Algo maior que eu
5 Quão pequeno ou grande pode ser alguém?
Kyssares procurou em volta de onde vinha o som, não demorou muito a ouvir novamente e então foi fácil identificar. Foi silencioso usou de toda a sua furtividade de Hobbit para se aproximar, com a areia da praia e o barulho das ondas foi fácil não ser notado. Era uma área bem mais escura protegida da luz da lua por arvores, dois homens estavam em cima de uma garota, o som que ouviu parecia ela tentando gritar enquanto eles tapavam sua boca. Kyssares não perdeu tempo, avançou o mais rápido que pôde, se beneficiou de todos os privilégios de ser um pequeno Hobbit. A menina desesperada enquanto os agressores rasgavam suas roupas demorou alguns segundos para entender o que havia acontecido quando os homens caíram cada um para um lado, só ao ver a figura misteriosa segurando uma faca não teve dúvidas, algum ser divino havia ouvido suas preses e enviou algum anjo para salva-la, era assim que se sentia, mas naquele momento tudo que fez foi chorar.
O Hobbit esperou pacientemente sem dizer nada, não sabia muito bem o que deveria fazer, mas queria muito dar o fora dali antes que aquilo pudesse lhe trazer problemas.
—Por favor acalme-se —ele finalmente disse. —Está machucada?
Ela balançou a cabeça negativamente em resposta à pergunta dele já que ainda chorava de soluçar.
—Então está tudo bem, foi só um susto e esses caras aqui não vão mais fazer mal para ninguém.
—Você matou eles? —Ela perguntou entre soluços.
Kyssares não sabia bem como deveria responder à pergunta, matar alguém aos olhos dele não era bem algo para se orgulhar mesmo naquelas circunstancias.
—Se eu tivesse algum jeito de ter de evitado pode acreditar que eu faria, essa foi a forma mais eficiente, eu acredito.
—Obrigada —ela disse se esforçando para engolir o choro.
Eles mal podiam se ver com toda aquela escuridão, para Kyssares estava claro que se tratava ainda de uma menina, mas ela ao se acalmar um pouco começava a se perguntar quem exatamente era aquele à sua frente, não era mais alto que ela e mesmo assim não falava como uma criança e para ter matado dois adultos com certeza não devia ser.
—Quem é você?
—Meu nome? —Ele não tinha certeza se deveria dizer. —Bem, primeiro vamos sair daqui. Consegue se levantar?
A menina seguiu Kyssares até a praia onde a luz da lua ajudava um pouco, mas ele já havia se prevenido e tapado parte do rosto com o capuz.
—Meu nome é Emily, nunca vou conseguir te recompensar pelo que fez.
Era mesmo uma menina, ainda mais nova que a serva da Elfa, não devia ter mais que 12 anos, e suas roupas estavam bem rasgadas. Kyssares queria muito, mas muito mesmo manter sua raça em segredo, mas vendo aquela menina daquele jeito não podia fazer nada, não dava para ir contra seus próprios princípios. Sendo assim ele retirou a capa e cobriu o corpo da menina revelando assim suas pequenas orelhas pontudas e seu rosto de jovem Hobbit.
—Eu sabia! —Ela disse surpresa. —Você é diferente de mim, na verdade é diferente de todo mundo que eu conheço, você é um garoto Elfo, não é?
Acho que não tem problema ela pensar assim.
—Meu nome é Kyssares. —Ele não quis mentir, mesmo assim teve cuidado para não negar. —Não devia andar por aqui a noite, nem preciso dizer que é perigoso, agora vai para casa.
—Tudo bem. —Fez uma reverencia. —Obrigada. —Deu os primeiros passos para ir quando se lembrou. —Mas e a sua capa?
Kyssares também se lembrou, mas não podia fazer nada além de lamentar.
—Pode levar —Ele disse com um sorriso meio forçado. —Não preciso mais dela.
A garota deu um sorriso largo fez a reverencia novamente e saiu correndo pela areia da praia se distanciando. Kyssares se sentou na areia pensando no que faria a seguir, notou que curiosamente a menina não ia em direção as casas, ela seguia a praia na direção de um paredão de pedra que parecia não haver nada além disso. Ele observou por algum tempo e então se deitou, percebeu o quanto estava cansado, tudo por culpa da Elfa no final das contas ela acabou sendo um baita de um problema, ele pensava quando viu a sombra se aproximar e então tornou a se sentar. Era a menina de volta.
—O que está fazendo? —ela perguntou forçando a voz para parecer autoritária. —é perigoso para crianças ficar aqui a noite sabia?
—Vá para casa Emily, seus pais devem estar preocupados.
—Eu não tenho pais, e você? —Ela foi em direta lembrando em nada aquela menina chorando de minutos antes.
—Eu... —Kissares mais uma vez não sabia como responder.
—Não me diga que você é que nem eu?
—Eu... —Ainda sem resposta, se era para ela pensar que ele era um garoto a explicação mais sensata não estava disponível.
—Venha comigo —Ela disse decidida. —Eu não vou te deixar sozinho, vem tem um lugar legal lá do outro lado.
O Hobbit estava cansado demais para discutir com uma menina, se levantou e a acompanhou sem dizer muita coisa enquanto ela cantarolava feliz da vida. Seguiram pela praia de encontro a grande parede de pedra o caminho macio foi ficando cada vez mais curto, mas não desapareceu havia uma passagem estreita entre a agua e a pedra para o outro lado da quina de pedra onde uma outra área se estendia, uma outra praia separada, era como uma grande mordida na montanha, tinha areia e onde a agua não alcançava haviam muitas arvores, mais atrás os grandes paredões de pedras que protegiam aquela área formavam um semicírculo em volta dela. Logo que chegaram puderam ver uma fogueira mais à frente na clareira entre as arvores.
—Vem logo, você vai gostar —disse Emily se apressando.
Dava para ouvir de longe risos e conversa alta, eram crianças em volta da fogueira.
—Emily onde você estava? —Perguntou um dos garotos.
—Eu não disse que ia procurar uns frutos do mar para a sopa? Acabei indo até o porto e ai...
—Onde você conseguiu essa capa legal —perguntou uma outra garotinha ainda mais nova se aproximando.
—Ele me deu.
—E quem é ele? —O garoto perguntou encarando o Hobbit.
—É um garoto Elfo que eu encontrei na praia, quer dizer, ele que me encontrou, ele não tem para onde voltar, é como nós.
—Se não tem casa, onde conseguiu dinheiro para comprar essa capa cara? —O garoto mais velho embora também não tenha percebido que não era um Elfo certamente era mais esperto que Emily e parecia desconfiado.
—Regis, chega disso. —A voz era de adulto, ele veio andando de uma cabana a alguns metros meio escondida na escuridão da noite e as arvores, humano já idoso, mas pelo porte físico dava para ver que havia sido bem forte no passado embora agora usava uma bengala e mancava. —Emily a sopa ficou pronta, vá comer alguma coisa e sirva um pouco para o seu amigo.
A menina foi correndo balançando sua capa ao vento exibindo para as outras crianças. O garoto abaixou a cabeça e voltou ao seu lugar em volta da fogueira, já Kyssares estava pensando profundamente em uma forma de deixar aquele lugar o mais rápido possível sem chamar muita atenção, mas logo Emily voltou com uma pequena tigela com sopa, meio sem jeito o Hobbit se sentou abaixo de uma arvore e começou a comer, as outras crianças estavam bem silenciosas. O plano que se formou era bem simples esperar todo mundo dormir e ir embora sem mais problemas e sem revelar sua identidade, mas a menina Emily tratou de sentar bem perto dele para acompanha-lo na refeição, depois disso passou um tempo explicando que aquele lugar havia se tornado um abrigo para as crianças perdidas de Siattes, o velho se chamava Belmondrez, um paladino aposentado agora chamado de velho Bel, era ele quem cuidava das crianças e já fazia isso a 3 anos. Em determinado momento o velho Bel que estava sentado em frente da cabana acenou para a menina que foi correndo até ele e começaram a conversar. Com a maioria das crianças dispersas Kyssares pensou que seria uma boa oportunidade para desaparecer, deu um pouco de distância caminhando lentamente até a praia calculando se teria tempo para fugir antes que Emily notasse, ela parecia feliz conversando com o velho Bel exibindo sua capa e tudo mais e aí a menina voltou correndo tão rápido quanto havia saído.
—O velho Bel quer falar com você se não se importar ele disse. —ela falou abrindo um sorriso largo como de costume, parecia já ter esquecido completamente o que havia passado na praia.
Kyssares já sabia o que esperar.
—Senhor —disse o Hobbit ao se aproximar.
—Quero agradecer o que fez por Emily, são muitas crianças para eu proteger, as vezes perco um de vista e o mal só precisa de uma oportunidade para agir.
—O senhor sabe que eu não sou um Elfo não é.
—Já fazia tempo que não via um como você devo admitir, mas só uma criança te confundiria com um Elfo, deve ser por que não vimos muitas crianças Elfas por aqui, os Elfos cuidam dos deles sabe.
—Prefiro que pensem assim.
—Me diga meu jovem, você nasceu em Siattes?
—Nasci sim, em igres, mas não sei muito sobre a história dos meus pais.
—Tudo bem, quem é que sabe nos dias de hoje, mais importante que isso é que você ter nascido em Siattes explica como foi capaz de acabar com aqueles bandidos na praia como Emily me contou.
—Então você acredita na lenda? —Kyssares perguntou realmente surpreso.
—Acredito sim, todos que nascem nessas terras tem no sangue a inclinação para se tornar combatentes valorosos, embora a maioria não faça bom uso disso. Dizem que a terra foi amaldiçoada pelo Deus da guerra por que os primeiros, os guerreiros que fundaram essa terra eram arrogantes escolhendo um lugar no meio do território das tribos da noite para começar uma cidade, antes de tudo isso aqui era lar dos Goblins, Orcs, Ogros e inúmeras outras raças crias da noite, para sobreviver por aqui tiveram que lutar muito, mesmo assim prosperaram em meio ao caos e isso se tornou o reino do sangue e aço. Você é a prova viva de que essa lenda é verdadeira, os Hobbits que conheci eram excelentes em se esgueirar, abrir portas ou bater carteiras isso os que se arriscavam nas expedições por que a maioria leva uma vida pacifica, nasce e morre sem nunca pegar em uma espada, de qualquer forma combate não é o forte dos Hobbits, só de ver eu consigo saber que é diferente, é um Siano de corpo e alma.
—Obrigado, isso me animou um pouco, nunca conheci outro Hobbit então não saberia dizer como eu deveria ser, mas a muito tempo decidi viver pela espada e não pretendo voltar atrás com isso.
—Muito bem, já está bem tarde, conversamos mais amanhã, vou pedir a Emily para arrumar um lugar para você.
Kissares foi rápido em tentar negar, mas mais rápido que ele o velho Bel chamou Emily e fez como havia dito. A menina feliz da vida em poder de alguma forma retribuir ao seu herói foi logo puxando-o pelo braço. O velho deu ordem as outras crianças que fossem dormir e elas obedeceram mesmo resmungando.
Cada criança dormia onde bem queria, alguns foram para dentro da cabana outros dormiram do lado de fora mesmo alguns em redes, outros em pilhas bem organizadas de folhas, Emily dormia em um amontoado de feno com um cobertor por cima para não pinicar. Segundo ela era muito confortável e aparentemente era onde o Hobbit teria que dormir também, ele não ficou nem um pouco satisfeito, mas por algum motivo ele não conseguia discutir com Emily, ela era insensata e nem queria ouvir qualquer argumento por melhor que fosse, era só uma criança fazendo o que queria. O Hobbit passou algum tempo pensando nas condições precárias que estavam vivendo por ali, não era muito diferente da que ele vivia, mas elas eram crianças, em alguns minutos seu mundo virou de ponta cabeça, agora se sentia um maldito egoísta e só de pensar no velho Bel ficava envergonhado de si mesmo, se perguntava quantas pessoas uma pessoa forte conseguiria proteger, certamente o velho Bel saberia responder essa, mas o pequenino que agora se sentia ainda menor do que realmente era só pensava em si mesmo, mas aquela era a última noite que poderia dormir sendo o que era, só assim se sentiu bem para poder descansar ao lado daquela criança inocente, dormiria como o Hobbit orgulhoso por sobreviver por conta própria, mas acordaria como um novo ser, aquele que consegue enxergar o mundo a sua volta.
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