Algemas
1 Capítulo unico
Notas iniciais
As coisas sempre mudam. Mesmo quando não gostamos de mudanças, isso é algo que temos que aceitar.
Há quem diga que a amizade ou amor verdadeiro são para sempre. Eu deixei de acreditar nisso, há um bom tempo.
É claro que eu sempre vou contar com você, sempre vou ficar com as pernas bambas, quando se aproxima demais. Mas as coisas jamais voltarão a ser como eram.
~
Fomos tanto, que sempre tinha gente aqui
Pra ver de perto o que alguém chamou de amor
Que desmancha, e hoje a gente sabe bem
A casa está vazia agora
E hoje fica sem você
~
Naquele tempo, anos atrás, eu me declarei para você e imaginei que só haviam duas possíveis respostas: Um fora, que terminaria de vez a nossa amizade, ou um “eu também te amo”.
Não custava sonhar.
Eu só não imaginei que havia uma terceira opção. Ignorarmos o que eu sentia e seguir em frente, como os melhores amigos que sempre fomos.
~
Quando eu te enchi de razão, você me chamou de fraco, velho
Pegue o que tiver que pegar, mais o que quiser
E parte de mim
Parte de mim quer te ver feliz
Parte de mim te expulsa e morre
~
Eu sofri em silencio, durante anos, enquanto você fingia não saber o que eu sentia. Te observei contar seus casos de amor, fui um bom amigo, forcei sorrisos e contive diversas lagrimas.
O que me parecia era que você estava me poupando de ter que ficar longe de quem eu amava. Que estava evitando me tratar com algum tipo de pena, para eu não me sentir mal.
Minha ingenuidade te transformou em meu príncipe romântico.
~
Foram tantas, as brigas me faziam rir
Não era certo nem errado, era o que devia ser
~
Com o passar do tempo percebi que o que te prendia a mim era comodismo, carência. Você precisava de um amigo, alguém que te fizesse sentir o centro do mundo.
(E você, de fato, era o centro do meu mundo.)
Foi aí que a decepção começou.
Eu continuei sendo seu amigo, se é que se podia chamar aquilo de amizade, mas algo dentro de mim havia mudado. E cada dia que passava, mudava ainda mais.
~
E nos dias, nas datas pra comemorar
A gente não jurava mais nada
E só bebia pra esquecer
O que era lindo se foi
Agora é normal e chato, um tédio
Pegue o que tiver que pegar, mais o que quiser
E parte de mim
~
E agora, tantos anos depois, me encontro segurando esse papel dourado.
Não houve lagrimas de dor, ao receber o convite de seu casamento. Talvez só um pouco de raiva.
Padrinho.
Nada mais natural, visto de fora, querer que seu melhor amigo seja seu padrinho. Só que você sabia muito bem o que significaria me convidar para isso.
Era como me pedir para subir com você em um altar, para ver de perto que eu o perdi de vez, para sempre.
~
Parte de mim
Quer te ver feliz
Parte de mim
Te expulsa, te perde
Parte de mim
Quer te ver feliz
Parte de mim
Te expulsa e morre
~
Esse foi o limite.
Eu não ia a casamento algum. Amassei o convite e o joguei pela janela.
Finalmente percebi que tinha que me livrar da algema de covardia e comodismo que nos ligava. Somente assim poderíamos seguir nossos próprios caminhos.
Iria doer? Sim, muito. Mas era algo que eu tinha que superar. Sozinho.
~
Então fica assim: O último apaga a luz
Na porta que não range mais
Ouvi o barulho mesmo assim
###
Fale com o autor