Alianças de Sangue e Ferro

21 O Vento da Liberdade e a Proposta do Campo



​O ar nos jardins de Versalhes parecia denso demais para o que Alice e Lucas precisavam. Após o tenso café da manhã, Lucas ordenou que preparassem dois dos melhores cavalos. Ele precisava tirar Alice debaixo do olhar vigilante de Katherine e das paredes que ecoavam as tradições da corte.

​Eles cavalgaram em silêncio por um longo tempo, deixando para trás os gramados perfeitamente podados e entrando nas trilhas mais selvagens da propriedade real. O som das ferraduras batendo na terra e o vento batendo no rosto trouxeram a Alice uma sensação de paz que ela só sentia na Inglaterra.

​Quando chegaram a uma colina que dava vista para um vale sereno, Lucas puxou as rédeas, sinalizando para pararem. Ele desmontou e ajudou Alice a descer, mantendo o toque breve e respeitoso.

​— Alice — começou ele, olhando para o horizonte antes de encarar os olhos dela. — Eu estive pensando sobre o que você disse. Sobre se sentir usada, sobre esse casamento ser uma prisão.

​Alice cruzou os braços, sentindo o peso da coroa mesmo sem usá-la. O que o "Leão" queria agora?

​— Tenho uma proposta para você — continuou Lucas, a voz séria. — Existe o Castelo de Verão, na região do Vale do Loire. É longe o suficiente de Versalhes para que meus pais não possam aparecer para o desjejum sem aviso prévio. É um lugar vasto, com florestas e silêncio.

​Alice franziu o cenho, ouvindo com atenção.

​— Podemos pedir permissão para nos mudarmos para lá, alegando que queremos "privacidade para o casal" — ele fez um sinal de aspas com os dedos, mas seu olhar era sincero. — Lá, Alice, as regras podem ser nossas. Eu sei que você não me quer como marido. Eu sei que o que aconteceu na noite de núpcias foi uma violência ao seu espírito.

​Ele deu um passo para trás, dando-lhe espaço.

​— No castelo de campo, teremos aposentos separados. Alas diferentes, se você preferir. Você poderá cavalgar, caçar, ler e viver sua vida sem que eu a force a nada. Seremos aliados diante do mundo, mas dentro daquelas paredes, você será livre de mim. Eu não vou cobrar o papel de marido de uma mulher que só está ao meu lado por obrigação.

​Alice ficou em silêncio, o vento bagunçando seus cabelos loiros. Ela olhou para Lucas, buscando qualquer sinal de armadilha ou veneno, mas encontrou apenas uma honestidade crua que a desarmou. A oferta de liberdade era o presente mais precioso que ele poderia dar.

​— E o herdeiro, Lucas? — perguntou ela, a voz baixa. — Seus pais não vão esquecer a cobrança.

​— Ganharemos tempo — ele respondeu. — Diremos que estamos tentando. Katherine e Ricardo não podem entrar no nosso quarto se estivermos a quilômetros de distância.

​Alice olhou para o vale, sentindo uma ponta de esperança. Pela primeira vez, ela viu em Lucas não o inimigo que a acorrentava, mas o único homem capaz de abrir a cela.

​— Por que está fazendo isso? — ela perguntou, virando-se para ele. — Três anos atrás, você teria adorado me ver presa.

​— Três anos atrás, eu era um menino idiota que achava que o mundo girava em torno do meu próprio ego — admitiu ele, aproximando-se apenas o suficiente para que ela sentisse sua presença. — Agora, eu só quero que você não me olhe como se eu fosse o seu maior erro.

​Alice deu um suspiro longo, o primeiro suspiro de alívio em muito tempo.

​— Aceito, Lucas. Vamos para o campo.