Aliança Gennaía Kárdia
1 Capítulo 1: Festa dos Magos
Notas iniciais
Um mundo em que a magia é usada normalmente no cotidiano de seus habitantes, até mesmo para sustentar todo o solo e movimentar toda a água dos dois únicos e grandiosos mares que cercam os cinco continentes, esse é Énix, um mundo pertencente a uma dimensão completamente diferente desta que estamos. E nesses continentes, vários habitantes de todos os tipos vivem e convivem de diversas maneiras. A começar pelas várias alianças, que são como grandes cidades, constituídas por clãs dos mais variados tipos.
Na Aliança Gennaía Kárdia, uma das maiores de todo Énix, os habitantes vivem pacificamente, exceto por algumas confusões de rotina. Olhando-a de longe, podemos ver construções feitas de tijolos e cimento, com diversas pinturas e telhados altos em muitas das construções. As ruas são moldadas por pedras retangulares e as pessoas circulam livremente por elas, com vestes que comparadas ao nosso mundo, mesclam diversas épocas, desde os tempos modernos até os tempos antigos, mas para eles, tudo faz parte de uma única época.
Correndo pelas ruas, com um sorriso no rosto pardo e olhos castanhos de pura confiança e energia, Fred não mais chama a atenção das pessoas que estavam habituadas a vê-lo assim, sempre cheio de vitalidade e animação. Com dezesseis anos, cabelos negros, lisos e rebeldes, um corpo magro e definido – e não é pra menos, já que ele não para um segundo sequer — Fred é conhecido como o Guerreiro Leão, devido as suas técnicas. E aos poucos ele vai diminuindo a velocidade da corrida, chegando a uma grande casa de madeira bem conservada e atrevidamente abrindo a porta com certo exagero, causando um estrondo que acaba por assustar quem estava no interior.
–AAAH! Finalmente está para chegar a Festa de Magos desse semestre! – Exaltou Fred, erguendo os punhos para o alto e sorrindo de orelha a orelha.
–Hei idiota! Por que está tão animado? – Questionou com rispidez uma garota ruiva, cabelos lisos, de pele bem clara e olhos castanhos.
–Ah, você sabe, Mel. O Fred sempre fica animado porque pensa que vai vencer aquele mago do clã Neer. – Respondeu um garoto, com um olhar cínico para Fred logo em seguida.
–É claro que vou! – Exclamou Fred, mostrando os dentes em um sorriso desafiador. –Aquele Max vai aprender uma lição pra não esquecer nunca mais.
–Max Neer? Você vencê-lo? Sai fora! Você nunca conseguiu durar mais de dez segundos contra ele. Nem sei como ainda podem te chamar de Guerreiro Leão. Tá mais pra Caçador de Coelhos. – Debochou o mesmo garoto.
–Tá querendo brigar, Cabeça de Neve? – Questionou Fred, se aproximando do garoto que não recuou e encarou de volta com frieza.
Ambos ficaram bem próximos, Fred e o garoto, Nikolas. Mesma idade, embora fosse apenas nisso e em outros raros detalhes que eles se pareciam. Os olhos azuis de Nikolas e seus cabelos incrivelmente brancos e lisos o tornavam bem popular na cidade entre as garotas, mesmo que ele não ligasse para isso. E naquele momento, mais uma discussão estava para acontecer, no entanto, aquilo era especialmente comum, pois Fred era facilmente tirado do sério e Nikolas era mestre em conseguir isso.
–Se tentar, não vai durar nem um minuto. – Retrucou Nikolas, sorrindo de um jeito zombeteiro.
–Ei, ei... Não comecem com isso de novo. Se o mestre Lei ver uma coisa dessas... – Dizia Mel, quando mais alguém entra na casa.
Todos pararam para olhar quem era. Um homem alto e forte, pardo, cabelos negros longos e lisos que eram presos por um rabo de cavalo, trajando um colete azul-marinho que deixava seu tórax exposto e calça longa, preta. Esse é Lei, um mestre xamã que não aparentava a idade que tinha, cinquenta anos, podendo-se confundi-lo com um homem de trinta e cinco.
–Crianças, parem com isso. – Pediu-lhes Lei, com um semblante sereno e um pequeno sorriso que demonstrava um ar confiável de tranquilidade.
–Não sou criança! – Exaltaram-se Fred e Nikolas, em uníssono.
–Ah, mas é claro que não. – Disse Lei com aquela mesma tranquilidade. –É por isso que ambos devem agir como adultos que são e pedir desculpas um para o outro.
–Nem morto! –Outra vez Fred e Nikolas em uníssono, indignados.
–Agora! – Exclamou Lei, mudando bruscamente o semblante e dessa vez, incrivelmente ameaçador, para deleite de Mel que não conseguia esconder os risos e para o terror dos garotos que arregalavam os olhos.
–Sim, senhor! – Responderam Fred e Nikolas, em uníssono e claramente com medo.
–Você primeiro. –Disse Fred, contrariado.
–Você que começou, vai você primeiro! – Retrucou Nikolas, ainda mais indignado.
O mestre Lei olhou para os garotos como se estivesse prestes e torturá-los da pior forma possível, tombando um pouco a cabeça para o lado e mais lembrando um psicopata prestes a agir se eles não fizessem logo aquilo. Enquanto isso, Mel se acabava de rir, colocando a mão sobre a boca e corando o rosto.
–Desculpa! – Disseram os garotos, outra vez em uníssono e assustados.
Instantaneamente, Lei voltou ao semblante calmo e sereno, colocando as mãos nas cabeças dos dois e sorrindo.
–Muito bem! Adoro quando vocês se entendem. – Disse o homem aos garotos, como se o ato de se desculpar tivesse sido por livre e espontânea vontade. – E você, Fred, trate de não se animar tanto. O mago Max, do clã Neer, é um ano mais velho do que você e muito mais experiente em batalhas.
–Sem essa! Eu vou acabar com ele. Dessa vez eu vou derrotá-lo! – Exclamou Fred, novamente animado.
–De qualquer maneira, a Festa dos Magos vai acontecer no início da noite. Até lá, trate de não conseguir um bom motivo para te expulsarem. Tente ficar... Como eu poderia dizer? Hum, sim, é claro. Ficar quieto. – Disse o mestre Lei com um pequeno toque de sarcasmo.
–Até parece. Esse idiota sempre tem que aprontar alguma e estragar tudo. Isso quando não é derrotado. – Zombou a ruiva Mel, para a completa indignação de Fred e risos de Nikolas.
–Aquele mago de araque vai cair hoje. E é melhor que se lembrem bem do que estou dizendo, não vou perder. Não mesmo! – Retrucou Fred, absolutamente determinado e confiante, deixando a casa em seguida.
Mel e Nikolas começaram a zombar, porém o mestre Lei – mesmo com aquele sorriso irônico – tinha um brilho diferente nos olhos, como se pudesse enxergar além das aparências, já que Fred não demonstrava qualidades suficientes para derrotar um mago mais experiente. Era um garoto agitado e problemático, mas sempre determinado e que jamais abaixava sua cabeça por muito tempo. Talvez isso deixasse o mestre Lei mais confiante de que dessa vez, Fred surpreenderia, pois também era algo que ele havia aguardado por muito tempo.
–Maldição! Algum dia eu vou te pegar, garoto dos infernos! – Gritava um comerciante para Fred que corria sorridente e tentava desviar das laranjas que lhe eram arremessadas, enquanto mastigava uma espécie de fruta vermelha do tamanho de uma maçã, que tinha uma listra grossa e dourada ao redor.
–Quando eu vencer as competições na Festa dos Magos volto para te pagar. – Gritou Fred, ainda correndo alegremente.
–Quer dizer nunca! Maldito garoto! – Retrucou o comerciante, voltando para a barraca.
Fred sorriu ainda mais com aquilo, mordendo um grande pedaço da fruta e entrando num beco vazio, já bem distante da barraca daquele comerciante. Sentou-se em uma caixa velha de madeira para terminar de saborear o que acabara de roubar, seu sorriso diminuindo aos poucos, mas ainda sim existindo e acompanhando o olhar confiante.
–Adoro mahlane. É a melhor fruta que já comi na vida, não tem nada igual. – Comentou para si, mordendo outro pedaço. – Eles vão ver só. Vencerei o Max de qualquer maneira.
O sol já estava se pondo e a noite mais esperada do semestre na aliança tinha início. No pátio central, várias barracas de cores distintas com diversos tipos de comida, bebida e outros produtos, já haviam sido montadas e muitas pessoas já transitavam por ali. O lugar era iluminado por uma fogueira no centro e várias tochas que flutuavam a mais de cinco metros do chão, espalhadas por todo o local. Mais ao fundo, estava localizada a arena que, especialmente nesta noite, seria usada para as competições. Era uma arena enorme, que comportava lugares para um grande público e tinha apenas solo puro como piso.
Pessoas importantes começavam a chegar, tais como os líderes dos cinco clãs, mestres e generais. Eles tinham um espaço próprio na arquibancada da arena e estavam cercados por mordomias. Mas um deles estava mais preocupado em pedir comida, este era o mestre Lei que sequer demonstrava preocupação com os bons modos da rígida etiqueta dos demais, que já haviam se acostumado com o jeito, segundo eles, selvagem do companheiro.
–Lei, seus garotos estão prontos para as competições? – Questionou um homem branco, baixinho, bem mais velho, calvo e de barba avantajada e prateada, da mesma cor do pouco cabelo da cabeça.
–Se estão prontos... Sim, eles estão. Para vencer e para perder, mestre Richard. – Respondeu-lhe o mestre Lei com um sorriso tranquilo e só então virou a cabeça para olhar o companheiro.
–Entendo. Vindo de você, posso esperar por grandes surpresas. Não sou tão tolo para duvidar do que faz, Lei.
–Por favor, eu fico sem jeito e ao mesmo tempo lisonjeado, mestre Richard. Sou um simples mestre, o único que não bate bem da cabeça, segundo os nossos colegas. E eles estão certos, eu sou meio doidão. – Fez uma careta que trouxe risos ao mestre Richard.
No centro da arena, membros do clã Ignis começavam a entrar, em uma formação impecável – três fileiras de integrantes que trajavam diversos tipos de roupas, mas todas em cores vermelho e preto. Esse era indiscutivelmente o maior clã da aliança e também o mais respeitado por ter os melhores guerreiros e ser o único a possuir paladinos. Depois deles, vieram os do clã Neer, na mesma formação do clã anterior, com a diferença nas cores das roupas dos membros, todas em azul e branco. Era o segundo maior clã da aliança e também o mais disciplinado, com magos excepcionais e um treinamento rigoroso em magia.
Do lado de fora da arena, Fred, Mel e Nikolas terminavam de comer o tão delicioso algodão da montanha, semelhante ao algodão doce que conhecemos, porém ao entrar em contato com a boca, ficava cremoso ao invés de derreter.
–Isso é uma delícia – Comentou Mel, enrolando o algodão no dedo e o colocando na boca – Mas precisamos nos apressar, as competições vão começar daqui a pouco.
–Aaaah, agora que eu comi, estou pronto para colocar aquele Max no seu devido lugar – Disse Fred, descartando o palito do algodão e batendo punho na mão, todo animado.
–Sai fora, você ficou repetindo isso o dia todo, mas nem sabe se vai mesmo lutar contra o Max. Já se esqueceu de que é decidido na sorte? – Questionou Nikolas.
–É verdade, Fred. E se a gente demorar mais, vamos ficar de fora do sorteio. – Avisou Mel e em seguida os três partiram apressadamente em direção à arena.
Enquanto isso, no centro da arena, todos os cinco clãs já haviam entrado e estavam se apresentando. E acima deles, uma nuvem estranha e baixa começava a se formar, porém mesmo aqueles que percebiam a presença dela, entendiam que aquilo era algo normal para a ocasião. Aos poucos, a nuvem se dispersou e em seu lugar surgiu uma enorme boca que colocou a língua para fora e foi passando por entre os lábios, umedecendo-os. Alguns começaram a rir na arquibancada e ouvi-se comentários como “ele sempre faz isso”, “ele não tem jeito”, dentre outros.
–Senhoras e senhores! A competição da Festa dos Magos está para começar – Começou a falar com branda voz aquela mesma boca, em altura suficiente para todos ali escutarem – Como já sabemos, esse evento foi criado para celebrar a chegada dos magos que lutaram bravamente na terceira guerra e retornaram vitoriosos, garantindo a permanência da nossa aliança. Ele acontece duas vezes ao ano, uma vez por semestre e tem como atração principal as competições da arena que são divididas nas seguintes modalidades: luta de nível B, luta de nível A, luta de nível S e o combate final, que como todos sabemos, será o confronto entre os três vitoriosos das lutas anteriores contra uma criatura de nível super S. Todos desses três níveis podem participar, possuindo clã ou não.
Do lado de fora da arena, nos corredores abaixo das arquibancadas, Fred, Mel e Nikolas aguardavam sentados, na companhia dos outros competidores. O clima era de tensão, uma conversa rápida aqui, outra ali e uma troca pesada de olhares. Talvez Fred fosse o único que não estivesse preocupado com aquele clima, mas sim com a ausência daquele que tanto havia esperado para enfrentar; o mago Max, do clã Neer. Momentos mais tarde, chegou um garoto que chamou a atenção dos outros competidores. Cabelos loiros, roupas como calça, camisa e uma enorme capa, tudo em azul e branco, sem mencionar aquele olhar implacável, sério e penetrante, de fato havia acabado de chegar à pessoa que Fred tanto havia esperado. Agora, apenas desejava poder lutar contra ele e que isso fosse logo. Se tivesse que derrotar os outros para enfrentar Max, assim o faria, esse era seu pensamento e não iria desistir até conseguir. Nikolas e Mel, assim como todos os outros, observavam o mago loiro do clã Neer, só que ao contrário dos demais, ambos logo desviaram o olhar para uma direção qualquer, não queriam ter de enfrentar alguém cujos poderes eram conhecidos por muitos.
–Por mais que ele seja um mago de classe A, como Fred, você e eu, ainda sim parece bem distante das nossas capacidades – Comentou Nikolas, em voz baixa para Mel e esta apenas o olhou e concordou com a cabeça, dando outra rápida olhada em Max.
O sorteio havia começado e a enorme boca flutuante no centro da arena já começava a chamar os primeiros competidores. Os minutos foram passando e as lutas acontecendo, alguns ficando feridos e outros nem tanto. Fred fechava os punhos, olhando na direção da arena e tentando ver alguma coisa, o pouco que podia daquele corredor. Max ainda estava ali, não havia sido chamado e isso tranquilizava Fred um pouquinho.
–Nikolas Glayweer contra Sophia Nywall. – Anunciou a boca flutuante.
–Enfrentar alguém do clã Nywall não é problema. O problema é ter que enfrentar uma garota. Saco! – Queixou-se Nikolas, levantando e seguindo pelo corredor em direção à arena.
–Desculpe. Eu não queria que selecionassem a gente assim. – Disse uma voz doce e suave, vinda de uma garota bonita, cabelos lisos e pretos e de expressão meiga.
Nikolas ficou perplexo ao perceber que aquela era a sua adversária. Fred e Mel observavam a cena, segurando o riso.
–Vai lá, Nikolas. Depois chama ela pra sair. – Disse Mel em tom de riso.
Com o comentário, Nikolas cora violentamente e Sophia ainda mais.
–Não enche, Mel! – Retrucou, continuando a seguir na direção da arena juntamente com sua adversária.
–E aí vem os nossos competidores – Anunciou a boca flutuante, seguida por uma salva de palmas e vários gritos de incentivo do público – Antes que comecem, devem saber que não há muitas restrições. Não podem ultrapassar os limites da arena e a luta só acaba quando um dos competidores não possuir mais condições de continuar ou se render. Tentem não me acertar aqui em cima, dá trabalho para manter esses lábios saudáveis. – O público caiu no riso – Três, dois, um... Comecem!
A arena foi envolvida por um silêncio. O público estava apreensivo, olhos atentos na direção dos dois jovens, esperando pelo primeiro movimento. Nikolas e Sophia se encaravam, ambos meio constrangidos e um parecia estar esperando que o outro iniciasse a batalha, mal se moviam direito. Os olhos verdes de Sophia transmitiam uma doçura incomum que parecia se misturar com a tristeza, esta gerada pela batalha.
–Desculpe, mas eu preciso fazer isso – Disse Sophia, ficando em posição de luta e mudando sua expressão; agora estava séria e imponente.
Nikolas pareceu entender e ficou em posição de luta também, mas no segundo seguinte, sentiu um forte impacto no peito e foi arremessado quatro metros para trás, como se fosse um boneco de pano tomado pela poeira ao cair no solo. Ficou atordoado, havia sido muito de repente, mas sem se preocupar com a roupa suja de terra ou os arranhões que recebera ao rolar no chão, se levantou e olhou para Sophia. A garota o encarava com seriedade e já não estava no mesmo lugar de antes, agora um pouco mais a frente.
–Não deveria se levantar. Não quero continuar te machucando. – Lamentou ela.
Nikolas sorriu com o comentário, mas não parecia estar realmente feliz.
–Uma guerreira que dominou o sprint (técnica de super velocidade ao custo de magia), interessante. Mesmo assim, você não deveria subestimar seu adversário, muito menos quando ele – Nikolas fechou os punhos, ficando cabisbaixo por breves instantes – sou eu.
O garoto de cabelos brancos e lisos que antes estava apreensivo quanto a lutar contra uma garota, agora liberava ondas avermelhadas de magia e tinha no rosto uma expressão tão séria quanto à de Sophia. “Preciso me concentrar nos movimentos dela e tentar antecipar os meus”, pensou ele. No momento seguinte, ela partiu para cima e ele girou em um ângulo de cento e oitenta graus com apenas um pé, vendo a guerreira passar em alta velocidade, mas para sua surpresa, ela nem ao menos parou antes de retornar e com a proximidade, novamente o atacou, mas dessa vez ele havia conseguido bloquear o que viu ser um soco e segurou essa mesma mão dela, embora tivesse sido arrastado de pé do lugar de onde estava.
Nikolas sorriu maliciosamente, segurando com força na mão dela.
–Rotação: Chamas! – Exclamou ele e no mesmo instante sua mão foi envolvida pelo fogo, machucando e assustando Sophia que se desprendeu dele e pulou para trás.
–Você quer mesmo ir pelo caminho mais difícil, não é? – A garota questiona, como se estivesse decepcionada.
–Eu já disse... – Nikolas fechou o punho que estava em chamas – para não me subestimar! – então abriu o punho e as chamas que envolviam sua mão, agora formavam uma bola (do tamanho de uma bola de vôlei) de fogo que ficou sobre sua palma.
Sophia cerrou o olhar e novamente se moveu em alta velocidade, acertando um chute em cheio na barriga de seu oponente que sequer teve chance de lançar o ataque. O fogo na mão de Nikolas se extinguiu e o mesmo caiu de joelhos, diante dos pés de Sophia que apenas o olhava com receio, não queria que ele voltasse a se levantar e seus olhos demonstravam piedade. Assim que conseguiu olhar para ela, com dificuldade em fazê-lo, o garoto percebeu aquele sentimento e sua frustração foi imediata, não havia gostado nada de ver que um adversário sentia pena dele.
–Você nem ao menos está lutando com sua espada – Disse ele com um tom de voz raivoso e meio abalado – Acha que porque não pertenço a nenhum dos clãs, tem o direito de me menosprezar assim?! Arrogante! Mas eu não vou desistir... DE JEITO NENHUM! – Gritou, pulando de costas para trás e encarando-a.
Sophia ficou inexpressível e seu olhar se tornou frio, ela não havia gostado nada do que acabara de escutar e não estava disposta a continuar “pegando leve” com ele.
–Você pediu por isso. Vou acabar com essa luta de uma vez, Nikolas.
–Errado. A única coisa que você vai fazer é engolir essa sua soberba e eu vou te ajudar com isso. Corrente de Fogo! – As mãos dele voltaram a ser envolvidas por chamas que aumentaram mais rapidamente e tomaram a forma de correntes.
As correntes feitas de fogo foram aumentando de comprimento e ao chegar em seus dois metros, partiram em alta velocidade na direção de Sophia que se apressou e começou a fugir com o sprint, porém as correntes lhe alcançaram, atingindo uma de suas pernas protegidas pela armadura guerreira e a garota foi ao chão.
O público já estava gritando, a luta certamente era do agrado deles. Nos corredores, Fred e Mel tentavam ver alguma coisa, sem muito sucesso.
–Será que o Nikolas está bem? – Indagou Mel.
–Relaxa, o Cabeça de Neve é inteligente. Não vai ser vencido assim logo de cara. – Sorriu Fred de uma forma bem confiante e Mel apenas o olhou, tentando ficar tão calma quanto o amigo.
Sophia continuava no chão e Nikolas ainda mantinha as correntes presas na perna dela, porém começou a manipulá-las de forma que envolvessem e prendessem todo o corpo de sua oponente, evitando contato direto com as poucas partes onde a armadura esverdeada, típica do clã Nywall, não cobria, como pescoço de cabeça.
–A força dessas correntes é equivalente a minha força física. Em outras palavras, é como se eu estivesse imobilizando você com o meu próprio corpo. Se é tão boa, por que não se livra disso e vem terminar a luta? – Perguntou em tom de desafio.
Sophia parecia não acreditar no que estava acontecendo. Seus olhos saltados de espanto não escondiam que ela havia sido pega totalmente pelo ataque de Nikolas.
–Não pode ser. Como um mago tem mais força física do que eu, uma guerreira? E como um mago que nem sequer tem um clã pode conseguir um feito desses? – Se perguntava, totalmente inconformada.
–Não tenho um clã, é verdade. Mas tenho um mestre e amigos, em outras palavras, é o mesmo que ter uma família e isso é suficiente para mim.
A garota engoliu em seco as palavras que ouvira e não tentou mais nenhum movimento, estava incapacitada de lutar. Ao perceber isso, a boca flutuante desceu e pairou sobre ela, confirmando que a luta acabava ali.
–A competidora Sophia não pode se livrar desse ataque e está incapacitada de continuar. O vencedor é Nikolas Glayweer. – Anunciou a boca flutuante, para delírio do público.
As chamas que formavam as correntes se extinguiram e Sophia pôde levantar-se. Nikolas seguia para fora da arena com ambas as mãos nos bolsos, até que sentiu uma mão em seu ombro e imediatamente parou de andar, mas não se virou.
–Eu o subestimei e isso, mais do que a derrota, me desonrou como guerreira. – Disse Sophia e só então ele virou-se para olhá-la, percebendo nos olhos dela que havia arrependimento e vergonha.
–Esqueça isso. Da próxima vez, vamos lutar pra valer. – Disse com um sorriso desafiador no final.
A garota corou, perplexa com a atitude inesperada dele. Ela não imaginava que ele iria relevar daquela maneira.
–O-ok! Não vou me segurar de jeito nenhum da próxima vez. – Sorriu para ele e o mesmo acenou positivamente com a cabeça, voltando a andar em direção aos corredores. Em seguida, ela foi também, cabisbaixa, mas se sentindo um pouco melhor após aquele pequeno diálogo.
–E a próxima luta é entre Mel Pallas e Christine Silver, do clã Silver. – Anunciou a boca flutuante.
Nos corredores, Mel se levantava e seguia rumo à arena.
–Boa sorte! – Disseram Fred e Nikolas em uníssono.
–Qual é, idiota?! – Irritou-se Nikolas com Fred.
–Eu falei primeiro. Tá querendo brigar, Cabeça de Nuvem? – Retrucou Fred, ainda mais irritado.
Mel sorriu com a cena, balançando a cabeça meio inconformada e seguindo para a arena, seguida de sua oponente que vinha logo atrás e tinha no rosto pálido um olhar incrivelmente frio.
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