Algo Errado
1 Capítulo Único
Notas iniciais
I – Jemma
Jemma é inteligente e sabe disso, seus pais sabem disso, até seus professores sabem disso. Não é para menos, afinal de contas que adolescente de quinze anos concluiria o bacharelado em bioquímica no próximo ano?
E por isso ela sabe que há algo errado quando é acordada pela mãe às quatro da manhã.
—Jemma querida, levante-se logo e troque de roupa. –Melinda May diz à filha.
—Por que? –Jemma pergunta a mãe ainda bocejando, enquanto vê a mãe pegar as duas malas de viagem que ficam no fundo do armário.
—Você também Daisy. –Melinda chama mais alto.
—É muito cedo para o Tai Chi. –Daisy murmura enquanto se vira para o canto de sua beliche.
—Eu disse para levantar Daisy. –Melinda diz enquanto retira o cobertor de Daisy em um tom ligeiramente irritado.
Ao levantar-se Daisy também não esconde a expressão irritadiça.
No entanto, Jemma já está pronta quando espera que Daisy se junte a ela e a mãe na sala de estar.
Enquanto sua irmã sonolenta não aparece, Jemma não deixa de observar os sussurros trocados entre a mãe e a agente loira de olhos castanhos, ela tem idade o suficiente para compreender que algo está errado e Melinda sabe disso.
Assim, ao terminar de dar instruções à agente Carter, Melinda aproveita que Daisy ainda não chegou e diz a Jemma:
—Sharon vai levar vocês duas para a casa da vovó. –Melinda May diz calmamente, entretanto, Jemma conhece a mãe bem o suficiente para saber que há um brilho diferente em seu olhar, o mesmo brilho de preocupação que ela tem ao falar do pai quando este está em missão.
—O que está errado mamãe? –Jemma não deixa de perguntar com seus olhos cor de mel brilhando entre um misto de preocupação e curiosidade.
—Não há nada de errado Jen, está tudo bem e cuide de Daisy. –Melinda diz antes de dar um beijo no cabelo da filha e a puxar para um abraço.
Jemma não pode fazer outra coisa, senão retribuir o abraço apertado da mãe. No entanto, em seu âmago ela sabe que algo está errado.
Segundos depois uma Daisy May Coulson adentra o recinto com uma carranca digna de uma May e não hesita em dizer:
—Por que a gente tem que viajar a essa hora?
É inevitável que Jemma não role os olhos, afinal de contas ela e a irmã não encontra emoção em se levantar cedo, mas Daisy não faz o mínimo de esforço para esconder seu mau-humor matinal.
Jemma observa então sua mãe se aproximar de Daisy e se despedir e não demora muito para que ambas as irmãs estejam no banco de trás de um sedã preto.
Duas horas após uma viagem de carro milagrosamente silenciosa, uma vez que Daisy dormiu logo que o carro começou a andar e a agente Carter negou a dizer à Jemma que algo estava errado, as irmãs finalmente chegaram na casa da vovó.
Jemma tem um pouco de trabalho em acordar a irmã, entretanto, quando Daisy já está acordada, ela pula mais que depressa para fora do carro resmungando algo sobre café da manhã. Jemma por outro lado, pega sua mala e caminha junto da agente Carter até sua avó, que não estampa uma expressão muito amigável no rosto.
—O café da manhã está pronto Jemma. –Lian May diz à neta e ela sabe que essa é a maneira sutil da avó dispensa-la.
Jemma assente e então se vira para agradecer a agente Carter, ao mesmo tempo em que esta lhe entrega a mala de Daisy.
—Obrigada Sharon. –Jemma agradece com um grande sorriso, realmente idêntico ao do pai.
Ao colocar as malas no quarto de hospedes, Jemma corre até a cozinha para abraçar o avô, enquanto Daisy continua a se empanturrar de comida.
—Que bom que seu mau-humor não atrapalha seu apetite. –Jemma comenta, enquanto o avô lhe entrega uma xícara de chá.
Quando Lian May finalmente se junta a eles na cozinha, é inevitável que Jemma não repare na expressão mau humorada da avó, que leva apenas alguns segundos para vestir uma máscara de indiferença, enfim nada de anormal.
Embora ela tenha certeza de que algo está errado.
—O café da manhã estava ótimo vovô, agora se me derem licença eu vou recuperar o sono perdido. –Daisy disse fazendo menção de levantar-se e foi inevitável que Jemma não rolasse os olhos, afinal de contas sua irmã dormiu como uma rocha e já estava quase na hora do horário em que elas costumam acordar.
—Nada disso mocinha, você e sua irmã estão me ajudando no jardim hoje. –Lian diz antes de tomar um gole de seu chá e Jemma riria da expressão um tanto quanto exagerada da irmã, se ela não estivesse envolvida na atividade, afinal de contas o jardim da avó era enorme.
II – Melinda
A batalha havia acabado.
Os vingadores foram vitoriosos.
No entanto, Melinda May em seu cubículo na administração não conseguia entender o porquê Phil ainda não ligou para se gabar da iniciativa vingadores, a qual, diga-se de passagem, ela não dava muito crédito. Afinal de contas como um alienígena/deus nórdico, um playboy, um picolé, um doutor bipolar e dois assassinos conseguiriam formar uma equipe?
Mas eles conseguiram.
E Phil não ligou.
A ligação nunca veio.
E Melinda começou a ficar preocupada, embora seu rosto sem expressão não fornecia o mínimo indicio disso.
Não foi até que Maria Hill se deu ao trabalho de caminhar entre os cubículos da administração que Melinda chegou à conclusão que algo havia dado terrivelmente errado.
—O diretor quer falar com você agente May. –A mulher de olhos azuis limitou-se a dizer, nada fora do comum, entretanto, Melinda sabia que algo estava errado. Afinal de contas ninguém quer saber de burocracia após uma batalha apocalítica.
Sendo assim, Melinda deixou seu carimbo de lado e juntou os papeis em um lado de sua mesa minúscula e se viu seguindo a agente Hill até o último andar.
Melinda não disse nada e muito menos Maria, entretanto, a agente May poderia estar fora de campo há anos, mas ela ainda assim era uma agente e era quase que inevitável não reparar na mandíbula travada de Maria ou em suas mãos, que estavam unidas em um aperto muito forte atrás das costas.
Algo está errado. Foi o pensamento de Melinda May.
Quando o elevador finalmente parou no andar da chefia, Melinda se viu caminhando até a porta do diretor Fury, sem mesmo notar que Maria não a seguiu ou que também não havia secretária para lhe anunciar.
Sem cerimonias ela abriu a porta, afinal de constas algo está errado.
Assim que Melinda adentra a sala do diretor, a conversa entre Fury, Romanoff e Barton cessa instantaneamente.
Antes que qualquer um possa dizer algo, Fury dirige um olhar aos “vingadores” e esses se retiram do local, mas não sem antes dirigirem um olhar culpado para Melinda e ela sabe que algo está definitivamente errado.
Quando ela encarou o diretor, ela esperou que ele dissesse à ela o que havia de errado e sem cerimonias Nick Fury disse:
—Coulson foi atingido por Loki, eu sinto muito May, mas ele não sobreviveu.
Melinda piscou, uma, duas vezes, tentando absorver as palavras que o diretor da SHIELD havia dito, não podia ser verdade, ele tinha que estar errado.
Fury por sua vez ficou em silêncio enquanto via a agente nível sete absorver a notícia, primeiro sua expressão mudou instantaneamente para o desespero, depois para tristeza e ele jura que viu seus olhos marejarem, mas então em um piscar de olhos a expressão de Melinda ficou estoica, ele sabia que era a Cavalaria ali.
Phil Coulson sempre teve a habilidade de deixar Melinda May sem chão, mas ao ouvir as palavras do diretor Fury, Melinda nunca tinha pensado no lado negativo dessa afirmação.
Melinda May precisava de Phil Coulson quase tanto quanto precisava de ar, senão mais.
Coulson é seu parceiro
Phil é seu melhor amigo, o amor de sua vida e o pai de suas filhas.
Melinda não pode perder Phil, isso está terrivelmente errado.
Tem de ser um engano, é o que ela pensa.
No entanto, Melinda sabe que não há a possibilidade de Fury estar errado.
—Ele... ele sofreu? –Melinda se viu perguntando.
E Fury, adquirindo uma postura mais profissional e fazendo o possível para não demonstrar um resquício de pena à Melinda, narrou à agente May todo o ocorrido.
May ouviu tudo atentamente, inclusive a parte em que Fury lhe disse para tirar o tempo que precisasse fora para se recuperar, oportunidade em que ela conteve-se para não rir de sua cara, afinal de contas como ela poderia se recuperar?
Antes de sair, Fury lhe entregou um saco transparente com os pertences pessoais de Phil e mais uma vez naquele dia Melinda sentiu seu coração afundar ao ver o celular dele ali, juntamente com sua carteira, o relógio que ele havia herdado do pai, a aliança e as chaves de casa com aquele chaveiro idiota do escudo do capitão américa.
Não demorou mais que meia hora e logo Melinda já estava saindo do prédio da Shield. Enquanto dirigia, Melinda não pode deixar de pensar em Bahrein. Ela pensou que aquele havia sido o pior momento de sua vida, mas agora tudo parecia errado, ela simplesmente não podia acreditar que Phil teve a ousadia de deixa-la só.
Quando finalmente chegou em casa Melinda May inalou profundamente e ela jura que ao fechar os olhos ela quase podia ouvir a última discussão de Daisy e Phil sobre quem era melhor super-herói, Phil estava simplesmente ofendido por Daisy defender tão veemente o homem de ferro, mas no fundo Melinda sabia que não passava de um ato de rebeldia da filha, afinal de contas não havia como as filhas de Phil idolatrarem um outro super-herói senão o capitão américa.
Mas super-herói não são o bastante, ela pensa com uma dor no coração.
E assim, enquanto se dirige até o próprio quarto, não há um único local em que ela olhe e não se lembre de Phil. O sentimento de dor só piora quando ela entra no quarto que ambos dividiam.
A cama ainda estava arrumada, como ela havia feito essa manhã, a cartela de ibuprofeno ainda está em cima da mesa de cabeceira do lado dele da cama, bem na frente da foto de casamento deles e isso é o suficiente para que o aperto em seu peito se intensifique o bastante para que ela sinta falta de ar.
As coisas estão ruins, muito ruins, é o que ela pensa.
Assim, ela não vê outra alternativa a não ser se dirigir até o closet e pegar a sua mala de viagem e sai dali. Nesse momento é inevitável que uma minúscula parte dela não deixe de se sentir satisfeita por mesmo que tenha abandonado o campo ela estar sempre preparada e é então que ela sente um gosto amargo na boca, se ela estivesse em campo ela poderia ter salvado Phil, ela estaria lá para ele e impedido ele de ser tão idiota a ponto de se deixar ser morto por um alienígena, afinal eles não tinham conseguido se salvar tantas vezes, de situações no mínimo únicas, para ele morrer agora.
Melinda inala profundamente enquanto liga o carro e dirige para bem longe de casa.
III – Daisy
Daisy May Coulson é uma adolescente que odeia acordar cedo, adora fast-food, idolatra o capitão américa e carrega o peso de não ser tão inteligente quanto a irmã, seus professores não deixam que ela se esqueça dessa última parte. No entanto, de acordo com seu pai, ela tem um ótimo instinto e ela sabe que há algo errado.
Ela não chega a essa conclusão até que três dias após ter sido deixada na casa da avó ela e a irmã adentrem a cozinha para tomar café da manhã e sua mãe estar ali sentada na mesa na companhia de seus avós. Inicialmente ela se recrimina mentalmente por não ter sido mais atenta aos detalhes e não deixa de culpar seu maldito TDAH.
Enquanto Jemma come sua panqueca silenciosamente e seus avós tomam uma xícara de chá também em silêncio, ela percebe os olhares que os dois trocam eventualmente, que sempre terminam por recair em sua mãe. Daisy não sabe o porquê, mas simplesmente não gosta da sensação incomoda de seu estômago e não, não é outra dor de barriga por ter atacado o estoque de doces do vovô escondido.
Daisy percebe que sua mãe não tirou o olhar de sua xícara de porcelana desde o momento em que respondeu o seu bom dia e está começando a ficar inquieta com isso, afinal de contas não que sua mãe seja um raio de sol, essa é a tarefa do seu pai, mas geralmente Melinda May sorri pela manhã e gosta muito de tomar chá, além das panquecas de mirtilo do vovô.
—Mamãe, o que está errado? –Daisy pergunta por impulso, afinal de contas não é segredo que Daisy é a mais impaciente e impulsiva das irmãs, algo que ela sempre culpa o TDAH.
Quando vê sua mãe finalmente erguer o olhar para encará-la, Daisy sente que algo está terrivelmente errado ao ver os olhos vazios da mãe.
—Tome seu café primeiro Daisy e deixe que sua mãe faça o mesmo. –Lian diz em um tom levemente repreendedor, afinal de contas ela está bem ciente da situação e sabe que Daisy precisa se alimentar e Melinda precisa de um pouco mais de tempo, pois a partir do momento em que Jemma e Daisy souberem, Lian sabe que tudo acabará em uma espiral de dor e sofrimento.
—Mamãe não está nem tomando chá e eu quero saber. –Daisy responde quase que instantaneamente, e é inevitável que William não prenda a respiração, afinal de contas Daisy é muito parecida com a avó em certos momentos.
Lian por outro lado não responde a neta, limitando-se a encará-la fixamente e Daisy sabe que se a avó tivesse poderes, seria o de fulminar uma pessoa com um simples olhar.
Ao passo que Jemma, que está sentada ao seu lado, lhe dá uma joelhada e isso é o bastante para confirmar que definitivamente há algo errado.
Daisy volta sua atenção para a mãe novamente e percebe que o olhar vazio de sua mãe recaiu sobre ela e a irmã. Ela não sabe exatamente porque, mas tem certeza de que seu palpite está errado e pela situação em que se encontram ela teme que seu pai esteja envolvido.
—Seu pai morreu. –Melinda esforçou-se a dizer, mesmo assim sua voz saiu quase como um sussurro, que Daisy torceu para ter entendido errado.
No entanto, o som dos talheres de Jemma caindo no prato eram muito audíveis e a expressão de desolada da sua mãe não tinha outro significado, senão o de alguém que perdeu o amor de sua vida.
De repente Daisy sente sua respiração acelerada e uma crescente falta de ar e embora por mais que o tempo esteja fresco na Pensilvânia, ela sente o ambiente muito abafado e não lhe resta opção a não ser sair dali.
Daisy só para de correr quando adentra o bosque, ela nunca entendeu o porquê sua avó vivia no meio do nada, mas agora ela não podia estar mais agradecida por não haver ninguém para ouvir seu choro e gritos de desespero além de árvores e alguns esquilos.
Ela não podia acreditar que seu pai estava morto, ele havia preparado ela e a irmã para a possibilidade há alguns anos, entretanto, ela fez ele jurar que ele voltaria para elas, sempre! E ele tinha jurado, mas agora seu pai quebrou a promessa.
Phil Coulson quebrou uma promessa e isso estava errado. Phil Coulson não quebra promessas é o que ela pensa, lembrando-se então do último Natal quando ele prometeu que estaria em casa a tempo, sob os protestos de sua mãe para não fazê-lo, mas ele os ignorou e conseguiu estar em casa na véspera de Natal.
A adolescente de cabelos castanhos não sabe ao certo por quanto tempo ficou no chão de joelhos chorando, mas em dado momento ela sentiu alguém puxar-lhe para um abraço o qual ela automaticamente retribuiu e de olhos fechados ela inalou o perfume característico de sua mãe.
Daisy soluçou, chorou e gritou nos braços da mãe, afinal de contas algo estava terrivelmente errado.
IV – Lian
Lian May é uma mulher metódica e ela tem orgulho disso, afinal de contas ela não teria conseguido viver tantos anos com a vida que leva se não fosse assim.
No entanto, Lian também tem um ótimo instinto e o marido diz que é graças a ele que ela conseguiu se aposentar, embora ela ria sempre que se lembra disso, afinal de contas um espião não aposenta, só muda a forma de trabalhar.
E tudo estava bem, ou melhor tão bem quanto poderia estar indo, desde que alienígenas apareceram, Stark decidiu fazer algo mais útil do que gastar dinheiro e um herói de guerra acordou no século XXI, entretanto, um burburinho começou a se instaurar nos últimos dias acerca de uma possível invasão alienígena e a agência convocou cada agente para cavar, seja júnior, sênior ou aposentado, e por isso Lian sabia que algo estava terrivelmente e grande e errado estava acontecendo.
Assim, não foi de todo uma surpresa quando sua filha, aquela que limita-se a ligar para ela apenas às quartas-feiras na hora do almoço lhe ligou em uma madrugada qualquer pedindo para que ela tomasse conta das netas que chegariam na próxima manhã, na verdade não era um pedido e sim uma notificação e Lian sabia que algo não estava certo. Afinal Melinda estava com medo o suficiente para lhe pedir ajuda, isso só podia significar que a SHIELD estava definitivamente aprontando algo grande.
Tendo perdido completamente o sono após Melinda ter ligado, Lian dedicou o restante da madrugada a fazer sua própria investigação, não tendo descoberto muita coisa, exceto que seu genro havia reunido uma gangue de super-heróis ou como ela preferia chamar: super-problemas.
Sendo assim, após o Tai Chi ela aguardou ansiosamente as netas do lado de fora de casa a espera de quem quer fosse o encarregado de trazê-las não deixando de estar um tanto quanto preocupada que sua localização fosse descoberta, entretanto, no momento em que a jovem Sharon Carter se apresentou Lian tranquilizou-se um pouco, afinal os Carter são leais até os ossos e Lian sabe que Sharon herdou bem mais do que os olhos de sua tia Peggy, vez que no passado tentou em vão recrutar a jovem como forma de vingança por ter sido Melinda induzida a entrar na SHIELD, desnecessário de dizer que uma Carter, sendo uma Carter, continuaria o legado na SHIELD.
Com um de seus pequenos problemas resolvidos, Lian encarregou-se de distrair as netas, afinal de contas ela não sabe por quanto tempo elas estarão de “visita”, mas conhece as gêmeas bem o suficiente para saber que em algum momento elas irão perceber que algo esteja errado.
Assim, ela inicia um longo e desnecessário trabalho no jardim. Dizer que Daisy reclamou foi um eufemismo, entretanto, ela ficou satisfeita quando percebeu que as meninas mau tocaram no grande elefante na sala, coisa que William não evitou de fazer assim que ficaram sozinhos.
No entanto, Lian veio a ter a confirmação de que algo estava realmente errado enquanto preparava o lanche da tarde para as netas e aquela terrível novela vespertina do marido foi interrompido pelo plantão de notícias, o qual mostrava partes do que parecia ser uma batalha de proporções inimagináveis em New York e Lian não pode fazer nada a não ser congelar enquanto ouvia a narração dos jornalistas.
Desnecessário seria dizer que Lian fez o marido desligar a televisão rapidamente, além do fato de convenientemente a internet da casa ter perdido a conexão, isso tudo antes das meninas voltarem do jardim para fazer o lanche. Afinal de contas, por mais que ela saiba que há algo errado, as meninas não precisam saber no momento que houve baixas de agentes da SHIELD, ao menos não até que ela consiga falar com Melinda e ter a confirmação que ela e seu genro estupido estão bem.
Lian tem ótimos instintos, assim após as meninas dormirem ela permanece na cozinha a espera de algo, enquanto que o marido retirou-se para o quarto para usar seu próprio computador com conexão satélite e obviamente puxar alguns pauzinhos, assim quando são dez e meia da noite ela não se abala ao receber um alerta de minutos antes de ver o carro da filha estacionar do lado de fora.
Ela espera por uns bons minutos a filha adentrar a casa, enquanto a observa pela janela encostada no carro com uma postura derrotada.
Melinda não se move e Lian sabe que definitivamente há algo errado, assim sem paciência para esperar Melinda e apreensiva demais para saber o estado da filha, ela se vê caminhando para fora de casa ao encontro da filha.
Melinda por sua vez permanece imóvel, mesmo que ela saiba que a filha já notou que ela está caminhando em sua direção, não é até que ela chegue bem próximo a sua única filha que ela percebe que o corpo de Melinda treme ligeiramente.
—Qiaolian? –Lian chama a filha incerta.
Quando Melinda finalmente ergue o olhar para encarar a mãe, Lian percebe que há lágrimas nos olhos da filha e seus olhos estão tão inchados que ela não deixa de se perguntar como ela chegou até aqui dirigindo sozinha sem ter causado um acidente, já que obviamente seu estado mental não está bem.
Em uma rápida olhada ela constata que a filha não tem nenhum ferimento evidente.
—O que aconteceu? –Lian se vê perguntando a filha em mandarim.
Melinda a olha e não responde, mas a partir do momento em que ela começa escorregar lentamente até o chão, ficando de joelhos, Lian não hesita um momento até seguir a filha e abraça-la, sabendo que ela não precisa de respostas, pois realmente algo ruim aconteceu.
Enquanto ouve os soluços roucos da filha, Lian respira fundo em uma falha tentativa de acalmar a si mesma, mas inevitavelmente ela sente lagrimas quentes escorrendo pelo seu rosto.
Não é preciso que Melinda conte a mãe, afinal de contas Lin May tem um instinto excepcional o bastante para saber que se Phil estivesse ferido Melinda não deixaria o seu lado, não importa com quem ela tivesse que lutar.
A única razão para que Melinda Qiaolian May permitiu-se dirigir de New York para a Pensilvânia a essas horas, após uma batalha apocalíptica, e quebrou bem na frente da mãe, não era outra senão que algo havia dado muito errado.
Phillip Coulson estava morto, Lian sabia antes que Melinda pudesse dizer entre soluços.
O tempo é relativo, mas Lian sabe que ficou do lado de fora tempo o suficiente para sentir seus dentes rangerem de frio e ela não pode ser mais grata por William ter um time perfeito, para aparecer e ajudar a levar sua única filha para dentro de casa.
Não é preciso palavras, eles levam a filha para o quarto e enquanto William prepara um chá para Melinda, Lian fica ali lamentado não poder fazer mais nada para a filha a não ser oferecer o ombro para que ela chorasse.
Quando Melinda finalmente adormece, Lian recolhe a xícara de porcelana que a filha mal tocou e fecha a porta do quarto, não deixando de agradecer pelo fato das netas estarem cansadas demais para terem ouvido o desespero da mãe.
Escusado dizer que durante o restante da madrugada Lian mau pregou o olho, limitando-se a uma curta soneca de cinquenta minutos, no fim das contas não é como se ela não tivesse prática nisso.
Assim, quando levantou às quatro e meia da manhã e dirigiu-se para a cozinha ela não deixou de se surpreender ao ver Melinda ali sentada em uma cadeira, com os cabelos molhados e usando roupas casuais.
Conhecendo bem a filha que tem, Lian não disse nada, limitando-se a iniciar o preparo do chá e servir uma caneca à filha.
—O Tai Chi ajuda a colocar os pensamentos em ordem. –Lian diz a filha enquanto coloca sua própria caneca na pia.
Não demora muito e Melinda se posiciona ao lado da mãe e ambas iniciam os movimentos graciosos em conjunto.
Após uma série de movimentos Lian se vê na obrigação de quebrar o silêncio:
—Se você quiser falar...
—Não quero. –Melinda a interrompe.
—Mas precisa. –Lian a adverte, lembrando-se de um incidente ocorrido há alguns anos que acabou fazendo com que a filha parasse em um cubículo.
—Elas sabem da batalha de New York? –Melinda tenta desviar a atenção da mãe de si mesma ao mesmo tempo em que tenta traçar a melhor maneira de abordar o ocorridos, não deixando de se chutar mentalmente, afinal de contas não há uma forma de suavizar um golpe como esse.
—Não, perdemos a conexão com a internet ontem e a televisão parou de funcionar misteriosamente. –Lian disse simplesmente.
Melinda dirigiu um olhar rápido à mãe, sabendo muito bem que ela estava por trás desse mistério.
Lian poderia achar mil formas de encontrar algo errado com Coulson desde o momento em que Melinda arrastou seu colega da academia para o jantar de Ação de Graças, entretanto, as duas sabiam que não havia nada de errado com o homem de olhos claros e sorriso gentil. Mas agora, Lian sabia que Coulson havia definitivamente feito algo errado.
Phillip J. Coulson morreu e não há um universo em que isso esteja certo, é o que ela pensa.
V – William
William May é um homem honrado, ao menos o mais honrado que um espião consegue ser, talvez esse seja o motivo por ter se retirado da SHIELD quando descobriu que sua ocasional namorada da CIA estava grávida, arrumado um emprego comum e dedicou-se a cuidar de casa enquanto Lian salvava o mundo ou roubava segredos de interesse da nação.
Ele nunca se ressentiu de ter deixado a carreira de lado, já que de fato nunca a abandonou, afinal de contas ele sabe muito bem que é verdade o que Lian diz a respeito de espiões e aposentadoria. No entanto, ele não concordará com a esposa de livre e espontânea vontade e finge que as pescarias com velhos amigos são simplesmente pescarias e Lian não vai dizer que sabe muito bem que extrações mirabolantes são feitas pela SHIELD enquanto o marido “pesca” com os amigos.
Por ser um homem honrado, William não pode negar a admiração que tem pelo genro, embora nunca em sua frente obviamente, reservando-se a provocar Lian em momentos oportunos.
A primeira vez que o viu naquele Jantar de Ação de Graças que Melinda o arrastou, quando ainda estavam na Academia, ele sabia que ele seria um problema, afinal de contas aquele olhar que o jovem Phil dirigia a Melinda quando pensava que ela não estava vendo, era o mesmo que ele tinha quando olhava para uma certa agente da inteligência americana.
Para ele, no entanto, foi um pouco chocante que Phil esperasse as meninas nascerem para fazer de Melinda uma mulher casada, algo que ele o lembrava sempre que tinha a oportunidade.
Sendo assim, no momento em que viu a notícia sobre a bagunça que estava acontecendo em New York ele sabia que deveria saber sobre a situação da filha e do genro. Não foi fácil, ele teve de cobrar muitos favores até que Fury finalmente teve a decência de lhe contar o que havia acontecido, por um segundo ele ficou tremendamente aliviado de Melinda estar ilesa, mas logo se seguiu a profunda tristeza em saber que seu genro não teve a mesma sorte.
Phil morreu.
Melinda perdeu o amor de sua vida.
Daisy e Jemma perderam seu herói.
Isso não estava certo e por esse motivo ele trancou-se em seu próprio quarto até ter certeza que as netas estariam dormindo e ele contaria à Lian, afinal de contas todo mundo sabia que algo estava errado há dias.
Nesse meio tempo, William ouviu um carro estacionar do lado de fora da casa e aproximando da janela ele viu Melinda permanecer lá fora por um bom tempo até que Lian fosse ao seu socorro.
Ele as observou a distância por um bom tempo, petrificado diante da visão, afinal de contas sua Melinda nunca caia, mas agora, mesmo de longe, ela parecia derrotada.
Finalmente recobrando seus sentidos, ele finalmente caminhou em direção as duas das quatro mulheres mais importantes da sua vida e praticamente carregou a filha para dentro de casa.
Ver Melinda desolada foi assustador, mas a reação de suas netas conseguiu superar.
Ele trocou poucas palavras com a filha antes das netas acordarem, Jemma e Daisy fizeram o caminho normalmente até a mesa, Daisy resmungando ainda sonolenta, já Jemma estava muito bem disposta para o dia.
Ele trocava olhares com a esposa vez ou outra, o que a estava deixando irritada, ele sabia disso, mas Melinda precisava dizer às filhas que o pai não voltaria.
E ele também sabia que as netas já haviam notado que algo estava errado. Afinal de contas, o olhar de Jemma estampava sua curiosidade absoluta e Daisy substituiu sua expressão sonolenta por desconfiada muito rapidamente.
Quando Melinda disse praticamente em um sussurro que Phil estava morto, Will viu a expressão sempre tão curiosa e ao mesmo tempo gentil de Jemma ser substituída por um horror repentinamente, enquanto que Daisy fugiu sem demonstrar reação.
O tempo pareceu parar quando ele viu Jemma correr para os braços de Melinda, que não deixou que nenhuma lágrima escapasse, enquanto segurava a adolescente de cabelos cor de mel firmemente. Ele não sabe ao certo quanto tempo elas ficaram assim, mas em seguida Lian se levantou e trocou um olhar significativo com Melinda e levou Jemma para fora da cozinha, ao passo que Melinda suspirou antes de levantar-se e seguir Daisy.
Os dias passam lentamente, o jardim é esquecido e de longe ele garante que a filha e as netas estejam o mais confortável possível, seja lhes dando xícaras de chá ou fazendo com que doces apareçam em locais em que Lian não seja capaz de achar.
Ele dirige o carro de Melinda de volta à New York, com a esposa ao seu lado e a filha e as netas no banco traseiro um dia antes do funeral de Phil.
Eles se instalam na casa e ele finge não notar que Melinda deixou o próprio quarto e adormeceu no sofá.
A fatídica manhã do funeral finalmente chega, uma manhã nublada com forte indicio de chuvas, uma manhã atípica em que as mulheres May deixam o Tai Chi de lado e levam mais tempo do que o normal para se vestirem.
William é o primeiro a ficar pronto, não que seja uma novidade para ele. Lian aparece em seguida vestindo um vestido de manga comprida negro e saltos também negros. Jemma chega não muito tempo depois, usando um vestido de manga ¾ preto combinando com um par de sapatilhas também pretas, seu cabelo está solto e William percebe os olhos da neta ligeiramente inchados.
—Mamãe disse que já está vindo, podemos espera-la no carro. –A adolescente de olhos cor de mel diz e William não vê nada menos que uma garotinha com medo.
Os três acatam o pedido de Melinda e não muito tempo depois, ela e Daisy saem de casa ao seu encontro. Daisy com um visual idêntico ao de sua irmã, enquanto que Melinda usa um vestido de manga preto, sapato não muito alto e óculos escuro, Willian sabe muito bem o motivo dos óculos.
Ao chegarem ao cemitério, Willian percebe que já há muitas pessoas ali, entretanto, há cinco cadeiras vagas na primeira fileira, bem ao lado da agente Hill e ele sabe para quem elas são.
Por hábito ele está atento ao ambiente, assim como sua esposa ao seu lado, assim uma rápida olhada para Melinda com cada filha de um lado e segurando suas mãos é o suficiente para ele saber que Melinda não está nesse funeral, ao menos não mentalmente.
Ele ouve o discurso de Fury, tão poucas palavras, que o senhor May ficou irritado, afinal de contas Fury havia sido o mentor de Coulson, ele devia no mínimo um discurso decente por ter mandado o homem para uma guerra a qual não estava preparado e deixou sua filha viúva.
Melinda não falaria, ele sabia disso, da mesma forma que sabia que suas netas também não tinham condições de o fazer.
No entanto, ele não deixou de ser surpreendido ao ver Barton se levantar do local onde estava sentado junto de Romanoff, Stark e Rogers e começar a discursar:
—Coulson salvou minha vida mais vezes do que lhe dei o crédito, mas na maioria dessas vezes ele não estava sozinho. –Clint fez uma pausa e olhou para Melinda, que a essa altura parecia concentrada no que ele estava dizendo, sendo assim ele prosseguiu ao ver o ligeiro movimento que ela fez com a cabeça em reconhecimento –Qualquer que fosse o lugar que ele iria, ele sempre traria uma lembrancinha para casa, um dia eu o questionei e ele me respondeu “É para minhas meninas, para da próxima vez que eu for, elas saberem que voltarei com alguma coisa legal”, não quero criticar, mas as vezes ele trazia umas coisas bem esquisitas.
Clint fez uma pausa e notou o menor sinal de um sorriso aparecer no rosto de Daisy pela primeira vez em dias, sendo assim ele prosseguiu:
—Ele era um bom homem e tantas coisas para tantas pessoas, sou grato por ter conhecido Phil e me sinto profundamente triste por não ter conseguido retribuir a ele o favor que ele me fez tantas vezes salvando minha vida.
Ao terminar, Clint Barton aproximou-se de onde Melinda e as filhas estavam e sussurrou algo para Jemma e Daisy.
William viu o olhar dos chamados vingadores recair sobre Melinda e as meninas durante o discurso de Barton de uma forma nada discreta, não se surpreendendo que ao terminarem os discursos e Melinda se levantar, eles tenham se aproximado para oferecer suas condolências.
No entanto, de todas as coisas que observou durante o funeral foi o curioso fato do caixão fechado, além de claro o olhar de Fury em direção a lápide.
Dessa forma, William May chegou a uma conclusão: definitivamente há algo errado.
Notas finais
Muito triste? Sei que eu tenho uma tendencia a coisas melodramaticas, sorry.
Jemma e Daisy gêmeas? Pq ñ, o mundo é estranho e elas seriam muito cute, cute, afinal elas são bem diferentes, mas no fim se amam ♥
Exagerado colocar os pais da May?
Tive que fazer um pequeno feat dos Vingadores...
Mais alguém com raiva do Fury? Afinal de contas, há algo errado...
Espero que tenham gostado, o especial de ano novo não saiu, mas essa ideia surpreendente começou a me atormentar e eu achei que deveria compartilha-la ^^
Deixem-me saber se fui aprovada *-*
Um feliz Ano Novo para tds vcs e até qualquer hora!!!
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