Ali-enação
1 One-shot
Eu não dormia há um pouco mais de três dias, e me encontrava escondida em um dos armários de vassouras do Sanatório Radley naquela madrugada, tamanho era o meu estado de torpor e remorso. A verdade era que Toby Cavanaugh estava morto, e eu não me comovia, não me abalava e nem me deprimia. Eu o vi morto diante de mim, mas me deparar com aquilo não me perturbou. Naquele instante, era como se todo o oxigênio do mundo não alcançasse os meus pulmões, porque a única verdade que me movia no meio de uma vida cheia de mentiras que nos detêm, era que Alison DiLaurentis estava tão morta quanto Toby à minha frente, e eu nem sequer havia me dado conta daquilo depois de todo esse tempo.
Os mistérios que existiam por causa da morte de Alison e que ainda estariam por vir por causa dela me viciavam, e aquele vício vinha de Alison. Era tudo por causa de Alison DiLaurentis, e aquela verdade não parecia fazer sentido nenhum tanto para mim como para o mundo ao meu redor.
O meu namorado estava morto, e eu estava entrando em colapso nervoso por causa da minha amiga morta. Talvez, aquilo não passasse de delírio e o melhor a ser feito fosse não pensar naquilo. Porém, como eu não poderia pensar em Alison DiLaurentis, aquele enigma incompleto? De todos os mistérios que ela deixou, havia um que eu jamais poderia solucionar: ela, Alison DiLaurentis. Alison era o maior mistério entre todos aqueles que me intrigavam. Eu poderia solucionar todos eles, mas jamais ela. E aquilo conquistava a minha mente e o meu corpo, ao mesmo tempo que me desestabilizava. Nós nunca mais ouviríamos juntas os discos antigos de nossas mães. Alison nunca mais viria até minha casa, e aquilo me incomodava e me aterrorizava mais do que era o certo.
Quando não havia mais sons na outra sala, olhei pela fechadura e vi que a sala estava vazia. Saí do armário de vassouras, e virei à minha esquerda, contando os meus passos até chegar à porta específica que eu deveria abrir enquanto ficava de ouvidos atentos a qualquer mínimo som. Abri a porta que era uma das últimas daquele corredor, e ao fechá-la, observei pela fresta se alguém estava vindo naquela direção, entrando rapidamente em um novo corredor. Senti um vento gelado atingir o meu corpo fraco naquele corredor, mas não me incomodei e nem hesitei os passos.
Minhas pernas bambearam ao ouvir um murmúrio cantarolante conhecido. Dei mais alguns passos até ficar diante de uma porta gradeada a qual eu abri e que esqueci de fechar pois paralisei ao encontrar Alison agachada e de costas a menos de dois metros de mim perto de um tocador de vinil, lendo um disco que reconheci como o Soulful da Dionne Warwick.
— Sua mãe que tinha esse disco? — ela perguntou de forma natural, virando-se para me fitar, nem um pouco surpresa de me ver.
— Não, sua mãe que tinha esse — eu respondi, gaguejante.
— Sério? — voltou a olhar o disco — Devo ter perdido ele na sua casa e não voltei para buscar. Perdi tantas coisas lá. — Alison se levantou — É só eu que acho que a sexta série foi o melhor ano de todos? — Colocou o disco no tocador de vinil.
— Eu não conhecia você nessa época — eu falei, trêmula.
— Querida, você não me conhecia nem quando você me conhecia — quando ela disse aquilo, a música começou a tocar, e Alison se virou, se aproximando e puxando uma de minhas mãos para dançarmos — Qual é Spence, vamos lá, desista — E então ela colocou a mão esquerda dela na minha cintura, e começamos a dançar — Vamos fingir que você está se preparando para a sua primeira festa de garotos garotas — ela ficou em silêncio por alguns segundos — Ninguém te disse que a prática é melhor do que a festa em si? — sussurrou, como se confessasse algo.

Pull the string and I'll wink at you, I'm your puppet
I'll do funny things if you want me to, I'm your puppet
I'm yours to have and to hold
Darling you've got full control of your puppet
— É Toby? O garoto que fez aquilo com você? — indaguei após um longo silêncio.
— Toby? Querida... — Alison olhou para mim, rindo — Garotas lutam melhor do que garotos — Colocou a mão no queixo — Ainda bem que ela não deixou uma cicatriz.
— Ela? Quem?
— Você parou de dançar... — ela falou, magoada. Ficamos em silêncio por algum tempo e ela retomou — Sabe porquê você não foi a minha favorita? Porque você é atrevida — seu rosto parecia ressentido — Porque você não me deixar estar no controle, Spencer. Nem mesmo na sua mente.
Eu não conseguia encará-la, não pelo que Alison havia dito, nem por aquele momento não ser real, mas porque toda aquela verdade parecia mais irreal do que deveria ser. Quando senti gotas nos meus pés foi que notei que eu estava chorando.
— Me perdoe Alison — foi então que o choro veio de modo intenso e severo, eu não sentia o meu rosto, só as lágrimas — Eu-eu-eu... — eu tentava dizer mas a cada tentativa de dizer o que eu queria dizer, eu me esquecia — Eu-eu... Alison, eu — foi então que finalmente a encarei.
— Eu sei — ela afirmou de modo doce, colocando as suas mãos sobre meus ombros — Querida, eu sei.
— Spencer? — uma voz masculina que eu reconheci me chamou. Ao olhar para trás, me deparei com Wren — O que você está fazendo aqui?
Naquele momento foi que percebi que eu estava agachada, próxima a um cavalo de balanço de brinquedo da ala Psiquiátrica Infantil do Radley, o qual estava com o pescoço aberto, e nas minhas mãos estavam dois passes. Um que era um passe de funcionário com o nome Ali Dee. Ao ver a foto que deveria ser de uma funcionária qualquer, reconheci Mona Vanderwall. E o outro, era o passe de visitante de Cece Drake, autorizado pelo doutor Wren Kingston.
Um turbilhão de teorias passaram pela minha cabeça naquele momento, e eu me senti perdida e zonza, não com todas aquelas teorias, mas com a verdade imutável da morte de Alison DiLaurentis e o que havia sido revelado dentro de mim após ter encarado aquela verdade.
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