Algo maior que eu
4 Imenso orgulho despedaçado
Notas iniciais
Mirlanda seguiu o caminho todo irritada. O sol ainda iria demorar algumas horas para se pôr, mesmo assim o hobbit já acendia a fogueira quando a elfa surgiu.
— Duas visitas em um dia, assim vou ter que mudar o acampamento de lugar.
— Vim trazer sua corda e não haveria necessidade de uma segunda visita se não tivesse recusado meu... — A garota perdeu a fala quando notou que o hobbit usava somente uma cueca. — Você pode, em nome do rei, vestir alguma roupa!?
— Desculpa, mas eu acabei de lavar. Acordei tarde, então só vão estar secas amanhã. Não tem problema já que ninguém vem aqui mesmo.
— Você só tem estes trapos? — Ela apontou para a roupa pendurada cuidadosamente na árvore.
— Só preciso delas, embora esperar secar seja mesmo complicado.
A elfa mal podia acreditar no que estava ouvindo. “Como alguém podia viver daquele jeito por vontade própria?”
— Tudo bem, eu não pretendo demorar. Diga de uma vez, por que não aceitou minha oferta?
— A resposta é bem simples, não quero me tornar um subordinado. Por isso ser um mercenário é mais fácil, eu faço um serviço e sou pago, ponto final. Se eu ficar realizando trabalhos para você, temo que acabe tendo a impressão errada de mim.
— Do que você está falando? É cansativo tentar te entender.
— É simples, já vi acontecer antes. Vai acabar pensando que, por um pouco de ouro, pode ser dona o meu traseiro. Ainda por cima mandou uma serva vir até mim. Francamente, que tipo de pessoa pensa que eu sou?
Naquela altura, Mirlanda já estava furiosa. Sem pensar muito, conjurou uma das magias mais poderosas que possuía no momento, uma bola de fogo explosiva, sem poupar mana.
— Espera, o que você está... — O hobbit nem podia acreditar no que estava vendo, se preparou para receber o ataque diretamente já que era tarde para reagir de qualquer outra forma, então a elfa explodiu a árvore junto com as roupas dele.
— O que foi isso, você está ficando louca!? — Ele usou todo seu desespero naquela frase.
— Isso é por ser tão cabeça dura. — Ela disse, sorrindo.
— Minhas tão preciosas vestes, sabe como é difícil achar roupas do meu tamanho que não pareçam de criança?
— Pare de reclamar, eram só trapos, além do mais, agora você não tem escolha. Venha comigo para a cidade, eu vou te comprar roupas novas.
— Isso é o mínimo que você pode fazer! Mas se esqueceu de um grande detalhe senhorita, eu estou quase nu! — Ele continuou reclamando, o que para Mirlanda era até engraçado.
Gentilmente, a elfa retirou sua capa, se aproximou do hobbit e jogou sobre ele cobrindo seu corpo. Depois amarrou em volta do pescoço com o cuidado de uma mãe que agasalha um filho.
— O que há com você? — perguntou o hobbit desconcertado.
— Pode usar o capuz caso esteja preocupado que descubram sua raça, mas isso deve acontecer cedo ou tarde, então você decide.
Sem dizer nada o hobbit colocou o capuz, isso evitava também que a elfa visse seu rosto envergonhado. Além disso, aquela capa tinha o cheiro dela, um cheiro feminino tão agradável, como ele jamais havia sentido. Para o rapaz, aquele cheiro significava muito, era como o cheiro das flores do campo, mas esse até ele conhecia. Havia algo a mais somado aquele perfume doce, era o cheiro dela, seu cabelo prateado, sua pele. Era aquele cheiro que deixava evidente que pertenciam a mundos diferentes. Mundos tão distantes que era quase um milagre que houvessem se encontrado. Sem ter mesmo o que fazer e já prevendo que o barulho e o fogo fosse atrair os guardas, ele juntou suas coisas mais importantes e deu adeus aquele lugar.
Kyssares seguia a elfa em silêncio e de cabeça baixa, enquanto enchia seus pulmões com aquele aroma todo especial. Ao chegar na cidade, ele abaixou ainda mais o capuz, não queria mesmo chamar a atenção e naquele horário era quando as ruas de Siattes ficavam mais cheias. Era difícil ver com a capa escondendo a maior parte do rosto, ele ouvia inúmeras vozes em diversas línguas, por ali todos pareciam interessados em vender ou em comprar algo. Sem conseguir ver direito, Kyssares acabava trombando nas pessoas enquanto tentava acompanhar os passos largos da elfa.
Notando a dificuldade do pequenino em andar por ali, Mirlanda tratou de agarrar a mão dele; assim ele nem precisaria ver para onde estavam indo, era só seguir. Kyssares não se opôs, mas era vergonhoso demais andar de mãos dadas, agradeceu aos céus de que ninguém podia ver seu rosto. Daquele jeito, o que viam era Mirlanda, a elfa negra, segurando a mão de uma criança, talvez um servo de sua casa, já que estava usando a capa com seu emblema. Foi doloroso para Kyssares percorrer todo aquele caminho de mãos dadas com a dona daquele perfume, mas ele nem podia falar nada enquanto estivessem entre as pessoas; foi assim até que entraram pela porta de uma loja.
— Bem-vinda, senhorita — disse uma voz feminina.
— Ryllae está?
— Está sim, senhorita, lá atrás. Vou avisar que está aqui.
— Não é necessário, vou entrar.
Mirlanda continuou puxando a mão do hobbit loja adentro. Do pouco que ele podia ver, dava para notar que era mesmo uma alfaiataria. Algo que ele certamente não poderia pagar.
Ela abriu a porta e foi logo entrando.
— Vadiando como eu suspeitava. Ryllae.
Kyssares deu um passo para o lado e levantou de leve o capuz, descobrindo os olhos. Estava em um escritório grande, cheio de livros e pastas nas estantes ao redor. A frente, uma grande mesa de madeira, e sentada na cadeira, atrás da mesa, estava outra elfa, essa tinha os cabelos loiros e pele bem clara. Dormia tranquilamente de cara na mesa, tinha uma expressão serena e feliz, seria uma bela imagem, digna de uma pintura, se não fosse pela baba que escorria da sua boca.
— Ryllae. — Mirlanda chamou mais uma vez, mas nada dela acordar. — Ryllae! — Gritando ela teve resultado, a outra elfa quase caiu da cadeira.
— Que foi, já é hora de fechar? — Ela disse por reflexo antes de se situar.
— Acorda de uma vez, sua desleixada, tenho trabalho para você.
— Ah, é só você. — Ela abriu um bocejo, ajeitou o cabelo e limpou a baba. — O que quer? Não podia ter feito o pedido com a minha assistente?
— Não é nada para mim e meu colega aqui é bem tímido, então eu espero que você mesma cuide disso.
— Que amigo?
Kyssares se escondia atrás da elfa negra, imóvel, totalmente fora da vista da Ryllae. Mirlanda deu um passo para o lado revelando o pequeno.
— Uma criança, é o filho de um nobre ou algo assim? — Ryllae perguntou.
— Eu não acho uma boa ideia. — Kyssares sussurrou debaixo da capa. — Vamos sair daqui, eu dou um jeito nisso depois.
— Ela é a alfaiate mais talentosa do reino. Você não disse que era difícil encontrar roupas do seu tamanho? Se for para fazer uma, vai ter que tirar suas medidas. Se tem que ser feito, melhor que seja essa cabeça de vento ali.
— Está falando de mim? O que vocês querem, afinal? — Ryllae estava confusa.
— Uma vez que ela tirar suas medidas, quando precisar de mais roupas, é só encomendar. — Mirlanda insistiu.
Kyssares estava irritado, mas não tinha muita escolha e ter que comprar roupas de outra forma poderia ser ainda mais vergonhoso. Ainda inseguro, ele revelou seu rosto.
— Um hobbit, em Siattes? Isso sim é uma surpresa.
— Já havia visto um? — perguntou Mirlanda.
— Faz muito tempo, suas aldeias ficam muito, muito longe. Pelo que ouvi, se afastaram ainda mais depois da última guerra.
— Como já está familiarizada, vai ser mais fácil lidar com ele.
— Não fale de mim como se eu não estivesse aqui.
— Esse tampinha é bem orgulhoso, ai eu acidentalmente acabei destruindo as roupas dele. Preciso que faça novas.
— Acidentalmente? — Kyssares não se lembrava da última vez que havia ficado tão irritado.
— Tudo bem, vamos lá para trás. Eu vou tirar suas medidas, aí você pode explicar para a irmãzona aqui como foi que aquela elfa malvada arrancou suas roupas a força.
— Não me trate como criança, do jeito que você diz fica parecendo estranho.
— Não seja tímido. — Ela disse puxando-o pelo braço até uma porta no fundo da sala.
Mirlanda nunca teve certeza do que aconteceu lá atrás, ela só ouviu alguns gritos do hobbit enquanto Ryllae ria alto e algumas poucas frases. Ele pedia para esperar, ter cuidado e calma, enquanto a elfa dizia que estava tudo bem, que sempre teve interesse nas medidas de um hobbit, que precisava medir tudo direitinho.
— Ei, o que vocês estão fazendo aí atrás?
— Só mais um pouco, eu já estou acabando.
Saíram alguns minutos depois. Ryllae tinha no rosto um sorriso de satisfação, enquanto Kyssares parecia derrotado.
— Eu nem vou perguntar o que aconteceu — disse Mirlanda.
— Foi uma aula e tanto, obrigada pelo conhecimento. Vou providenciar umas roupas para uso provisorio, até que as outras fiquem prontas — disse Ryllae saindo da sala.
— Que humilhação — balbuciou o hobbit ainda irritado.
Não demorou muito para Ryllae retornar com uma túnica de criança. Era simples, de cor marrom como de um camponês normal, então usá-la não seria um problema. Kyssares se trocou na parte de trás, enquanto Mirlanda explicava os detalhes do pedido a Alfaiate.
— Não quero uma simples roupa do dia a dia, nem nada muito sofisticado que não ele não queira usar. Tem que parecer modesto, mas use o couro mais resistente que tiver, para que faça uma armadura leve. Faça pelo menos 3 dessas armaduras e guarde as medidas dele. Fique pronta para pedidos futuros. — A elfa sussurrava para ter certeza de que o pequeno não ouvisse o que dizia.
— Tudo bem, mas por que uma armadura para um hobbit?
— Pelo que diz é um guerreiro.
— Sério? Isso explicaria por que ele tem músculos tão bem definidos...
Kyssares voltou a sala bem a tempo de ver que Ryllae sussurrava bem próxima do ouvido de Mirlanda, mas não pode ouvir o que ela dizia. Só soube com certeza que era dele que falavam, quando a elfa arregalou os olhos surpresa pelo que ouviu.
— Como no mundo isso pode me interessar? Não preciso desse tipo de informação — disse Mirlanda corada.
— Do que vocês estão falando? — O hobbit perguntou sem ter certeza se queria mesmo saber a resposta.
— Não é nada. — Mirlanda respondeu desviando o olhar do dele. Mesmo com a pele escura ainda dava para ver o rubor em sua face.
— Conversa de mulher. — Ryllae tinha um sorriso cínico no rosto.
— Tanto faz, vamos indo. — Ele disse voltando a cobrir o rosto com a capa.
Deixaram então o lugar após ouvir os detalhes para a entrega das roupas. Mirlanda saiu puxando o hobbit pelas ruas, do mesmo jeito de antes. Já havia anoitecido e as ruas eram iluminadas por tochas, mas principalmente com cristais de luz, pendurados nas fachadas das casas e lojas. As pedras de brilho dourado, eram itens mágicos bem baratos que carregavam com a luz solar, isso fazia com que o reino fosse visto distante e que as ruas fossem bem movimentadas mesmo a noite.
— Para onde está me levando agora?
— Sabe que não pode voltar àquele lugar, não é? Os guardas vão ficar em alerta. Pensei que poderia ficar na minha casa, pelo menos até suas roupas ficarem prontas e arrumar outro lugar para morar.
— De jeito nenhum. — Ele disse soltando a mão dela.
A elfa se virou para ele, de alguma forma já esperava por aquela reação. Naquele momento pensava até já conhecer um pouco aquele ser tão peculiar e com certeza esperava reverter aquela situação com algumas palavras, mas o hobbit foi mais rápido.
— Eu já disse, eu vivo do meu jeito. Não pretendo depender de mais ninguém na minha vida. Vou viver do meu modo, mesmo que no fim eu fique sem trabalho e morra de fome.
— Não acha que está sendo muito...
— Cabeça dura, orgulhoso? Tanto faz, eu já me decidi, daqui há uns dias eu descubro onde você mora e passo lá para pegar as minhas roupas. Pode deixar com uma de suas servas. — Dito isso, ele se retirou, deixando a garota sem que ela tivesse alguma chance de retrucar.
Kyssares estava mesmo decidido, mas não sabia para onde ir, acampar nos limites da cidade estava fora de questão, já que certamente os guardas estariam verificando depois do incidente com a bola de fogo. O único jeito era achar uma estalagem barata.
Andar pela capital não era muito complicado, a cidade havia sido construída em uma colina, então quase todas as ruas eram morros, quanto mais alto, mais próximo do castelo e maiores eram as casas. A avenida principal e mais larga da capital ia do portão leste até o castelo e também era onde se encontrava o grosso do comercio, então tudo por ali era mais caro e, é claro, quanto mais próximo do castelo, mais caro ainda. O pequeno andou pelas ruas com cuidado para não mostrar o rosto, sempre descendo até o cruzamento com a segunda avenida. Essa vinha do portão sul subindo e na encruzilhada com a avenida comercial, começava a descer ao norte em direção do porto. Kyssares não conhecia bem a cidade, fora algumas tavernas próximas do portão leste que havia visitado em busca de trabalho, então achou melhor não voltar ao mesmo ponto. Decidiu ir em direção do porto, certamente encontraria um lugar barato para aquela noite por lá.
O porto também era bem movimentado pois ali haviam muitas tavernas. Algumas tinham mesas do lado de fora e parecia ter festa em todas elas, música alta, gente bebendo e comendo por toda parte, a maioria homens grandes e fortes. Havia por ali mais alegria do que na maioria de Siattes e com certeza era mais animado do que o lugar de onde acabara de vir, onde tudo era extremamente limpo, organizado e bem mais silencioso. Podia sentir cheiros de inúmeras carnes e iguarias diferentes. A medida que se aproximava do mar, se distanciava da música e ia ficando cada vez mais escuro, notou que por ali não existiam as pedras de luz, só algumas tochas, mas a luz da lua estava forte.
Kissares ouviu antes de ver, o barulho das ondas batendo contra a parede de pedras, o mar a noite era lindo e assustador. Sentiu-se livre para tirar o capuz já que não havia ninguém por perto. Sentiu o cheiro do mar e uma liberdade absoluta.
Olhando em volta, aquela nem parecia a mesma Siattes, por ali as casas eram de madeira bem simples e ficavam muito próximas uma das outras. Um pouco mais distante, muitas pontes sobre o mar e um emaranhado de barcos de pesca ancorados. Do outro lado, havia uma pequena praia. Ainda era cedo, tinha tempo para procurar um lugar para dormir e talvez desse para acampar por ali, pelo menos aquela noite. Então Kyssares caminhou pela praia iluminada somente pela luz da lua, enquanto ouvia o barulho das ondas e por um momento estava tudo bem, com os pensamentos organizados, longe do movimento com que não estava acostumado ele começava a se arrepender de como havia tratado a elfa, mas o pensamento foi interrompido quando ouviu o que pareceu ser um gemido.
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