Alguém para amar

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá, tudo bem com você? Esta fic foi uma resposta ao Desafio de Natal 2020 do grupo Severo Snape Fanfictions, e os convido a fazerem parte da comunidade se for um apreciador de boas histórias sobre Severo Snape, assim como eu. Apenas para contar: A história é narrada em dois tempos: o presente, que seria o ano de 2008; e o passado (em itálico, destacado), que seria o ano de 1999. A música cantada na história foi extraída de um livro chamado (em inglês) "The return of the native", escrito por Thomas Hardy. O livro tem sua versão audiobook na voz do ator Alan Rickman, que interpretou Severo Snape na franquia de Harry Potter. O áudio está disponível no trailer da fanfic, no link abaixo. Boa leitura! Veja, também, o trailer desta fanfiction: https://www.youtube.com/watch?v=zNcaYP8iJsE&feature=youtu.be

Hermione se encontrava de joelhos no lado bruxo da estação de Kings Cross, pondo-se a revirar a mala de mão, com cuidado, em busca de algo.

— Vejamos... – Metade do antebraço a perder de vista dentro da maleta magicamente expandida – Aqui está!

Dali de dentro, retirou dois cachecóis vermelho e dourado tricotados a mão, um deles aparentemente mais gasto que o outro. Ainda de joelhos, virou-se para a pequena figura ao seu lado e sorriu, afável.

— Você não ficou muito assustada, ou ficou, querida? – indagou, segurando as mãozinhas geladas da menininha entre as suas.

— Um pouco, mamãe.

— Eu disse que não precisava ter medo, querida. – Ela dizia, enquanto enrolava o cachecol menor em torno dos ombros da filha, certificando-se de deixá-la quentinha.

Um discreto sorriso marcou os lábios rosados da garotinha, de onde escapou uma leve gargalhada quando Hermione lhe provocou algumas cosquinhas em seu pescoço. Um sonoro apito soou ao fundo, atrás delas, seguido de jatos de vapores saídos direto das chaminés da locomotiva vermelho carmesim.

— Veja, Domitila! – Hermione encaixou-a entre suas pernas – Ele está nos chamando para embarcar!

— Então vamos, mamãe! O Expresso já vai partir.

Puxando-lhe em direção à locomotiva, Domitila quase não deu tempo à Hermione para levantar-se e recuperar a maleta do chão. Rindo da animação da filha, ela se deixou ser conduzida por todo o caminho, cada vez mais certa de que tinha sido uma excelente ideia trazê-la consigo para aquela viagem, que ela pretendia que fosse breve.

Era início de dezembro daquele ano e as paisagens escocesas estavam modificadas pela neve branquíssima que recobria as montanhas no horizonte. Durante boa parte do trajeto, Domitila apreciou com encantamento tudo o que podia enxergar através das janelas. O restante do tempo, dormiu nos braços da mãe. Quando despertou, já era final de tarde e Hermione tinha lhe comprado quase todo o carrinho de doces.

Mesmo passando a maior parte do tempo na casa dos avós, na Londres trouxa, Domitila gostava mais da magia, como era de se esperar de uma criança de oito anos de idade, que apreciava histórias de heróis e criaturas mágicas. Todos os anos, uma promessa silenciosa permeava a relação de mãe e filha, e Domitila insistia em cobrá-la.

— Quando vou poder morar em Hogwarts e fazer magia, mamãe?

— Nós já conversamos sobre isso, querida. – Hermione virou-se para ajudá-la a abrir a embalagem de um sapo – Você ainda é muito nova para poder estudar em Hogwarts. Estamos indo ao castelo para visitar a amiga da mamãe. – Ela ia dizendo, quando levou um susto – Oh não, Domitila! Este já é o segundo sapo de chocolate que vai embora. Você tem que ser mais cuidadosa, eles são muito rápidos.

A ponta do queixo da garotinha tremeu, anunciando o que viria logo em seguida. Nas mãos, ela ainda segurava a embalagem de onde o sapo tinha pulado, em um único salto. Domitila era uma criança muito esperta e inteligente, mas, também muito sensível.

Hermione acariciou com os dedos a lateral de sua face, secando a lágrima de antes. Alisou alguns fios de cabelo que lhe emolduravam o rosto até a altura do queixo, recentemente aparados, cada vez mais surpresa com o quanto eram “ridicularmente” lisos e de uma tonalidade mais escura que os seus. Se não fosse pelos olhos castanhos, talvez, Hermione diria que não tinha legado nenhuma herança genética à filha.

— Já estamos quase chegando ao castelo, querida. Você deveria guardar os seus doces para poder comê-los depois do jantar. – Hermione se limitou a dizer, enquanto ajudava Domitila a limpar os dedos sujos de chocolate

Domitila piscou e guardou os doces nos bolsos do casaquinho que vestia. Na vidraça atrás dela, o reflexo fez Hermione refletir sobre si mesma e quem ela era agora: uma mulher madura, muito perto de completar trinta anos, vice chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, mãe de uma adorável criança que não lhe permitia desistir de nada, totalmente grata por tê-la em sua vida. E, agora, prestes a pisar no castelo, novamente, oito anos depois de ter partido dali às pressas. Sem perceber, já estava entregue às lembranças de quando só tinha 20 anos de idade.

Era inverno, tão frio quanto se espera que os invernos sejam, há poucos dias das festividades Natalinas. Hermione planejou aquela viagem assim que tomara conhecimento que havia uma coleção de anotações feitas por Alvo Dumbledore acerca dos famosos contos infantis escritos por Beedle, o Bardo.

A jovem havia herdado do ex-Diretor a versão original destes contos, escritos em runas antigas, legado a ela por testamento um ano antes da batalha em Hogwarts. Tinha sido uma surpresa feliz, e, como uma boa apreciadora de histórias que era, Hermione começara a traduzi-los ainda enquanto concluía seus estudos em Hogwarts. Agora, recém-formada, estava decidida a publicá-los juntamente com as anotações do velho mago.

Era por isso que Hermione estava ali, agora, caminhando pelos jardins a caminho da entrada principal do castelo. Ao longe, ela já podia ver uma figura imponente bloqueando a passagem, embaixo dos arcos de pedras da entrada. Se não fosse pelo pálido da pele, ela talvez não o tivesse visto de tão negra que eram suas vestes, que se confundiam com a noite. Aquela, certamente, não era a recepção que tinha planejado, e uma sensação estranha lhe percorreu a espinha, à medida que a distância era reduzida entre ela e Severo Snape.

— Boa noite, Professor. Obrigada por me receber tão tarde.

Ela o cumprimentou antes mesmo de alcançar o topo dos degraus, apertando o sobretudo com mais força para bloquear o frio. Mas Severo dispensou qualquer tratamento em resposta, apenas com um movimento de cabeça.

— Fui informado da sua chegada ainda há pouco, o que já é bastante curioso. – Ele se limitou a dizer, os olhos estreitos a sondá-la – A Diretora MacGonagall precisou deixar as dependências da escola esta manhã. A qual razão deve-se esta visita, Srta. Granger?

— Lamento a surpresa, Professor. Estou aqui para receber alguns documentos que são de conhecimento da Diretora. Suponho que ela deva ter avisado.

Severo precisou de alguns segundos para compreender o problema, enquanto Hermione torcia para não ter sua viagem dada em vão.

— Não avisou. – Ele disse, por fim, um tom rouco e áspero ao mesmo tempo.

Com um suspiro, Hermione abaixou os ombros e descansou o peso do corpo sobre as pernas, depositando a maleta no chão aos seus pés. Cada movimento foi precisamente acompanhado pelo homem.

— Vejo que pretendia passar a noite no castelo. – Severo constatou – Irei acomodá-la em um aposento disponível esta noite, enquanto tento contatar a Diretora pela manhã.

Os aposentos disponíveis – ela não sabia se era por coincidência ou azar –, ficavam no subsolo do castelo. Um cômodo bastante amplo, com tudo o que precisava para se sentir confortável. Nos aposentos quase ao lado, Severo Snape se desfazia dos trajes pesados enquanto servia-se de uma dose de seu whisky preferido. Se já não bastasse o infortúnio de continuar a lecionar naquela escola, ainda tinha que atender às demandas da Direção na ausência de Minerva, e isto o deixava tremendamente entediado. Já tinha se livrado da capa de inverno e do blazer negro, e agora terminava com os últimos botões da camisa branca, quando batidas na porta lhe fizeram largar o copo sobre a bancada e abotoar tudo novamente.

— Perdão por incomodá-lo, Professor. – Hermione perdeu a fala depois de perceber que nunca o tinha visto sem o preto usual – Eu estava tentando fazer uma ligação, mas parece que a rede de Flu está desativada em meus aposentos.

Severo a analisou por algum tempo, com uma mão apoiada ao batente e a outra segurando a porta entreaberta, considerando o que ele podia ter a ver com aquilo. Em um estalo, moveu-se para o lado e abriu passagem para a jovem.

— Use a minha lareira, se quiser. – Ele a indicou com a cabeça.

— Não levará mais de cinco minutos, eu garanto.

Hermione adentrou no cômodo, caminhando com atenção para não tropeçar nas tapeçarias nem tão pouco nos cristais sobre a mesa de canto. Com um baque, a porta dos aposentos se fechou e a forçou a olhar para trás e acompanhar com os olhos a figura do homem, conforme ele se movia pelo salão. Ela notou o seu andar cansado e seus movimentos desinteressados quando pegou o copo de whisky de cima da bancada, de qualquer jeito.

— Estarei em meu laboratório. Avise quando terminar. – Ele informou, indo em direção a um cômodo adjacente, antes alcançando um pergaminho, tinteiro e pena sobre uma mesinha de canto.

Assim que se viu sozinha, Hermione chamou alguém pela rede Flu. Do outro lado da coluna, Severo tentava escrever uma carta à Diretora Minerva, o copo de whisky ao lado, mas só conseguia prestar atenção na conversa lá fora.

— Que lugar é esse onde você está, Hermione? – Ronald perguntou, fazendo uma cara de espanto nas labaredas – Não vejo nenhuma janela.

— Estou em Hogwarts, Rony, onde mais eu estaria? E talvez eu precise passar alguns dias aqui.

— Ah, não, Mione! – Exclamou o ruivo – Quantos dias? O Natal está tão perto...

Quando as chamas mudaram para o vermelho, depois de convencê-lo, Hermione se levantou do chão. Mas antes mesmo que dissesse qualquer coisa, os solados das botas de Severo denunciaram a sua aproximação. De volta à sala de estar, Severo era, novamente, uma visão negra, vestido com seu blazer de botões que subiam até o pescoço. Ele não deixou de notar que a ex-aluna parecia mais interessada na decoração dos seus aposentos do que qualquer outra coisa. Aquela era a primeira vez que se encontrava a sós com ela. Ergueu um envelope pardo na altura do peito e o agitou para chamar a atenção de Hermione.

— Enviarei esta correspondência à Diretora amanhã, bem cedo.

Com isso, jogou o envelope sobre a escrivaninha, sem o menor cuidado, e, quando percebeu que Hermione não diria nada, moveu-se em direção à adega, pondo-se a encher o seu copo novamente com o Whisky de Fogo.

— Deseja beber algo?

A resposta à pergunta não veio, e ele já tinha devolvido a garrafa ao lugar quando a ouviu dizer que aceitava. Entornou uma dose do álcool em um copo vazio e virou-se de volta na direção dela, oferecendo-lhe a bebida com o braço estendido. Era notório que toda a expressão corporal da mulher demonstrava insegurança, até mesmo no tempo que demorou para aceitar a bebida.

— Soube que está trabalhando com o novo Ministro, Quim Shacklebolt. – Severo comentou, enquanto a estudava com o olhar – Em qual departamento está atuando?

— Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas. – Ela informou, percorrendo as bordas do copo com o indicador, antes de levá-lo aos lábios e sorver um pequeno gole – Nível 4.

— Direitos dos elfos, claro. – Severo descansou seu braço ao lado do corpo, o copo preso nos dedos esguios, observando-a enquanto ela apreciava a sua própria dose da bebida – Como se sente?

— Aquecida. – Ela respondeu sem pensar, limpando o excesso do álcool nos lábios – Obrigada por isso, Professor.

— Eu não estava me referindo à bebida. – Ele comentou, um risco nos lábios indicando escárnio – Como se sente sendo a mais jovem a ocupar um departamento no Ministério, sem precisar passar por todas aquelas etapas de seleção?

Ela desejou não ter tido a brilhante ideia de usar a rede Flu para se comunicar com Ronald. Estava levemente irritada pela insinuação do homem, e desatou a falar.

— Fui convidada pelo próprio Ministro a realizar o mesmo trabalho que comecei em meu quarto ano, aqui em Hogwarts, o F.A.L.E. Sob fortes recomendações do corpo docente, mas não de todos os professores, evidentemente. – Ela obrigou Severo a torcer o nariz com aquela declaração – E, claro, sob as recomendações de Alvo Dumbledore, escritas quando em vida.

— Direito dos elfos, como eu disse antes. – Ele concluiu, a voz reverberando no silêncio, o grave colidindo com o ar pesado – Perceba que não estou criticando o seu trabalho no Ministério. São eles que dizem.

Hermione não entendeu a colocação, mas o observou erguer um jornal dobrado ao meio. Ela conhecia bem o conteúdo das manchetes.

— Não sabia que se interessava pelo o que os jornais dizem, professor. – Ela o desafiou.

Daquele momento em diante, um limite se rompeu entre eles, e foi um caminho sem volta. Ela soltou um pigarro, já incomodada com o olhar do homem sobre ela.

— Também não estou dizendo que acredito no que eles dizem. Esperava ouvir uma versão mais justificável, e agora vejo que a tenho. – Ele se afastou, indo sentar em sua poltrona – Não me surpreende que, dos três, tenha sido aquela que mais se destacou, mesmo depois da guerra. Se bem me recordo, foi assim, sempre. – Severo dedicou-lhe um olhar profundo, segurando o copo de whisky com as duas mãos – Sempre aquela que tinha todas as respostas.

No fundo daquele olhar, um rio de águas escuras correu distante, e Hermione sentiu que podia afogar-se nele, mesmo que tentasse nadar. Ela demorou para encontrar sua voz, mas o fez.

— Na verdade, senhor, Harry e Rony também se tornaram aurores. Harry é chefe do Departamento, inclusive.

Em um solavanco, Severo ergueu-se da poltrona e depositou seu copo sobre a mesa de centro, aplicando certa força a ponto de quase rachá-lo. Quando deu início àquela conversa, não esperava que caminhasse por aquele sentido, e agora já não tinha mais interesse em nada que Hermione dissesse. A atitude do homem fez Hermione recuar e refletir sobre o fato de já não ser mais bem-vinda.

— Obrigada pela lareira. Vou voltar para os meus aposentos. – Ela se adiantou, não querendo ficar nem mais um segundo ali – Vou levar isso comigo, se não se importar.

Percebendo que já não havia mais o que ser dito, se dirigiu até a pesada porta, com o copo nas mãos. Mas antes de abri-la para poder sair, ouviu o som de papel sendo amassado. Quando olhou para trás, Severo estava jogando o que fora um jornal, antes, no lixo. Ela sorriu de canto, achando que podia precisar de outra dose daquele whisky para conseguir tirar aquela imagem da cabeça e dormir.

O subsolo era frio e úmido, mas os feitiços de aquecimento foram suficientes durante a noite. Quase perto do horário do almoço, ouviu duas batidas na porta.

— A Diretora não retornará antes de uma semana. – Ele foi logo informando-a, devolvendo o envelope aos bolsos das vestes – Aconselho que volte após as festividades de fim de ano.

Severo varreu com os olhos a aparência de Hermione naquela manhã, notando o pijama de flanela e os pés descalços, sentindo vontade de avisá-la sobre o risco de um resfriado.

A mente brilhante da mulher trabalhou para tentar absorver todas as informações cuspidas naquela única fala.

— Uma semana está bom, para mim. Eu ficarei.

De nenhum modo, Severo esperou que ela tomasse aquela decisão. Sem pedir permissão, ele se esgueirou pela entrada do cômodo e caminhou até o centro da sala, o que ela achou muito imprópria a intromissão.

— Se está segura disso, espero que saiba que não haverá muito o que fazer nos próximos dias, neste castelo. – Ele confidenciou, as mãos enfiadas nos bolsos do blazer, esperando que ela mudasse de ideia.

— Agradeço a preocupação, mas eu trouxe o meu trabalho comigo.

Hermione lhe concedeu um sorriso e esperou paciente por alguma nova colocação do ex-professor, que apenas lhe direcionou um olhar menos efusivo e saiu dali.

O escritório da Direção ainda tinha a mesma aparência de oito anos atrás. Domitila parecia encantada com a quantidade de quadros que cobriam as paredes, quase até o teto. Mas o que a atraiu mesmo foi a estante coberta de livros. As mulheres mais velhas sentaram-se frente a frente, Minerva por detrás da enorme mesa, enquanto Hermione entregava-lhe algo.

— Estou impressionada, Hermione! – Exclamou a bruxa – Você fez um trabalho incrível com essa tradução dos contos de Beedle, e as anotações de Alvo, evidentemente.

— Ainda não foi lançado, mas eu queria que o tivesse em primeira mão.

Minerva levou algum tempo analisando o livro, sentindo-se transbordar de um sentimento que beirava o orgulho e a admiração. Enquanto a observava fazer isso, Hermione desviou sua atenção para o enorme quadro que ocupava um lugar de destaque na parede acima dela. A moldura era muito bem adornada, mas foi a pintura que a fez prender a respiração.

— Ele está dormindo, Diretora? – Ela arriscou perguntar, sentindo-se uma tola emocionada.

Era a primeira vez que o via. Parecia muito sereno em sua pose, ela notou. Os olhos estavam fechados, mas ela via através da túnica a respiração ritmada no peito.

— Parece que sim. – Minerva analisou rapidamente – Mas não devemos confiar, às vezes ele só finge que dorme. – Ela completou, com extrema naturalidade, o olhar buscando o da jovem — Às vezes, me sinto responsável por essa situação toda, Hermione. Se eu não tivesse feito uma viagem de última hora, naquele ano, você não teria estado na companhia de Severo, e sua dor e seu fardo hoje seriam menores.

— Não, por favor, Minerva! – Hermione se inclinou, alcançando as mãos da mulher e tomando-as entre as suas – A senhora não é responsável por nada. Meu envolvimento com Severo e o fruto disto nunca será um fardo para mim. – Ela sorriu, sincera — Talvez ainda doa um pouco, é verdade. O que mais me consola é saber que eu pude contar a ele sobre Domitila, antes que partisse.

Sentada em uma larga poltrona, as pernas mal tocando no chão, Domitila passava as páginas de um livro que parecia muito maior e mais pesado que ela. Sua leitura ainda não era fluida, mas ela se esforçava bastante.

— Hog-warts. – Sua vozinha não era mais que um sussurro – Uma his-his-tó-ria. – Ela vibrou, olhando de relance para a mãe — Parece legal.

Do outro lado da sala, Hermione já não ouvia nada do que Minerva dizia, mas concordava assim mesmo. A pintura do homem se moveu, roubando todo o ar dos seus pulmões, e quando ele não despertou, concluiu que estava sonhando. De repente, ela já não sabia mais se quem sonhava era a pintura, ou ela, sonhando acordada.

Havia algo especial na maneira como o Natal era comemorado no mundo mágico. Talvez fosse a magia, em si, dispersa por todos os lados. Mas Hermione não se importou em comemorar o Natal sozinha, naquele ano. Ela decidiu, de última hora, passá-lo fora dos terrenos de Hogwarts. Esperar o retorno da Diretora MacGonagall não tinha sido uma boa ideia, conforme concluiu dois dias depois.

De todos os lugares possíveis, ela escolheu o Cabeça de Javali, o pub que ficava localizado no vilarejo de Hogsmeade. O local tinha melhorado muito desde a vez que estivera ali, organizando a Armada de Dumbledore. Ela pediu uma cerveja escura e um prato de petiscos, e, enquanto saboreava, prestava atenção nas conversas alheias. No canto mais escuro do pub, uma roda de amigos conseguiu chamar a sua atenção, com seus risos e gargalhadas estridentes. Ela achou muito divertido, e se concentrou neles por um tempo.

— Vamos, homem! – Um deles dizia, de pé, gesticulando enquanto o seu copo de cerveja transbordava sobre a mesa aos protestos dos amigos – Faça alguma coisa. Dance, cante, se remexa...

Hermione se percebeu rindo junto, tentando lembrar quando fora a última vez que se divertira com os amigos, daquele jeito.

— Precisa de algo? – Uma voz tomou sua atenção, assustando-a.

— Não, estou satisfeita, senhor. – Ela tentou seu sorriso mais sincero.

Mas Aberforth Dumbledore não era dado a muitos sorrisos, e aquele seu jeito avesso talvez não mudasse nunca. O homem de barbas brancas, quase uma cópia do irmão, seguiu o olhar de Hermione e, quando encontrou o foco na mesa mais barulhenta do seu pub, soltou um resmungo indecifrável. Depois disso, se afastou polindo um copo nas mãos. Hermione ficou a entender o gesto, quando seus ouvidos captaram uma melodia vinda não sabia de onde.

“Le point du jour

A nos bosquets rend toute leur parure;”

Os versos soaram tímidos, como se seu cantante estivesse testando o interesse do público. As conversas paralelas ainda estavam altas, mas foi naquela melodia que a audição de Hermione encontrou refúgio.

“Flore est plus belle a son retour;

L'oiseau reprend doux chant d'amour;

Tout celebre dans la nature

Le point du jour.”

Não havia nada de excepcional na letra, mas ninguém ousou pedir-lhe para parar de cantá-la. Hermione procurou pela origem do som, já sentindo uma pontada de reconhecimento subindo em forma de arrepio, eriçando seus pelos e causando vertigem. O barítono, no entanto, a encontrou primeiro.

“Le point du jour

Cause parfois, cause douleur extreme;”

Sentado à mesa mais barulhenta do pub, coberto pela sombra de uma viga de carvalho, Severo vacilou nos versos e pareceu indeciso sobre continuar a cantá-los. Ele percebeu a frustração evidente na expressão de Hermione quando ela achou que a música tivesse acabado. Confiante de que a sombra o mantinha longe da vista, ele continuou a cantata.

“Que l'espace des nuits est court

Pour le berger brulant d'amour,

Force de quitter ce qu'il aime”

Então ela, finalmente, fisgou o olhar do homem cujo timbre lhe fizera empertigar em seu assento, esquecendo-se que precisava respirar. O conto da boca do homem subiu e Hermione soltou todo o ar em forma de suspiro, ouvindo o verso final ressoar dentro da sua cabeça.

“Au point du jour!”

Conforme as páginas do livro iam sendo viradas, Domitila apreciava com interesse as imagens que iam ganhando vida. Bruxos e bruxas sorriam e acenavam nas fotografias da novíssima edição do livro que Hermione, uma vez, devorara quando criança.

— Domitila está cada vez mais parecida com você: cercada por livros. – Comentou a bruxa mais velha, com certo brilho no olhar.

— Há tudo em Domitila, menos coisas parecidas comigo, Diretora. – Hermione, no entanto, discordou – Ela é uma criança... como posso dizer isso? Reservada. Eu contei a ela toda a verdade, no último verão. Eu mostrei a ela uma foto dele e contei algumas histórias. – Ela deu uma pausa, respirando com certo alívio por poder conversar sobre aquilo – Depois disso, ela nunca mais me fez perguntas a respeito. Ela tem guardado isso para si, desde então.

A revelação pareceu afetar a Diretora de uma forma intrigante, mas Hermione entendeu que fosse excesso de cuidado, já que a bruxa era como uma mãe para ela.

Em sua poltrona, a pequena encontrava-se alheia à conversa das mulheres adultas. Ela virou com impaciência as páginas do livro, achando irritante a quantidade de conteúdo sobre aquele velho de longas barbas brancas, e oculinhos engraçados. Quando a última página sobre Alvo Percival Wulfrico Brian Dumbledore – nome, este, que ela nem ousou tentar ler – foi virada, Domitila achou curiosa a página seguinte.

— Se-ve-rus. – Uma fenda se abriu no topo do seu nariz, os olhos vidrados no que lia – Pro-fes-fes-sor de Po-poções e Di-retor.

As pessoas se acostumam. Não há nada de errado em se acostumar com as coisas. Mas, é quando o costume se torna palpável que as coisas podem começar a ficar erradas. Agora, o costume lhe saltava aos olhos e ela já não sabia mais como faria para vê-lo e ouvi-lo de novo sem lembrar daquele sorriso e daquela voz. A música acabou, mas continuou a ressoar no fundo da sua cabeça, mesmo depois que ele já tinha se levantado da mesa e ido embora.

— Esse velho idiota precisa parar de servir essa lama aos seus clientes.

Hermione ergueu a cabeça em um salto, virando-se para o lado e fitando o homem que acabara de se juntar a ela no bar.

— A Srta. não me avisou que passaria o Natal fora de Hogwarts.

— Eu não o vejo há dois dias. – Ela argumentou – E depois, estou quase certa de que foi o melhor que eu podia ter feito.

— Aposto que sim. – Ele concordou, terminando a bebida em seu copo sem perceber o olhar que lhe foi dirigido – Embora eu suspeite que teria preferido cear com os elfos, na cozinha.

Uma explosão de risos escapou de Hermione depois de ouvir aquela suposição. Mesmo que não tivesse tido a intenção de diverti-la, Severo achou interessante o som de seu riso, ou o modo como ela inclinava seu corpo, ressaltando que tinha seios maiores do que ele se lembrava. Severo corou com esse pensamento, e Hermione achou que o tivesse ofendido com a gargalhada.

— Desculpe, professor. Espero que não leve para o pessoal, eu só estava rindo porque os elfos me fizeram esse convite mais cedo.

— Inacreditável! – Ele exclamou, fingindo surpresa – Mais inacreditável ainda que a Srta. não tenha aceitado.

Inesperadamente, se não tivesse sido pela agilidade com que Severo se ergueu e a protegeu com o próprio corpo, ela teria sido atingida por um cliente muito embriagado que já causava um leve tumulto por onde passava.

— Faria alguma objeção se eu a tirasse daqui, agora mesmo? – Severo arriscou a pergunta, incomodado com as pessoas que invadiam seu espaço.

— Eu não sei...

— Descobriremos longe daqui, então. – Ele anunciou, pegando-a de surpresa quando foi se afastando, quase não lhe dando tempo para buscar o seu casaco no encosto do assento – À propósito, já é Natal.

Hermione direcionou o olhar a tempo de ver Aberforth acenar com a cabeça em negação, para ela, deixando-a intrigada. Ela o acompanhou pelo caminho que Severo abria entre os clientes do pub, mas, quando alcançaram as escadas que subiam para o primeiro andar, Severo a interrompeu de supetão.

— Tome cuidado com esses degraus, estão mais velhos do que o proprietário desse lugar.

Uma vez no topo, não notou que ele já tinha aberto uma porta e terminava de pendurar o sobretudo em um aparador ao lado da lareira.

— Eu apreciaria se entrasse e fechasse a porta. – Sua voz a alcançou.

O quarto era claramente muito limpo, com tudo disposto em seu devido lugar.

— Você está... hospedado neste quarto, Professor?

Sua curiosidade imperou e percebeu-o diante de uma bancada de trabalho.

— De forma permanente. – Ele respondeu, sem qualquer entusiasmo.

Depois da reconstrução do castelo, os seus aposentos já não lhe ofereciam o mesmo conforto de outrora, e foi assim que optou em se afastar para o povoado, mesmo sabendo que as viagens quase diárias seriam cansativas. Quando não se encontrava disposto a fazê-las, simplesmente ficava nas Masmorras, contrariado.

Hermione se movimentou pela sala e se desfez do casado de inverno, enquanto se juntava ao lado dele para analisar o que fazia.

— Hoje é noite de Natal, Professor. Não deveria trabalhar tão exaustivamente.

— Não é trabalho. – Ele explicou – Ao contrário da Srta., não levo o trabalho comigo para todo o canto que vou.

Se Severo já não tivesse bebido o suficiente pela noite, talvez nunca teria sugerido trazê-la para dentro do seu aposento. Ele gostava de ter sua privacidade mantida. Mas, de uns tempos para cá, suas ações tinham a infeliz tendência de deixá-lo em situações difíceis de lidar.

— Então me diga, Sra. Granger, o que eu obteria se adicionasse raiz de asfódelo em pó a uma infusão de losna?

Um suspiro convencido brotou pelos lábios de Hermione.

— A Poção do Morto-Vivo. – Ela respondeu, confiante – Mas não acho que a esteja preparando.

Um pequeno risco indicou um sorriso nos lábios de Severo, que pareceu satisfeito, mas nada disse, até virar-se para a bancada novamente, começando a juntar as ervas, que antes tinha picado, em um gral de pedra. Seus olhos acompanhavam os movimentos precisos das mãos de Severo, os dedos esguios em torno do bastão, imprimindo força ao processo de macerar as ervas em seu utensílio, exaltando os músculos do antebraço descoberto pela manga da veste, que fora dobrada meticulosamente em três camadas, presas ao cotovelo.

— De fato, não estou. – Ele respondeu, dando uma pausa no processo – Gostaria de tentar?

Ao oferecer o bastão, Hermione o aceitou com entusiasmo.

Deixando-a incumbida da tarefa, Severo dirigiu-se até um armário para obter algo de que precisava. Quando se virou, já em posse do que tinha ido buscar, precisou de um tempo para absorver a adorável visão das costas nuas da mulher, a pele clara reluzindo na fraca iluminação da sala. Os ombros se moviam conforme a pressão aplicada no trabalho, e ele achou que a visão de suas omoplatas valia o tempo que já estava ali, parado. Todas as suas formas físicas estavam evidenciadas através do tecido de seu vestido escarlate, justo em seu corpo. Quando retornou à posição de antes, ao seu lado, Severo já não se parecia a mesma pessoa de antes.

— Já é suficiente. – Ele determinou, de forma austera, uma mão aberta esperando que o bastão lhe fosse devolvido.

Mesmo sem entender a falta brusca de cordialidade, ela se afastou um passo para o lado.

— O que eu obtenho se adicionar uma mistura de anis e sementes de funcho em uma infusão de losna? – Ele perguntou, novamente, como se, de fato, estivesse a ensinar.

Hermione não se lembrava de nada parecido nas aulas de Poções.

— Não estou certa da resposta, senhor. – Ela ruborizou, quando ele recolheu um pouco do líquido e o serviu a ela dentro de uma taça.

— Isto dispensa uma resposta. Você deve experimentar.

Ele esperou pacientemente até que ela aceitasse. A sua primeira reação foi uma careta, o que fez Severo arquear a sobrancelha. Mas, depois disso, ela pareceu saborear o coquetel.

— Isso está muito bom... onde aprendeu?

Ali estava ela, a curiosidade Grifinória. Servindo-se da própria bebida que tinha preparado, Severo a convidou para ir se sentar no sofá, ambos de frente para a lareira. No entanto, ele se acomodou em sua poltrona.

— De todas as datas possíveis, não entendo porque escolher justo o Natal para vir à Hogwarts.

O comentário pareceu pegá-la de surpresa, quando ela abaixou os olhos e fixou-os em algum lugar no fogo, parecendo perdida. Notou que tinha toda a atenção do homem para si.

— Não é nada demais... Ano passado, não comemorei o Natal. Não foi uma data feliz, de todo modo. – Ela esperou vê-lo concordar, muito discretamente – Se eu tivesse ficado em Londres, não acho que teria uma boa desculpa para evitar as comemorações, novamente.

Em um determinado ponto, as coisas se tornaram imprecisas na conversa e o que quer que Hermione estivesse dizendo, Severo pouco absorveu para si. Eles já tinham renovado suas taças várias vezes, e a contagem agora era só uma lembrança muito vaga. O penteado no topo da cabeça de Hermione era apenas um resquício do cuidado que tivera ao seu arrumar naquela noite, e o homem ao seu lado estava plenamente consciente do quanto o desarrumado lhe caia melhor, tornando-a alguém como ele, em sua essência.

A atenção que ele dedicava à conversa tinha se esvaído no segundo em que seus olhos captaram a fina alça do seu vestido deslizar pelo ombro esquerdo, ficando, ali, à mercê da lei da física. Enquanto ela falava – absurdamente rápido, ele notou –, teve ímpetos de se levantar e devolver a tira para o seu devido lugar.

Foi quando ela concluiu a conversa, que Severo criou coragem e se levantou da poltrona, mas desviou no que teria sido o último segundo antes de uma colisão. Quando retornou à sala, ele já não tinha mais uma taça nas mãos. Ao invés de se sentar à poltrona, sentou-se ao lado dela, no sofá. Parecia um pouco embaraçado, mas como nada disse, Hermione achou melhor esperar. Erguendo a mão, um dedo alcançou a alça do vestido e arrastou-a para cima, deslizando pela pele no processo, inevitavelmente. O ato fora calculado, medido e planejado nos minutos que demorou para voltar da cozinha. Feito isso, recostou-se no encosto e liberou um suspiro de quem estivera muito, muito nervoso.

— Eu penso que seja melhor parar por aqui com os drinks. – Hermione disse, repousando sua taça na mesa de centro – Será que eu poderia... olhar a vista lá fora, por um momento?

Ela já tinha notado a existência de uma sacada, e respirar algum ar puro lhe faria bem.

— Acho que nunca vi o povoado tão calmo, assim. – Ela comentou, quando o notou ao seu lado.

— Estão todos bêbados demais para tentarem qualquer movimento.

Hermione se deixou levar pelo som agradável daquela voz, e, quando menos notou, o estava fitando quase descaradamente.

— Qual, exatamente, a sua dúvida, Srta. Granger?

Pega de surpresa, virou-se para encontrá-lo olhando-a.

— Não é uma dúvida. – Ela disse – Seria muita ousadia se eu pedisse para ver?

A falta de entendimento durou apenas alguns segundos, quando Severo a viu percorrer com os olhos as margens do tecido que cobria seu pescoço quase todo. Um pequeno vão se formou entre seus lábios, mas não houve uma resposta. Mas logo ele alcançou os botões com os dedos compridos e desfez pelo menos os três primeiros, dando espaço para que ela visse aquilo que lhe atormentou durante um tempo.

A cicatriz era uma marca disforme, com pele sobreposta e um triz rosado. O susto ficou por conta do instante em que os dedos dela alcançaram a região, liberando espasmos de sensibilidade. Ela perguntou se doía, e, em um fio de voz, ele avisou que não. Por alguma razão, Severo não a impediu de tocá-lo, mas manteve-se atento aos limites.

— Sinto muito, Professor.

— Não há nada para sentir. – Ele retrocedeu um passo.

— Eu queria ter ficado, e ajudado. – Ela voltou a dizer – Mas eu não podia. Harry precisava de mim.

A compreensão caiu como um manto sobre Severo, mas uma raiva cresceu dentro dele.

— Não continue.

Severo a cortou, deixando a sacada, em silêncio. Ela achou que tivesse arruinado a pouca boa relação que havia estabelecido com o homem. O vento frio cortou suas bochechas como foices, e dois segundos depois sentiu um toque mais frio ainda, no alto da nuca descoberta. Não ousou reagir, mas sentiu o toque dos dedos e fechou os olhos para fazê-lo durar mais um pouco.

— Você está gelada. – Severo concluiu, afastando a palma da mão de sua nuca, obrigando-a a abrir os olhos – Tome isto.

Em torno dos ombros, ele depositou o casaco que tinha entrado para buscar. Hermione murmurou um agradecimento, um pouco tímida.

— Talvez seja melhor eu ir, agora. – Ela anunciou, virando-se para ele.

— Aonde está hospedada?

— Em nenhum lugar. Voltarei para Hogwarts.

Severo maneou a cabeça, em desacordo.

— Isso não será possível. As carruagens não estarão disponíveis até o horário do almoço. Mas você pode ficar essa noite. – Ele determinou, como se já tivesse pensado nisso, antes.

Sem saber como se portar, não foi preciso muito até que Severo a tomasse pelo pulso, mantendo-a no mesmo lugar. Eles não sabiam até aquele momento, mas estavam fortemente atraídos um pelo outro.

O inesperado aconteceu quando Severo a trouxe para perto, unindo seus corpos. A todo o momento, a troca de olhares foi mantida, e nenhum dos dois ousou piscar mais que o necessário. Os dedos esguios do homem percorreram a extensão de pele exposta nas costas dela, onde o vestido não cobria. Uma onda de arrepios subiu através do corpo de Hermione, e ela se rendeu à sensação, fechando os olhos, sem imaginar que seus lábios logo seriam tomados em um beijo suave e gelado.

Quando um respiro quebrou a concentração, Severo se deu conta do impulso que tinha cometido, mas, dessa vez, fora Hermione quem o conduzira. Alcançando os ombros largos do homem, ela o contornou com os braços e rompeu qualquer dúvida sobre aquilo, beijando-o de volta com certa urgência. Um instante depois, não havia mais um vestido em seu corpo, nem tão pouco metade das vestes usuais de Severo. No frio cortante do inverno, uma noite gelada e vazia tinha sido testemunha de um caso não planejado, torridamente desejado.

Domitila sentiu uma vontade imensa de sair correndo. Ela procurou pela mãe com os olhos, mas a turbidez da vista não ajudou. A menina afastou o livro para o lado e ergueu-se da poltrona. Seus movimentos foram sutis, e ela conseguiu não atrair a atenção para si. A gárgula se abriu para ela, já na base da escada, e ela correu. Correu como se soubesse o caminho.

Quando parou na soleira de uma porta, ela pensou em muitas coisas, inclusive que tipo de castigo receberia se sua mãe descobrisse que tinha fugido. O que ela não pensou, no entanto, era no que diria ao homem quando o visse pela primeira vez.

— Ora, quem temos aqui? – Perguntou ele, depois de vê-la adentrar na sala, sorrateiramente.

Domitila parou de prestar atenção nas coisas que o homem lhe dizia, quando notou todos os caldeirões dispostos em bancadas.

— Você não deveria chegar tão perto, mocinha. – Ele a alertou, no que ela se afastou, mas só um pouco – Por que não me diz o que deseja, e vejo se posso ajudá-la?

— Estou procurando o professor de Poções, senhor.

— Bom, eu sou o professor de Poções, então, acho que já me encontrou.

Um leve tremor assolou o corpo de Domitila, e ela precisou se segurar na bancada, muito perto das chamas do caldeirão. Seus olhos acastanhados refletiam as faíscas do fogo e o brilho de uma lágrima que ameaçava rolar. O queixo dela tremeu e sua expressão mudou para uma de total desolação.

— Qual o seu nome, senhor? – Uma lágrima rolou de seus olhos.

Ele abriu a boca, mas antes mesmo que pudesse dizer, um clarão inesperado preencheu a sala, seguido de um som estrondoso de explosão.

Quando descobriu que era uma bruxa, Hermione achou, inocentemente, que podia fazer muito com a magia. No meio da noite, quando despertou em uma cama que não lembrava que tinha ido se deitar, sobre os lençóis cujo aroma cheirava odores dos mais diversos — que nunca antes sentira -, teve receio, até mesmo, de respirar. Ela não queria que nada atrapalhasse aquele momento. Ela se sentia tão viva, tão mágica.

Na curva do seu pescoço, Severo repousava a respiração, eriçando seus pelos, causando arrepios dos pés ao topo da cabeça. Um movimento pareceu despertá-lo, e ela se amaldiçoou por tamanha negligência. Uma excitação apontou no alto dos seus quadris, e ela soube que não precisava se preocupar com mais nada. Ele ainda a queria, mesmo depois de tê-la tido uma vez. Virando-se de frente, Hermione captou o olhar do homem, ao tempo em que entrelaçava uma perna em torno de sua cintura, exigindo um contato maior.

— Alguma coisa a incomoda. – Severo notou, trazendo-a para perto além do possível.

Era certo que, sim, algo a incomodava. Mas por hora, só havia uma coisa que ela precisava saber.

— Como fez aquilo, lá em baixo? – Ele a olhou de volta, sem entender – Aquela canção, eu tive a impressão de tê-la ouvido aqui dentro.

Hermione apontou para a própria têmpora, no que ele suavizou a expressão.

— Um truque que aprendi há muito tempo. – Foi sua resposta, contra o ouvido dela – Assim, poderá sempre lembrar-se de mim.

Seu corpo amoleceu com aquela declaração, e capturou os lábios do homem, forçando sua intimidade contra a dele. Severo inverteu as posições, e se colocou sobre ela. Seus dedos entrelaçaram-se aos da jovem e esticou os seus braços, de modo que a tinha totalmente presa a ele, enquanto a amava, uma vez mais.

Quando despertou, naquela manhã, estava sozinha na cama. Abriu os olhos e procurou ao redor, encontrando a visão que procurava, distante demais do seu alcance. Severo notou a movimentação nos lençóis, parado frente à lareira. Havia algo em sua expressão que não refletia o mesmo na face de Hermione, e isso a preocupou.

— Quando estiver vestida, partiremos de volta à Hogwarts e lhe entregarei os documentos que deseja. – Ele anunciou, segurando com força os beirais de pedra, como se o que dissesse não fosse o que sentia.

Levantando-se da cama, enrolada nos lençóis, Hermione se aproximou para ver as chamas verdes aquecendo a lareira.

— A rede Flu está conectada à Hogwarts?

— Sempre esteve. – Ele confidenciou, tentando expressar naturalidade.

Para ela, fazia sentido, agora. Para ela, Severo tinha planejado tudo aquilo, e agora estava enormemente arrependido. Ficar em Hogwarts, portanto, não tinha sido uma opção para ela, mas um plano arquitetado por ele. Ficar em seus aposentos, no Cabeça de Javali, também não tinha sido uma opção para ela, mas uma situação que ele próprio criara. Agora, não mais uma menina, ela desejou ter a magia mais poderosa do mundo, para tirar de dentro dela aquele sentimento que ela mal podia descrever muito bem.

Naquele mesmo dia, Hermione obteve os documentos que precisava, depois de ser conduzida pela gárgula que levava ao gabinete da Direção. Ao seu lado, Severo mal se movia e, quando o fazia, mal olhava para os lados. No escritório, ele a deixou livre para procurar nas gavetas e armários, até encontrar os pergaminhos, sem mover um passo da abertura da gárgula. Desde o início, a ideia de entrar naquele lugar tinha o incomodado, por isso evitou, e mentiu para Hermione a respeito, na possibilidade de ganhar tempo até Minerva regressar.

Acidentes aconteciam o tempo todo nas aulas de Poções. Mas não fora delas. Domitila apertava os dedos contra os olhos, sentada em um sofá, tentando amenizar a ardência neles.

— O que diabos aconteceu aqui, Horácio?

Uma voz de barítono preencheu o ambiente, chamando a atenção de ambos.

— Foi terrível! – Horácio relatava, caminhando com ele ao redor da bancada – Ela chorou e o caldeirão explodiu. Você tem que salvá-la, Severo! – Finalizou, agarrando nas vestes do homem.

Fazia anos que Severo não lecionava mais Poções, mas nunca desaprenderia os primeiros socorros que frequentemente tinha que pôr em prática com os seus alunos cabeças-ocas. Cheirando o conteúdo do caldeirão, analisou as possibilidades. Correndo em direção a um armário, selecionou um frasco pequeno e o agitou enquanto se aproximava da garota. Quando se abaixou de joelhos, exigiu.

— Tire as mãos do rosto. Deixe-me ver o estrago que causou a si mesma.

Aos poucos, Domitila foi escorregando os dedos para longe, revelando pequenas queimaduras ao redor dos olhos e no topo do nariz. A confirmação saltou aos olhos de Severo quando reconheceu aqueles traços angelicais, a pele muito clara em contraste com o cabelo curtinho, quase negros. Um pouco da sanidade de Severo foi para o espaço, e ele permaneceu analisando o rosto da sua filha, consciente de que o tempo estava passando. Criando coragem, sentindo-se pronto para aquele encontro, mesmo não tendo planejado, ele exigiu, novamente.

— Abra os olhos.

Domitila o fez, com muito medo. Um suspirou deixou os lábios de Severo e atingiu o rosto da menina, forçando-a a piscar duas vezes. Eram os olhos da mãe, sua sina, afinal. Todos tinham que nascer com os olhos daquelas que Severo mais amava. E assim como Potter, Domitila não podia saber a verdade.

— Senhor, eu não consigo ver nada. – Ela se desesperou.

Severo a conteve no lugar, pedindo que mantivesse os olhos abertos enquanto despejava neles uma poção curativa. Aos prantos, Domitila desfaleceu nos braços do pai, sem sequer poder vê-lo.

— Leve-a para os cuidados da Enfermaria. AGORA! – Exigiu à Horácio.

Quando foi deixado sozinho, entornou todos os caldeirões no chão, expondo sua fragilidade diante dos quadros, os únicos a testemunharem sua derrota. Tinha sonhado com este encontro mais do que tudo em sua vida, e fora arruinado.

Nem quando fora forçado a agir paralelamente nos dois lados, Severo se sentiu tão desprezível como se sentia agora. Sentado em sua poltrona, de frente para a lareira, nas Masmorras, ele não conseguia expressar nenhuma reação. A mulher que andava de uma ponta a outra da sala, exigia uma posição sua. Fazia pouco tempo que ela tinha partido dali furiosa por ter sido enganada, iludida, e ele não fizera nada para mudar seu juízo sobre si. Agora, ela tinha lhe contado que estava grávida.

— Você deve ter o bebê. – Ele disse, por fim.

— O quê? – Ela parou de andar, em abrupto – Você realmente achava que eu não iria querer tê-lo?

Severo se levantou, depois de mais de trinta minutos sentado, e caminhou até alcançar um jornal amassado. Ele o mostrou para ela, em seguida.

— Você deve se casar, e ter o bebê. – Ele corrigiu, expressando-se melhor – De minha parte, não faltará nada a nenhum de vocês.

Um momento de descrença nublou as vistas de Hermione, que levou as mãos ao ventre de forma espontânea. O ato foi visto por ele, que sentiu o peito inflar de agonia. No jornal que Hermione lia, estampava a notícia de seu noivado com Ronald Weasley. Mas o que Severo não sabia, era que o noivado fora rompido muito antes da descoberta da gravidez. Hermione percebeu, tristemente, que Severo criara um péssimo hábito de acreditar no que os jornais diziam, agora que ele não tinha a mais ninguém a quem confiar.

— É isso que você espera que eu faça, Severo?

Ele achou que, se ela pronunciasse seu nome novamente, se despedaçaria diante dela. O que Severo não queria, no entanto, era fadar a vida de Hermione ao fracasso da sua. Ele também não desejava ser o pai que aquela criança não desejaria.

— Sim, é o que espero que faça.

— Tudo bem. – Ela terminou de amassar o jornal, jogando-o aos pés do homem de negro – Então saiba que nada nos faltará.

Naquela mesma tarde, Hermione deixou os terrenos de Hogwarts, determinada a superá-lo em sua vida.

Domitila foi admitida na Enfermaria, aos cuidados da matrona. Não demorou para que Hermione sentisse a falta da menina, e descobrisse que algo de muito ruim havia lhe acontecido. O desespero que a assolou destruiu a todos, mas a enfermeira lhe garantiu que era temporária a cegueira, e que mantê-la vendada era apenas por precaução.

Mais tarde, naquele dia, Severo se esgueirou para dentro da Enfermaria, em busca de notícias da menina. Ele sentou ao seu lado e ficou pelo que pareceram horas, mas foram apenas minutos, contando quantas pequenas sardinhas havia em seu rosto, onde a venda de seus olhos não cobria. Ela era muito mais linda que nas fotos, pensou consigo, um pequeno lado do lábio cedendo a um sorriso. Quando já estava se preparando para deixar o leito, sentiu uma mãozinha pequena agarrar-lhe a veste, quase sem força.

— Foi o senhor que me salvou? – Sua voz era macia, ele notou.

Ele queria ter dito que não. Mas que ela, sim, o havia salvo. Salvo de si mesmo, da sombra que ele carregava por achar que nunca a veria, como agora.

— Parece que sim. – Ele respondeu, no entanto.

Antes que dessem continuidade ao que, talvez, teria sido uma conversa de pai e filha, a enfermeira os interrompeu.

— Que bom que acordou. Como está se sentindo, minha menina?

Em um sobressalto, Severo a fez largar de sua veste, e se colocou de pé. A senhora, no entanto, já tinha visto o suficiente e não se importou.

— Por favor, fique. – Pediu para o homem, quase suplicando – Preciso fazer alguns feitiços, prometa que ficará bem quietinha.

A criança não entendia o significo daquilo, e seu corpo todo tremeu de medo. Severo, percebendo, voltou para o canto da cama onde estivera sentado antes, e deixou que ela segurasse na barra de seu blazer, apertando com força se algo doesse.

— Sabe do que eu estava me lembrando? – Madame Pomfrey comentou – De todas as vezes em que seus pais foram meus pacientes.

— Eles já estiveram aqui? – A animação em seu tom de voz se fez presente.

Severo não podia ter desejado uma conversa mais desconfortável que aquela.

— Ah sim. Sua mãe, nem tanto. – A senhora dizia, entre feitiços e acenos de varinha – Mas o seu pai, bom, esse tinha um talento natural para os acidentes. Nunca vou me esquecer daquela vez em que apareceu cuspindo lesmas.

Um riso nada contido escapou pelos lábios da garotinha, e atraiu a atenção de Severo de tal forma, que achou que teria que dar explicações à matrona, mais tarde. A mulher se referia ao patético Weasley.

— Por que ele estava cuspindo lesmas, senhora?

— Porque era um tolo. – Severo respondeu, no lugar dela, sem notar o tom de grosseria que foi junto na voz – Tentou fazer uma azaração com a varinha apontada para si mesmo.

Ele teria notado a fenda que se formara no topo do nariz dela, se a venda não a cobrisse. Era a mesma expressão de Severo, quando ficava irritado.

— Meu pai não é um tolo!

— Claro, mas você não o conheceu naquela época. – Severo contestou, ainda sem se dar conta da irritação da jovenzinha.

De longe, a enfermeira observava a pequena discussão, incerta sobre achá-la saudável, ou não.

— A mamãe nunca disse que ele era um tolo. – Domitila cruzou os braços em torno do peito, desejando poder ver aquele homem abusado.

— Sua mãe nunca foi boa em fazer julgamentos.

Percebendo que tinha acabado, a enfermeira se despediu, pedindo que Severo tivesse paciência.

— Mamãe disse que meu pai foi muito corajoso quando lutou com ela na guerra. – Disse a menina, arrancando um esboço de escárnio de Severo – E ela também disse que se não fosse por ele...

Em abrupto, Severo ergue-se da cama. De cima, ele viu o seu queixo tremer, e por um pequeno instante desejou ter dito coisas diferentes.

— Quanta bobagem sua mãe anda lhe dizendo. – Severo se exaltou, por dentro desejando que sua filha tivesse uma versão mais realista de quem chamava de pai – Onde ele está, agora, que não está aqui ao seu lado?

A pergunta pareceu acertá-la em cheio, e o que tinha sido um aviso, agora era de fato um choro. Seu queixo ainda tremia, e algumas lágrimas irrompiam através do tecido nos olhos.

— Meu pai está lutando na guerra.

Um riso deixou as narinas de Severo, que desviou para evitar vê-la derramar lágrimas por um homem que podia dizer-se seu pai, mas que não era.

— A guerra já acabou, menina. – Ele a cortou.

— Não acabou não! – Domitila estava quase em seu limite naquela conversa injusta – É outra guerra.

Severo perscrutou a situação, sentindo-se ofegante, como só tinha estado uma única vez, oito anos atrás.

Lecionar tinha sido sua salvação, e o permitira ter uma vida minimamente respeitável. Quando não estava se arriscando na noite, estava ensinando energúmenos a engarrafar tudo, menos o sucesso e a fama, porque nenhum deles as mereciam. Exceto, é claro, a aluna brilhante. O cérebro do trio-de-ouro. Aquela que o irritava mais que as missões que lhe eram conferidas como duplo espião. Mesmo depois da guerra, ela continuou a irritá-lo, em sala de aula, e agora, fora dela.

Severo tinha agido pela razão, afundando-se em magoa e torturando a si mesmo para garantir um fio de esperança na vida da mulher por quem tinha se apaixonado em uma noite casual. Ele era um coração frágil, desde a partida de Lily. Ter se apaixonado tão rápido, fora aceitável, já que estivera sozinho por tanto tempo. As pessoas sempre lhe diziam que ele precisava ter um pouco de diversão. Ele o buscou, na noite de Natal, e se arrependeu quando se lembrou quem ele era, na manhã seguinte. Um homem que não tinha nada a oferecer a uma parceira, quem dirá a um filho.

Por isso, Severo abandonou à docência naquele mesmo ano. Porque se ele não podia educar um filho, não educaria ao filho de ninguém. A Diretora não compreendia, mas aceitava, dando a ele o direito de ficar no castelo o tempo que quisesse. E, naquele final de tarde, foi importunado enquanto caminhava às sombras do corredor.

— Severo, que bom que o encontrei. – Minerva parecia ansiosa, enquanto lhe entregava um envelope pardo – Será que poderia levar isto ao Corujal, para mim? Acho que Hermione gostará de saber que nossa escola lhe estima melhoras.

— Ela está doente? – Ele se viu preocupado, sem poder esconder.

— Longe disso, meu rapaz. – Ela confidenciou, já começando a se afastar – O bebê nasceu.

Ele foi deixado sozinho com sua consciência. Nas mãos, o envelope absorvia todo o suor de suas palmas, que tremiam enquanto violava o lacre, sem saber o que encontraria ali dentro. Retirou um bilhete grafado com a letra mais delicada que já vira. E uma fotografia, onde uma pequena criatura à sua imagem lhe sorria ainda de olhos cerrados.

“Severo,

Nosso bebê é uma adorável menina. Vou chamá-la de Domitila.

Nós ainda o aceitamos em nossas vidas, se assim desejar.

Um beijo.

H.G.”

Nenhuma reação teria sido menos esperada que aquela tomada por Severo, quando desatou em uma corrida de passos largos, sem destino certo. Ele terminou subindo as escadas quando a gárgula se abriu para ele e só parou quando já estava no meio da sala, respirando com imensa dificuldade. A fotografia caiu de seus dedos, como se o tivesse queimado na pele. Quando achou que não conseguiria suportar aquela dor, ergueu os olhos para cima e tudo o que viu foi a imagem do seu velho amigo, que continuava sereno, exatamente como ele gostava de se lembrar.

— Olá, Severo. – A pintura de Alvo o saudou.

Ali mesmo, aos pés do retrato, Severo manchou o chão de pedras com suas lágrimas, ao chorar copiosamente.

O fôlego voltava aos poucos, e ele quase podia respirar com facilidade.

— O que quer dizer com... “outra guerra”?

— Mamãe diz que é uma guerra que só ele pode lutar, contra ele mesmo. – Ela revelou, e um sorriso lhe moldou os lábios finos e rosados, morrendo em seguida – Parece divertido, mas deve ser muito perigoso.

Sem conseguir elaborar qualquer frase, o homem se manteve em silêncio. No fim das contas, ele só conseguia pensar que estivera certo, o tempo todo.

— Como eu disse, antes, seu pai era um tolo.

Afastando-se do leito, ele deu uma última olhada na menininha de aparência doce, certo de que se afastaria para o próprio bem dela. Severo caminhou até o final do salão e interceptou a enfermeira por trás de uma coluna.

— Pomfrey, certifique-se de que haja estoque suficiente de todas as poções necessárias ao tratamento da menina.

Através das portas principais, passos começaram a ecoar no eco silencioso do recinto, alertando que havia um visitante se aproximando. Mas Severo se quer podia ouvir qualquer coisa, além do próprio coração, acelerado.

— Estarei partindo amanhã, e não deixarei que nada lhe falte...

— Severo?!

Antes mesmo de virar-se, o homem soube que tinha sido descoberto. Moveu-se devagar, sob os olhares vigilantes da enfermeira, que teve a decência de retirar-se.

— O que faz aqui? – Ela grunhiu – Está partindo, novamente? Para onde?

O silêncio o denunciou.

— Espere, você sempre esteve exatamente aqui. – Ela concluiu, uma expressão entristecida na face – Você fugiu de nós, todo esse tempo. E está fugindo, novamente.

— Não há nada para mim, aqui, Hermione. – Ele encontrou sua voz bem lá no fundo, e a afetou quando usou da informalidade.

Hermione não tinha se preparado para aquele encontro. Ela achou que nunca mais o veria, desde que suas cartas pararam de obter uma resposta. Ela sabia que, onde quer que Severo estivesse, ele as recebia. Mas nunca as respondia. Agora, o tinha na sua frente, e não sabia ao certo o que deveria dizer-lhe.

— Você está enganado, Severo. Ali, há alguém para você amar. – Ela apontou para onde Domitila estava acomodada, uma lágrima solitária deixando seus olhos.

Ela estava cansada de chorar por ele. Percebendo, Severo fez o que melhor sabia: fugiu dela. Mas dessa vez, ela o perseguiria. E foi o que fez, alcançando-o segundos antes que fechasse as portas diante dela. Em seus aposentos, Severus esbarrou em objetos.

— Você pode não se importar, mas nós continuamos esperando por você, esse tempo todo, e não será agora que deixaremos que escape. – Hermione se aproximou, conseguindo segurá-lo pelas mangas, mas foi repelida por ele.

Em um movimento desajeitado, o homem caminhou até sua escrivaninha, de onde puxou as gavetas e as deixou cair contra o chão, liberando gritos raivosos e obrigando Hermione a tampar os ouvidos. Quando se deu por satisfeito, moveu-se para o lado e caiu de joelhos no pequeno monte de papeis que se acumulou no chão.

— Como ousa dizer que não me importo, Hermione? – Sua voz não era mais vibrante – Tudo o que tenho feito, todo esse tempo, foi me importar.

Aproximando-se, cautelosamente, Hermione se deparou com um monte de jornais e revistas bruxas, cujas manchetes tinham sido destacadas. Nelas, haviam fotos suas, de Domitila e um Ronald que segurava a menina nos braços, protetoramente. Ela arfou quando reconheceu a fotografia de sua bebê recém-nascida, que enviara para Severo através de Minerva. Ele tinha guardado não apenas aquela, mas todas as outras que Hermione lhe enviara, ano após ano. As fotos de aniversário, as fotos do parquinho, e aquelas que tirou de si mesma ao lado de Domitila.

— Domitila já tem alguém que a ame. – Severus voltou a dizer, recolhendo tudo do chão sem qualquer necessidade de fazê-lo – Ela já tem uma família. Eu não seria nada, além de um intruso.

Percebendo o que estava acontecendo, Hermione se aproximou e ajoelhou-se perto dele. Com as mãos, conseguiu, por fim, forçá-lo a recostar sua cabeça na dela. Muito lentamente, ele se acalmou.

— Foi uma escolha sua, desde o início, Severo. Mas eu seria incapaz de dar à nossa filha uma família da qual ela não merecesse. – Hermione atraiu a atenção do homem para si, o rosto muito próximo – Domitila nunca chamou a ninguém de pai, além de você. Assim como eu nunca me casei com outro homem. – Sua revelação o deixou confuso, mas ela evitou que ele se desse ao trabalho de olhar as manchetes de jornais novamente – O que você vê aqui, não é o retrato de uma família feliz. É apenas uma família que sobrevive à sua ausência. Nós ainda te amamos.

Uma pequena onda de esperança encontrou espaço no peito de Severo, e ele soube que, naquele instante, tinha reduzido todo o peso que carregara consigo, por anos. Quando achou que não merecia o amor de ninguém, descobriu que podia amar.

Naquela mesma semana, Domitila teve sua saúde reestabelecida através dos cuidados e, a pedido da mãe, convidada a conhecer alguém muito especial. Quando a porta se abriu, ela imediatamente o reconheceu das fotografias do livro e disparou no que teria sido um abraço, se Severo não estive muito nervoso. Ele teria algum tempo para aprender com a filha os gestos de carinho e afeição que por tanto tempo desconheceu.

Abaixando-se para igualar a altura, Severo se permitiu um carinho nas bochechas da criança, desejando poder tê-la segurado em seus braços em cada pequena etapa de sua vida. Seu sorriso era discreto, mas ele reparou, com imenso orgulho, que os sorrisos da filha também eram.

— Será que, agora, você me acha um tolo, Domitila? – Severo lhe disse.

Observando com atenção, notou a mudança de expressão da menina, quando ela o reconheceu pela voz, grave e suave.

— Meu pai não é tolo. – Ela afirmou, sorrindo – Meu pai me salvou.

No fim das contas, ela sempre se lembraria disso, apesar de todo o resto. A pequena notou quando a mãe começou um pranto, baixinho. Preocupa, Domitila se aproximou de Severo para falar baixinho.

— A mamãe está triste porque o senhor perdeu aquela guerra?

Um pequeno riso reverberou na sala, atraindo a atenção de Hermione. Erguendo-se, Severo a envolveu em um abraço, depositando um beijo casto nos lábios e outro no topo de sua cabeça, mantendo-a próximo de seu peito, enquanto ela o entrelaçava com os braços. Olhando de cima para a filha, ele explicou.

— Sua mãe está chorando de felicidade, Domitila. A partir de agora, não haverá mais nenhuma guerra para lutar.

— A gente vai poder ficar para o Natal, papai?

Os corações de seus pais deram saltos após aquela indagação.

— Eu não pretendendo deixá-las partir, tão logo.

Notas finais
Bom, eu gostaria de finalizar agradecendo ao Grupo Severo Snape Fanfictions por me proporcionar a chance de me desafiar a voltar a escrever, especialmente um tema que eu nunca antes havia abordado. O grupo foi uma fonte de alegrias para mim ao longo de 2020 e sei que continuará sendo. Um beijo e Feliz Ano Novo!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!