Algumas Coisas Mudam. O Destino, não.
1 Prólogo
— Tem certeza? Se você acabar não voltando, Happy não será o único a ter o coração partido…
Erza não precisou explicar mais do que isso para que Natsu entendesse de quem ela estava falando. O olhar dele cruzou o salão até a mesa onde Lucy conversava animadamente com Levy, sob o olhar protetor de Gajeel. Ele assentiu em silêncio, o semblante mais sério do que o habitual.
— Eu sei. É só que… as coisas que aquele feiticeiro me falou não saem da minha cabeça. Se existe um poder capaz de manter todos a salvo, o risco vale a pena. — Era no que ele queria acreditar.
Erza não respondeu de imediato. Respirou fundo e, por fim, concordou com a cabeça.
— Eu faria o mesmo, se fosse o caso. Mas tome cuidado, Natsu. Você vai estar completamente sozinho. E se, dessa vez, der um passo em falso… pode ser o fim.
— É, eu sei.
Ele murmurou, irritado, empurrando o pedaço de pernil no prato. Pela primeira vez na vida, não tinha fome. Erza o observava de canto de olho, preocupada. Natsu sério era mais assustador do que qualquer monstro que já tivessem enfrentado.
— Você vai se despedir? — perguntou num sussurro.
— Eu deveria, né? Mas acho que vai ser mais difícil de ir se o Happy souber o que está acontecendo. Quando todos estiverem distraídos com o parabéns, eu vou embora. Você vai precisar segurar a barra pra mim, Erza.
— Tudo bem.
Natsu respirou fundo, tentando colocar as emoções no lugar, e mordeu a carne. Não voltaria atrás. Era pelo bem de todos. Era pelo bem de Lucy.
Naquela noite, ele se meteu em brigas, provocou Gray com mais empenho, validou Happy em cada discussão pela guilda e, por fim, encontrou Lucy em um dos corredores, longe da comoção da festa de aniversário do mestre Makarov.
Ela estava em pé, bonita como sempre, com suas roupas casuais: botas marrons, saia azul curta, blusa branca e o cabelo meio preso por uma fita azul. Na cintura, as chaves e o chicote; na mão, o símbolo da guilda naquele tom de rosa que lembrava a cor de seu cabelo.
— Lucee — chamou, assustando-a. Lucy se virou e sorriu com doçura. — O que está fazendo?
— Todo esse barulho me deixou um pouco tonta — respondeu rindo de leve. — Então decidi procurar uma boa missão pra próxima semana. Estou precisando de dinheiro pro aluguel. — Deu de ombros, voltando-se para o quadro de pedidos na parede.
Natsu se sentia ridiculamente nervoso desde que decidiu o que faria naquela noite. Aproximou-se de forma desajeitada e tocou-lhe o ombro, sentindo a pele quente e suave sob a palma da mão.
Lucy o olhou, sem entender, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, sentiu os lábios dele tocarem os seus. O beijo foi breve e desajeitado, os olhos dele cerrados com força, os dela arregalados em surpresa. Durou poucos segundos, mas foi o suficiente para roubar-lhes o ar.
— O que foi…? — começou ela, mas as vozes ao longe a interromperam: o salão explodia em música e palmas.
— Devíamos voltar, Lucee! — Natsu sorriu daquele jeito que só ele sabia, tentando parecer natural, mas não conseguiu esconder o rubor no rosto.
Lucy sorriu também. Natsu finalmente demonstrara algum sentimento mais profundo — isso só podia ser um bom sinal, certo? Segurou a mão dele e o arrastou de volta para o salão.
O barulho das palmas, dos gritos e das risadas preenchia o ar; Makarov, corado, tentava apagar as velas enquanto Mirajane sorria ao fundo. Erza ergueu o copo e puxou o coro do “parabéns”, e Lucy, corada, se juntou à cantoria.
Sentia o coração leve, como se algo importante tivesse acabado de mudar, um fio invisível a ligando a Natsu de uma forma nova.
Mas, quando as velas se apagaram e ela se virou para comentar alguma coisa, Natsu não estava mais ali.
Procurou entre os rostos conhecidos, entre o brilho das luzes e o movimento alegre da guilda. Nada.
Erza a observava de longe, taça ainda erguida, e por um breve instante seus olhares se cruzaram. A maga escarlate desviou rápido demais, como quem guarda um segredo.
— Onde ele se meteu dessa vez… — murmurou Lucy, tentando rir.
Mas o calor familiar que sempre sentia quando Natsu estava por perto começava a se dissipar, deixando apenas um vazio frio e silencioso.
Fale com o autor