Algo maior que eu
12 Grandes ações e objetivos maiores ainda.
De volta a Siattes
Ao ancorar no porto Tanto Mirlanda, Kyssares, Samires e Lupe estavam cansados da viajem. A Elfa estava pensando no que faria com o barco agora que não precisava mais dele, o hobbit pensava em quando iria receber o que faltava da recompensa e o que poderia comprar para as crianças com o ouro, já a druida estava ocupada demais maravilhada com tudo que via, haviam construções tão altas, monumentos, ruas de pedra, tudo tão grande e majestoso, uma beleza diferente da beleza natural com que ela estava acostumada.
—Eu vou indo —disse a elfa. —Quero conferir logo esse mapa, quer vir comigo para pegar o seu ouro?
—Não, eu passo. Estou ansioso para dormir em terra, passo lá outra hora.
—Você muda rápido, achei que não via a hora para enriquecer os seus bolsos.
—Não tente fingir que sabe algo sobre mim, meus motivos são só meus.
—Com licença —interrompeu Samires. —Onde eu vou ficar até conseguir falar com o rei?
—Com ela é claro —o hobbit respondeu prontamente. —Não se preocupe ela mora em um palácio, tão grande quanto seu ego.
—Se minha casa é tão grande quanto meu ego a sua barraca é bem apropriada para o seu... —Fez uma pausa só para instigar a imaginação do pequenino. —Tamanho.
Eles discutiram por mais alguns minutos, Samires já estava até se acostumando, foi assim durante toda a viajem de barco.
Kyssares foi recebido com um abraço forte de Emily e a curiosidade das crianças que se reuniram em volta dele fazendo todos os tipos de perguntas, muitas das quais ele não gostaria de responder, foi o velho Bell que as afastou dizendo que o pequenino deveria estar cansado, mas ele mesmo tinha muitas coisas que queria contar.
—Foi uma viajem mais rápida do que eu pensei que seria, estou feliz por ter voltado em segurança, mas esperava ter mais tempo para fazer as mudanças.
—Mudanças?
—Obviamente. Sua atitude tão nobre me inspirou e eu sabia que podia inspirar muitos outros.
—Ei, você não está exagerando um pouco.
—Claro que não, deixe eu terminar a história, se lembra que eu disse que tinha um contato no castelo, pois bem, nos dias que esteve fora eu procurei esse meu contato e consegui algum apoio, acontece que eu queria fazer as mudanças que estávamos planejando como aumentar a casa e essas coisas, mas pode ser ainda melhor que isso então eu ainda não fiz muita coisa, talvez consigamos um pedaço de terra para construir um lugar melhor, isso não é incrível?
—Incrível, mas vou deixar essas coisas com você, eu passei a noite acordado velejando.
—Velejando com a feiticeira?
—Mais ou menos, por que?
—Pensando bem não é tão surpreendente que você a conheça. Acabei topando com alguém importante.
—Agora eu sou importante por que conheço aquela megera?
—Nada disso, é só que vocês tem muito em comum.
Mirlanda teve alguma dificuldade em chegar em casa já que Samires estava interessada em tudo que via, na mansão não foi diferente, era a primeira vez que via tanto luxo em um lugar só. Os empregados estranharam os visitantes, uma garota do mato com orelhas de animal e um lobo, de qualquer forma a Elfa nunca tinha uma recepção tão calorosa quanto a que o hobbit teve, ela tinha muitos servos leais e mesmo que não fossem tinham por obrigação serem sempre gentis e educados, alguns chegavam até perto da devoção, mas muito diferente do que seria um amigo. Antes mesmo de se trocar a elfa queria conferir o mapa então foi até sua sala juntou os dois pedaços e descobriu logo de cara que era muito antigo de antes da capital estar pronta, descobrir o local exigiria alguma pesquisa, só então o cansaço da viajem superou sua ansiedade e ela resolveu relaxar.
Alguns dias depois.
—Ei velho Bell, ainda não me deu um bom motivo para eu vir junto.
—Já disse, nosso colaborador quer te conhecer afinal foi você que inspirou essa mudança.
Estavam parados em frente ao grande portão do castelo aguardando os guardas liberarem a entrada. Não demorou muito até alguém vir para leva-los para dentro, passaram pelo grande pátio onde haviam muitos guardas e armas de guerra para proteção do castelo, o interior era muito diferente do lado de fora, cheio de tapeçarias, quadros e esculturas, as paredes eram lisas muito diferente das pedras do lado de fora. Eles foram levados até uma grande sala onde tudo era extremamente refinado, todos os moveis eram de madeira polida cheios de entalhes de arabescos, no teto um grande lustre de pedras de luz, havia também uma estante com garrafas e taças de cristal transparente.
—O que você faz aqui?
Era uma sala grande então o hobbit só notou a elfa quando ouviu sua voz. Ela estava sentada em um sofá em um dos cantos perto de uma janela.
—Você de novo? Por algum motivo você vive esbarrando em mim. —Ele disse surpreso.
—Eu tenho assuntos a tratar aqui, e você?
—Aparentemente eu também, mas não tenho certeza do que exatamente.
—Senhorita, é um prazer te reencontrar —disse o velho Bell. —Nos encontramos no porto se lembra de mim?
—Menos velho, não precisa ser tão formal com ela.
—Eu me lembro sim, o prazer é todo meu, mas estou preocupada com você considerando o tipo de gente que te acompanha.
—Por favor senhorita não diga isso, meu amigo aqui é de muito valor.
Ficaram trocando farpas até que a porta se abriu e a pessoa que esperavam surgiu, ela era bem nova, uma menina de 17 anos, estava vestida conforme seu título, seu vestido cheio de babados e enfeites deixava claro que era alguém importante, seus cabelos loiros penteados com a impecável perfeição das obras primas dos maiores artistas, tudo nela era assim, parecia ter acabado de ser moldada, não era comum para o hobbit estar na presença de tamanha harmonia, era como se aquela garota não tivesse crescido no mesmo mundo que ele, não se via uma única cicatriz ou mancha em sua pele, nem as unhas dela eram brancas como as dele, eram douradas como seu cabelo.
—Bem vindos, meu nome é Lucinda Victoria Neriane, filha de Victor Neriane.
O velho Bel se ajoelhou e obrigou o hobbit a se curvar, quanto a Mirlanda permaneceu sentada no mesmo lugar.
—Levantem-se por favor, são meus convidados.
Eles fizeram como ela pediu. A garota humana olhava fixamente para o Hobbit parecia muito interessada nele.
—Sou um hobbit —explicou afim de sanar a curiosidade da menina.
—Eu nunca havia visto um antes, suas terras são tão distantes.
—Como esperado de uma princesa que não conhece nem seu próprio território. —Disse a elfa.
—Hora essa, não havia notado sua presença, mas bem que senti um cheiro ruim. Já tomou banho depois da sua última viajem?
Tanto Kyssares quanto o velho ficaram chocados, a menina loira mudou completamente o tom de voz, agora suas palavras soavam o total oposto da graciosidade que tinha antes, o atrito entre as duas garotas na sala podia ser sentido, parecia que havia uma guerra prestes a iniciar.
—Qualquer cheiro é estranho para alguém que cresceu no meio das flores como você.
A princesa se zangou e perdeu totalmente a elegância.
—Use sua boca suja para algo útil e diga logo o que veio fazer aqui orelhuda!
—Preciso de informações. Queria mesmo falar com seu pai, mas como ele está ocupado solicitei a presença de qualquer um dos desocupados dos filhos dele. Devia saber que seria você.
—O que quer dizer com isso? Como pode ver estou muito ocupada agora então não tenho tempo para você.
—Não se preocupe eu espero, também estou curiosa com o tipo de assunto que você trata por aqui.
—Isso não vai ser possível, é particular, então se nos der licença.
—Minha senhora —disse Bell. —Não nos importamos que a senhorita Mirlanda esteja presente, na verdade ela é uma boa amiga do meu parceiro aqui então talvez o assunto também seja do interesse dela.
A princesa franziu a sobrancelha deixando claro que estava irritada, mesmo assim abriu um sorriso para os dois a sua frente, queria mostrar que mesmo contrariada ainda tinha classe, mas não foi bem isso que pareceu.
Um servo entrou trazendo nas mãos uma bandeja de prata com chá e biscoitos e deixou em cima da mesa, tudo que disse foi um “com licença” sem nem olhar nos rostos dos visitantes. Todos menos a elfa se sentaram em volta da mesa.
—Então você é um bom amigo da Garota ali no canto? —A princesa perguntou já expressando uma certa indignação.
—Ela me contratou para acompanha-la em uma pequena viajem de exploração senhorita.
—Bom, não é a melhor definição de amizade que eu já ouvi, considerando a personalidade da Elfa acredito que não passou de um contrato profissional.
—Eu estou bem aqui sabia? —Disse a elfa no canto.
—Belmondrez me contou que usou o ouro para ajudar as crianças, isso foi muito nobre da sua parte.
O hobbit ficou constrangido com aquelas palavras já Mirlanda ficou surpresa e curiosa, queria saber os detalhes daquilo tudo.
—Eu só achei um jeito útil de usar o ouro, além disso agora tenho mais motivação para concluir os trabalhos.
—Admirável —comentou a princesa. —Todos nesse reino se preocupar com poder, a força de um reino está na quantidade de espadas empunhadas eles dizem, resolvem o problema dos órfãos dando armas em suas mãos esperando que sobrevivam para que fiquem fortes e possam contribuir com seu sangue para o crescimento do reino. Quando Belmondrez me contou o que estavam tentando fazer eu me senti envergonhada por não ter feito nada antes.
—Não diga isso senhorita —disse o velho Bell. —Existem muitos assuntos para se lidar no reino, esperamos contribuir.
—Vejo que falamos a mesma língua, desta forma tive uma ideia, quero que esse assunto seja levado a sério no reino então planejo dar uma festa com os nomes mais importantes de Siattes, não vou avisar aos convidados, mas o real objetivo dessa festa será arrecadar fundos para o primeiro orfanato do reino, quero que seja grande e espaçoso, quero contratar professores de várias áreas, o que poderemos fazer vai depender de quantos patrocinadores estarão dispostos a nos ajudar por isso prometo usar de toda minha influência e encanto para conseguir o máximo de aliados possível.
—Isso seria fantástico —comentou o velho com os olhos brilhando.
—Bom me parece algo muito grande... —O hobbit parecia incerto.
—Não diga isso —disse a princesa segurando as pequenas mãos do hobbit. —Viu o que sua boa ação fez? Precisarei da sua ajuda...
—Com licença —disse a elfa caminhando em direção da porta.
—Achei que estava interessada. —Lucinda disse com um sorriso na cara.
—Estão tratando de um assunto muito sério então vou lhes dar algum tempo. —Dito isso ela saiu para o corredor. O que Mirlanda sentia na verdade era vergonha da forma que havia tratado o hobbit, ela ainda estava longe de compreender a forma dele pensar e comparado a ela que estava ali por motivos egoístas o que ele estava fazendo era o total oposto da forma básica de se viver naquele mundo. Enriquecer, ficar forte, ganhar fama, ser reconhecido como herói, nenhum dos que vieram antes haviam tomado aquele caminho para chegar ao topo, mesmo os paladinos quando tiravam as crianças das ruas o que faziam era ensinar a lutar para criar uma futura geração de paladinos, cultivar vidas sem um objetivo claro parecia sem sentido, mas com certeza algo muito nobre.
Fale com o autor