Aliança Carmesim
2 Capítulo II - Lux Mea
Nesse quarto, sozinha me escondendo desde aquele dia
Não chegando perto de ninguém não terei emoções e traições
[…]
Nesse quarto frio eu vou me encolhendo
[...]
Nesse quarto frio eu tranquei o meu coração
[...]
Por exemplo, eu não sei o quanto de calor
A sua gentileza teria em mim
Uma coisa assim, uma coisa assim não é tão simples
Para o meu coração
[…]
Eu vejo um mundo brilhante fora da janela
E vou recolhendo o que vejo
Essa mão, essa mão eu posso tocá-la?
Isso é uma ilusão
Tsumetai Heya / Hitori, de Mikako Komatsu.
O que é isso? Ouço uma voz... Quem é?
Quando o pequeno Albafica despertou de um sonho qualquer, escutou ruídos provindos da pequena e única janela de seu imenso quarto. Eram tão insistentes que o menino saiu debaixo das cobertas e saltou da larga cama para o assoalho a fim de ver o que era. Sem se preocupar com calçados, foi até sua única fonte física de comunicação com o mundo exterior ao quarto e abriu as grossas cortinas negras. Era uma manhã chuvosa.
Os ruídos eram frutos do constante ataque que as gotas de chuva faziam à vidraça, almejando vencê-la para adentrar o recanto de solidão de Albafica. Ele tocou a superfície do vidro, sentido quão úmida estava. Tentou imaginar aquela sensação se espalhando por todo seu corpo. Chuva. Nunca tomara chuva. Ela era perigosa demais para ele, assim como o sol, o vento, a maresia, a geada e a neve.
Já havia transcorrido dois anos desde o início de seu treinamento com o cosmo e as rosas diabólicas. Há menos de um ano conseguira dominar satisfatoriamente o controle de ambos, passando a próxima etapa: o Elo Carmesim. Morrer cedo ou ter uma vida longa dependia estritamente dessa fase. Ela lhe daria forças para, pelo menos, ver algo além daquelas paredes, ou acabaria logo com seu sofrimento. Não importando o resultado, era melhor do que apenas esperar sentado a morte chegar.
Mesmo que seja por poucos instantes... Ainda assim, eu quero deixar de apenas existir.
— Chuva... Eu quero poder senti-la. Quero ir lá fora...
— Então, por que não vai?
Albafica arregalou os olhos, assustado com a pergunta. Não estava acostumado a ouvir nenhuma voz que não a do patriarca dos Genero e aquela voz certamente não era dele.
Sem tirar a mão do vidro, virou-se a procura de quem lhe falara, deparando-se com um menino de cabelos prateados como a chuva atados num rabo-de-cavalo curto do outro lado do quarto, perto da porta. Ele não aparentava ser muito mais velho do que si, embora fosse alguns palmos mais alto.
— Por que está me olhando assim? — quis saber o intruso, com um muxoxo. — Faz parecer que está vendo um monstro.
Como o olhava? Com surpresa, temor ou curiosidade? Talvez os três. Embora não devesse ver ninguém, e soubesse ser perigoso, era a primeira vez que via alguém da sua idade. Não podia deixar de sentir curiosidade. Deixar de se perguntar como ele havia ido parar em seu quarto. Ou como era estar com outras crianças. O garoto ainda lhe fitava, agora com uma sobrancelha levantada. Engolindo em seco, disse:
— Desculpe-me, é que eu não esperava receber ninguém... Quem... Quem é você?
— Minos Dordellion. Prazer em conhecê-lo, é... Como você se chama?
— Albafica Genero.
— Ahn? Genero? Então, você é filho do tio Arnan e da tia Rachel? — Albafica assentiu, vendo o garoto avançar pelo quarto. — Eu não sabia que eles tinham um filho. Essa casa é tão sombria que eu imaginei que tivessem fantasmas escondidos nela e não uma criança. — O pequeno intruso parou ao lado da cama, tirou o casaco e os sapatos, largando-os de qualquer jeito no chão, e subiu nela. — Você sempre fica aqui no quarto? — Albafica observava suas ações de boca aberta. Será que era normal entrar nos quartos das pessoas como se estivesse no próprio ou aquela criança não tinha modos mesmo? — Ahn? O que foi?
Poderia ter perguntado, mas o pai poderia chegar a qualquer momento. Não queria ser repreendido por ele. Aquele menino também não iria querer. Então, disse apenas:
— Não devíamos estar conversando. Você não devia estar aqui.
— Ooooh... — Uma expressão de desdém tomou conta do rosto do garoto. Era a primeira vez que via alguém fazê-la em sua presença. — Vejo que você é igual ao tio Arnan.
Tirou a mão do vidro da janela, encarando os pés e engolindo em seco outra vez. Fora a cor suave e azul dos cabelos e a pinta próxima ao olho esquerdo, nunca se julgou parecido com o pai. Ele era tão sério e severo, não era nem um pouco assim.
O menino deu uma risada, chamando sua atenção.
— É brincadeira, Albafica! — Ele deitara com os braços cruzados atrás da cabeça. — Mas por que eu não posso ficar aqui? Lá embaixo é chato. Nossos pais só sabem falar de negócios e nossas mães das garfes de outras damas da alta sociedade. Eu fico sempre no sofá, morrendo de tédio. — Ele mudou de posição, deitando de barriga para baixo, com os cotovelos apoiados no colchão e o rosto nas mãos. — Não sente a mesma coisa enfurnado aqui?
Abriu a boca para responder, mas desistiu. Sim, era entediante ficar trancado ali dia e noite, mas tentava não pensar sobre isso. Não podia fazer nada mesmo. O garoto sentou novamente, agora na beirada da cama mais perto da janela e, consequentemente, de Albafica. Mudando de posição daquele jeito deixava bem claro que era alguém extremamente inquieto.
— Você queria ir lá fora, né? — perguntou ele, se inclinando para a frente. Daquela proximidade, conseguia distinguir com exatidão a cor lilás dos olhos dele. — Posso ir com você, não ligo de me molhar.
— Não posso — balbuciou, olhando na direção da mesinha de cabeceira mais próxima. Ela estava apinhada de medicamentos. Pela cara do garoto, finalmente tinha compreendido. — Por favor, você precisa ir.
Ele ficou em silêncio por um instante, quieto, imóvel. Apenas olhando para Albafica. Depois, suspirou, deixando os ombros caírem, e indagou:
— Eu represento perigo para você ou você para mim?
Ele perguntou aquilo de forma tão séria que Albafica não cogitou mentir para fazê-lo ir embora. Afinal, a verdade era mais do que o suficiente. E o tédio das conversas dos pais deveras mais seguro para ele do que permanecer ali, consigo.
— Se não tiver contato com meu sangue, você que representa perigo para mim.
O garoto abriu um pequeno sorriso, apoiando as mãos na cama e inclinando o corpo para trás.
— Juro que não estou doente. Minha mãe é um pouco paranoica com minha saúde e está sempre me levando para fazer checape. Se me emprestar uma muda de roupas limpas e me deixar tomar um banho, não vou ser um perigo para você — ele começou a balançar os pés. — Mas acho melhor tirar esses lençóis. Se tinha algo nas minhas roupas pode ter passado para eles.
“Não posso emprestar nada. Por favor, vá embora” Albafica devia ter dito, mas se limitou a perguntar:
— Todas as crianças são como você?
— Não, sou o único filho da minha mãe — negou ele, zombeteiro, revirando os olhos. — Acho que ela... — mas deixou as palavras morrerem. Ia dizer que Albafica era o provável motivo de sua mãe ser tão paranoica com sua saúde. Sabia que a mãe e sua madrinha já eram amigas muito antes de nascer, logo sua mãe devia saber sobre Albafica e sua condição fragilizada. — Nada — disse, por fim. Albafica não precisava saber disso. — Então, vai me deixar ficar?
Suave como um chá fraco foi o sorriso que brincou nos lábios de Albafica. Ia mesmo levar uma bronca do pai, mas paciência. Embora não pudesse tocar a chuva ou sair do quarto, faria algo diferente.
— Tudo bem, Minos.
¢¢¢
Terminada a conversa, Albafica desceu ao primeiro andar do galpão para dar uma olhada nos refugiados do orfanato Filhos do Amanhecer. Porém, assim que alcançou o final da escada, foi abordado pelo irmão caçula de Hasgard, Henrico.
Ele usava um macacão marrom, cuja parte superior se encontrava amarrada na cintura, e uma camiseta branca. Os cabelos azul-escuro sempre bagunçados, os olhos purpúreos travessos, a pele morena volta e meia coberta de fuligem ou graxa... Estavam todos iguais ao dia que ele tentara expulsar Genero do jardim da própria casa.
Na época, Hasgard estava trabalhando para seu pai e Henrico sempre o acompanhava. Aquela havia sido a primeira vez que Albafica saíra da mansão sem supervisão e Henrico, que ainda não sabia de sua existência, achou que fosse filho de algum visitante querendo xeretar a garagem. Ou melhor, filha. Não foi exatamente um ótimo primeiro encontro. Mas depois de um tempo, acabaram se tornando amigos.
— Como você está?! — quis saber ele, preocupado. — Hasgard não me deixou subir pra te ver...
— Bem, Henrico — disse Albafica, com um sorriso polido.
— Tem certeza? Não quer que chame seus pais?
— Minha mãe está visitando minha avó em Tessalônica. E meu pai é a última pessoa que eu quero ver nesse momento. — Albafica se sentiu um pouco desconfortável ao proferir aquelas palavras, mas era a verdade.
Henrico ficou em silêncio por uns instantes, o olhar se tornando mais distante, a expressão azedando aos pouquinhos. Genero estranhou aquela reação, mas ficou quieto. Quando o mecânico falou, as palavras saíram imprensadas, quase inaudíveis.
— Aquele idiota do Dordellion... Então? — Então, é por isso... Pensou Albafica rindo. O mal-entendido daquele dia tinha terminado com Henrico e Minos vendo quem gritava mais alto. — Qual a graça? — O mecânico indagou, meio aborrecido, meio encabulado.
— Deve estar mesmo preocupado comigo para sugerir isso — disse Genero, retornando a seriedade e dando de ombros. Aquela lembrança lhe trouxera novamente suas preocupações.
Alheio a esse detalhe, Henrico prosseguiu:
— É claro que eu estou! Sua saúde não é das melhores. Eu não quero que algo te aconteça por causa dos meus problemas com aquele tipo.
Albafica ergueu uma sobrancelha, dizendo supresso:
— Você cresceu um pouco, Mani. Estou impressionado.
— Calado! — Henrico ralhou com ele, fazendo uma carranca. “Mani” era o apelido que Dordellion lhe dera por não ter se tocado de quem Albafica era logo de cara. Lerdo como um caranguejo. Ele simplesmente detestava esse apelido.
— Mas é sério, estou ótimo — Genero falou, ignorando a cara feia do outro, pois já se acostumara com o jeito bronco dele. — Não precisa passar por cima do seu orgulho. — E, acho que ele não viria mesmo que eu o chamasse... Pensou, ocultando os olhos atrás da franja.
— Menos mal — O mecânico disse, cruzando os braços. Realmente parecia aliviado. — Você ainda vai ficar por aqui?
— Vou. Como eu disse, não quero ver meu pai. — Henrico fez menção de dizer algo, mas Genero tratou logo de cortá-lo. Não queria falar sobre Arnan. — Vou ver como as crianças estão. Depois nos falamos, Henrico.
— Mas...
— Pare de amolá-lo, Mani, e vá trabalhar — disse Hasgard que chegara de fininho, puxando o irmão caçula pela parte de trás do colarinho. — Não se esqueça que dinheiro não dá em árvore.
— Eu sei disso! — reclamou o mais novo, encarrancando-se outra vez.
Ainda discutindo, os irmãos se afastaram.
Grande parte das crianças estava reunida no centro do primeiro andar do galpão, brincando em conjunto. E as outras, como Haruka, em separado. O garoto estava de pernas cruzadas num canto, entretendo-se com um livro. A expressão dele — aliás, a de todos — era bastante calma e relaxada, o que fez Albafica se sentir bem melhor. Aquelas crianças já haviam passado por muitos momentos desagradáveis. Era mais do que justo que pudessem se divertir.
Momentos desagradáveis... Pensou o cavaleiro de ouro, recostando a cabeça num pilar de concreto e tocando com a ponta dos dedos distraído a marca negra em forma de losango que agora adornava a base de seu pescoço. Sua mente uma vez mais havia sido atada pelos dedos de suas memórias e sido arrastada para o passado. Até à noite que os Soldados do Inferno atacaram seis dos orfanatos ajudados pela campanha beneficente encabeçada por Solo.
Na ocasião Albafica estava no quarto, perturbado por tudo o que vinha acontecendo no mundo. Afinal, as feridas deixadas pela recente Guerra Santa entre Athena e o deus das trevas, Apsu, eram profundas e bem visíveis nos rostos dos mais afetados. E como se não bastasse, o estranho acontecimento do Museu Oceânico no dia anterior e a visita daquela amazona de prata naquela mesma manhã indicavam que uma nova batalha estava por começar. Mesmo assim o humor de seu pai seguia inalterado. Realmente não tinham nada incomum, além da aparência.
Se pelo menos seu namorado estivesse ali, ele poderia pensar em algum estratagema para dobrar a índole do Imperador da Tecelagem e fazê-lo ajudar os cavaleiros de Athena. Ele já havia conseguido outras vezes, era o único que conseguia. Afinal de contas, ele era o pupilo favorito de seu pai.
É, mas ele não estava. Já não aparecia há mais de dois dias nem dava notícias, o que era bizarro. Nunca ficavam tanto tempo sem se falar. A ausência dele só estava aumentando suas preocupações. E para piorar tudo, os Centros Musicais arderam em chamas misteriosas...
Se estivesse aqui estaria ironizando toda essa situação... Pensara querendo saber o porquê de tanto silêncio. O porquê de tanta balbúrdia. Se postando à janela e observando a forte chuva que caía igual àquela manhã, cujas estruturas de seu mundo solitário e particular haviam sido abaladas. Por que não aparece? Por que não diz nada?
Fora naquele momento que seu iPhone vibrara, acusando a chegada de uma nova mensagem. Tratou de abri-la, deparando-se com essas palavras:
Filhos do Amanhecer
Salve-os.
Após ler, delete.
Genero travou por um instante. Aquele era o número de Minos, mas era uma mensagem tão curta e impessoal que lhe custava acreditar que fora escrita por ele. Mesmo assim respondeu com um pequeno “já estou indo” e saiu de casa sem dizer nada a Arnan. O Filhos do Amanhecer era um dos orfanatos para o qual o pai enviara as crianças dos Centros Musicais. Se quem ateara fogos aos Centros as tivesse como verdadeiro alvo realmente precisariam de ajuda. Não tinha tempo a perder.
Chegando lá, Albafica encontrou a porta da frente escancarada, o grande casarão estava agourentamente silencioso e escuro. Então, apressou-se para dentro.
Quando finalmente alcançara o antigo salão de festas, convenceu-se que a mensagem era realmente de seu namorado e o que ele quisera dizer com “salve-os”. O lugar exalava um forte e familiar cheiro de veneno e sangue. Amostra residual inconfundível dos Espinhos Carmesim. Pensando agora, talvez fosse por isso que ele não se incomodara em se identificar com palavras. Aquela era uma assinatura única.
Albafica engolira em seco, apertando as mãos contra o peito. Sabia bem o que tinha que fazer, mas receava. Se errasse a dosagem não salvaria ninguém e ainda correria o risco de se matar. Nunca assumira tanta responsabilidade, quase responsabilidade nenhuma — cortesia de seu pai —, e tinha muito medo. Por que fez aquilo, Minos? Por que confiou tanto em mim? Se eu falhasse seríamos ambos assassinos!
Bem, não errara. Todos haviam sobrevivido. No entanto, temendo que alguém ainda desejasse fazer-lhes mal, contatou Hasgard e pediu ajuda. O mecânico, amigo de longa data de seu pai, cedeu um de seus galpões na região portuária sem pensar duas vezes, oferecendo-se para tomar conta dos inusitados hóspedes na ausência de Genero.
O que é isso? Ouço uma voz... É você, minha luz?
Estava extremamente agradecido ao grande homem, mas isso não lhe tirava as questões acerca de Minos da cabeça. Por que ele havia atacado as crianças? Segundo Haruka, havia mais alguém lá naquele dia. Duas pessoas vestindo armaduras negras e Minos parecia estar junto delas. O que Albafica não entendia era por quê. O que Dordellion poderia ter a ver com o Exército do Inferno? Isso cheirava a mais um dos planos loucos dele. Não queria nem imaginar o que os Espectros fariam se descobrissem que ele havia poupado àquelas crianças... O que você tem na cabeça, Minos? Por que foi se meter com eles? Por que não me disse nada?
— O que estará fazendo agora...? — pensou alto, soltando um suspiro. Não havia tido tempo de conversar com Dégel sobre Minos. — Talvez ele conseguisse dar uma interpretação melhor para toda essa situação...
— Amo, por favor, me escute! — Áureon chamou sua atenção, puxando de leve a manga de seu casaco. Pela expressão dela, aquela não era a primeira vez que tentava tirá-lo do mundo da lua.
Então, era ela que estava me chamando...
— O que houve, Agathia? — perguntou, dirigindo um sorriso a ela.
— Seres ruins se aproximam! — disse ela, com urgência. — Posso sentir!
— Quantos? — quis saber ele, ficando sério.
— Dois, sendo Thanatos um deles! Reconheço a linha da vida dele! — respondeu ela, parecendo ainda mais alarmada. O cavaleiro podia sentir que ela não tinha medo do Mensageiro de Hades, mas sim de que tipo de experiências cavernosas ele poderia proporcionar as crianças. — O que faremos, Amo?
Albafica guardou silêncio por um instante. Tinha certeza que os enviados de Hades não estavam atrás das crianças, fora bastante meticuloso ao salvá-las e levá-las até ali. Logo, deviam estar a sua procura. Talvez já saibam sobre Agathia. Seja como for, teria de deixar suas divagações para mais tarde. Ou quem sabe não precisasse prosseguir atolado em meio a tantas dúvidas. Certamente sabem alguma coisa sobre Minos. Convenceu-se, dando mais um suspiro, e se dirigiu a pequena Zetar:
— Deixe que venham. Vamos recebê-los.
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