várias vezes tentando entender onde ele falhou e quando deu por si sua esposa já tinha saído do quarto e partido.


Gil detestava quando isso acontecia, lembrou da discussão que tiveram sobre Heather anos atrás quando ele passou a noite com a dominatrix e quando chegou em casa deu de cara com Sara saindo pra correr, Sara ficou tanto tempo fora que ele estava quase ligando para o Brass para comunicar um desaparecimento, mas antes que fizesse isso Sara entrou vermelha, esgotada e quente devido ao sol castigante de Las Vegas e só quis conversar com ele depois, naquele dia Gil lembrava-se dela pegando as chaves de seu apartamento e dizendo que dormiria lá que não queria conversar agora, que queria colocar a cabeça no lugar ou diria coisas que o machucaria e poderia minar a relação dos dois, Gil não se opôs só pediu para ela avisar quando chegasse em casa e soltou um raro ‘eu te amo’ ao que Sara respondeu um ‘eu também’ quase num sussurro e partiu, e naquele momento Gil Grissom sentiu que talvez a relação deles estivessem por fio, mas agora não entendia o que tinha acontecido, não tinha Heather, não tinha o ciúme, a insegurança, não tinha a sombra da rejeição que ele a infligiu por anos, apenas uma conversa trivial que ele não entendia como tinha terminado daquela forma.


Sara correu, Sara correu tanto que já não sentia mais as pernas, elas formigavam, seu peito ardia, a garganta queimava, estava seca era ruim até pra engolir, o ar parecia não querer parar em seus pulmões e mesmo assim ela tentava mais, depois dos seus episódios com bebida tantos anos atrás Sara descobriu na corrida um meio de extravasar, um meio de calar as vozes da sua cabeça e foi isso que ela tentou fazer agora, em sua corrida ela tentou desesperadamente calar as vozes da sua cabeça, mas não foi possível fazê-lo elas estavam lá, elas gritaram para ela não colocar um arco dourado em seu dedo novamente pois quando Gil decidiu pelo divórcio deles a aliança foi a primeira coisa que ela teve que tirar e aquilo doeu, aquilo doeu de uma forma indescritível, na primeira tentativa de tirar aquele objeto da sua vida ela sentiu que estava traindo o relacionamento deles e pôs de volta ao lugar que pertencia, ela ralhou o polegar na aliança numa tentativa vã de aplacar a ansiedade, mas ela sabia que teria que tirá-la dali e foi tirando de seu dedo gradativamente quase como se tivesse fazendo o desmame de um remédio, a desintoxicação de uma droga, Sara tirava e ficava um par a mais de horas a cada vez até chegar ao marco de 24 horas sem utilizá-la, dali por diante Sara teve que lidar com a marca de bronze que a aliança e deixou e com o peso de sua ausência em sua mão.


Sara cansou, Sara decidiu voltar andando ela não queria chegar em casa, ela não queria lidar com ele, não queria expor a ele aquilo, não, ela tinha enterrado aquilo lá no fundo e ela não estava desposta a exumar aquele corpo, eles estavam bem e ela não queria trazer de volta aquelas questões quando anos atrás em San Diego eles conversaram e disseram que tudo estava resolvido entre eles, ela não sabia como ele reagiria se ela despejasse aquilo tudo em cima dele, ele podia partir de novo, ele podia ver que ela ainda estava quebrada, que eles ainda estavam quebrados e pedir o divórcio outra vez, só de pensar em divórcio seu estômago embrulhava, o coração de Sara bateu mais forte e a ponta dos dedos das mãos começaram a formigar ‘nós não vamos nos divorciar’ ela repetia para si tentando se acalmar.


Sara parou para ver o mar que agora estava sendo banhado pela luz do luar, ela estava evitando voltar para casa e por isso se sentou para ver o mar ir e voltar e quebrar suas ondas e mais uma vez pensou que aquele movimento poderia ser a vida dela ou o seu relacionamento. Sara não sabia há quanto tempo estava fora, mas presumia que fazia um bom tempo e que provavelmente ele estava preocupada com ela afinal de contas ela saiu sem dizer para onde ia e estava sem seu celular, ela suspirou ao pensar em voltar para casa e se levantou, bateu em si para tirar a areia que grudou em seu corpo e voltou para casa com o estômago revirando e um amargor em sua boca.


Gil olhou para o relógio da cozinha e contabilizou que tinha quase 03 horas e 30 minutos que Sara saíra de casa sem dar qualquer ideia de seu paradeiro e tudo só ficou ainda pior quando ele tentou ligar e viu que o celular dela estava em casa, Gil estava em conflito sobre se ia atrás dela ou se a esperava em casa e aquilo estava matando-o, sem saber o que fazer esfregou a mão na testa e tomou mais um pouco do uísque que comprou quando chegaram a cidade ‘Deus, como eu odeio isso’ ele pensou e tomou o resto do líquido que estava em seu copo. Sem qualquer aviso Sara Sidle despontou na cozinha, seu cabelo estava assanhado e ela parecia exaurida, mas Grissom estava aliviado ela estava em casa e inteira e isso era o que mais importava.


- Sara.- ele a chamou.

- Agora não, Gil.- ela respondeu afastando-se.

- Sara.- ele falou com a voz firme, uma vez Sara disse a ele que aquele tom era o tom do Supervisor Grissom.- Precisamos conversar.- Sara sentiu o seu corpo gelar o tom firme dele a penetrou e tudo que ela pensou foi de que tinha chegado ao fim, novamente, o relacionamento deles.


Grissom andou até ela e seus olhos pousaram nos olhos dela e ele viu aquele olhar perdido que Sara às vezes deixava que ele visse quando estava cansada demais para disfarçar que tudo estava bem.

— Sara.- ele repetiu seu nome suavemente agora e ela fechou os olhos.- O que aconteceu, querida?- ele questionou e ela permaneceu de olhos fechados.- O que eu disse de tão errado para que a nossa noite terminasse assim?- Sara abriu seus olhos novamente e ele viu em seus lindos olhos castanhos o brilho das lágrimas que se acumulavam e dor.- Sara…

- Preciso beber.- ela respondeu e se encaminhou para onde ele estava há alguns segundos e se serviu do uísque.


O líquido desceu queimando e atingiu seu estômago como um soco fazia um tempo que ela não bebia dessa forma, mas hoje ela precisava, precisava para encarar entorpecida a decisão que fosse tomada ali. No terceiro copo que ela virou Gil se aproximou e afastou a garrafa dela e ela suspirou.


- Querida, por favor.- ele implorou com os olhos exprimindo toda a sua confusão.- Me explique, o que está acontecendo?

- Não quero usar aliança.- ela finalmente falou e os olhos dele se estreitaram cada vez mais confusos.- Não quero usar a aliança.- ela repetiu dessa vez olhando pra baixo.- Porque quando você pediu o divórcio eu tive que tirá-la e aquilo doeu. Nunca fui atrás de uma aliança depois que nos casamos novamente por que eu nunca quis usar uma e eu agradecia mentalmente todas as vezes que deixávamos isso para lá.- ela finalmente encontrou os olhos dele depois de dizer aquilo e viu a tristeza novamente, a mesma tristeza que vira quando conversaram sobre o relacionamento deles em San Diego.- Nunca perdi a minha aliança como disse a você quando nos casamos novamente, eu me desfiz dela, eu peguei aquela maldita coisa que só fez parte da minha vida por poucos anos, mas que parecia um membro importante do meu corpo e a enterrei bem longe de mim.

- Enterrou?- ele perguntou surpreso.

- Sim.- ela soltou uma risada fraca.- Peguei meu carro e uma pá e a enterrei onde Natalie tentou me enterrar naquele maldito Mustang vermelho.

- Sara…

- Uma parte nossa ficou ali, Gil, naquela merda daquele deserto, eu perdi você ali, eu me perdi ali e dali pra frente nosso relacionamento não foi mais o mesmo.- Sara sentiu as lágrimas descendo e baixou mais uma vez a cabeça.- Todo mundo descobriu sobre nós, nossa vida ficou sendo debatida ali, eu não podia fazer nada e nem você. Fiquei naquele inferno daquele deserto, querendo voltar para casa, querendo voltar para você e quando voltei para casa nada mais era o mesmo, eu não tinha mais você perto, eu trabalhava com várias pessoas que eu não conhecia e nem queria conhecer, tinha pesadelos com aquele Mustang, eu tinha pânico de raios, relâmpagos e trovões. Aquilo era uma merda!- o choro vinha de forma descontrolada assim como o seu fluxo de pensamento ela nem sabia mais o que dizer ou pensar ela só queria falar.- Las Vegas me deu você.- ela disse ao olhar pra ele.- E Las Vegas me tirou você.- Gil engoliu em seco, seus olhos umedeceram e ele precisou fechá-los por que não queria que alguma lágrima teimosa escapasse dali.- Eu tive nada, um pouco, metade e tudo de você e depois eu tive tudo, metade, um pouco e nada de você.- ela disse com um sorriso sofrido para um Grissom que ainda se mantinha de olhos fechados.- Então eu pensei ‘que se foda, Las Vegas, tome o que me resta!’ E enterrei nosso casamento lá. Depois daquilo, me tornei a bomba relógio que você conhece, turnos dobrados, insônia, remédios para dormir, álcool… tentei me reerguer foi difícil, eu passei por muita coisa, Gil muita coisa, coisas das quais eu nunca falei para você, mas Vegas ainda não tinha terminado comigo então quando eu achei que estava me reerguendo você voltou e não foi por mim.

- Sara…

- Você foi ajudar sua amiga, eu sei.- não tinha rancor ou indireta na fala de Sara ela já tinha feito as pazes consigo mesma sobre isso, mas era um fato ele ter voltado a cidade do pecado e também era um fato que ele não voltou por ela.- Mas quando você voltou e aquilo tudo girou em torno da Heather e do que vocês dois eram um para o outro eu cheguei a pensar que sua esposa nunca deveria ter sido eu e sim ela e talvez por isso eu tenha sido tão rude, me senti enganada por mim mesma, por ter criado uma história de um relacionamento que só existiu da forma como eu senti na minha cabeça e os os monstros que nunca deixaram de morar embaixo da minha cama estavam rindo da minha cara como se eu tivesse num sitcom dos anos 90. Eu sou grata por Lindsey ter me instigado a assistir aquela fita por que do contrário eu não estaria aqui com você, mas não quero usar aliança por que se você desistir de tudo eu não quero olhar para minha mão e sentir o peso da ausência e do fracasso retumbante que fomos nós dois mesmo eu tendo te amado todos os dias e por todos esses anos.


Um silêncio ensurdecedor tomou conta dos dois, o que poderiam dizer um ao outro, o que ele poderia dizer de diferente a ela? ‘Deus, eu não a mereço, eu nunca mereci e ainda assim ela está aqui’ ele pensou, ele não queria que o símbolo da união deles lhe causasse tanto sofrimento, ele não queria que ela sentisse que ele estava sempre disposto a jogar a relação dos dois fora, mas ele não podia culpá-la por se sentir assim afinal de contas foi o que ele fez e não foi só uma vez ele se arrependia do tempo perdido, ele se arrependia de tê-la rejeitado, ele se arrependia de tê-la deixado ir, ele se arrependia de ter aceitado tudo tão calado, de não ter confrontado, ele se arrependia de tantas coisas e mesmo assim ela ainda a conseguiu de volta e estava aqui com ele em Tulum.


- Desculpe.- ele iniciou e ela olhou pra ele, seus olhos castanhos o fitando intensamente na expectativa do que viria a seguir e ele conhecia sua esposa o suficiente para saber que ela estava esperando que ele tomasse alguma decisão sobre eles.- Não posso mudar o passado, querida, eu falhei, eu sei, minha mãe não me deixou esquecer disso e nem minha consciência.

- Não quero que se sinta culpado, foi por isso que eu sempre escondi isso.

- Eu sei e não quero que você ache que eu penso que você está me culpando, mas ainda há culpa em mim e todos os dias quando eu acordo e te vejo deitada comigo eu penso que eu sou um grande filho da mãe sortudo… nunca, Sara, nunca, existiu alguém que devia ser minha esposa que não fosse você, se não fosse você eu ainda estaria naquele laboratório olhando para o microscópio como dizia a Catherine. Você me deu pelo que ansiar, você me deu momentos que naquela altura da minha vida eu achei que já tivesse passado e faz o mesmo agora. Foi difícil para mim também tirar a nossa aliança, eu a encarei tantas vezes tanto no meu dedo quanto fora dele que eu achei que ela estava começando a ficar quente, então eu a guardei, por que nos dias em que a culpa me engolia, nos dias que eu pensava em você com mais força do que nos outros dias, quando o nosso aniversário chegava eu a colocava no meu dedo e fingia que ainda estávamos juntos, fingia que você estava me esperando e que estava com saudades de mim, fingia que você estava me esperando para jantar com Hank aos seus pés sentindo sua expectativa de me ver chegar, fingia que te levava para nossa cama e fazia sussurrar meu nome, fingia que eu tinha tido a coragem de fazer as perguntas cujas as respostas eu tinha medo de ouvir, fingia que você ainda era a minha e que todo o resto não passou de um sonho maluco.- o pesar estava ali explicito e Sara viu seus olhos de menino, mas não era os olhos de menino levado que ela se acostumou a ver na intimidade dos dois ou quando ele conseguia comprovar suas teorias, foi o olhar de um menino perdido, que ela só lembra de ter visto no sequestro do Nick, quando ela estava no hospital e no luto pela morte de Warrick.- Nunca mais quero perder o que temos, Sara, e se você não quiser usar aliança tá tudo bem, eu não me incomodo, eu só quero que você saiba que eu amo você e que eu vou passar o resto dos meus dias tentando ser o cara que eu deveria ter sido para você desde o começo.- nenhum dos dois soube dizer quem deu o primeiro passo, mas quando viram os dois estavam abraçados.


Sara e Grissom permaneceram um nos braços do outro era um abraço apertado, de amor, de saudade, de arrependimento e de angústia, eles não mereciam ter passado por nada daquilo, mas passaram, algumas coisas por escolha deles e outras por escolhas que fizerem por eles, mas no fim estavam ali, com suas feridas cicatrizadas e outras em processo de cura, levaria tempo, mas eles continuariam corrigindo aquilo que fez o casamento deles ruir da primeira vez e quem sabe um dia ela teria coragem de colocar uma aliança em seu dedo outra vez.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Até mais!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!