Alessa

4 O demônio de uma perna só (1x04)


Notas iniciais
Oi pessoal, peço desculpas pela demora. Esse final de ano estava sendo um pouco complicado... Bom, estamos de volta com mais um capítulo. Boa leitura!

Capítulo Quatro: O demônio de uma perna só

Depois que o pai de Emília a levou embora, Ester esperou na portaria do colégio até que Alessa aparecesse. Recém-saída do vestiário, a jogadora de futebol já havia trocado o uniforme da quadra por uma regata simples e uma calça jeans. Franziu o cenho ao ver a loira ali. Durante a fatídica festa do pijama que acabou dando errado, Ester confessara seu envolvimento inapropriado com um docente, e desde então Alessa vinha tentando fazê-la desistir daquela ideia estúpida.

— Deixe-me adivinhar; Estava estudando na biblioteca. Certo? – Perguntou, num tom claro de censura.

— Não que isso seja da sua conta, mas meus estudos não vão mais acontecer. – Revirou os olhos. – Agora mantenha o foco, tenho algo mais interessante para discutir, e eu acho que envolve esse mundo louco de magia no qual você se meteu.

— O que aconteceu?

— Bom, eu estava no banheiro quando ouvi um grito de socorro. Fui ver o que era e encontrei uma menina do primeiro ano toda amarrada. Ela acha que foram suas colegas de time, aquelas malvadas, mas eu duvido que elas fossem inteligentes o suficiente pra fazer isso, ainda mais com tanta habilidade. Emília disse que teve um vento bem forte e que viu um vulto vermelho antes de acabar daquele jeito.

— Isso também não está me cheirando bem. – Alessa concluiu, nutrida da mesma desconfiança que a amiga. – Vou me encontrar com Eneida durante a noite para treinar, e aproveito para contar a ela o que houve e ver o que podemos fazer. Você vai pra casa, certo? Pode ser perigoso ficar por aqui.

— Sim, sim. Já estou de saída. – A loira respondeu com um sorriso desanimado.

— Seus olhos estão meio inchados. Está tudo bem? Aquele babaca fez alguma coisa com você?

— Eu estou bem. – Deu de ombros. – Sabe como é: a gente pula no buraco já sabendo que vai doer quando batermos no chão. Mas não se preocupe. Nada que uma boa maratona de séries não cure.

As duas se despediram e cada uma seguiu o seu próprio curso. Quando a noite caiu, fria e serena, Alessa já estava pronta para sair de casa. Obviamente não poderia seguir pela porta da frente, pois seus pais dificilmente deixariam que saísse tão tarde sem uma explicação razoável. Sendo assim, cuidando para não fazer barulho, escapuliu cuidadosamente pela janela, que não era tão alta.

Apesar de esperta, a menina nunca fora rebelde, por isso seus pais não consideravam que ter uma janela tão próxima do chão e sem grades fosse um risco, e de fato não era. Além do mais, sem saber que a filha agora possuía habilidades aprimoradas como agilidade e força, julgavam-se capazes de detectar qualquer coisa suspeita no lar. Mal sabiam eles o quanto estavam enganados.

Uma vez nas ruas, caminhou apressadamente até o ponto de encontro marcado pela tutora: Um cemitério local, que ficava próximo do Colégio Campos Miranda, apenas alguns poucos quarteirões de distância. Conforme o combinado, Eneida estava na entrada, aguardando-a.

— Não podíamos ir ao McDonald’s 24 horas ou a uma discoteca?! – Reclamou. — Por que sempre que coisas sobrenaturais estão envolvidas aparecem cemitérios e casas mal assombradas?

— Bom, não acho que o McDonald’s tenha muita atividade demoníaca, mas você iria ficar surpresa com a quantidade de criaturas das trevas que frequentam as boates de hoje em dia. O cemitério é ideal para te explicar algumas coisas. Vai por mim, estaremos mais seguras aqui dentro.

— Vamos lá então... – Suspirou, dando-se por vencida.

Eneida guiou Alessa para o interior, dizendo que por ser amiga do coveiro, que vivia na casa ao lado, tinham permissão para caminhar por lá durante as noites. A mãe daquele homem, de raízes baianas, fora uma grande feiticeira e conhecedora dos deuses africanos. Sendo assim, sabia dos perigos que o mundo abrigava e conhecia as raízes das guerreiras de Iansã, assim como das bruxas.

— Uma das coisas que você precisa começar a entender é que o mundo espiritual é como uma colcha de retalhos. Ele possui vários fragmentos, que não são iguais, mas ao mesmo tempo se conectam em um só plano. Você é uma guerreira de Iansã, mas está conectada por todas as faces do plano astral. Pode ser que tenha de enfrentar demônios vindos do cristianismo, yokais orientais, seres malignos vindos de diferentes mitologias e por aí vai.

— Uma grande bagunça, se quer saber. – Estavam andando pelas lápides, e Alessa buscava ignorar o cenário enquanto focava nas explicações que lhe eram dadas.

— A princípio sim, mas com o tempo você vai assimilar melhor tudo isso. Alguns demônios e criaturas são mais presentes do que outros, e alguns são encontrados apenas em determinadas regiões. Existem as criaturas malignas consideradas ‘’pragas’’, pois se multiplicam em grande número e estão presentes em basicamente todos os lugares habitados do planeta. Alguns exemplos são os lobisomens e os vampiros.

— Argh.Vampiros são nojentos.

— E é por causa deles que estamos aqui hoje, inclusive. Existem vários tipos diferentes de vampiros. O primeiro enfrentado por uma guerreira de Iansã era conhecido como Asanbosam, uma criatura horrenda, de cascos no lugar dos pés, que transmitiam sua doença e bebiam sangue através do polegar das vítimas. O tipo mais o mais comum, aquele que atacou vocês na festa no pijama, é conhecido como Sanguinis.

— Sanguinis... Eu preciso guardar todos os tipos de criaturas e demônios que existem? Existe um jeito de lutar contra cada um, certo?

— Sim existem vários métodos, assim como várias criaturas. Chega a ser impossível de decorar tudo, mas é para isso que existem livros. Tenho um bom acervo no meu apartamento, que sempre podemos consultar. Além disso, a própria biblioteca da cidade, como a internet, trazem informações valiosas se você souber como procura-las. Entretanto, para efeitos de praticidade, é bom que você saiba lidar com os mais comuns e frequentes.

— Eu não sou forte e não sei lutar...

— A partir do momento em que sua alma foi invadida pelo espírito da tempestade, a força cresceu em você, pode não ter percebido, mas está mais habilidosa e mais resistente. A luta é boa parte instintiva, mas obviamente iremos treinar combate para que você possa se aperfeiçoar. Mas não se preocupe com isso agora. – Fez um gesto com a mão, indicando que não era uma questão importante para o momento. — Vampiros do gênero Sanguinis são gerados a partir de uma troca, onde o vampiro bebe o sangue da presa e a presa bebe o sangue do vampiro, que a mata em seguida. O corpo é enterrado e renasce como uma criatura do inferno. Acredita-se que o primeiro a ser criado foi Caim, condenado ao estado de vampiro por ter feito o primeiro derramamento de sangue no reinado de Yaweh, o Deus Hebreu.

— E mais uma vez as culturas se entrelaçam...

— Exatamente. Bom, esses vampiros podem se disfarçar como humanos, mas ao atacarem revelam a verdadeira forma, tendo as feições desfiguradas. Quando nesse estado, exalam o cheiro podre da morte, pois são semimortos. Presas afiadas, infestadas de um veneno que causa fortes dores e paralisa. Pode matar se exposto por muito tempo. Suas fraquezas são a luz do sol, por ser pura de mais para eles e morrem ou com uma estaca de madeira no peito ou pelo jeito mais difícil: arrancando sua cabeça, braços e pernas, e jogando o corpo ao fogo.

— Eu sempre tive curiosidade de saber o motivo pelo qual os vampiros morrerem ao serem atacados com madeira. A gente vê isso nos filmes o tempo todo, mas não parece fazer sentido.

— De acordo com os estudiosos, o corpo dos vampiros é bastante resistente e difícil de perfurar, entretanto a área que abriga seu coração é extremamente sensível, sendo o calcanhar de Aquiles deles. A madeira, assim como a luz solar, vem da natureza e é um símbolo de pureza. A combinação da sensibilidade com o sagrado é suficiente para expurgar essas pragas.

— Você acha que vampiros podem se esconder na escola e atacar alunos durante a tarde?

— Acho pouco provável; Seria muito arriscado, por causa da exposição à luz. Por que a pergunta?

Alessa repassou o relato de Ester para Eneida, que também pareceu se preocupar. De acordo com as explicações da bruxa, poderia se tratar de alguma criatura zombeteira que poderia ou não ser perigosa.

— Não há certeza de que possa se tratar de algo sobrenatural, mas isso não significa que podemos descartar a possibilidade. Eu sugiro que fiquemos de olho nos sinais, para sabermos como agir se preciso.

Prosseguiram conversando até que ficou tarde de mais e a garota teve de voltar para casa. Ser uma aniquiladora podia lhe dar maior resistência, mas ainda assim precisava dormir. No dia seguinte, depois de se despedir dos pais e pegar o escolar, Alessa, assim como todos os outros alunos do Colégio Campos Miranda, viu-se perplexa enquanto observava a faixada da escola: Parecia que um verdadeiro furacão havia passado por ali.

Latas de lixo arrancadas do chão, espalhando sujeira por toda a entrada. Árvores dos arredores derrubadas, espalhando galhos e folhas na calçada. Um poste de iluminação havia sido derrubado, o vidro da lâmpada em cacos no chão. A placa com o brasão da instituição fora jogada ao chão. O noticiário havia indicado ventos fortes na região durante a madrugada, mas ninguém imaginava essa proporção.

Tomando a mão de Ester assim que a encontrou, Alessa seguiu rapidamente de encontro a Eneida, ciente de que aquilo não era mesmo uma situação usual. Vitor, que estava por perto, as viu se retirando e achou a atitude estranha. Fazia algum tempo que as garotas estavam distantes dele, como se soubessem de algo que ele não sabia. Estava com um pouco de ciúmes e chateado com tudo aquilo. Podia ser um segredo bobo de garotas, mas mesmo assim ele era amigo delas e sentia-se excluído. Decidiu segui-las em ser visto, para tentar descobrir o que estavam escondendo. Sabia que não era certo, mas a mágoa falava mais alto.

— Isso não pode ser coincidência. – Alessa argumentou. Estava junto da amiga e da tutora, cochichando na lateral do prédio, isoladas do restante dos alunos e funcionários. Nenhuma das três percebeu Vitor, escondido atrás de uma das lixeiras que haviam sobrevivido aos fenômenos anteriores. – Primeiro o que aconteceu com Emília, agora isso... Tem alguma coisa na escola.

— Sim, eu tinha certeza que tinha algum demônio no meio. – Ester soou receosa e excitada ao mesmo tempo. – Mas isso não é problema agora que você é uma super-heroína, certo?! É só descer a porrada nele.

Demônio?! Super-Heroína?! Espantou-se Vitor, perguntando-se se teria ouvido direito. Aquilo tudo parecia muito bizarro e ao mesmo tempo fazia completo sentido, principalmente considerando o quão desajustadamente suas amigas andavam se comportando ultimamente. Mas ainda assim, era tudo muito irreal, mesmo para ele que sempre acreditou em seres de outro mundo.

— Fiquem calmas garotas, antes de tudo temos de saber com o que estamos lidando. Emília disse ter visto um vulto vermelho, correto? E essa ventania forte... São pistas para descobrirmos o que pode estar por detrás de toda essa bagunça.

— São informações muito vagas. – Suspirou Alessa. – Estavam falando que não vai ter aula hoje. Será que deveríamos entrar as escondidas no colégio para investigar? Seja o que for ainda pode estar lá dentro.

— Sem o preparo adequado, vai ser inútil. – Discordou Eneida. — Primeiro vamos para o meu apartamento dar uma olhada nos livros. Voltaremos quando soubermos o que fazer.

Vitor encolheu-se enquanto as mulheres passavam por ele sem nota-lo. Sentia-se confuso e ao mesmo tempo traído. Era óbvio que elas tinham um segredo, e era óbvio que suas próprias amigas decidiram esconder isso dele. O garoto estava com raiva, achava que elas o consideravam despreparado para o que quer que estivessem fazendo. Naquele momento, decidiu que provaria o contrário.

— Se tem alguma coisa lá dentro... – Sussurrou para si mesmo. – Vou pegá-la antes delas e provar que sou tão bom quanto qualquer uma delas. Afinal de contas, fui eu quem sempre acreditou em seres sobrenaturais... Não vou deixar essas mentirosas roubarem a cena.

Tão logo saiu do esconderijo, andou para a traseira do prédio, esgueirando-se pela porta dos fundos até o interior, que estava vazio; Todos os funcionários, e alguns poucos alunos que não quiseram ir embora, estavam limpando a parte da frente do prédio, ajudando a amenizar o dano causado pela ventania. Sozinho, ligando a lanterna do celular para não chamar atenção acendendo as luzes dos corredores, começou a andar, levemente tremulo, procurando o alvo da conversa que ouvira mais cedo. Subia para o segundo andar quando ouviu o barulho de livros despencando na biblioteca. Seguiu para eles, sem saber os infortúnios que se seguiriam com aquela decisão.

...

Alheias aos perigos que Vitor agora estava se expondo, Alessa, Ester e Eneida, folheavam diversos livros, alguns novos e outros antigos, sobre criaturas, demônios e seres mitológicos, buscando qualquer coisa que se encaixasse dentro das poucas informações que tinham sobre o inimigo em potencial. Já estavam cansadas quando finalmente Alessa descobriu algo promissor:

— Aqui está! – Sorriu, chamando-as para verem de perto. – Sacis são entidades malignas e zombeteiras, que no passado foram homens escravizados. Existem como uma forma dos deuses se vingarem pelo que os colonizadores fizeram aos seus servos. Possuem apenas uma perna, usam gorros vermelhos e são comumente encontrados com um cachimbo na boca. Sacis são capazes de conjurar redemoinhos e fortes ventos, usando-os para atacar ou como meio de transporte. Não podem ser destruídos, mas podem ser contidos através de um simples encantamento, utilizando uma garrafa.

— Espera... Um saci? Tipo o do Sítio do Pica-Pau Amarelo? ... – Ester segurou um riso. – Não, você não pode estar falando sério.

— Isso explicaria o estrago na escola. – Eneida ponderou. – Existem poucos relatos de pessoas que conseguiram ver realmente o rosto de um saci. Eles são rápidos e agitados, e não costumam aparecer para humanos. Não, sempre que os atacam passam velozes, e tudo o que se vê antes de suas pegadinhas e golpes, é o vulto vermelho de seu gorro... Meus deuses! Como eu não pensei nisso antes?

— Aqui no livro mostra como podemos captura-los, mas diz que é preciso ter cuidado e também de reduzir sua velocidade, pois podem escapar em seus redemoinhos.

— Isso é fácil de evitar. Assim que ele conjurar um redemoinho, basta atirar uma faca e ele irá se desfazer, deixando o saci incapaz de se locomover tão rapidamente. Mas é preciso cautela. Mesmo com uma perna só e sem os ventos, eles ainda são bem ágeis. Iremos para o colégio agora, vamos entrar pela porta dos fundos. Quanto mais tempo aquela criatura ficar no interior da escola, mais mal será capaz de fazer.

...

— Quem é que está aí? – A voz de Vitor ecoou pelos corredores da biblioteca, passando pelas silenciosas prateleiras de livros. – Você derrubou algumas coisas. Vamos, apareça, eu não vou lhe fazer mal.

A princípio não ouve resposta, então, um frio gélido percorreu a nuca do garoto e ele pôde sentir uma suave brisa batendo em suas costas, semelhante a uma respiração. Voltou-se devagar para ver o que era, tremendo de medo e hesitação enquanto o fazia. Quando terminou de se virar, seus olhos encontraram o vazio branco dos olhos de uma terrível criatura, que não possuíam órbitas e mais pareciam duas esferas opacas de luz fraca. Sua pele era negra como carvão, um gorro escarlate forrava a cabeça, e os dentes afiados estavam escancarados num sorriso mortal. Caiu para trás, atordoado e em pânico, encarando o demônio de uma perna só sem coragem sequer para piscar.

Quando achou que tudo estava perdido, e a criatura, envolta num redemoinho de névoa e ventos que lançava os livros para fora de seus lugares, aproximou-se para feri-lo, um objeto cortou o ar, ultrapassando. Tão logo a faca transpassou-o e seguiu ao chão, o redemoinho de desfez, deixando apenas a criatura, que irritada, soltou um urro de ira e partiu na direção da qual vinha o objeto, rumando em saltos na direção das três pessoas que entraram na biblioteca.

— Alessa, distraia-o enquanto eu preparo o feitiço. Ester pegue o garoto e saia daqui o mais rápido possível.

Enquanto Eneida posicionava a garrafa de vidro e dava inicio aos procedimentos descritos no livro, Alessa rumou de encontro ao Saci, lançando-se ao chão para desviar do primeiro golpe dele. Passou por debaixo das mesas para ganhar tempo, enquanto o Saci lançava-as para longe, em seu encalço. Se não fossem os vidros que abafavam sons internos e externos somados ao fato de que o andar estava vazio, provavelmente a perturbação do confronto já teria atraído mais curiosos ao recinto.

— Filha da tempestade. – O Saci proclamou com uma voz imponente. – Se entregue a mim e eu pouparei os seus amigos da morte.

— O que você quer comigo? — Alessa questionou enquanto corria pelas prateleiras, ainda na intenção de deixa-lo longe de Eneida pelo tempo que fosse necessário. – Eu nunca te fiz nada, volte para a mata que é o seu lugar.

— Só poderei fazer isso quando você for destruída. – Bradou, levando um cachimbo a boca. Quando soltou o fumo, um bolsão de vento seguiu até a jovem, atirando-a contra uma das prateleiras, que caiu ao chão, levando-a consigo. – Em vida fui escravizado, e mais uma vez em morte. Para que o temido me solte, devo pagar com sua vida.

— Ah, merda! – Reclamou da dor enquanto se levantava, admirada por não ter se cortado ou sofrido hematomas graves, já que a prateleira estava destroçada. Realmente, sua força havia aumentado. Com o incômodo e as ameaças, a raiva começou a ganhar espaço dentro de Alessa. – Quer saber, você está começando a me irritar. Está com vontade de me matar? Cai dentro.

Ao invés de fugir, correu de encontro ao Saci, que girando no ar, tentou atingi-la com sua perna. Alessa esquivou-se e desferiu um chute rumo ao tórax da criatura, que agarrando seu tornozelo atirou-a contra outra das prateleiras, que tal qual a última, se desfez em destroços. Finalmente fizera progresso nos golpes, pois a nuca da garota agora sangrava e pulsava com a dor. Para afastá-lo, Alessa atirou um pedaço de madeira dos destroços rumo ao inimigo, tentando não pensar em como explicariam aquela destruição na biblioteca. O Saci alterou o curso da madeira para longe de si com mais uma baforada de vento e seguiu, sorrindo, pronto para mais um ataque.

— Estou pronta Alessa! – Eneida gritou enquanto a menina buscava se recompor do último baque.

Aliviada por não precisar mais enrolar, considerando que não estava na vantagem naquela luta, Alessa tornou a correr, agora com mais dificuldade, retornando ao ponto de partida. Foi pega na metade do caminho pelo Saci, mas conseguiu desvencilhar-se de suas mãos e continuou a correr até estar do lado de Eneida. Quando a fera seguiu mais uma vez, cansada do jogo de perseguição e pronta para ceifar suas vidas, a bruxa ruiva tomou a forma de uma Mariposa. Avançando por cima do Saci, Eneida tornou a forma humana ainda no ar, agarrando o capuz da criatura enquanto ia ao chão. Atirou-o para Alessa antes que o Saci pudesse pegá-lo de volta, fazendo-o urrar em fúria. Alessa colocou o gorro vermelho dentro da garrafa de vidro, que agora estava no centro de um pentagrama com algumas velas acesas ao redor. Do gorro surgiu uma densa nuvem de poeira dourada que começou a tomar a forma de um redemoinho cada vez maior, direcionando-se até o Saci e envolvendo-o em seu interior. Ele tentou lutar e fugir, mas era inútil; A poeira cor de ouro arrastou-o junto consigo para o interior da garrafa, e tão logo foi contido ali, Alessa tampou-a com uma rolha onde Eneida havia cravado o desenho de uma cruz.

— Onde estão Ester e Vitor? – Perguntou ofegante após a luta.

— Esperando lá fora, eu creio. – Eneida apanhou a garrafa, guardando-a na bolsa. – Vou cuidar para que isso não caia em mãos erradas.

— O que vamos fazer com essa bagunça? O diretor vai ficar uma fera quando vir isso, e vão querer explicações. Provavelmente alguma das câmaras nos viu entrando.

— Ah Alessa, você realmente não se acostumou com a magia, não é mesmo? – Eneida estendeu as mãos para frente, proferindo: – Pelos espíritos do norte, do sul, do leste e do oeste, conjuro agora os ventos da mudança. Desfaça os vestígios, reconstrua do início, repare o que foi quebrado e devolva este lugar ao seu devido estado.

Num passe de mágica as prateleiras se reergueram e os livros tornaram aos seus lugares, assim como as mesas. Os estilhaços de vidro dos objetos que foram jogados junto com os móveis se recompuseram nos formatos originais, e tudo estava em ordem, como se jamais houvessem estado de algum outro jeito.

— Isso é incrível. – Admirou-se. – Será que eu consigo fazer? Ia ser útil não ter mais que arrumar o meu quarto do jeito comum.

— É claro que não. Em primeiro lugar, você não é uma bruxa. Em segundo, magia não é feita para facilitar nossa vida, mas sim para ser usada em momentos de verdadeira necessidade. Não se brinca com poderes divinos, e você vai aprender isso o quanto antes.

— Vai gostar de dar sermão igual você, credo... Bom, o que vamos fazer com o Vitor? Ele viu o saci e tudo mais... Isso se Ester já não tiver contado a verdade para ele.

— Bom, tenho um feitiço para apagar memórias traumáticas, mas é aí que está a questão: Você acha mesmo que é preciso? Não confia nele?

— Não é isso. É que não quero coloca-lo em perigo.

— Bom, pelo visto ele é bom em procurar o perigo por conta própria. A decisão é sua Alessa, vou te apoiar no que decidir. E então, o que será?

— Hm... Eu vou contar a verdade. Ele merece saber. — Foram embora da biblioteca, indo até onde estavam Ester e Vitor. Alessa, com um frio na barriga, já ensaiava em sua mente o discurso que faria.

Notas finais
E então, o que acharam? Espero que tenham gostado. Comentários, críticas, sugestões, feedback's em geral e quaisquer tipo de manifestação que julgarem necessários, podem e devem ser feitas nos reviews. Responderei a todos com muito carinho e atenção. Obrigado e até a próxima!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.