Algo Sinistro Está Chegando

2 CAPÍTulo UM - Algo Sinistro ESTÁ Chegando


Havia um grande quadro pendurado na parede da sala: uma bela fotografia, ampliada e em preto e branco, de uma casa antiga, construída num amplo terreno plano e com árvores ressequidas ao redor; um claro sentimento de solidão tomava quem a olhasse, fui então informado, certo dia, ao perguntar à primeira pessoa sobre sua experiência com a imagem. Era um vazio não pronunciado nem mesmo pela imagem, mas que estava lá, seguramente ecoava por entre as árvores e na construção antiga, para além da moldura escurecida e dos tons mistos da imagem. A compradora, figura materna adentrando a quarta década, era uma pessoa robusta e de constituição poderosa e dizia ter conseguido a fotografia num antiquário por uma pechincha – e aqui ela esfregava o polegar e o indicador, um símbolo universal, enquanto apertava os olhos e subentendia em sua voz um misto de grande achado e pesar – e então pensou: quão belo poderia ficar essa fotografia em minha parede de entrada?

As visitas poderiam se deparar, antes de tudo, ao entrar na casa, com uma imponente imagem traduzindo significados mistos e fluidez artística, recolhendo-se no ponto da alma que elucubra as sensibilidades poéticas. Ela não pensou tudo isso, é preciso dizer, mas sentiu. Seria uma possibilidade de ser aquela outra pessoa do significado e da sensibilidade, desconhecida, mas intencionada. Ela poderia ser aquela pessoa, queria ser aquela pessoa; então, Sâmpola Mizze seria aquela pessoa.

Foi o suficiente para arrastar consigo a fotografia debaixo do braço com a naturalidade de uma tarefa diária, de modo que, andando pela rua, a ninguém aquela cena pareceu estranha; era uma mulher robusta levando consigo algo que lhe pertencia e apenas isso. Às vezes, essas informações chegam a mim e a única coisa que posso fazer é investigá-las e recolher o máximo de informações precisas o possível a seu respeito. Não consigo, no entanto, formar em minha mente a imagem de Sâmpola Mizze caminhando rua abaixo com o grande quadro embaixo do braço, como me foi descrita posteriormente, muito, muito depois; o momento da compra, no entanto, é completamente diferente. Uma pechincha!

O quadro foi colocado em seu devido lugar e a pequena família viu-se satisfeita, pois a mãe, Sâmpola, estava satisfeita.

O primeiro sinal da irregularidade ocorreu uma semana após a compra.

Existem pais, como todos conhecemos, que, em seu ponto de vista distorcido, podem ver nos filhos pequenos pontos reluzentes de sabedoria e de índole imaculada. Não é incomum conhecer uma pessoa relativamente próxima que tem, em especial, um de seus filhos no mais alto grau; a criança pode não ter a melhor índole e, para dizer a verdade, suas ações indicam frequentemente a malícia como uma das principais características, mas essa pessoa o vê como uma pequena bênção. De todo modo, os pais sempre costumam filtrar o próprio filho, apenas para deixá-lo consideravelmente melhor do que realmente é; outros, no entanto, têm em si uma tendência a descreditá-los completamente. Não saberia dizer qual a melhor das opções, mas o descrédito, nesse caso específico, funcionou como o estopim para todas as coisas estranhas.

Sâmpola tinha um filho em seu nono ano, chamado Liropelo, de aspecto franzino e muito, muito tímido, que tremia imediatamente quando sua mãe lhe voltava um olhar duro, ou mesmo ao escutar a menor das diferenças no tom de voz quando Sâmpola se dirigia a ele, saindo do afetuoso para uma repressão e voltando novamente para o afeto. Liropelo era dado principalmente às manifestações silenciosas: ele, por muito pouco, não existia e quando se fazia presente, estava sempre tão quieto que continuava não existindo. Tinha voz muito baixa e reações calmas a praticamente tudo; na maior parte das vezes, estava com muito sono e dizia a si mesmo que o melhor a fazer era continuar quieto, pensando principalmente nas grandes chances de enraivecer os adultos, uma coisa muito pouco saudável.

A primeira reação de Liropelo àquela nova aquisição da mãe, ao vê-la pendurá-la na sala, de frente para a porta e sobre um dos sofás – exatamente sobre o lugar onde ele costumava deitar para passar a tarde vendo desenhos –, foi de sensível aversão à imagem, uma aversão desconhecida e veemente. Isso podia ser observado por qualquer pessoa disposta notar nos olhares furtivos que ele lançava em direção à fotografia, ao mesmo tempo que tentava ignorar sua existência, passando perto dele como quem passa perto de um cachorro bravo, latindo sem parar; exatamente como faz um animal acuado: Liropelo precisava prestar atenção a imagem a todo momento, apenas por precaução, mas não podia deixar que, qualquer coisa fosse aquilo, percebesse como ela chamava sua atenção. Simples e claro, mas visivelmente eficaz.

Qual não foi sua surpresa ao perceber, num dia, ao observar a imagem de relance, uma das luzes dos quartos do fundo, um dos mais distantes, acesa. Ele olhou novamente para a imagem e, perguntando-se se havia enlouquecido – descreditando o próprio medo e esquecendo completamente do pavor causado pela fotografia – aproximou-se lentamente e examinou com devida atenção a pequena janela dos fundos. Ora, mas, sim, sim! Era evidente que estava acesa! Ah, que horror!, mas o que poderia ser aquilo, ele se questionou, com olhos arregalados. Surpreso e temeroso, afastou-se devagar da imagem e, correu até sua mãe. Ao vê-lo, percebeu seu estado lívido, sua expressão era um profundo pavor e, por muito pouco, o pobre menino não conseguia se mexer. Liropelo pegou-a pela mão e arrastou até a fotografia. Sobre o sofá da sala, o quadro continuava como sempre estivera.

Sem desgrudar os olhos da imagem, apontou para a pequena janela do fundo. É possível que a mãe, naquele contexto perceptivelmente confuso, não soubesse a que exatamente o filho se referia, mas suas atenções acompanhavam o quadro, assim como as dele, seguindo janela por janela até o fundo, de onde irradiava uma luz muito fraca. Sâmpola esperou um minuto até que ele dissesse algo, o que não aconteceu.

Considerou um pouco e, bem, parecia mais indicado questionar-lhe a respeito de que exatamente ele estava falando. Era da imagem, é claro, ela não podia ver?

A mulher coçou a cabeça e, bem, conversou consigo mesma, era evidente ser mais uma traquinagem infantil e a natureza ainda não conhecida da possível brincadeira não importava, pois tinha muito o que fazer. Com um único safanão, soltou-se da mãozinha que a apertava e, imediatamente, voltou a caminhar para a cozinha, onde estivera sentada e lia um e outro relatório financeiro. Qual não foi sua surpresa quando, antes de chegar à mesa da cozinha, onde a confusão de papéis a esperava, contas dos últimos meses de uma empresa familiar – principalmente algumas que não batiam e precisavam bater até o final do dia –, quando uma mãozinha voltou a agarrar-se à sua. Ela virou-se devagar; Liropelo a olhava com gravidade.

"O que é?" perguntou ela, voltando-se para ele com fúria crescente. Em seu tom havia, principalmente, cansaço; conforme o dia passava, Sâmpola percebia como havia mais a fazer do que tempo o suficiente para solucionar todos os problemas.

"Há algo de errado com o quadro, você não viu?"

"O que quer dizer com isso?"

"Há uma luz acesa em uma das janelas do fundo. Lá atrás, numa das janelas mais escondidas. Você não viu?" perguntou Liropelo, e voltou-se para o corredor que os levaria de volta à sala e apertou um pouco mais a mão de Sâmpola. "Não havia luz acesa antes."

"Você está dizendo bobagens."

"Vamos ver."

Ela o acompanhou até a sala, seguindo o ritmo dos passos da criança e qual não foi sua surpresa ao perceber, de fato, uma das janelas iluminadas internamente; algo que nunca havia notado antes, mas estava certa ser apenas uma bobagem infantil ou a vontade de seu filho em pôr-lhe algumas caraminholas na cabeça, uma possibilidade plausível, dada a índole da criança. Liropelo afirmava que aquela janela não estava acesa antes, nenhuma delas nunca estivera acesa e, se a mãe não acreditava nele, poderia examinar por si própria, uma por uma. De fato, não havia outra janela acesa. Aquilo certamente era uma metáfora de significado poético, que dificilmente poderia explicar ao filho, talvez. Imaginou-se, então, naquele pequeno foco de luz, uma clara referência à vida oculta no lugar onde não se pode ver – ou qualquer baboseira desse tipo.

"Não pense bobagens, querido, venha, deixe isso aí e vamos para a cozinha."

"Não, não vê o que estou dizendo? A luz não estava acesa antes, nenhuma delas estava."

"Pois eu lhe digo que estava, eu mesma já havia percebido isso e você não deu a devida atenção ao quadro. Está se preocupando com bobagem," respondeu a mãe, puxando-o pelo braço. Quando a criança não descobre a mentira, o crime compensa.

"Não, não, eu prestei atenção, eu tenho certeza..."

"Liropelo, eu estou dizendo que essa luz sempre esteve acesa," ela parou alguns segundos e olhando mais uma vez para o quadro pendurado na parede e, principalmente, para a luz reconfortante que, muito fraca, saía pela janela, completou, "na verdade, eu comprei esse quadro justamente por gostar da ideia da única janela acesa no fundo. É poético. Você é criança; no futuro entenderá."

Era como mentir sobre o Papai Noel, não tinha problema.

Mas Liropelo não se convenceu. Seus olhares furtivos, com o passar do tempo, se tornaram um estudo constante das lembranças a respeito do quadro, que, agora, continuava imutável. Ele não ousava maiores exames, nem mesmo os olhares furtivos, como antes. A mudança – se de fato ocorreu alguma – fora uma única vez, quando a luz se acendeu e, por algum motivo, continuou acesa numa ininterrupta corrente de força. Perguntou então a si mesmo se haveria qualquer possibilidade de ter imaginado coisas; o conjunto de suas lembranças dizia que não e assegurava que aquela janela nunca esteve acesa quando o quadro chegou à casa.

Os dias passavam e, revolvendo em sua mente e importunando sua alma, a janela iluminada continuava como uma lembrança de horror, mas minguante. Era um detalhe esquecível, talvez. Com o tempo, o coração amedrontado acalmou-se, esquecendo até mesmo da pequena luz irradiando da janela aberta. Aberta. Essa janela não estava aberta, estava? Todas as outras janelas na fotografia estavam fechadas, mas aquela, apenas aquela estava aberta, escancarada, na verdade, como uma forte luz irradiando lá de dentro, zombando de Liropelo. Ele lembrava-se muito bem como, na semana seguinte, quando olhou e surpreendeu-se com a luz acesa, lembrou-se da janela fechada, a janela apenas poderia estar fechada, lembrava-se bem, lembrava-se muito bem: era uma janela fechada e uma luz acesa, lá no final. Foi tomado por um horror repentino e uma onda de calafrios, pois era quase inacreditável que o quadro estivesse realmente mudando mas, ali, bem ali, lá estava a prova da metamorfose da fotografia.

Deveria chamar a mãe? Ela provavelmente não acreditaria; ele subiu no sofá e aproximou-se da fotografia, alimentando cada vez mais e o quanto pudesse a fagulha quase apagada de coragem que ainda lhe restava; dizendo a si mesmo que estava vendo coisas e que a janela do quarto nos fundos estivera sempre aberta, ele apenas não se lembrava direito. Não havia transformação inexplicável, sua mãe comprara o quadro por ser uma coisa de poesia, ou fosse lá o que fosse, e ele vira a janela aberta, mas nunca a pensara como janela aberta. Tocou a superfície de vidro que cobria o quadro com a ponta do dedo e cutucou a janela aberta. Não havia absolutamente nada, além daquela mudança; não sentia absolutamente nada, aquilo era apenas um quadro. Não há o que temer em um quadro, ora essa.

É preciso sempre voltar as atenções para alguns pequenos problemas não solucionados, você precisa concordar comigo, e por mais que crianças conversem com criaturas invisíveis e por mais que as coisas pareçam dar certo, pareçam caminhar como, teoricamente, elas deveriam, nem sempre o mais provável é mesmo o mais correto. Liropelo estava certo de que a fotografia tinha algum sério problema irremediável, mas, ao mesmo tempo, a lembrança da segurança com que sua mãe lhe afirmara que suas suposições estavam erradas, certamente, de fato, estava errado. Ele continuava dizendo a si mesmo que estava errado e já estava decidido quanto o ponto indiscutível: sua imaginação estava lhe pregando peças. Não havia nada na foto, a janela sempre estivera aberta. Não havia nada errado e ele poderia respirar sossegado, ao encostar a cabeça no travesseiro toda a noite. Não havia monstro horrendo ou medos noturnos para assombrá-lo, tudo estava bem e ele sabia, assim como sua mãe sabia e seu pai sabia. Logo, mais uma vez, esqueceu-se das próprias suposições a respeito do quadro e decidiu-se por não insistir. Bobagens, bobagens, menino, você está certamente dizendo bobagens.

As crianças podem ser muito intuitivas quando precisam; era certo que a vontade de Liropelo em compreender o que estava acontecendo, apesar de nenhuma influência sobrenatural ali ser realmente clara – e não era mesmo, ninguém mais percebia nenhum horror, não havia fantasma, não havia assombração, ninguém experimentava uma influência paranormal, ele estava imaginando tudo! imaginando tudo! –, a vontade de Liropelo era o que movia a sua intuição; com o passar do tempo, essa intuição, possivelmente, começou a sofrer influências de uma certeza medonha, uma força quase irreprimível, que logo o impediu, após a janela aberta, de continuar a insistir na existência do quadro. A partir dali, como um horror particular, o quadro passou a fazer parte de um universo além daquele onde vivia Liropelo. Agora, pouco entrava na sala de estar, pouco sentava-se com a família em frente a televisão, reservando-se em seu quarto e, caso fosse chamado até lá, fosse para ficar alguns minutos com os pais ou para responder a alguma coisa, esforçava-se para olhar o chão, não voltar seu olhar em direção à fotografia e manter-se longe da moldura sobre o sofá. Era mais fácil do que ele pensava; aprendeu a lidar com aquilo como se aprende a lidar com tudo o que causa algum mal à alma. A fotografia não existia.

A alma é, de fato, o que mais importa.

A dinâmica familiar não mudou. A vida não mudou. A fotografia continuava na parede da sala, sendo vista por horas a fio por quem passasse próxima a ela ou simplesmente era ignorada. Por duas vezes Sâmpola examinou a pequena janela, mas não lhe pareceu estranho vê-la aberta, então, possivelmente, era aquele um outro detalhe passado imperceptível. Nem mesmo o pai, Méscio, uma sombra nas manhãs, pareceu preocupar-se muito com a fotografia. Na verdade, até a achava um tanto bonita: era uma casa grande e velha, um tipo de sonho de consumo não pronunciado, palatável, ali, na pontinha da língua, sempre lembrando-o de uma outra possibilidade para o futuro, ainda não teria de desistir de uma casa grande com quintal para cães. E, de certa forma, parecia trazer um tipo de atmosfera agradável para o ambiente. O único que continuava a se preocupar com aquilo era Liropelo.

Ele poderia associar tudo o que se passara a muitas teorias diferentes: primeiro, pensara um pouco a respeito e chegou a conclusão de que aquilo era uma relação entre um simples incômodo, não gostara da fotografia; em outro momento, Liropelo teve certeza de que era apenas uma foto de mau gosto, principalmente os tons cinzentos pareciam desagradáveis e ela era apenas uma foto muito feia; em outro momento, começou a dizer a si mesmo que o problema com a fotografia era sua posição: estava localizada num ponto específico da sala em que, entrando pela porta da frente, deparava-se imediatamente com uma grande casa abandonada, com uma única janela acesa no fundo. Como conseguiram fazer aquela janela ficar acesa numa casa aparentemente abandonada?

O tempo passou e, certo dia, Liropelo conversava com Sâmpola:

"Mãe, onde você encontrou a fotografia?"

"Ora, mas vai voltar a falar sobre isso? Já disse, foi num antiquário, estava com um preço interessante, então achei prudente comprá-la," respondeu um pouco bruscamente.

"Havia muita coisa por lá?"

"Ah, sim, muitas. Era um ambiente muito agradável, também."

"Quando você volta lá?" perguntou ele, mas sem real curiosidade quanto ao lugar em si, gostaria apenas de visitá-lo uma vez e tentar descobrir o tipo de coisa curiosa e estranha – como a fotografia! monstruosa! horrenda! — haveria por lá.

"Ah, não tenho ideia. Eu estava passando pela frente um dia e entrei rapidamente. Estava com um pouco de tempo livre. Não me arrependo de maneira alguma. Já está gostando do quadro?"

"Não muito," sussurrou Liropelo, engolindo mamente as últimas palavras.

"Você se acostuma."

"Ele poderia ser mais bonito. Acho que deveria ser colorido, talvez."

"Você gostaria mais se fosse colorido?" perguntou ela, genuinamente interessada. Os números estavam mesmo batendo direitinho naquele dia, o que a deixava muito satisfeita.

"Acho que sim."

Ela continuou a olhar para Liropelo por alguns segundos, esperando que ele falasse mais alguma coisa, mas não se mexeu ou pareceu ter intenção de se mexer. Passou a mão sobre sua cabeça afetuosamente; ele precisava cortar o cabelo, estava ficando comprido, quase asqueroso. Puxou ele para perto de si e o abraçou, beijando-lhe a testa.

"Não há nada na foto, tudo bem? Não precisa ter medo. Sente um pouco aí, vou preparar algo para você comer."

"Vou na sala, será rápido."

"E a casa?"

"Vou olhar a janela aberta. Não há nada lá."

Ele saiu rapidamente da cozinha e correu até a sala; ela escutava o som de seus pés batendo sobre o chão de madeira envernizada. Abriu a geladeira e tirou de lá um pacote de pães e estava preparando-se para cortá-los quando escutou um grito agudo vindo da sala, acompanhado de alguns barulhos altos de coisas caindo. Um outro som, retumbante, que poderia ser confundido com o barulho delator do próprio coração em sinais de falha iminente, após explosão repentina, se repetia próximo à orelha de Sâmpola. Ela correu até a sala, sem perceber como continuava agarrada ao saco de pão, para encontrar Liropelo encolhido no canto mais distante do sofá, de frente para a fotografia, a boca escancarada num O, que muito se assemelhava às batidas daquele som próximo à orelha; ele a viu, apertou os dedos contra a maciez da superfície estofada e voltou gritar, ininterruptamente, em desespero, e escondeu o rosto contra o encosto macio. O rosto, ela pode ver com grande temor, estava vermelho; o balão vai explodir, ela pensou. Como o barulho próximo à orelha, ela não pensou, mas sentiu. Liropelo voltou os olhos para o quadro, tapando-os imediatamente com as mãos e gritando cada vez mais alto – o balão vai estourar, o balão vai estourar! –, contorcendo-se sobre o estofado limpo, muito, muito limpo. Vai estourar os pulmões, ela pensou ao se aproximar.

Virou a cabeça em direção à fotografia. Nada ali estava diferente, não havia motivo para aquele escândalo horrendo e estava pronta para repreendê-lo com veemência– mas percebeu algo; percebeu uma pequena mancha escura próxima à janela, percebeu o som na orelha parar imediatamente, como fazem os soluços, assim como a própria respiração e percebeu os gritos e o acesso de Liropelo tornarem-se apenas flutuações distantes e sentiu-se afundar no próprio consciente, pois apenas uma coisa existia ali. Ela mesma e a paralisia. Ela mesma e o movimento insinuando caminhada de um corpo humano esfumaçado e, talvez por muito pouco, imperceptível, de pé e firme ao lado da janela, a mão estendida sobre o parapeito, como há pouco se tivesse acabado de deslizar lá de dentro, como se há pouco tivesse existido pela primeira vez.

Parecia caminhar em direção a ela.

Sâmpola agarrou-se a Liropelo e correu para fora.

Notas finais
*** Saudações, sou Bartô Raposino. Espero que tenham gostado do primeiro capítulo e peço que me perdoem por qualquer problema terrível na leitura. Eu bem sei como, em alguns momentos, podemos nos deparar com situações aterradoras, terríveis. Mas espero estar de volta logo, logo. Meus pais me ensinaram a deixar, sempre que possível, um recado e isso faço até hoje, quando recebo novas mensagens de qualquer investigador e, principalmente, quando recebo novo material para meu arquivo. Então, por favor, conversar não seria pedir muito, seria? Aqui não há muito com quem conversar, como pode bem imaginar, e estou disposto a responder sempre que possível. Espero te encontrar novamente no próximo capítulo. Cordialmente, Bartô Raposino.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.