Notas iniciais
Sem mais enrolações... Boa Leitura!

Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

PESSOA, Fernando. Mensagem.

Albafica já não se sentia tão solitário. Isso porque certo garoto de rebeldes cabelos prateados dera para lhe visitar frequentemente, mesmo após tê-lo prevenido de que estar ao seu lado não era saudável.

E de uma visita e outra, quase dois meses se passaram.

Quase dois meses desde a inesperada aparição de Minos em seu quarto... Albafica nunca pensou que aquilo pudesse voltar a se repetir tantas vezes sem que seu pai descobrisse e proibisse Dordellion de lhe procurar. Mas, graças às várias tardes de conversa, agora Albafica não só sabia um pouco mais sobre o mundo que existia fora das paredes de seu cárcere seguro, mas também sobre sua família e sobre si mesmo.

Descobriu que Minos pertencia a uma renomada família de juízes e advogados e que a mãe dele e a sua eram amigas de infância. As duas inclusive amadrinharam o filho uma da outra, de modo que Minos era afilhado da mãe de Albafica e Albafica da mãe de Minos. A grande amizade delas tornara os Dordellion e os Genero muito próximos. E para Minos, a mansão Genero era como uma segunda casa.

— Por isso não é justo que nunca tenham me falado sobre você — disse Minos com a face irritada, mas logo sorriu arrogante. Eles jogavam canastra¹. — Mas eu acabei te encontrando. Não se pode evitar a vontade do destino.

— Minos, você é tão humilde... — Albafica resmungou, terminando de embaralhar as cartas.

— Muito obrigado. — O garoto de madeixas prateadas aceitou o grupo que lhe era oferecido, abrindo um sorriso enorme para Albafica.

— Não foi um elogio. — O mais jovem dos Genero disse sério, fitando o amigo por debaixo da franja fazendo um descarte.

— Claro que foi — Minos insistiu, comprando uma carta. — Só os fracos e os que possuem grande poder podem ser humildes. Mas eu, que não sou fraco e nem possuo grande poder ainda, tenho que ser soberbo para equilibrar um pouco as coisas.

Albafica revirou os olhos. Ia dizer mais alguma coisa, mas foi impedido pelo fluxo que sem aviso subiu por sua garganta. Estava vomitando sangue.

Oh! Por Athena, agora não! Não com ele aqui! Genero pediu, tentando inutilmente impedir o avanço do sangue com as mãos, mas era impossível. Este escapava de sua boca, nariz e olhos. Seu corpo estava dobrado em convulsão e não conseguia respirar. Nauseante. Era sempre nauseante. E agora medonho. E se seu sangue chegasse até Minos? Se algo de ruim acontecer a ele por minha causa nunca vou me perdoar!

Com espanto, Albafica sentiu os dedos do amigo e algo aveludado tocarem sua pele. Uma das mãos dele sustentava sua nuca e a outra percorria seu rosto junto ao que devia ser um lenço.

O que pensa que está fazendo?! Teria gritado se pudesse. Eu não posso ser tocado! Te avisei disso! Às cegas, tentou repeli-lo com as mãos, mas não adiantou de nada. Não tinha condições de disputar força com ele.

Geralmente, as crises levavam minutos que pareciam uma eternidade sufocante, mas graças à ajuda de Dordellion conseguiu respirar mais rápido. Mas a que custo?

— Espere um pouco — Minos pediu e as mãos dele deixaram seu corpo e a presença dele também se afastou, demonstrando que tinha saído do quarto.

Onde terá ido? Albafica se perguntou, esfregando as mãos nos olhos úmidos e embaçados para desobstruí-los. Tentativa um tanto vã, pois suas mãos estavam tão molhadas quanto seus olhos.

Logo a presença e as mãos de Minos, assim como a voz dele, mais calma e gentil do que nunca a lhe tranquilizar, retornaram. O leve arranhar que o toque do pano, com o qual agora ele limpava seu rosto, provocava em sua pele indicava que ele tinha ido ao banheiro.

Com paciência e cuidado pelo mais jovem dos Genero até então desconhecidos, Minos retirou todo o excesso de sangue de seu rosto, só restando um leve rubor ao redor dos olhos, abaixo do nariz e nos lábios.

— Agora está parecendo você — Dordellion disse com grande seriedade e logo riu, demonstrando que era só mais uma de suas brincadeiras. As cartas, agora esquecidas, espalhavam-se pela cama e pelo chão, estando algumas salpicadas de vermelho. — Do que falávamos?

Albafica arrancou a toalha ensanguentada que Minos ainda segurava, fuzilando-o com o olhar. A reação do garoto de cabelos prateados foi erguer uma sobrancelha e perguntar:

— Qual é a da cara feia? — A cara de paisagem que tinha ganhou alguns traços de preocupação. — Ainda sente alguma coisa?

— Que parte de nunca toque em mim você não entendeu? — Albafica respondeu com outra pergunta. Não era mal agradecido. Longe disso. Só não queria trazer problemas a ninguém, muito menos ao único amigo que tinha. Minos revirou os olhos e fez uma careta, debochando da situação. Sempre inconsequente. O mais jovem teve vontade de estapeá-lo. — Estou falando sério, Minos! Eu avisei que meu sangue é perigoso!

Com uma careta cética, Dordellion balançou a cabeça e indagou insolente:

— E o que queria que eu fizesse? Que ficasse olhando você se debater?

— Exatamente!

Foi a vez de Minos se armar com um olhar sério e de Albafica não compreender.

— Tá aí uma coisa que eu não conseguiria fazer — o mais velho declarou, cruzando os braços.

— Então virasse às costas!

— Você me viraria às costas se me visse a ponto de sufocar?

— Claro que não!

— Então como pode me pedir para fazer isso?

— É diferente.

— O que é diferente?

— Nós! Nós somos diferentes! Você pode ir aonde quiser e fazer o que quiser, tocar e se deixar tocar. Eu não posso fazer nada disso sem causar algum tipo de dor a alguém. Será que você não compreende que não quero te fazer mal?

— Eu compreendo, mas e você? Se passar a vida evitando todo mundo vai acabar sozinho. E a solidão dói. Isso não te assusta?

— Claro que sim. Mas, para mim que sofro desde o dia em que vim ao mundo, ser a razão do sofrimento dos outros assusta bem mais. Antes eu pedia para que a morte me levasse embora logo, mas agora que tenho forças para andar já não quero isso. Eu quero viver e fazer o que eu puder fazer mesmo que seja solitário. Vou continuar vivendo o melhor que eu puder dessa forma, então não me toque outra vez! Só me observe de longe ou me deixe.

Minos escutou tudo calado e sem nenhum tipo de zombaria. Como quando contou a ele sobre sua saúde. Ele finalmente entendeu... Albafica respirava aliviado ao ver o amigo fechar os olhos e levar uma mão à boca. Irritou-se, achando que ele estivesse lhe pregando mais alguma peça, e se preparou para recomeçar com o sermão, porém viu que se enganara logo que avistou o sangue na mão dele. Não!

— Minos! — Passou os braços ao redor da cintura dele e o puxou para o outro lado da cama, acomodando-o nos travesseiros que tinham escapado de seu recente “mal-estar”. Ele estava ficando pálido e tossia. — Droga, se você tivesse me escutado!

— Está tudo bem — disse ele, movendo a mão limpa como se aquilo não fosse nada demais. — Ferro até que tem um gosto bom e... Cof, cof! Parece que eu estou andando de montanha-russa... Cof, cof!

— Idiota... Pai... Pai! — Albafica gritou, largando-o sobre os travesseiros e saiu da cama.

— Albafica, espera... Cof, cof! Eu estou bem... Cof, cof! — Ouviu Minos resmungar entre uma tossida e outra, mas bateu a porta do quarto atrás de si e correu o máximo que suas pernas permitiam corredor a fora, gritando pelo pai.

Como Albafica não conhecia nenhuma dependência da mansão além de seu quarto, procurar Arnan zanzando para lá e para cá seria a mesma coisa que querer achar uma agulha num palheiro. Dordellion não tinha tanto tempo sobrando. Então, parou e tentou normalizar sua respiração e se concentrar nas presenças que havia na casa para diferir a do pai.

Por sorte conseguiu encontrá-la e a seguiu. Deu de cara com a parede umas três vezes — era totalmente inexperiente naquele tipo de busca —, mas acabou por alcançar a sala de visitas onde encontrou os pais e mais duas pessoas a conversar em dispendiosas poltronas.

Ainda sob o arco da porta de entrada Albafica apoiou as mãos nos joelhos, ofegante pela corrida mais longa e de demorada de sua vida, incapaz de dar um pio de tão cansado. Era um milagre ainda estar de pé. Droga! Aguente, Albafica! Precisa pedir ajuda! Tentou chamar pelo pai, mas só conseguiu produzir um gemido baixo e imperceptível.

— Pelos deuses, o que significa isso? — A mulher desconhecida exclamou ao notá-lo, arregalando os olhos liláceos e levando apressada uma mão ao peito.

Arnan, Rachel e o homem, cujos curtos cabelos eram semelhantes aos de Minos, olharam na direção que ela fitava, finalmente vendo o garoto.

— Querido...? — Rachel soltou incerta, olhando-o igual à outra mulher. Arnan se limitou a estreitar o olho bom e se ergueu da poltrona, cruzando o grande cômodo num coxear veloz.

— Esse é o Albafica? — O homem desconhecido jogou a pergunta no ar, sorrindo para o menino. — Está mais alto do que eu pensava!

Albafica não tinha voz para dizer a palavra “pai”, muito menos para responder ao homem, então apenas retribuiu o sorriso dele, sendo içado do chão por Arnan, que em silêncio saiu da sala, levando o filho de volta ao quarto mesmo sob os protestos da mulher desconhecida, que pedia para ver o garoto de perto. Devem ser os pais de Minos... Albafica pensou, puxando com insistência a roupa do pai. Arnan compreendeu o “depressa” mudo e num piscar de olhos já estavam a porta do quarto.

Ao abrir a porta se depararam com Minos no chão, arrastando-se em sua direção. O patriarca dos Genero largou Albafica e se apressou até o afilhado, pegando-o e o levando de volta à cama. Minos estava extremamente pálido e a ponto de desmaiar.

Sem demonstrar quaisquer abalos, o patriarca dos Genero puxou uma cadeira, sentou-se e abriu a gaveta da mesinha de cabeceira à esquerda da cama, pegando o incomum kit de primeiros-socorros que mantinha por ali para casuais eventualidades. Pescou um par de luvas novo de lá, calçou-o nas mãos e se pôs a misturar o conteúdo de alguns frascos e ampolas num pequeno béquer. Minos, desfazendo-se em tosse escarlate, estava estirado sobre os lençóis inconsciente.

Albafica se encolheu num canto e ficou observando o pai trabalhar. Arnan era um tecelão por herança familiar, porém sua maior aptidão, bem como seu gosto pessoal, era por botânica. Seu talento era tamanho que havia sintetizado um antídoto bastante maleável para combater o veneno das rosas impregnado em seu sangue. Mesmo para um sangue, cuja concentração de toxina ainda não tinha se estabilizado como o de Albafica, seria eficiente se manipulado corretamente e aplicado a tempo.

Minos deixou escapar um gemido quando a agulha perfurou seu braço. Albafica se aproximou da cama enquanto o pai guardava o kit novamente na gaveta da mesinha, perguntando:

— Ele vai ficar bem?

— O que ele fazia em seu quarto? — O patriarca dos Genero indagou, ignorando a pergunta do filho e lançando seu olhar severo à face dele.

— Estávamos brincando. Não achei que eu fosse ter uma crise.

— Não cabe a você achar nada, Albafica — retrucou Arnan em seu habitual tom calmo-empedrado. — Sabe que essas crises não podem ser previstas, só cuidadosamente esperadas. Seu isolamento nesse quarto faz parte dos cuidados que elegemos ao iniciarmos seu treinamento com as Rosas Diabólicas para evitar que alguém acabasse vitimado por estar ao seu redor. Expôs Minos ao perigo a partir do momento que o deixou entrar aqui.

— Eu o avisei disso, mas ele não quis me ouvir, pai. — Albafica parou com as explicações. Era verdade que parte da culpa por aquela situação era da teimosia de Minos, mas a outra era toda sua. Não podia omitir isso. — E eu queria alguém para conversar, por isso acabei cedendo diante da insistência dele. Não queria realmente que ele fosse embora. Fui egoísta, mas isso não vai se repetir.

— Muito bem — Arnan disse após observar em silêncio a face do filho por um momento —, Minos acordará em breve. Despeça-se e o despache para a sala. Irei me adiantar e pedirei aos pais dele que não o tragam mais a essa casa.

Os olhos de Albafica se arregalaram. Já sabia que seu pai não permitiria aquela amizade, mas nunca pensou que ele fosse proibir o afilhado de visitar sua casa. Ele conhece Minos. Sabe que simplesmente ordenar que não nos vejamos não seria garantia de que não fosse acontecer. Aquilo era extremamente incômodo, aquela solidão, e não queria voltar para ela, não queria. Ainda assim, assentiu obediente.

— Que coisa cruel de se dizer, tio Arnan... — Minos resmungou ainda de olhos fechados e os escondeu atrás do antebraço direito, atraindo as atenções para si. — Pensei que gostasse de mim, pelo menos um tiquinho...

Ao invés de responder, Arnan retirou o braço do afilhado do caminho e checou a reação das pupilas dele com um oftalmoscópio. Albafica deixou um sorriso de surpresa escapar. Estava angustiado por estar prestes a perder de vez a companhia do amigo, mas também feliz por ele estar fazendo graça.

— Dentro de alguns minutos estará recuperado por completo — Arnan falou, devolvendo a lanterna à gaveta da mesa de cabeceira, e se levantou da cadeira. — Faça o que ordenei e desça.

— E deixar o senhor ir na frente sozinho? Nem pensar! — protestou o mais jovem dos Dordellion sentando na cama apressado. — Vamos juntos!

Arnan piscou o olho bom umas três vezes. Sinal de que estava surpreso com a força de vontade e ousadia do afilhado. Albafica passou os olhos de um a outro enquanto se encaravam e engoliu em seco. A severidade de Arnan não tinha partido e a impertinência de Minos estava de volta.

— Tem um minuto. Estarei esperando no corredor — O patriarca dos Genero cedeu e se retirou do quarto. Minos soltou um longo suspiro e começou a sair da cama, mas Albafica o impediu, segurando-o pelos ombros e dizendo:

— Você não devia sair da cama ainda, não está totalmente recuperado.

— Mas se eu não for agora o tio Arnan vai fazer minha caveira pros meus pais. E aí que nós não vamos nos ver tão cedo... — Minos ainda estava mais pálido do que o habitual, não estava bem.

— Mas meu pai disse...

— Eu ouvi tudo o que ele disse.

— Mas e a sua saúde? — indagou Genero, seu olhar vacilava. — Não posso, Minos. — recolheu suas mãos, deixando-as penderem aos lados de seu corpo.

— Aquele lance de que causar sofrimento aos outros te aborrece mais do que sofrer sozinho... — Minos balbuciou, segurando suas mãos, e sorriu, argumentando — Eu sei e ninguém vai sofrer, nem eu nem você. Acredite em mim.

— Como?! — Albafica desvencilhou as mãos das dele às pressas. Tinha medo de machucá-lo outra vez. — Minha doença não tem cura, Minos, e por mais forte que eu fique e que meu cosmo a suprima, meu sangue sempre vai ser um risco...!

— Será que dá para você confiar em mim? — Minos pediu com um sorriso irônico. — Acho legal que você pense e se preocupe com o bem-estar dos outros, mas não concordo que tenha que se isolar por causa disso. Ninguém deve ficar sozinho, Al. — Embora o tom de ironia, dava para ver que ele estava sendo sincero. Albafica quis retrucar, mas não soube como. — Deixe eu ir antes que o tio Arnan escapula.

Albafica se afastou com a cabeça baixa e os olhos fechados, permitindo que Dordellion levantasse. Sentiu-o acarinhar seus cabelos e os lábios dele depositarem um beijo em sua testa. Ninguém nunca tinha chegado assim tão perto, e seu coração palpitou tão forte em seu peito que achou que fosse saltar por ele. Assustado apertou mais as pálpebras.

— Confie em mim — Ele voltou a pedir e dessa vez assentiu, apostando naquela remota esperança. — Bye, bye.

Quando Albafica criou coragem para reabrir os olhos, ele já tinha saído.

¢¢¢

— Tem certeza disso? — Henrico questionou sério, fitando profundamente os orbes azuis de Albafica.

Hasgard e Mirta Katrosi, a diretora do orfanato Filhos do Amanhecer, apenas os observavam em silêncio. Genero tinha acabado de informá-los sobre a aproximação dos subordinados de Hades, e também sugerido que a remoção de todos devia ser feita o mais rápido possível.

— Por favor. — Foi tudo o que o Cavaleiro de Peixes disse, sustentando o olhar do amigo.

Hasgard suspirou e disse:

— Vou pegar o caminhão. Reúna as crianças, diretora.

A mulher assentiu se afastando às pressas.

Depois de terem estado cara a cara com a morte, as crianças e os educadores não puderam evitar cair em pavor com a notícia de uma visita iminente. No entanto, as palavras de Albafica foram mais do que o suficiente para reacender suas esperanças e energias. Afinal, fora ele a salvá-los da vez anterior.

Em menos de cinco minutos estavam todos dentro do caminhão e prontos para partir. Os poucos pertences enfiados em sacolas eram espremidos entre os braços trêmulos. Com um último “tudo ficará bem”, Albafica fechou a porta do contêiner, deixando o sorriso que tinha murchar. Aquelas pessoas já tinham sofrido demais, vê-las daquele jeito lhe dava ânsia de vômito.

Henrico estava parado ao lado da cabine e quando Genero o alcançou abriu a porta do passageiro para que ele entrasse. Entretanto, este permaneceu com os pés no chão.

— Por favor, certifique-se de mantê-los fora de perigo.

— Não vai com a gente? — Henrico estranhou e viu Albafica negar com um aceno de cabeça. — Sabe que é loucura, né?

— Alguém tem que ficar.

— Pois bem, eu fico então.

— Agradeço a intenção, Henrico. Mas não é uma opção. — Falando daquela forma metódica e impessoal, Albafica lembrava e muito o pai. — Apresse-se.

E dito isto, deu às costas ao mecânico, retornando em passos calmos para o interior do galpão.

— Alba...

— Cada segundo que perde comigo é uma esperança a menos para as crianças — cortou a teimosa argumentação de Henrico, olhando-o por cima do ombro e o fuzilando com o olhar. — Sumam logo daqui.

O homem estancou por um momento, atônito. Era a primeira vez que vislumbrava a face espinhosa do mais jovem dos Genero. Por tudo o que ele já havia passado, sabia que ele era uma pessoa forte. Só não fazia ideia do quanto e isso transformou seu receio em admiração. Uma pessoa com aquele olhar jamais seria derrotada facilmente.

— Está certo — concordou, subindo no veículo. — Não vá morrer.

Logo o caminhão rumou para longe do galpão, deixando as proximidades do porto e se misturando ao tráfego local. Não seria detectado. Estavam todos seguros. Só aí Albafica se permitiu retrucar o pedido, quase ordem, há pouco lhe dado:

— Farei o possível, Mani.

E se foi para o telhado do galpão, aguardar pela chegada dos visitantes.

Dois adversários, sendo um deles um deus... Pensou, debruçando sobre o parapeito. As chances não me são favoráveis. Curiosamente, sentia-se calmo. Ainda não tinha sua resposta, contudo talvez fosse para ser assim. Afinal, existem coisas que devem permanecer ocultas.

E não vivi a vida de solidão que eu esperava porque Minos não desistiu de mim. Lembrou-se que após a saída de Minos de seu quarto naquele dia não teve notícia dele por quase seis meses. Já tinha desistido de revê-lo e tentava se reacostumar com seus dias de solidão, quando foi despertado por ele na manhã do centésimo septuagésimo terceiro dia. Nunca se esqueceria do sorriso debochado que ele tinha nem do quão triunfante soara ao proferir aquelas quatro palavras:

“Agora nós somos iguais.”

Não posso desistir dele agora. Albafica deu um suspiro e se dirigiu a pequena deusa-Selo a seu lado:

— Eu não pretendo ser derrotado, Agathia. — Não olhou para ela, mas soube que o fitava com preocupação. — Mas se por acaso parecer que eu estou perdendo quero que pelo menos você se salve.

Mesmo depois de tanto tempo, permanecia privando mais a vida dos outros do que a própria.

— Eu não poderia, Amo. Você é meu zetharos. — A despeito de sua sensação, a voz dela alcançou seus ouvidos doce e serena. — Nossos destinos estão ligados pelo contrato. Mesmo que eu fugisse, eu não poderia escapar. Mas mesmo que eu pudesse não o abandonaria. Nunca. Sua vida está em minhas mãos.

— Muito bem. Então me mantenha vivo aconteça o que acontecer.

Tudo o que acontecer daqui para frente são meras consequências da aposta que fiz.

— Sim, Amo.

Um estrondo rompante cortou o ar. Uma sombra agourenta encobriu os raios de sol. Diante de Albafica, do outro lado do telhado, estava o ser de madeixas longas de um prata envelhecido. Trajava um longo manto branco por cima da avantajada sapuris, cujas asas longas e de aspecto afiado tinham se ocultado em suas dobras. O elmo grafite e prata adornava-lhe a confiante fronte, suas asas desmedidas pareciam querer alçar voo. Até a pele pálida lhe parecia natural, porém não os olhos, roxos anoitecer em nuvens carregadas de cólera. Quando falou, o natural tom calmo daquela voz, que se assemelhava a uma folha branca e nova, saiu afetado, rabiscado, abarrotado com os escritos de um conto de terror.

— Eu não achei que você fosse esperar por mim... — Foi o que disse, tendo um sorriso crudelíssimo na face. — Será a praga da ousadia humana ou burrice apenas?

— Dégel? — Genero custava a acreditar no que via diante de seus olhos.

— Não deixe que as aparências o enganem, Cavaleiro de Ouro — aconselhou-o o homem que achava ser Dégel Trant, apresentando-se em seguida — Sou Thanatos, o Deus da Morte. Tudo o que resta de meu hospedeiro é isso, aparência — esclareceu, pondo uma mão sobre o peito num gesto ilustrativo. — Mas deixemos isso de lado, temos assuntos mais importantes a tratar. Como onde sua deusa se esconde. Poderia me dizer?

Thanatos queria saber sobre Athena? Então, o Cavaleiro de Peixes estava certo, o Deus-Mensageiro estava a sua procura. Pelo menos, não aparenta saber nada sobre Agathia, mas Dégel... O destino do amigo havia sido muito pior do que pensara, afinal. Tudo o que descobrimos nas Ruínas de Lemúria na cabeça de um dos escravos divinos de Hades... A situação não poderia ser mais preocupante. Será que aquelas malditas irregularidades não iriam acabar? Genero trincou os dentes e deixou que o deus ouvisse a única coisa que tinha a dizer a ele.

— Pisces-cross.

O Deus da Morte estreitou os olhos ao ver a armadura dourada.

— Oh... Então essa é sua resposta? — E declarou sombrio — Acho que a informação terá que ser arrancada de você.

Albafica torceu o nariz para as palavras de Thanatos e disse:

— Deus ou não, não conseguirá arrancar nada de mim.

— Não seja convencido, mortal. — Foi a vez do deus torcer o nariz, mas não perdeu a cabeça como de costume. Além do corpo e dos poderes de Trant a sua disposição, também tinha a astúcia e a inteligência dele. — Não vou me rebaixar a pôr as mãos em você. Ficará aos cuidados de um dos Três Juízes do Inferno, que já é muit...

— Porque é covarde demais para me enfrentar sozinho? — Albafica provocou o deus, cortando suas palavras e vendo sua expressão controlada se petrificar. Dava para ver que ele não ficaria indiferente àquela provocação.

— Deuses são realmente orgulhosos, Al... — Ouviu uma voz desgraçadamente familiar ecoar pelo ar. — Melhor não provocá-lo mais. — Mais uma sombra tinha surgido às suas costas, barrando o que restava de luz ao seu redor. Virou-se e vislumbrou mais uma armadura, inteiramente negra, que parecia dolorosamente errada na companhia daquele sorriso zombeteiro. — Eu, Minos de Griffon, a Estrela Celeste da Nobreza, o Juiz de Ptolomea, serei seu adversário.

Notas finais
Glossário: 1 = Canastra, também conhecida como tranca, é um jogo de cartas que pode ser jogado com dois ou quatro jogadores, sendo no segundo caso em dupla. São usados dois baralhos, cujas cartas de número 2 equivalem ao coringa. Ganha o jogador ou dupla que fizer o maior número de pontos, geralmente 5000. Então, pessoal, eu tomei um sustou ao chegar aqui e ver quando postei essa fic pela última vez... Tem quase um ano! Nem consigo acreditar! E pensar que esse cap. já estava pronto há um tempão, mas por causa de alguns contratempos que a vida impôs não pude trazê-lo antes para cá. Enfim, peço desculpas a todos que acompanham (tanto comentando quanto em silêncio) e quero deixar bem claro que ela será finalizada. A fic está programada para ter sete caps e já está praticamente na metade agora. Terça que vem chego com o cap. 4 e tentarei chegar o mais rápido possível com os demais caps. Desculpem mesmo! Bjinhos! Até a próxi! ^-^/