Algo maior que eu
11 A grandeza das sombras e o angulo da luz
A grandeza das sombras e o angulo da luz
Kyssares que já estava com a espada em punhos, cortou a cabeça da cobra logo depois que Mirlanda sentiu a dor. As presas da servente atingiram o pescoço da garota enquanto estava desprevenida
—Droga! —gritou a elfa levando a mão a ferida.
—Vamos rápido, não temos muito tempo até o veneno se espalhar. —Ele puxou a mão dela descobrindo as feridas.
—O que vai fazer?
Como resposta sentiu os lábios dele tocarem sua pele. O Hobbit sugou forte puxando o veneno para sua boca, mas não foi o único efeito de sua ação, a elfa que estava relutante reagiu com um gemido bem constrangedor. Kyssares cuspiu e disse:
—Fique quieta, já vai acabar.
—Espera o que você est...
Sem demora ele tornou a colocar a boca sobre a ferida no pescoço da Elfa e sugar o veneno. A garota sem reação só podia tentar resistir aquela sensação estranha, não era exatamente ruim, sua vontade era de se contorcer e se não estivesse mordendo os lábios corria o risco de soltar mais algum gemido. Ficou completamente constrangida, não se lembrava de já ter passado por nada tão vergonhoso. O Hobbit fez mais 3 vezes para ter certeza de que havia feito bem feito. Ao terminar pôde notar o rubor da garota bem aparente, mesmo ela tendo a pele escura e estando em uma floresta a noite. Ela nem conseguia olhar nos olhos dele.
—Você deve ficar bem. —Ele disse meio sem jeito notando que ela não estava nem um pouco confortável com o que ele havia feito.
—Vejo que vocês fizeram as pazes. —Era Samires parada ao lado do lobo a poucos metros deles, a deus sabe quanto tempo. —A proposito essa é mesmo uma ilha bem pequena.
—Não é nada disso, ele só estava...
Mirlanda ia se explicando, mas acabou percebendo que só estava deixando tudo mais estranho ainda.
—Vamos voltar —Disse Kyssares colocando o porco que havia matado nas costas. —Vai ser bom ter uma refeição decente antes de entrarmos no mar.
De volta a praia o Hobbit preparou a carne e sugeriu a druida que lhes contasse sua história já que tinham tempo.
—Primeiro quero agradecer de novo por terem salvo a minha vida, mas também tem algo que eu quero dizer a algum tempo. —Fez uma pausa. —Vocês são perigosos, quando me obrigaram a vir até aqui eu não estava sabendo que íamos profanar a tumba de um paladino, além do mais quase morri de novo. Vocês não têm nada na cabeça. —Fez outra pausa e seus ouvintes não disseram nada. —Muito bem vou lhes contar a mesma história que minha avó me contou. Começa quando um grupo de pessoas chegaram a floresta sem fim, onde construíram um vilarejo e começam a viver como lenhadores e marceneiros. Não há nenhum lugar nesse mundo igual a floresta sem fim, suas arvores eram gigantescas e algumas tinham a madeira muito boa para fabricação de arcos e moveis. Cada dia que passavam eles descobriam mais sobre a floresta e iam cada vez mais fundo dentro dela. Certa vez um rapaz estava andando sozinho entre as arvores quando foi abordado por um ser, era uma mulher de beleza incomparável, tinha longos cabelos verdes e o vestido feito de flores, era a deusa da floresta. Ela disse que os homens haviam entrado em território sagrado e que haviam cortado muitas arvores anciãs, ela escolheu o rapaz para que alertasse os homens do sacrilégio que estavam cometendo. O homem não teve reação ele mal conseguia falar, então a deusa se aproximou e disse que perdoaria seus pecados, mas que ficaria com sua semente como forma de reparar os estragos que fizeram na floresta, aí ela o beijou e o deixou ir...
—Espera. —o Hobbit interrompeu. —Ela disse que ia ficar com a semente dele e só o beijou?
—Foi isso que minha avó me contou.
—Quantos anos você tinha? —Mirlanda perguntou.
—Uns 6 eu acho.
—Isso explica tudo.
A elfa e o hobbit riram juntos, Samires ficou sem entender.
—Continuando: quando ele voltou ao vilarejo contou o que aconteceu, mas os outros não acreditaram nele, de qualquer forma a madeira era o único meio que aqueles homens tinham para sobreviver naquele lugar, então continuaram com o trabalho. Já o rapaz se dedicou a explorar a floresta em busca da deusa. Os anos passaram e ele não a viu mais, com o tempo ele acabou acreditando que talvez tivesse tido um sonho ou alucinação e então quando ele não esperava mais, ela reapareceu. “Vocês não me deram ouvidos. ” Ela disse, ele tentou se explicar, mas a deusa não aceitou. “Estou devolvendo sua semente. ” Detrás dela saiu um garoto, como minha avó disse, o garoto também tinha calda e orelhas de animal. A deusa evocou para a floresta os maiores e mais temíveis animais e criaturas para proteger aquelas terras e ordenou o homem que levasse de volta sua semente, disse que o garoto seria a única ligação do mundo com a floresta.
—E você ainda acha que a semente que ela tirou dele foi um beijo?
Samires parou para pensar um pouco então corou quando percebeu o que ele queria dizer.
—Não tente sujar a história da minha avó, é um romance puro entendeu? Continuando, quando o homem voltou com o garoto o vilarejo estava sendo atacado por lobos enormes, tão grandes que destruíam as paredes de madeira da casa com uma patada. Os animais quando viram o garoto se aproximar se acalmaram e foram embora. O homem tentou explicar o que aconteceu, mas os outros entenderam errado, eles viam o garoto como a própria maldição da deusa, então expulsaram o garoto da aldeia, o mandaram de volta para a floresta como sacrifício para acalmar a deusa, não teve muito efeito as criaturas tomaram conta da floresta, ficou tão perigoso que todos tiveram que se mudar. O garoto cresceu na floresta como um filho e guardião dela. Até hoje a floresta é chamada de sem fim por que ninguém conhece toda sua extensão, mas as criaturas atraem os aventureiros exploradores do mundo todo, várias áreas foram mapeadas. Um dia uma aventureira encontrou-se com o guardião que já havia se tornado um homem, ele mostrou a ela os caminhos e a beleza da floresta. Eles se apaixonaram e tiveram filhos, essa é a história dos meus antepassados, a cada 3 gerações nasce um como eu, quando isso acontece a criança é oferecida a floresta como tributo para ser seu guardião, essa sou eu.
—Até que eu gostei da história —comentou Kyssares. —Mas isso não explica por que está fugindo, não deveria estar protegendo a floresta?
—Deveria, deveria sim. —Seu olhar se tornou triste por um momento. —Mas eu ainda não desisti, se eu não tivesse fugido estaria morta.
—O que aconteceu? —Mirlanda perguntou.
—O vento soprou uma maldição até a floresta, ele veio do nada e as sombras o acompanharam...
Duas semanas atrás
Fazia alguns dias que Samires não visitava sua avó, aproveitou a companhia dos exploradores que havia guiado pela floresta para ir até a cidade de Huntra. Ela nunca se acostumava a ficar cercada por tantas pessoas. Diferente de Siattes, em Huntra as casas eram menores e baixas, há um rio que corta a cidade em várias partes, o rio das pétalas, chamado assim porque ao redor dele crescem muitos lírios e ipês de várias cores. O forte da cidade é o comercio, ali se podia-se achar mercadorias que não se encontrava em mais lugar nenhum, ervas da floresta sem fim, armas da melhor madeira, porções magicas e o que era mais procurado, o mercado legalizado de ferras, pratica que a druida combatia como podia. A garota se disfarçou antes de adentrar na cidade, ela tinha uma certa fama por ali. Os exploradores lhe conheciam por que ela era a principal guia pela floresta e os caçadores lhe odiavam porque era ela que soltava suas caças das armadilhas, de qualquer forma ela só não queria mostrar suas orelhas e a calda então enrolou a calda na cintura por baixo da túnica e cobriu a cabeça com uma capa.
Ao passar pelo mercado ouviu uma conversa que lhe chamou a atenção, dois homens estavam negociando, o cliente se recusava a pagar o que o vendedor estava pedindo por que dizia que o animal parecia doente. Viu em uma jaula um grifo jovem, mas que não parecia nada bem. Lupe puxou a capa da garota com a boca para que ela continuasse, ela estava enfurecida, mas não havia nada a fazer já que a lei permitia, ela continuou mesmo contrariada. Ao se aproximar da casa da avó sentiu o cheiro da torta de maças então se apressou até a porta da frente, entrou com pressa e foi direto para cozinha onde teve tempo para testemunhar a retirada da torta de dentro do forno a lenha.
—Como sabia que eu viria? —Samires disse com um largo sorriso no rosto.
—O vento me contou, sente-se aí e coma, você está emagrecendo. Aqui, você também Lupe —disse a velhinha servindo um pedaço de torta em uma tigela ao lobo.
A avó era uma espécie de curandeira dali e sempre que Samires retornava trazia uma porção de ervas para a senhora. Naquela noite a garota foi dormir com a sensação agradável de estar em um lar, o conforto de ter alguém querido no quarto ao lado, mas acordou assustada no meio da noite com o vento batendo as janelas.
—Você também ouviu? —disse sua avó entrando no quarto.
—Tem alguma coisa errada com a floresta, eu tenho que ir agora.
Ela juntou suas coisas se despediu da avó e partiu de volta o mais rápido possível. Quando chegou a floresta o sol ainda não havia nascido, soprava um vento gelado entre as arvores. A druida entrou pela floresta indo cada vez mais fundo, os animais estavam fugindo, não parecia o mesmo lugar, agora mesmo para ela a floresta parecia perigosa, havia algo a mais por ali, não era mais terra sagrada. Conforme andava mais o lugar se tornava sombrio, a pressão que sentia era terrível parecia que estava caminhando na direção da própria morte, então ela o viu. Estava sentado de cabeça baixa, imóvel, tinha a forma de um homem, mas a presença certamente não era de um. O estranho trajava uma armadura completa negra cheia de cravos e tinha uma espada enorme fincada na terra ao seu lado. A druida correu para trás de uma arvore e como o cavaleiro não reagiu ela pensou não ter sido vista, rapidamente armou seu arco, mas assim que mirou ouviu a voz dele.
—Não faça isso —ele disse e ela imediatamente baixou o arco.
—Sua espada esta corrompendo a floresta!
Ele continuava imóvel.
—Isso fara com que sintam em qualquer parte do mundo, eles viram até mim.
—Eles quem? Quem é você?
—Meu nome é irrelevante, todos os nomes são, talvez não se lembrem de mim, mas com certeza se lembraram do que farei.
—Retire sua espada! —Ela tornou a mirar.
O cavaleiro se levantou, tinha pelo menos dois metros e meio e parecia bem forte, uma presença aterradora que fez as pernas da garota tremerem.
—Você não conseguira o que quer disparando esse graveto, o máximo que posso fazer por você é aconselha-la a fugir para o mais longe que puder.
Para não dar espaço ao medo Samires disparou logo e viu sua flecha bater contra ele e se estilhaçar em sua armadura.
—Eu disse para não fazer isso.
O cavaleiro negro ergueu a mão e começou a conjurar proferindo palavras que a druida não compreendia. Acima dele a magia começou a se formar, parecia uma grande bola de fogo, mas de cor purpura. Lupe latiu para a garota e ela começou a correr fugindo pela floresta, com tantas arvores seria fácil se proteger, mas a bola de fogo purpura lhe seguia, agora a magia tinha a forma de um crânio e fazia um som sinistro enquanto a perseguia, ela correu o máximo que pôde e quando suas pernas falharam ela acabou tropeçando. Não havia mais tempo, a druida rolou no chão e estendeu os braços para se proteger, mas o lobo pulou na frente sendo consumido pelas chamas de brilho opaco.
—Lupe! —Ela gritou. —Logo que as chamas se extinguiram ela se levantou e continuou a correr na direção da cidade.
Ao chegar na cidade não acreditou no que viu, a cidade estava em chamas, haviam goblins, orcs, ogros, worgs e muitas outras criaturas, muitas delas só havia ouvido em contos para assustar crianças. No meio da confusão ela só conseguia pensar em sua avó, a garota correu o mais rápido que conseguiu, desviando dos perigos do caminho. Encontrou a casa em chamas como várias outras, muitas pessoas mortas pela rua. Ficou alguns minutos só gritando e chorando sem ter o que fazer além de presumir o obvio. Quando um worg a notou e veio na sua direção, ela lhe deu um tiro no olho e a criatura caiu morta, atirou mais duas flechas matando mais dois monstros que podia ver. Foi andando pela cidade matando tudo que encontrava, na praça principal o movimento era bem maior, muitos corpos e muitas criaturas. A druida até tentou lutar, mas acabou no meio de um monte de inimigos, já estava pronta para morrer ali quando viu a jaula do grifo, a criatura presa estava morrendo de medo. Samires correu na direção dele desviando e ferindo os oponentes no caminho, abriu o cadeado com um machado que tomou de um Orc pensando se o bicho conseguiria voar. A resposta veio logo que ela abriu a gaiola o grifo saiu voando sem perder tempo. A druida ainda pretendia seguir lutando, mas quando estendeu a mão para apanhar outra flecha não encontrou nenhuma, com os inimigos se aproximando ela não tinha muita opção, voltou a apanhar o machado que havia usado a pouco e se preparou para a batalha. Era morte certa, mas uma batalha que valia a pena, foi quando o grifo passou voando e a agarrou pela túnica. Vendo que estava se afastando da morte, a tristeza voltou a tomar seu coração, se lembrou da sua avó, da sua casa, da floresta, tudo havia deixado de existir em muito pouco tempo.
O grifo voou o mais que pôde preocupado em carregar a garota para longe, a criatura ainda era jovem e não tinha tamanho para ser montada, mas se esforçou para fazer brilhar o que restava da sua chama de vida. Ele desceu perto do pequeno porto de Huntra, caiu no chão já quase sem vida. Samires logo notou que o animal estava mesmo doente e não ia sobreviver por mais muito tempo, para uma druida o certo a fazer era acabar logo com a dor dele, mas naquele momento ela era totalmente incapaz, o que ela fez foi abraça-lo e chorar o máximo que podia, já que não podia salva-lo e nem dar a ele um descanso rápido pelo menos podia sofrer com ele. Quando o grifo morreu a menina já havia chorado por ele e por tudo mais que perdeu, havia derramado lagrimas suficientes, ela entregou o amigo a terra e depois orou para ressuscitar seu lobo.
Desnorteada Samires não sabia o que fazer, não conhecia nada além daquele vilarejo que foi destruído ou da floresta que fora corrompida, o que veio a sua mente foram antigas histórias que havia escutado de sua avó e de inúmeras outras bocas, dos bardos que passavam por seu vilarejo e dos exploradores que ela guiava pela floresta. Eram várias histórias, com personagens completamente diferentes, mas sempre havia um ponto em comum, todos os heróis das grandes histórias eram nascidos em Siattes a terra dos heróis, o reino onde todas as raças viviam pela espada. Sem pensar muito a druida decidiu fazer a viajem de sua vida atrás de um herói que pudesse lhe ajudar, se tivesse pensado um pouco mais com certeza não teria tentado ir de barco.
De volta a fogueira.
—Aí eu roubei um barco e ganhei o mar, só que eu esqueci que eu não tinha um mapa e não saber muito sobre barcos também não me ajudou muito. Graças a grande mãe vocês me encontraram.
—Muita sorte a sua. —Disse o Hobbit.
—Não foi sorte, foi destino, talvez sejam vocês os heróis que eu estou procurando.
Nenhum dos dois pareciam animados com a ideia.
—Bom, pelo menos podemos te dar uma carona.
—Sério, não vão nem pensar a respeito, tenho certeza que o que está acontecendo na floresta é muito maior do que imaginam.
—O rei atual está sedento por sangue —disse a Elfa. —Te consigo uma audiência, você conta para ele o que nos contou, ele envia um exército e acaba de uma vez com isso, foi assim que todos os últimos conflitos terminaram, no fim é muita fumaça e pouco fogo.
—Eu desejo do fundo do coração que seja assim. —As palavras de Samires carregavam muita dúvida, mas certamente ela queria acreditar que seria assim tão simples.
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