Aleatório

2 02. Um trato com um cubo mágico infernal


— Então, pelo visto seu futuro está em minhas mãos.

Scorpius encarou Rose contrariado, o que ele menos queria naquele momento era vender sua alma ao diabo, mas o sorriso indescritível no rosto da ruiva o fez gelar.

— Não era o que eu planejava, mas pelo visto.

— Chega de drama, você sabe que poderia ser pior. — falou com um leve desdém que o fez quase se arrepender de ter pedido a ajuda dela. — Mas tem algo que eu ainda não entendo.

— Vá em frente. — pediu desinteressado, desviando sua atenção para as grandes janelas onde pingos grossos de chuva já batiam em um ritmo calmante.

Rose estava sentada de frente para ele e notou como o rosto do loiro perdia a tensão enquanto se concentrava na chuva lá fora. Era como se uma máscara caísse e ele não precisasse se preocupar em esconder mais nada, a Weasley definitivamente estava detestando o fato de que talvez não o detestasse taaaaanto assim.

"Odeio quebrar tradições."

Pensou impaciente antes de finalmente fazer sua pergunta.

— Sei que você não quer que seus pais saibam, mas por que não contrata um professor particular e o paga para não falar nada? Ou não procurou um desde o início e tirou logo notas boas? Ou, só disse para os seus pais o quanto você é obtuso em relação a tudo que é importante e que se não fizer nada em relação a isso vai acabar em uma sarjeta fria e malcheirosa antes dos 30? — terminou com um sorriso doce sentindo satisfação por dentro quando conseguiu de volta a atenção dele.

— Você sabe muito bem como irritar os outros, orgulhosa? — perguntou sarcástico, levantando-se e parando de frente para ela que balançava as pernas alegremente de onde estava sentada na mesa.

— Você não imagina o quanto. — retornou o sorriso tentando a todo custo ignorar a forma como seu coração acelerou com a proximidade. — Mas responda a pergunta. — pediu de forma autoritária, em um tom que definitivamente herdara de sua mãe.

— É complicado. Aconteceram muitas coisas nos últimos meses e eu não quero falar sobre isso. — deixou claro pela forma séria como a encarava de que não iria falar mais nada.

Rose sustentou o olhar em última tentativa, mas percebeu que ele realmente não iria falar mais nada. Pulou de cima da mesa e parou desconfortávelmente mais próxima à ele, cruzou os braços como um escudo contra as sensações horríveis que ele a estava causando e desviou a atenção para a chuva forte, parecia que não iria parar tão cedo. Soltando um suspiro frustrado e evitando olhar a hora começou a guardar seus materiais. Scorpius entendeu a deixa e começou a se afastar, mas foi parado por uma mão quente e macia que envolveu seu pulso.

— Onde você pensa que vai?

— Pra casa. — respondeu em tom óbvio que a fez revirar os olhos.

— Nada disso, você vai me levar em casa primeiro. — declarou ainda sem soltar o aperto em seu pulso.

— De jeito nenhum. Vai caminhando, com toda certeza vai te ajudar a esfriar a cabeça. — disse enquanto dava tapinhas no topo da cabeça dela, mas logo afastou a mão quando ela fincou as unhas em seu pulso.

— Vai me levar sim, eu não vou andar dez quarteirões no meio desse furacão e acabar encharcada e morrendo de raiva de você. O que vai me fazer contar a todos o seu problema e ver de camarote seus planos explodirem. — ameaçou impaciente recebendo um olhar assustado por parte dele, soltou o pulso do loiro que o trouxe para o peito e começou a massagear ainda olhando desconfortável para Rose. — Então, vamos? — perguntou animada, pegando sua bolsa e andando à frente dele em direção à porta.

Scorpius continuou parado encarando o lugar por onde ela havia saído. Sentia que realmente havia feito um trato com o diabo, um diabo bipolar e completamente assustador.

— Você vem ou não? — Rose perguntou entediada, colocando somente a cabeça para dentro da sala fazendo as ondas ruivas que estavam presas em um rabo de cavalo balançarem ao movimento.

O Malfoy balançou a cabeça para tirar o pensamento de que ela ficava linda assim, com um sorriso provocativo nos lábios e uma sobrancelha arqueada em indagação.

— Vamos logo. — falou brusco, começando a caminhar para fora do laboratório.

□ □ □ □ □

O silêncio no carro era desconfortável, para dizer o mínimo. Rose enrolava a alça da bolsa marrom entre os dedos, evitava a todo custo olhar para o loiro ao seu lado que dirigia em uma falsa concentração. Sabia que ele também sentia essa áurea estranha que os dois emanavam, nunca passaram tanto tempo sem se falar e trancados em um mesmo ambiente. Rose estava se arrependendo amargamente em não ter ido na chuva. Soltou a alça com um suspiro impaciente e cruzou os braços encostando a testa no vidro frio do carro, pela visão periférica notou Scorpius alternar a atenção entre a pista à frente e ela, o garoto claramente queria perguntar algo, ou esclarecer, mas em um chute quase certeiro ela diria que ele estava preocupado em começar alguma discussão, principalmente pelo fato de ela estar parecendo altamente irritada naquele instante.

Após alguns minutos o carro parou em frente a uma casa amarela de dois andares, já era praticamente noite e as luzes tristes dos postes iluminavam a calçada, ela podia ver a fina chuva que ainda caía e decidiu levar aquela situação como uma preparação para tirar um band-aid, e estava mais que na hora de tirá-lo de uma vez.

— O que foi?

Scorpius se virou surpreso para ela, mas logo escondeu com uma expressão indiferente. Deu de ombros displicentemente e respondeu:

— Só estava pensando em como vamos explicar para todos as horas que vou passar com você sem que descubram tudo.

— Quem disse que eu vou te ajudar? — perguntou, soltando uma risada surpresa o vendo soltar o cinto para se virar completamente em sua direção.

Scorpius inspirou profundamente e Rose podia imaginar que dentro daquela cabeça oca ele deveria estar tentando reunir toda a paciência do mundo para respondê-la. Merlin, ela adorava tirá-lo do eixo.

— Por favor, por favor não me faça implorar porque um Malfoy não implora.

— Você tecnicamente acabou de fazer isso. — apontou, gesticulando para ele como se mostrasse o óbvio.

— Rose.

— Granger ou Weasley para você, Malfoy. — ordenou séria.

— Rose. — repetiu, ignorando o olhar que ela o lançou. — Me diga seu preço.

Ah, a pergunta que ela estava esperando e pelo sorriso brilhante que a ruiva abriu, Scorpius percebeu que finalmente chegaram no ponto que ela queria.

— Oh, meu querido Malfoy, é bastante simples o que eu quero. Na verdade, enquanto você me falava toda a sua triste história de garoto rico, eu pensei em um plano que mataria tantos trolls, um plano que vai dar mais do que certo se você cumprir sua parte direito.

— Um plano? Um plano seu? — tentou assimilar o que ela havia falado e Rose afirmou com a cabeça alegremente.

— Um plano perfeito, bom, pelo menos para mim. — declarou de forma convencida enquanto ele levava os dedos indicadores as têmporas sentindo o início de uma dor de cabeça.

— Por que será que eu sinto que isso vai dar merda?

— Porque você é um pessimista nato, ao contrário de mim que sou-

— Se você falar otimista eu juro que nunca mais te dou carona.

— Óbvio que não, sou uma realista com tendência a ver o copo meio cheio no futuro. Sei muito bem das implicações que meus planos podem trazer, mas esse, oh querida e desmiolada criança. — disse em tom animado o fazendo bufar impaciente. — Esse vai elevar o nível de um plano, esse é O plano, o santo graal da organização, o ele perdido do início de uma nova era, o-

— Será que dá pra dizer logo?!

— Então não me interrompa mais. — rebateu ácida.

— Eu juro que não te entendo, eu tento, mas isso. — gesticulou em exasperação para ela. — É impossível. Você é como um cubo mágico vindo direto do-

— Não ouse terminar, Scorpius foda-se Malfoy.

Ele soltou um grito esganado e passou as mãos pelos fios loiros sentindo que quanto mais tempo ficasse ao lado dela mais sua sanidade iria sumir. Inspirou profundamente e bateu a testa no volante, fechou os olhos e tentou novamente.

— Como esse plano funciona?

— Ah, você vai gostar.

— Por que eu sinto que vai ser totalmente o contrário?

Escutou a porta sendo aberta e agradeceu aos céus por ela finalmente ir embora, mas notou que Rose não se mexeu. Levantou a cabeça e encarou a ruiva maluca que o olhava em espera.

— Então.

— Então o quê?

— Você vai entrar comigo ou não?

— Por que raios eu entraria com você? — pelo visto sua impaciência havia voltado e quando Rose abriu novamente aquele sorriso sabe tudo irritante, Scorpius soube que estava perdido.

— Jantar com minha família, o que mais seria?

Ele sentia como se tivesse vivido meses em uma tarde. E encarando o olhar determinado que Rose possuía, Scorpius considerou que enfrentar a ira de seu pai em vez da mente perversa da demônia ruivo talvez não fosse tão ruim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.