Aliança Carmesim
7 Capítulo VII - Consumação
Notas iniciais
Neste mundo colorido
Foi o encontro de nós dois mera coincidência?
Mesmo que eu não acreditando em destino tão facilmente,
Quero sonhar o mesmo sonho com você.
O amanhã que trará choro e sorrisos
Arrependimento não combina com ele
Porque você está ao meu lado
Eu quero manter meus sentimentos intensos
Pode ser um ziguezague
Está bem se é um ziguezague
Para sempre e sempre com você
Nossa estrada continua
With You / With Me, de 9nine.
Risadas eram carregadas pelo vento que cortava a colina, e mais delas se ouvia à medida que a dupla enveredava pelo terreno íngreme.
Naquela manhã, Albafica fora despertado por Minos, que dizia ter chegado à mansão Genero antes do sol raiar, só para ter o privilégio de ser o primeiro a vê-lo naquele dia tão especial. O rapaz de olhos azuis achava que aquilo não passava de um bando de lorotas, mas adorou acordar com um demorado beijo do amado.
Depois fora a mãe a cobri-lo de beijos, abraços apertados e muitos votos de saúde e felicidade. Arnan se limitara a dizer “feliz aniversário” e arrastara Rachel e o afilhado do quarto para que Albafica pudesse se preparar para lidar com os avós, tios e primos — todos parentes da mãe — e mais alguns poucos convivas que o aguardavam no andar de baixo.
Não demorara muito. Tomara banho, escolhendo as primeiras roupas em que bateu os olhos no closet — calças, uma camisa de mangas compridas e uma blusa de mangas médias com botões, todas brancas — para vestir e dera um jeito rápido nos cabelos, que alcançavam a base de sua coluna, deixando-os soltos.
A recepção não foi grande, só as felicitações, a entrega dos presentes e uma breve confraternização com as pessoas mais próximas da família, e que terminou num farto dejejum. Tudo não durou nem duas horas. A certa altura, alguém lamentou que seus pais tivessem optado por uma comemoração tão pequena para alguém tão admiravelmente belo, contudo, a despeito da indiferença no tom de Arnan, Albafica se alegrou por ouvi-lo dizer que “se era o aniversário de Albafica, então Albafica deveria decidir como queria passá-lo e que se ele não havia pedido por uma festa de grandes proporções, esta não aconteceria”. A verdade é que tudo que o rapaz desejava era que o dia fosse tranquilo e que pudesse estar com aqueles que amava. Decididamente, uma grande festa estava fora de questão.
Após a despedida do último convidado, Minos, que permanecera calado durante toda a recepção, sussurrou um “me segue” ao ouvido de Albafica e sumiu num dos acessos auxiliares do hall. O mais jovem dos Genero ainda hesitou por um instante, procurando os pais com os olhos. Em todos os seus aniversários, sua mãe fazia questão de ficar ao seu lado — seu pai também ficava —, por isso temia que eles não permitissem que saísse da vista, mas viu que eles se retiravam do recito pelo acesso principal ao interior da mansão, entretidos demais com qualquer coisa que sua madrinha falava para notá-lo. Acho que estou oficialmente velho demais para eles se preocuparem tanto comigo, concluiu, experimentando uma decepção alegre e então seguiu Minos.
Foi tudo muito rápido. Num momento estava de pé sob o arco de uma das saídas laterais da casa, no outro estava dentro do McLaren prata de Minos, indo para onde só os deuses, e Dordellion, sabiam.
— Para onde você está me levando? — indagou, curioso.
— É uma surpresa — disse Minos, sério e com o olhar cravado na estrada, mas logo sorriu um sorriso travesso e o fitou com o rabo do olho, acrescentando — Você vai descobrir logo.
De fato, não demorou para que o mais jovem dos Genero reconhecesse o caminho que levava ao vasto roseiral de seu pai, onde ficava o antigo campo em que Dordellion e ele haviam treinado. Franziu as sobrancelhas para Minos, sua expressão dizia claramente que não estava entendendo nada — Minos costumava arrastá-lo para os lugares mais esquisitos e desconhecidos, coisa que aquele lugar não era —, mas o sorriso com que ele retribuiu sua confusão foi tão doce que decidiu deixar as desconfianças de lado.
O restante da manhã foi gasto na viagem de carro. Ficaram em silêncio por quase todo o trajeto, mas aquele estava longe de ser um silêncio desconfortável. Na verdade, ele era um presente de Minos, tal como aquele beijo de bom dia. Ele sabia o quanto gostava daqueles prados e colinas, foram as primeiras paisagens que vislumbrara ao deixar seu cárcere seguro pela primeira vez, e sempre que podia vê-los alguma coisa o distraía, geralmente o próprio Minos. Já não via aquelas paisagens desde o dia em que aprenderam sobre Rizao, há quase três anos. Era bom estar de volta.
Abriu a janela, recostou no banco e aproveitou seu presente.
Passava do meio-dia quando chegaram ao extenso roseiral. Albafica saiu logo do carro capturado pelo forte aroma das plantas, abriu o portão para que Minos entrasse com o veículo e se meteu por entre as roseiras. Demorou um pouco até perceber que estava correndo e ao fazê-lo aumentou a velocidade, almejando vencer o quanto antes a barreira de rosas comuns, que resguardava o perfume das rosas venenosas atrás de si para impedir que alcançasse qualquer um que passasse do lado de fora da propriedade. Todas as rosas eram belas, porém não era daquela beleza que sentia falta.
Assim que rompeu o perímetro de segurança, Albafica se deteve, aspirando fundo o perfume denso e ao mesmo tempo suave que impregnava o ar, fechando os olhos e se abraçando. Sensação de liberdade... Era isso que aquela fragrância maravilhosa, e mortal, despertava em seu íntimo. Aquele roseiral era um dos lugares que guardava as boas memórias de sua infância, como morrera de saudades dele.
— Sente-se em casa? — A voz de Minos vinha da sua direita, então voltou o rosto para ela, assentindo e dizendo com um sincero sorriso:
— Você não imagina o quanto. Muito obrigado por me trazer aqui.
Recebeu um selinho na ponta do nariz, então abriu os olhos e encontrou os lindos orbes violáceos de Dordellion o mirando de cima. A expressão dele era puramente contemplativa, o que fez um leve rubor preencher suas bochechas. Costumava detestar que o olhassem daquele jeito porque sentia que assim só seu exterior, que julgava irrelevante, era percebido. Mas com Minos era diferente, tudo com ele era sempre diferente. Sabia que ao olhá-lo daquele modo ele não estava apenas enxergando seu exterior, mas sim o vendo completamente, com todas as suas qualidades, defeitos e manias, e isso ainda o encabulava mesmo depois de quase dois anos de namoro, porém não o suficiente para fazê-lo desviar os olhos, não mais. Afinal, também gostava de observá-lo.
Minos estava todo de preto, com as mangas longas da camisa arregaçadas até os cotovelos. A peça aderia ao corpo dele, delineando os músculos bem definidos. Os cabelos soltos caíam-lhe às costas, ao redor dos braços e por sobre os ombros numa farta torrente de fios de prata. O nariz reto, os olhos impetrantes, acortinados pela franja esfiapada... Todos os traços do rosto dele, assim como a personalidade forte e irreverente — coisa que por vezes irritava Albafica, mas que também era o que mais amava nele —, o assemelhavam a uma perigosa e bela ave de rapina. E naquele dia em especial, sentia-o diferente, mais sério e calado. Isso o fazia parecer mais maduro.
Se pegou mordendo o lábio. Se sentia quente, a respiração mais pesada, e só porque estava olhando para Minos. Isso vinha acontecendo com alguma frequência nos últimos tempos. Abriu um sorriso perdido. Afinal, quando havia sido mesmo que aquele moleque inconsequente e insolente tinha se transformado naquele homem lindo que conseguia tirá-lo do sério?
— Sabe que eu faço qualquer coisa para ver você sorrir, não é? — murmurou ele, afagando sua bochecha com a mão livre, segurava uma cesta de piquenique com a outra. Albafica se inclinou em direção ao mimo, espalmando as mãos no peito dele e pediu num sussurro:
— Me beije.
Minos inspirou profundamente, acariciando seu rosto mais uma vez antes de afastar a mão, o que fez com que franzisse as sobrancelhas e cruzasse os braços, com um minúsculo e inconsciente biquinho contrariado. Um dos sorrisos zombeteiros dele se fez presente, mas sem lhe alcançar os olhos, que prosseguiam absortos em contemplação.
— Só depois que chegarmos lá em cima. — Ele indicou algum lugar ao noroeste com um leve movimento de cabeça e Genero arregalou os olhos ao se dar conta do que ele estava falando. Grande porção daquela propriedade era plana, entretanto a parte mais afastada da entrada se desdobrava num aclive, não tão íngreme ao ponto de se precisar escalar para subi-lo, pelo menos era o que parecia à longa distância. De onde estavam, podiam avistar as árvores altas e a folhagem mais densa que o compunham.
— Mas aquela parte do campo é proibida — protestou Albafica, franzindo os olhos para o desajuizado que chamava de namorado e reforçou — Meu pai disse com todas as letras que nunca deveríamos ir até lá.
— Tio Arnan não está aqui — Minos simplificou, marchando na direção da colina, e Albafica revirou os olhos. Eu devia ter desconfiado... — Você vem? — Ele parara. Tinha uma sobrancelha levantada e a mão livre estendida em sua direção.
Bufou, indo até ele e aceitou a mão que lhe era oferecida, dizendo ainda emburrado:
— Se alguma coisa acontecer, a culpa é sua.
— Claro que sim — Minos concordou, beijando sua mão e piscou travesso, puxando-o consigo.
A carranca de Albafica não durou muito mais. Fazia uma tarde fresca, o vento soprava agradável, bagunçando os cabelos de ambos e Minos não perdeu tempo, brincando com isso e com uma boa sorte de coisas, conseguindo arrancar-lhe primeiro sorrisos, depois sinceras risadas, fazendo com que se sentisse extremamente leve. Seguiram por todo caminho aos risos e com as mãos entrelaçadas.
Após algum tempo avançando por entre as árvores, um espaço quase plano se abriu. Era entapetado por grama verde bem aparada, delimitado por roseiras carregadas de flores do mais vívido carmim ao mais puro branco e que era cortado por um córrego, cuja nascente se achava em algum ponto colina acima. Estavam à esquerda do córrego.
Albafica deixou os dedos escorregarem para longe dos de Minos ao dar alguns passos à frente. Encarava tudo com grande curiosidade. Aquelas rosas praticamente reluziam, as cores pareciam dançar para fora delas. Não são diabólicas, piranhas, fúrias nem sangrentas... Mas o que são então? Perguntou-se ao se desprender do poder hipnótico das pétalas e percebeu que os espinhos delas eram mais estreitos e longos do que o habitual, podendo atravessar fácil o dedo de um desavisado. Diferentes... Eram diferentes de todas as rosas que já tinha visto.
Soltou um arquejo ao se voltar na direção de que tinham vindo. Dali era possível avistar todo o roseiral de seu pai, tanto a vasta parte pontilhada por belas e tão familiares rosas de teor venenoso, quanto à parte com as flores inofensivas e as plantações, ambas cercadas pelo círculo de proteção provido pelas rosas comuns. Era uma visão de tirar o fôlego.
Voltou sua atenção para o lugar onde estava. A mata se tornava mais densa a partir daquele ponto e o terreno mais íngreme, então o melhor seria que não prosseguissem em direção aos limites da propriedade. Albafica não queria ter que prosseguir porque julgava aquele lugar perfeito. Aquelas rosas de cor vistosa desprendiam uma fragrância única e desconhecida, que o fazia se sentir mais leve, até alegre. Queria mais dela.
Abriu um sorriso ao ver que Minos estendia uma toalha branca sobre a grama, bem no centro do lugar — não iriam partir tão cedo, afinal —, e o questionou a cerca das rosas de perfume incomum:
— Elas não são venenosas, são?
— Estão mais para antídotos. São esperanças, antigos experimentos do tio Arnan — contou Minos, ajoelhado arrumando as coisas da cesta numa parte do pano. Havia frutas, sanduíches e torta, bem como duas garrafas térmicas. Albafica achou irônico que algo tão arisco ao toque tivesse um nome tão desejável. Tanto quanto seu perfume. — Ele nos proibia de vir aqui por que só uma espetada nos “pequenos” espinhos dessas belezas e as concentrações de veneno de nossos sangues ainda desestabilizadas por causa do Elo Carmesim poderiam cair, até serem completamente apagadas. Isso nos arrastaria de volta ao início do treinamento e você aos dias de dor e reclusão na cama, o que seria decididamente um pesadelo... — Ele se calou por um instante, encarando a refeição posta. — Pronto, terminei! — exclamou ele, acabando de encher um copo com o conteúdo de uma das garrafas e o estendendo na direção de Genero.
— Eu devia ter sabido disso naquela época, não acha? — Albafica foi até o namorado, sentou-se ao lado dele, aceitando o copo e se serviu de um sanduíche.
— Nem eu sabia — Minos esclareceu e apanhou um copo para si mesmo. — Tio Arnan comentou comigo há pouco tempo. Daí, vim dar uma olhada e achei que esse poderia se tornar nosso lugar especial, agora que não representa mais perigo para nós. Afinal, só o tio Arnan, além da gente, pode vir aqui e ele o abandonou.
— O que há de errado com seu jardim? — Albafica indagou com as sobrancelhas franzidas e bebeu um pouco de suco. Aquele recanto era lindo e incomum, mas o jardim do terraço da mansão Dordellion já era o lugar especial deles. Foi lá que ele se declarou para mim e onde nos beijamos pela primeira vez.
— Fica perto demais da civilização. — Albafica cobriu a boca às pressas com a mão. Não pudera segurar o riso diante da careta de nojo que Minos fez ao dizer “civilização” e quase cuspiu o suco. Minos deu de ombros, retornando a sua seriedade descontraída enquanto o outro voltava a dar atenção ao sanduíche. — Não, sério. Não há nada realmente de errado com ele, só não o acho apropriado para essa ocasião.
Albafica engoliu às pressas, estranhando:
— Apropriado? — Tomou um pouco de ar, sorrindo banal. — Mas é só mais um aniversário, Minos. Como qualquer outro...
— Você sabe que não é, Al — Minos discordou, havia um quê de repreensão no tom dele. — Está completando quinze anos hoje. É costume da comunidade que seus herdeiros passem a assumir responsabilidades nos assuntos das famílias a partir dessa idade. — Ele fez uma breve pausa. — Também é costume que as datas de suas uniões sejam decididas nessa ocasião.
Albafica se concentrou no sanduíche. Não entendia o porquê de Minos estar dizendo aquelas coisas. Minos sempre repudiara as atitudes da comunidade, dizendo sempre que os membros dela eram em peso um bando de múmias de mente fechada. Então por que citar as regras deles? Perguntou-se e sentiu o coração ficar pequeno dentro do peito. Será que meus pais... Não, não! Meu pai deixou bem claro que eu não posso me casar por causa do meu sangue nocivo! E Minos não abriria mão de mim, certo? Arregalou os olhos, fitando a mão agora vazia espremida ao colo. Ele disse que quer que esse se torne o nosso lugar especial, que é apropriado para comemorar o dia de hoje por ser longe de tudo e todos, como se estivéssemos nos escondendo... Por Athena! É verdade?!
— Com você não foi assim — Albafica murmurou e em seguida sorveu o líquido em seu copo para aplacar a secura que tomara conta de sua garganta.
— É que no caso da união de dois herdeiros as decisões são tomadas na passagem do mais novo deles — Minos explicou prontamente. — Faltava um mês para o aniversário de Anitta Tristand quando meus pais tentaram me forçar a noivar com ela. A ideia deles era que usássemos aquele tempo para nos conhecermos, assim quando chegasse o momento de marcarmos a data, nós mesmos poderíamos decidir juntos. Mas você sabe como eu cortei as asinhas deles na frente de todo mundo e eles nunca mais se atreveram a tentar decidir o que eu devo ou não fazer da minha vida — Dordellion soou bastante convencido.
Era verdade. Minos havia rejeitado Anitta na frente dos membros mais ilustres da comunidade e poucos minutos depois lhe pedira em namoro. Será que ele desejava que fizesse o mesmo agora? Que provasse para todos que também o queria?
— É por essas e outras que eu pensei que você não ligasse para os costumes da comunidade — balbuciou, bebendo um pouco mais do suco. Não posso dizer que não seria justo me pedir uma prova de lealdade, ele já me deu tantas...
Minos deu de ombros antes de responder.
— Geralmente, não ligo porque a maioria deles não passa de um monte de bobagens, mas esses costumes ligados ao rito de passagem são plausíveis. Acho muito forçada essa história que a sociedade prega de que ao completar a maior idade somos senhores de tudo que fazemos e totalmente responsáveis por nossos atos sem termos sido senhores de nada antes, responsáveis por nada antes. Assumir deveres e culpas aos poucos é muito melhor. Quanto ao casamento, nunca disse que não achava interessante, só que não concordo que tenha que ser feito independente de se ter encontrado ou não a pessoa certa.
A pessoa certa? Ele está falando de mim. Então... Albafica engoliu em seco, finalmente se dando conta de que seus pais nem qualquer outra pessoa tinham a ver com aquele assunto. Notou também que Minos não havia tocado na comida, nem mesmo no suco, que permanecia encerrado no copo entre as mãos de dedos entrelaçados dele. Ele só estava parado lá — coisa bastante atípica para alguém naturalmente inquieto —, com aqueles olhos lilases atentos a cada uma de suas ações, então óbvio que ele percebeu quando a vermelhidão tomou conta de seu rosto. Ele abriu um sorriso, provando que tinha notado.
Levou o copo aos lábios para se refrescar e abrandar um pouco o fogo que pinicava em sua face, mas este estava vazio, só fazendo com que o rubor aumentasse. Céus! Aquela expressão séria e atenta de Minos era muito pior do que os sorrisos maliciosos que ele viva dando!
— Você assumiu assuntos dos Dordellion? — perguntou, tentando disfarçar e antes que pudesse alcançar uma das garrafas, Minos lhe estendeu o copo ainda intocado dele, rindo. Aceitou-o, sorvendo um bom gole para cessar o calor que começava a tomar conta de todo o seu corpo enquanto ele dizia:
— Aham, tantos que poderia até me formar em Direito sem precisar assistir várias aulas, o que não é o caso já que vou para Medicina.
— O quê? — Albafica afastou o copo dos lábios chocado e Minos o encarou com um olhar indagador, como se tivesse achado estranho ele dizer que ia dar um pulinho até a esquina e voltar. — Mas, Minos, os Dordellion são uma família de juízes e advogados.
— Sei bem disso — disse ele com a maior naturalidade, mudando de posição esticando as pernas, apoiando as mãos na toalha e reclinando o corpo um pouco para trás.
— O que seu pai disse sobre isso?
— Que me deserdaria se eu não reconsiderasse.
— E o que você fez?
— Disse que nossos primos ficariam muito felizes após a morte dele.
— Você é louco, Minos?! — Albafica não conseguiu conter o riso diante do despojo de Minos.
— Ninguém vai me dizer o que fazer da minha vida, Al. Não enquanto eu puder evitar. — O olha de Minos se tornou sombrio com essas palavras, fazendo o riso de Albafica vacilar, mas ele logo deu um sorriso zombeteiro, desvanecendo a sombra que lhe tomava a face. — Felizmente depois de muito resmungar, dizendo que preferia falir a deixar algum centavo para nossos parentes, meu pai disse que eu podia fazer o que me desse na telha porque, afinal, a vida era minha.
— Duvido muito que meu pai me deixe assumir alguma coisa nas empresas — Albafica muxoxou, fitando as próprias mãos ao redor do novo copo, já vazio. Minos voltara a sentar com a coluna reta, ficando próximo o bastante de seu corpo para que se recostasse ao peito dele, então o fez, adorando ser envolvido por um braço enquanto ele alisava seus cabelos.
— Bem, tio Arnan é imortal, então...
— Minos! — Albafica o repreendeu e o olhou esperando encontrá-lo sorrindo faceiro, mas ele tinha a mesma seriedade contemplativa de antes. Ele realmente está mais maduro, sentiu seu corpo reagir a esse simples pensamento. Nós dois estamos, corrigiu-se.
— Uma hora ele vai ter que reconhecer que você cresceu, Al. Então, vai deixar. — Albafica balançou a cabeça descrente e Minos pôs uma mecha de cabelo para trás de sua orelha e franziu a testa. — É mesmo! Você se interessa por tecelagem? Acho que nunca perguntei...
— Na verdade, gosto mesmo é de botânica. Suas aplicações medicinais são ilimitadas e o custo de seus produtos muito mais acessível se comparado aos sintéticos. — Albafica sorria de forma radiante enquanto falava, esquecendo-se momentaneamente das questões que rondavam sua mente. — É fascinante!
— Arnan Junior... — Minos murmurou e levou um beliscão no braço. Ele resmungou, porém não perdeu o bom humor. — Então, quer dizer que nós dois tendemos para a área de biológicas, com ênfase no controle de doenças?
— Parece que sim — concordou, se aninhando nos braços de Minos, aproveitando o carinho que ele voltara a fazer em sua cabeça. — Só não entendo o porquê de você escolher Medicina. Sempre achei que você daria um ótimo advogado ou promotor de justiça.
Minos tocou a ponta de seu queixo de leve, fazendo com que o olhasse nos olhos e disse, acariciando de leve sua bochecha direita com o polegar sem abandonar o mimo aos seus cabelos:
— Porque eu quero passar a minha vida cuidando de você. Essa é a principal razão. — Ele afagou a ponta de seu nariz com o dele. — Tio Arnan descobriu como controlar a sua doença, não como curá-la. Isso vai ser mérito meu. — Um sorriso um tanto convencido marcava os lábios dele, mas sem perder aquele ar absorto.
— Vai ter que passar a vida do meu lado pra isso — Albafica sussurrou devagar, a voz quase inaudível, os olhos de lápis-lazúli cravados naqueles orbes lilases, a respiração um pouco alterada e os lábios formigando. Imaginava como seria acordar ao lado dele todos os dias. O beijo que me despertou hoje se tornaria rotineiro? Ou seria amansado pela rotina?
Minos suspirou pesado antes de lhe segredar com os lábios praticamente colados aos seus:
— Essa é a ideia desde o dia em que te encontrei naquele quarto. O Elo Carmesim, o treinamento, tudo... Sempre foi para isso. — Albafica teve os lábios brevemente selados, o que só aumentou a sensação de formigamento deles. — Passei a viver para isso. — Recebeu mais um selinho, mais provocação. — Para você.
Albafica entreabriu os lábios, permitindo que um beijo sôfrego se iniciasse. Como queria sentir o gosto de Minos, ter a boca explorada completamente pela língua dele, o ar totalmente tragado dos pulmões e o corpo encerrado naqueles braços fortes. Queria tanto que se perdeu nisso, só se dando conta de que não estava mais no chão quando sentiu algo endurecer e se avolumar sob suas nádegas. Estava no colo de Minos com as pernas abertas ladeando o corpo dele e seu baixo-ventre, já desperto, lhe roçando o abdômen.
Minos tinha razão ao dizer que o jardim do terraço da mansão Dordellion não era apropriado para aquela ocasião. Se estivessem lá, Albafica teria saído dos braços dele imediatamente com receio de que alguém os flagrasse. Como não estavam se prendeu mais a ele, aproveitando ao máximo daquele contato e jogou a cabeça para trás, ondulando os quadris e praticamente ronronando quando os lábios dele migraram para seu pescoço.
Não demorou e Albafica estava deitado sobre a toalha com o corpo coberto pelo de Minos.
As pegações deles jamais tinham chegado tão longe porque nunca haviam estado tão febris como naquele momento. Agora estavam, ambos queriam aquilo, muito. Tudo entre eles sempre fluía de modo natural, sem um nunca ultrapassar os limites do outro, e Albafica se alegrava por ver que com o sexo não seria diferente. Aquele realmente se tornaria o lugar especial deles.
Minos voltou a beijar seus lábios enquanto as mãos dele desabotoavam sua blusa, o que foi breve. Logo ele já tirava por sua cabeça a camisa que usava embaixo dela. Fez o mesmo com a dele, deixando seu olhar e seus dedos vagarem pelo tórax e pelo abdômen bem trabalhados num misto de curiosidade e desejo.
— Lindo — murmurou Minos com um olhar enevoado e o sorriso mais malicioso que já tinha visto, se curvando para abocanhar seus botões rosado recém-descobertos. Fechou os olhos, mergulhando os dedos nos fios platinados dele e se deixou levar pelos pulsos de prazer que aquele simples ato lhe proporcionava.
Saciado de brincar com seus mamilos, Minos percorreu seu abdômen, adornado por músculos finos, com os lábios, dentes e língua, fazendo com que arqueasse o corpo na direção da boca dele quando deteve atenção em seu umbigo. As mãos dele, hábeis, abriram sua calça e retiraram-na de seu corpo junto com sua roupa íntima, permitindo que experimentasse a doce sensação da liberdade.
Imaginou que Minos estivesse se sentindo desconfortável ainda com aquelas roupas e o teria ajudado a se desfazer delas se a boca dele não tivesse ido dar atenção a parte necessitada entre suas pernas, fazendo-lhe revirar os olhos sob as pálpebras e arfar longa e deliciosamente.
Teria se desfeito em lágrimas se ele não tivesse parado com aquela amável tortura.
— Nem pensar, Al — Minos meio disse e meio resfolegou, erguendo a cabeça para olhar o rosto afogueado do amante. Tinha os lábios inchados e vermelhos. — Não sem mim... — E voltou a se abaixar entre as pernas dele.
— Espere, se você...
O protesto de Albafica findou num gemido surpreso. Minos erguera seus quadris e o preparava com um beijo entorpecente e sem o mínimo de pudor. Em outra ocasião, teria achado aquilo vergonhoso, naquele instante sua reação instantânea foi abrir mais as pernas e se tocar, tentativa frustrada por Minos, que atou seus pulsos com uma das mãos e passou a atiçá-lo com os dedos da outra, até a primeira lágrima de seu choro rolar.
Albafica foi içado do chão direto para um beijo repleto de fome, luxúria e carinho. Sim, pois embora o olhar de Minos fosse tão intenso ao ponto de sentir sua pele queimar sob a mira dele, os toques que lhe rendia não perdiam a delicadeza um instante sequer.
O beijo foi quebrado e logo tudo o que via era o branco da toalha sob suas mãos e joelhos e o azul-claro de seus longos cabelos, que pendiam de sua cabeça, acortinando ambos os lados de seu rosto e se espalhando ao redor de suas mãos como os ramos de um farto rio.
Primeiro sentiu as pontas dos cabelos de Minos pinicarem a pele desprotegida de suas costas, provocando picos de ansiedade por todo o seu corpo, depois a mão esquerda dele, áspera e suave, em sua cintura e por último a excitação dele despontar em suas nádegas, agora sem impedimentos, e começar a abrir caminho por entre elas lentamente. Pensou que sentiria dor, mas foi brindado apenas com satisfação, arqueando o corpo em gemidos deslizantes até ser larga e profundamente preenchido pelo amante.
— Ah, minha rosa... — Minos ofegou, todo dentro de seu corpo, distribuindo selinhos pela nívea tez de suas costas suadas. — Não consigo mais me segurar...
— Não... — Albafica gemeu e moveu o corpo para frente, deixando que parte da quentura latejante que o preenchia, derretendo-lhe a razão, deslizasse para fora de seu corpo. — Precisa... — E jogou-se para trás, fazendo com que o penetrasse com tudo e soltando um gemido rouco e alto.
Foi o suficiente. Minos passou a acometer contra seu corpo, as mãos dele bem presas a sua cintura o puxando, ditando o ritmo crescente do vai e vem. Albafica relaxou o corpo, permitindo que seus braços escorregassem pela toalha que cobria seu ninho de amor e sua testa se colasse à ela, inclinando-se todo em direção aquele prazer e se entregando sem reservas nas mãos do amado. Arquejava e gemia sem controle, adorando ouvir os retruques sem sentido e cheios de sentido de Minos, bem como os sons de seus corpos se chocando.
Não faltava muito para que atingisse o ápice, as primeiras lágrimas de seu tão ansiado choro já eram visíveis no pano branco, quando, sem aviso, Minos se retirou todo de dentro de seu corpo lânguido. Entretanto, não teve nem tempo de reclamar. Mal bufou e estava no colo dele, sendo absorvido em rápidas e certeiras estocadas. As mãos fortes de Minos se afundaram em sua carne trêmula, seus braços lhe enlaçaram apertado o pescoço enquanto suas unhas arranhavam as costas dele em meio ao desespero puro que preludiava o deleite e numa última e profunda acometida se deu pleno o primeiro choro de regozijo de ambos. O primeiro de muitos que partilhariam.
Trocaram um beijo preguiçoso com os corpos ainda unidos, aproveitando os últimos espasmos de prazer. Foi nesse estado que os amantes se estenderam lado a lado sobre a toalha só com as esperanças, as árvores e o riacho como testemunhas de seu amor e o céu para cobri-los.
— Você é tão especial, Al... — Minos disse quase sem fôlego, assim que seus lábios se separaram dos de Albafica. — Tão único...
— Você também... — Albafica admitiu, não tinha mais nada a esconder dele. — Não consigo imaginar minha vida sem você.
— Nem precisa. — O sorriso que Minos lhe deu foi tão gentil que Albafica não pôde deixar de retribuir. — Nosso laço único... Nossa Aliança Carmesim... Ela acaba de se completar... Está acima de qualquer diferença e vai nos unir pro resto de nossas vidas.
— Então... nos unimos hoje? — Albafica perguntou devagar, um tanto sonolento, dando um longo suspirou quando Minos finalmente se retirou de seu interior para se sentar e mexer na cesta, tão esquecida quanto a comida na ponta da toalha, atrás de alguma coisa. Quando ele virou novamente em sua direção, viu que tinha uma caixa quadriculada de veludo negro nas mãos. Uma joia?
— Nos unimos há muito tempo, Al. — Ele deu de ombros, se ajeitando outra vez ao seu lado e lhe oferecendo a caixa. — Desde o dia em que nos tornamos o antídoto do veneno do outro. — Albafica a aceitou, se aninhando junto ao peito de Minos, que passou a alisar uma de suas coxas e a retirar sem pressa os fios azuis que se colavam a seu rosto por conta do suor enquanto abria o objeto. — O que tivemos há pouco foi a consumação dessa união.
A caixa continha dois medalhões de prata idênticos, cada um com uma rosa de finos e longos espinhos cunhada numa das faces do pingente oval e a outra face lisa, os interiores ocos esperando algo de valioso para guardar. É uma esperança... Percebeu, tocando a imagem de um dos medalhões com as pontas dos dedos. Parece até um brasão, o nosso brasão. Tinha um sorriso bobo no rosto.
— São lindos, Minos. — Foi tudo que disse, e sem arroubos. Eles não eram da sua natureza e sua expressão e sorriso ternos transmitiam bem o que sentia.
— Não mais do que você — Minos como sempre foi galante. — Vamos, me deixe colocar um deles em você. — Albafica afastou os cabelos do pescoço, e logo sentia o frio do metal da joia em sua pele. Beijou o pingente da outra e Minos tirou os cabelos da frente para que a pusesse nele.
— Nossa Aliança Carmesim me basta — declarou ele, no momento em que terminava cerrar o fecho do medalhão —, mas se você quiser estabelecer outro laço comigo, um que seja reconhecido pela sociedade estúpida em que vivemos, também seria ótimo...
— Está me pedindo em casamento por acaso, Minos?
Ele ficou em silêncio por um momento, hesitante. Minos costumava ser bem articulado e nunca transparecia nervosismo, porém contrariava tudo isso agora. Quando falou, soou completamente sem toda aquela sua confiança costumeira.
— Se você quiser... Sim.
Puxou-o para um beijo cálido, entrelaçando os dedos naqueles grossos fios platinados e adorando sentir o peso do corpo dele sobre o seu. Aquele dia estava sendo tão maravilhoso, tão especial, que gostaria de vivê-lo pela eternamente. Eu posso porque eu tenho você. Pensou, desvencilhando-se dos lábios dele e retribuiu o olhar de contemplação daqueles olhos roxos de desejo com um tanto absorto quanto, dizendo:
— No futuro, depois que você tiver se tornado um médico e eu um botânico, depois que tivermos saído debaixo das asas de nossos pais, só então serei seu noivo e me casarei com você perante a lei dos homens. — Sim, isso era o melhor. Se firmassem aquela união agora, ainda seriam obrigados a dar satisfações de suas vidas aos outros e acabariam imersos na rotina. Se esperassem, seriam só um do outro e suas vidas o lar do nunca entediante desconhecido. Era para ser dessa forma, então esperariam. — Até lá nossa união será só nossa.
Minos o escutou sério, imóvel e mudo, após o que abarcou seu rosto com ambas as mãos e selou sua testa com um breve beijo, falando com a voz mínima:
— Você é meu tesouro mais precioso, Al. É o que mais me importa e vai ser assim para todo sempre. Sempre. Nunca se esqueça disso, minha rosa. Nunca se esqueça. Do contrário, sei que vou cair numa escuridão profunda e sem volta.
Ele não parece aborrecido, então o que significa essa reação? Deu um sorriso titubeante.
— Não diga bobagens, Mi...
— Só me prometa que independente do tribunal que nos julgue e sob quais leis... Você não vai se esquecer de que é a minha luz. — Minos insistiu, resistindo a seu sorriso apaziguador. O que via nos olhos dele? Medo? — Por favor, prometa.
— Claro que não vou me esquecer disso, Minos — jurou, cobrindo as mãos dele, ainda em seu rosto, com carinho. O mesmo carinho de seu sorriso. — Afinal, você é minha luz também.
¢¢¢
You lived your life like you were on fire
But how can I dance, when your soul just lifted me
Higher and higher and higher
(Unclear) image of your love
Your memory, our history (why did you have to go?)
I give up my eyes, to see you one last time
And I'd give all my fingertips to touch you
And I could paint you picture perfect
Even if I were blinded
You have to die for me to see how to live
Picture Perfect, de Escape The Fate.
— Esperem por mim! Esperem, por favor! — gritava Albafica, praticamente se esgoelava, correndo atrás de Minos, Arnan e Dégel com o braço estendido, tentava tocá-los com as pontas dos dedos. Mas nenhum deles reagiu a seus esforços, estavam cada vez mais longe e a lama espessa e pegajosa, que surgia em seu caminho e na qual suas pernas afundavam, trazia-lhe a certeza de que nunca os alcançaria. — Esperem!
Um banho de água fria o despertou do pesadelo, e começou instantaneamente a tremer.
— Com frio? — Viu os lábios de Dégel, enfiado num terno italiano negro e parado a sua frente com um balde de madeira nas mãos e um olhar cruel, curvarem-se num sorriso, que era um misto de satisfação e irritação. Isso o chocou porque, por mais descontente que estivesse, Dégel não costumava se deixar afetar daquele modo, além de não ter nenhum gosto para roupas. — Ótimo. Você parecia confortável demais para um humano que se atreveu a me fazer perder tempo.
Albafica piscou. Sua mente desorientada pelo sono recobrou o foco e se deu conta do óbvio: aquele à sua frente não era Dégel, era Thanatos — muito provavelmente recém-saído da conversa com o irmão gêmeo — e estava possesso de ódio, por trás daquela ironia toda.
Era só o que me faltava, resmungou o Cavaleiro de Peixes em pensamento. Em seu íntimo, tinha certa esperança de que o Deus da Morte não retornaria para vê-lo depois de saber que não lhe teria mais serventia. Infelizmente, se enganara. Thanatos não tinha realmente nada a ver com Hypnos.
Principiou a sentar-se e só aí se deu conta de que, salvo a dormência no pulso direito — a mão lhe servira de travesseiro para a bochecha durante o sono —, não sentia mais dor alguma. Tentou mover de leve os pés por debaixo do cobertor improvisado e não encontrou dificuldade alguma, as mãos idem. Tocou o abdômen e as laterais do corpo e não sentiu nada fora do comum. A cabeça também já não pesava ou latejava. Por sorte estava coberto dos pés até metade do rosto, então Thanatos não percebeu nada disso. Mesmo assim, Genero engoliu em seco e quase arregalou os olhos. Estava totalmente recuperado. E agora?! Ele vai descobrir sobre Agathia assim que perceber que estou curado! Fitou de soslaio, da forma mais calma que pôde, embora explodisse de aflição por dentro, o canto onde vira a pequena deusa-selo pela última vez.
— Perdão, Amo — Agathia se desculpou com lágrimas nos olhos cristalinos como um límpido rio. Achava-se tão aflita quanto seu Zetharos. — Aquele preparado de Hypnos fez seu organismo reagir bem demais ao meu poder.
Albafica se segurou muito para não praguejar. Maldita hora em que aceitara tomar aquela coisa! E agora? Repetiu a pergunta para si mesmo. Gostaria de poder dizer à Zetar que faria o possível para escapar e que se a situação ficasse crítica tiraria a própria vida para que ela ficasse livre, mas antes que pudesse pensar em alguma saída, Thanatos voltou a falar:
— Não vai dizer nada, infeliz?
Imediatamente, fuzilou-o com um olhar feroz de puro asco, dizendo petulante para afogar o desespero que crescia em seu peito:
— Perdeu tempo comigo porque quis. Desde o começo, eu disse que não sabia nada sobre o paradeiro de Athena.
O Deus-mensageiro largou o balde, visivelmente em choque por ter sido afrontado àquela altura dos acontecimentos, entretanto a face estática logo ficou vermelha e retorcida de raiva. Ele virou a cabeça rápido na direção da parede, onde ficava a saída, agitando os cabelos prateado-obscuros. Albafica acompanhou o movimento, finalmente se dando conta de que não estavam a sós.
Minos estava de braços cruzados com cara de paisagem, recostado ao lado esquerdo da porta. Como o Deus da Morte, também não usava sapuris, apenas uma calça jeans negra com uma camisa social de mangas longas cor de beterraba. O medalhão de prata que fazia par com o seu pendia do pescoço dele, a face do pingente que exibia a rosa esperança entalhada estava voltada para o peito dele, deixando que a face antes lisa, na qual agora havia uma pedra negra incrustada, ficasse visível. Provavelmente aquele é o recipiente da sapuris de Griffon, Albafica reconheceu com amargura. Ele teve a mesma ideia que eu. Sim, pois a Cloth Stone de Peixes estava incrustada na face lisa de seu medalhão, seja lá onde aqueles dois o tivesse largado.
— Já sabe o que fazer! — exasperou-se Thanatos e Minos descruzou os braços e se afastou da parede.
— Não pode continuar com isso! — Albafica se manifestou, tentando não soar desesperado. Minos sabia exatamente qual era a gravidade de seus ferimentos. Se ele voltasse a tocá-lo, todo o seu segredo iria por ralo a baixo. — Estará descumprindo as ordens de Hades se o fizer!
Thanatos ergueu a mão e Minos se deteve a meio caminho do prisioneiro, olhando para o superior com o cenho franzido.
— Hah, vejo que meu irmãozinho fez questão de deixá-lo bem informado. — Thanatos ria enquanto falava, como alguém que acabara sendo pego mentindo e procurava amenizar as coisas com graça. — Tem razão, eu não posso continuar perdendo tempo com um prisioneiro inútil à demanda de meu imperador — admitiu e deu de ombros com a expressão relaxada —, mas Minos não recebeu ordens do senhor Hades para procurar por Athena, aliás, não recebeu ordem alguma dele, senão obedecer aos seus comandantes. — O sorriso deveras cruel da Morte, que já estava até demorando a aparecer e que ficava supererrado nos lábios de Trant, se mostrou. — E eu estou ordenando, como um dos pilares do Exército do Submundo, que ele transforme os últimos instantes da sua vida miserável num inferno, cavaleiro de ouro! Enquanto eu me sento para ler esses documentos, que podem me dar alguma pista sobre a localização de Athena, e aproveito para assistir ao espetáculo. — Albafica teve o corpo cortado por um calafrio de medo, o que não passou despercebido aos olhos do deus, que sorriu perverso. — O que foi? Achou que eu ia permitir que morresse facilmente? Não me interessa nem um pouco se você é ou não um cavaleiro oficial. Eu odeio os escravos de Athena tanto quanto meu senhor odeia sua senhora e você vai pagar por tudo que seus companheiros me fizeram na última Guerra Santa. — O tom dele tinha perdido todo o traço de humor, restando apenas aspereza. — Por isso e por meu irmão ter me dado bronca. Minos! — rosnou e se retirou para o fundo da sala, para a cadeira novamente recostada àquela parede. A mesa, que antes se achava junto à parede em que Agathia se escorava, agora estava no meio da sala.
Minos se aproximou rápido. Antes que Albafica pudesse decidir o que fazer, lançou mão sobre o pano cinza encharcado que o cobria e o arrancou de seu corpo, largando-o em qualquer lugar. Em seguida içou o prisioneiro do chão pelos braços, semicerrando os olhos imediatamente. Albafica se preparou para lutar, mas titubeou ao ver que Minos não fez nenhum comentário sobre seus ferimentos e acabou arrastado até o meio da sala.
Minos o jogou de cara em cima da mesa, machucando o lado esquerdo de seu rosto. Havia vários instrumentos metálicos dispostos ao seu redor. Soltou um grito inconsciente ao vê-los e tentou se pôr de pé, mas os dedos fortes do Juiz de Griffon em sua nuca e braços, atados às costas, mantiveram-no no lugar.
— Não faz assim, Al — Minos sussurrou ao seu ouvido, com o corpo debruçado sobre o seu. — Seria decepcionante vê-lo fraquejar logo agora, na parte mais interessante de todas...
— Não se atreva a me tocar!
— Ora, que diferença faz? Nós dois sabemos que eu já estou cansando de brincar com esse seu corpo lindo. Você vai até acabar gostando no fim.
— Nunca pertenci a você! O homem que eu amei nunca me faria passar por uma humilhação dessas! Nunca! Você me enoja!
— Então, o prazer vai ser todo meu... — Minos mordiscou o lóbulo de sua orelha direita, fazendo com que se contorcesse mais sob o peso dele. — Marionete Cósmica.
Ao comando do Juiz de Ptolomea, a gargantilha de ferro, que se destacava dos outros elementos sobre a mesa com sua grossa corrente que a atava a mesma, abriu-se sozinha e se prendeu ao pescoço do Cavaleiro de Peixes, por pouco não o esganando de tão apertada. As mãos de Minos largaram os braços de Albafica, mas estes ainda estavam sob o domínio dos fios da Marionete e acabaram estendidos e presos nos grilhões acoplados às laterais do móvel. Estava completamente imobilizado.
Se fosse qualquer outro inimigo, qualquer um... Pensava, tremendo de raiva e repulsa enquanto suas roupas eram arrancadas de seu corpo e caíam pelo chão como trapos rasgados. Se fosse qualquer outro eu conseguiria derrotá-lo para escapar. Sim, pois, além de conhecer todas as suas técnicas, Minos podia neutralizá-las todas, bem como aos efeitos de seu sangue envenenado. Não representamos perigo um para o outro por causa de nossa Aliança Carmesim. Você é o meu antídoto e eu sou o seu... Deveria ser assim, mas você possui um lado que eu não possuo e um poder que eu não posso conter.
Estava completamente exposto.
Avistou os olhos de Thanatos, atentos ao que acontecia consigo, no instante em que sofreu aquela invasão abrupta. Foi incapaz de conter um choramingo de dor e tentou libertar os pulsos, só conseguindo novos cortes ao redor deles. Minos soltou um risinho, saindo sem cuidado de dentro de seu corpo e voltando a penetrá-lo com mais força do que antes. Choramingou novamente e acabou imerso num emaranhado veloz e doentio de dor.
Repousou a cabeça na mesa em impotência. Gostaria de poder alcançar as orelhas para perfurar os próprios tímpanos. Ter de ouvir o quanto Minos estava gostando daquilo era perturbador demais. Pensei que em algum lugar da sua alma o meu Minos ainda existisse, mas... parece que é verdade. Ele não era mais do que uma ilusão passageira. Os ecos de seu passado, do tempo em que era a coisa mais preciosa para ele no mundo, retornavam a sua mente com uma insistência visceral. Devia ter aceitado se casar naquela época, assim teria passado mais tempo com ele. Por quê? Por que as coisas têm que acabar assim? Gostaria de poder usar qualquer um dos instrumentos ao seu redor para abrir a própria garganta. Preferiria milhões de vezes isso a ter seu coração e orgulho destroçados daquele jeito.
Soltou um arquejo embebido em tormento ao ter os cabelos puxados para trás, até o limite que a corrente atada à gargantilha permitia. Estava sufocando, mas Minos parecia só se importar com o orgasmo iminente. Suas pernas estavam tão bambas que já teria despencado se não fosse a mesa, suas vistas escureceram, sua mente dava voltas, os gemidos roucos de Minos, a promessa que tinham feito naquele dia, sua carne gritava dolorida, seu coração estava em migalhas. Aquilo era demais.
Minos teve o que tanto queria, mas seu ruído de satisfação foi abafado pelos soluços de um Albafica em ruínas. Todas as lágrimas de tristeza e desespero que vinha reprimindo saíam. Ele estava em choque, com os olhos de lápis-lazúli totalmente vidrados, dos lábios escapavam repetidamente, quase como um mantra desesperado, as palavras “não vou esquecer, não vou esquecer, não vou esquecer”.
Thanatos soltou uma gargalhada de escárnio ao ver o cavaleiro naquele estado e se levantou da cadeira, deixando os papéis que segurava sobre ela e indo até o centro do cômodo.
— Devo? — indagou o Juiz de Griffon, apertando a lâmina afiada de um bisturi contra o pescoço do mortificado Cavaleiro de Peixes.
— Não. Apenas o solte. Eu mesmo farei isso.
Minos obedeceu enquanto o deus dava a volta na mesa.
Em um instante, Albafica estava no chão com o Deus da Morte sentado sobre seu abdômen e de posse do bisturi, que praticamente arrancara das mãos de Minos. Um sorriso cruel, que não lhe chegava aos olhos, marcava seus lábios. Abaixou-se, ficando cara a cara com o prisioneiro ainda em prantos, segurando-lhe os cabelos e sussurrou-lhe o seguinte:
— Esse é o pagamento que me deve por ter feito Hypnos ser gentil com você. — Usou o bisturi para abrir três trilhas escarlates na bochecha esquerda de Albafica. — A gentileza, esse mal, fere mais fundo que uma espada afiada quem a possui. — Mais cinco trilhas tortuosas, que se intrincavam entre si e com as outras, surgiram. — Um deus expressar gentileza para um humano é o mesmo que atirar pérolas aos porcos! — Muitas mais surgiram, menores e com vincos mais fundos. — É um sacrifício que não vale a pena! — O cavaleiro não chegou a reagir especificamente aos cortes da lâmina, já chorava antes, só o grito que soltou ao ter o instrumento cirúrgico mergulhado em seu globo ocular esquerdo destoou das demais lamúrias. O deus era envolvido pelo cosmo obscuro. — Morra, morra, morra! Morra! Morra, para que meu irmão não volte a ter aquele olhar patético! Morra e leve o persistente estúpido do seu pai com você! Morra...
As palavras de Thanatos se dissolveram junto a toda dor física que Albafica sentia. Seu corpo agora tinha o formato de uma linha, uma uniforme e ininterrupta linha dourada. A linha da minha vida, reconheceu. Era oficial: estava morto. Pelo menos, o mais morto que alguém protegido pelo Selo da Cura podia ficar.
— Me desculpe, Amo. — A voz de seu Selo o alcançou como uma vibração aprazível. — Mas se o mantivesse em seu corpo, Thanatos descobriria sobre nossa ligação em dois tempos...
— Tudo bem, Agathia. — A linha que era seu corpo vibrou, como a corda de uma harpa ao soar melodias tristes e monótonas. — Não tenho o menor desejo de retornar a meu corpo... Pelo menos, não enquanto ele permanecer sob a custódia daqueles escravos de Hades.
A dor psicológica ainda se fazia presente, mas era muito mais suportável sozinha. Ainda mais frente ao severo ódio que o Cardeal do Oeste sentia de Thanatos, por ser burro o bastante para não perceber que o que restava de Arnan era igual a nada, de Hades, por ter despertado em Minos a maligna Estrela Celeste da Nobreza só para usá-lo em seus planos vis, e de Minos, por ter se rendido às suas trevas interiores mesmo quando ainda se recusava a esquecê-lo.
— Não vou esquecer, não vou esquecer, não vou esquecer — Albafica voltou a prometer. — Se houver uma forma de trazê-lo de volta, Minos, eu o trarei e terei o resto de nossas vidas para perdoá-lo, mas se não, como um Cavaleiro de Athena e seu consorte, irei tirar sua vida para que nenhum inocente mais sofra por suas mãos. Para que a luz que você deixou naqueles que o amam também não se apague, como a minha se apagou com sua ausência.
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