Alianças de Sangue e Ferro
17 O Sacrifício no Altar de Seda
O corredor que levava aos aposentos reais estava iluminado por tochas que projetavam sombras alongadas e inquietantes nas paredes de pedra. Não havia a intimidade que um casal recém-casado esperaria; em vez disso, o caminho era um cortejo fúnebre da privacidade. Seguindo as tradições mais rígidas e arcaicas da corte francesa, Alice e Lucas não estavam sozinhos.
Atrás deles, o Arcebispo de Paris caminhava com seu báculo de ouro, seguido pelo Conselho Real, por Ricardo e por uma Katherine que mantinha a expressão impassível, embora seus olhos estivessem atentos.
As portas duplas do quarto nupcial foram abertas. No centro do imenso aposento, a cama monumental erguia-se como um palco. Dosséis de veludo carmesim pendiam do teto, e cortinas de seda branca, quase translúcidas, cercavam o leito. O ar cheirava a incenso e lavanda, uma mistura que Alice achou sufocante.
— O contrato de sangue deve ser validado pela carne — declarou o Arcebispo, sua voz ecoando no silêncio solene. — Que os noivos se deitem para que a legitimidade desta união e a pureza da nova Rainha sejam atestadas perante Deus e os homens.
Alice sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ser observada, mesmo que por silhuetas atrás de cortinas, era a última humilhação. Ela olhou para Lucas. Ele parecia ter perdido parte de seu veneno; seu rosto estava rígido, a mandíbula travada enquanto ele observava o Conselho se posicionar em volta do quarto.
Lucas aproximou-se de Alice e, com mãos que tremiam quase imperceptivelmente, começou a desatar os cordões de seda do seu ombro.
— Parece que o seu show real tem uma plateia maior do que esperávamos, não é? — sussurrou ele, a voz rouca, tentando manter o sarcasmo para esconder o desconforto.
Alice não respondeu com palavras. Ela permitiu que o vestido pesado caísse, ficando apenas em sua fina camisola de seda. Ela caminhou até a cama e deitou-se, o olhar fixo no dossel acima, recusando-se a olhar para as sombras dos conselheiros através do tecido fino das cortinas.
Lucas deitou-se ao lado dela. O Arcebispo aproximou-se da borda das cortinas, fechando-as completamente. Agora, eles eram apenas vultos para quem estava fora, mas o som e a movimentação seriam monitorados pelos ouvidos atentos dos homens que decidiam o destino das nações.
— Você está tremendo — notou Lucas, inclinando-se sobre ela. Sua voz era um sussurro que mal atravessava o espaço entre seus lábios.
— Não é medo, Lucas. É nojo — mentiu Alice, embora seu coração batesse tão forte que ela tinha certeza de que o Arcebispo podia ouvi-lo. — Faça o que tem que fazer. Dê a eles a prova que querem e termine com este teatro.
Lucas parou, observando o rosto de Alice sob a luz fraca que atravessava a seda. Por um breve segundo, o "Leão das Tavernas" e a "Loba Inglesa" desapareceram, restando apenas dois jovens esmagados pelo peso de suas coroas. Mas a vulnerabilidade durou pouco. Lucas aproximou o rosto do dela, um brilho de determinação voltando aos seus olhos.
— Se é um herdeiro que eles querem, e um sacrifício que você deseja... eu farei questão de que você não esqueça que, nesta noite, a França e a Inglaterra se tornaram uma só — disse ele, sua mão subindo para o rosto dela em um toque que era, ao mesmo tempo, possessivo e estranhamente cuidadoso.
Do lado de fora, o conselho aguardava o sinal. Ricardo mantinha a mão no punho de sua espada, e Katherine fechou os olhos, ouvindo o silêncio ser quebrado pelo movimento dos lençóis e pelos sussurros que selariam, de uma vez por todas, o futuro dos dois reinos.
O destino estava consumado.
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