Alianças de Sangue e Ferro
23 A Tempestade e o Refúgio das Almas
O céu do Vale do Loire, que amanhecera com um azul cristalino, mudou de humor no meio da tarde. Alice e Lucas haviam se afastado bastante do castelo, explorando uma trilha densa que margeava as colinas, quando o primeiro estrondo de trovão ecoou pelas montanhas, fazendo os cavalos relincharem inquietos.
— Precisamos voltar! — gritou Lucas, olhando para as nuvens de chumbo que avançavam velozes.
Mas a natureza foi mais rápida. Antes que pudessem dar meia-volta, uma chuva torrencial e gélida desabou sobre eles, transformando o solo em lama e reduzindo a visibilidade a poucos metros. O vento soprava com uma fúria que cortava as roupas de montaria.
— Por aqui! — Lucas guiou Alice até uma pequena cabana de caçadores, feita de toras grossas e pedra, escondida entre os carvalhos.
Eles entraram às pressas, encharcados até os ossos e tremendo violentamente. O interior da cabana era rústico: apenas uma lareira de pedra, um monte de lenha seca em um canto e uma cama de palha coberta por peles grossas de animais.
O Calor das Chamas
Enquanto a tempestade rugia do lado de fora, Lucas ajoelhou-se para acender o fogo. Suas mãos tremiam pelo frio, mas ele persistiu até que as primeiras chamas começassem a lamber a lenha.
— Alice, você precisa tirar esse casaco molhado — disse ele, sem olhar para ela, respeitando sua privacidade. — A hipotermia é mais perigosa que qualquer etiqueta.
Eles se acomodaram diante da lareira, enrolados em mantas de lã que encontraram em um baú. O silêncio da cabana era preenchido apenas pelo estalar da madeira queimando e pelo som da chuva batendo no teto de colmo. O gelo que Alice sentia não era apenas externo; era o resquício do trauma que ainda a habitava.
O Aconchego Necessário
Conforme a noite caía e a temperatura caía ainda mais, o frio tornou-se insuportável. A cabana não tinha o isolamento do castelo, e o vento assoviava pelas frestas das toras. Alice, encolhida em um canto da cama de palha, não conseguia parar de tremer.
Lucas a observava do outro lado. Ele prometera não encostar nela, mas vê-la sofrer era pior do que quebrar sua própria palavra.
— Alice — ele chamou suavemente. — O fogo não vai dar conta do frio da madrugada. Se não compartilharmos o calor corporal, vamos amanhecer doentes.
Alice olhou para ele. Não havia luxúria nos olhos de Lucas, nem a urgência venenosa de antes. Havia apenas uma preocupação genuína e o companheirismo que haviam construído nos últimos dias. Ela assentiu, estendendo a mão.
— Venha, Lucas.
Ele se deitou ao lado dela, e Alice imediatamente se aconchegou em seu peito. Lucas a envolveu com seus braços fortes, cobrindo ambos com as peles de urso. Diferente da noite de núpcias, não havia tensão sexual agressiva, nem a sensação de invasão. Era um abraço de sobrevivência, de cuidado.
— Seus pés estão como gelo — murmurou Lucas, tentando aquecê-los com os seus.
— E os seus braços parecem fornalhas — ela respondeu, soltando um suspiro longo e, pela primeira vez, relaxando completamente nos braços dele.
Eles ficaram ali, no escuro, ouvindo a respiração um do outro. Alice sentia o cheiro de chuva e lenha que emanava de Lucas. Naquele abrigo improvisado, sem títulos, sem coroas e sem expectativas, eles se aproximaram mais do que em qualquer baile de gala. Alice percebeu que o coração de Lucas batia no mesmo ritmo calmo que o dela, e a sensação de segurança começou a preencher os espaços vazios de sua alma.
Eles dormiram assim, entrelaçados pela necessidade do calor, descobrindo que, às vezes, o silêncio e o respeito são os maiores atos de intimidade que um homem e uma mulher podem partilhar.
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