Alianças de Sangue e Ferro
2 O Peso das Coroas e o Gelo nas Veias
O eco dos brindes ainda ressoava pelas paredes de pedra de Versalhes, mas o calor do banquete não fora suficiente para derreter a frieza que se instalara entre os novos membros da família real. Com o fim da celebração oficial, o Rei Ricardo conduziu a Rainha Katherine para a varanda privativa dos aposentos reais, onde o ar noturno da França soprava carregado com o perfume dos jardins. Ricardo quebrou o silêncio primeiro, sua voz rouca e direta, desprovida dos adornos que a corte francesa tanto prezava.
— Sua corte é um ninho de víboras adornado com seda, Katherine — disse Ricardo, apoiando as mãos pesadas no parapeito de mármore. — Meus homens se sentem vigiados a cada passo, e eu não os culpo. Vim aqui para garantir que meu reino não colapse, mas não esperava ter que polir cada palavra como se fosse uma joia.
Katherine aproximou-se, sua expressão imperturbável sob a luz da lua. Ela ajeitou as luvas de renda antes de responder com uma calma cortante.
— Seus homens são soldados, Ricardo, e aqui estamos em um campo de batalha diferente. Se você quer que a Inglaterra sobreviva, Alice precisa deixar de ser uma amazona rebelde para se tornar uma peça no tabuleiro. Eu a ensinarei a etiqueta, mas você deve garantir que seu filho Marcone entenda que a frota francesa agora é sagrada.
— Alice é um desafio que eu nunca soube vencer — admitiu o rei, um lampejo de cansaço cruzando seus olhos. — Ela tem o sangue dos Tudor; é fogo e teimosia.
— E eu sou o gelo que apagará esse fogo, se for necessário para salvar meu trono — retrucou Katherine, fixando o olhar no dele. — Nosso contrato não prevê afeto, apenas estabilidade. Estamos entendidos?
Enquanto os soberanos selavam seu pacto de sobrevivência, Marcone e Sofie caminhavam pelos corredores laterais da biblioteca, onde o cheiro de couro e pergaminho parecia oferecer um refúgio do caos político. Diferente de seus pais, havia uma eletricidade de respeito mútuo entre os dois. Marcone parou diante de uma estante imensa e observou a jovem ao seu lado.
— Confesso que esperava encontrar uma princesa preocupada apenas com o brilho das tiaras, Sofie — comentou Marcone, com um sorriso leve. — Mas sua análise sobre as rotas comerciais durante o jantar foi... inesperada.
Sofie sorriu, fechando um pequeno livro que segurava.
— Na França de minha mãe, uma mulher sem conhecimento é uma mulher sem armas, Marcone. Eu não pretendo ser apenas uma decoração neste palácio. E você? Parece mais interessado em estratégia do que em banquetes.
— Eu prefiro um mapa honesto a uma conversa de salão cheia de segundas intenções — ele respondeu, aproximando-se um passo. — Acho que nós dois somos os únicos aqui que entendem o peso real dessa união. Se nossos pais buscam poder, talvez nós possamos buscar algo mais sólido: uma parceria real.
— Uma parceria — repetiu Sofie, testando a palavra. — Gosto disso. Manteremos os olhos abertos por eles, então?
No entanto, a serenidade entre os primogênitos era inexistente no pátio das fontes. Alice chutava as pedras do caminho com suas botas pesadas, o rosto vermelho de indignação, enquanto Lucas a seguia, mantendo uma distância segura, mas carregada de desdém.
— Você vai acabar quebrando um dedo e culpando o chão francês por isso — provocou Lucas, cruzando os braços. — Não consegue caminhar como uma dama por apenas cinco minutos?
Alice parou bruscamente e virou-se para ele, os olhos faiscando.
— Eu não pedi para ser uma dama francesa, Lucas! E certamente não pedi para ser seguida por um pavão que acha que o mundo gira em torno do seu próprio reflexo. Na Inglaterra, nós valorizamos a liberdade, não essas rédeas de ouro que vocês chamam de etiqueta.
Lucas soltou uma risada seca e deu um passo em direção a ela, diminuindo a distância.
— Liberdade? O que você chama de liberdade, eu chamo de falta de modos. Você é um insulto à elegância deste palácio. Minha mãe vai transformar você em algo suportável, ou você vai acabar sendo o motivo do fim dessa aliança antes mesmo da primeira lua cheia.
— Tente me mudar, Lucas — desafiou Alice, aproximando o rosto do dele, a voz baixa e perigosa. — Tente me prender em seus vestidos de seda e suas regras fúteis. Eu prometo que vou incendiar este palácio antes de me curvar a um Petrovic.
— Então a guerra começou — concluiu Lucas, com um brilho de fúria nos olhos.
— Ela começou no momento em que você abriu a boca — rebateu Alice, dando as costas e deixando o príncipe sozinho no frio da noite, sentindo que a paz assinada no papel era, na verdade, o início de uma batalha sem precedentes.
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