Alcance
1 Único
Notas iniciais
Ivan não era alguém que se permitisse o pessimismo. Caso acontecesse era difícil se livrar de tal sombra; não impediu que suas pernas o levassem a um dos lugares menos simpáticos para com seu desânimo: um amontoado de árvores abandonadas, estátuas pichadas organizadas como se o vigiasse; mato; nenhum ser vivo a passar por perto.
Podia jurar que era cedo; um manto de nuvens encobria o céu dificultando sua localização; tinha conhecimento de onde se encontrava. Sempre saberia seu lugar, como em assuntos em que era necessária cautela; não que realmente o quisesse saber. Às vezes tinha o pensamento simples de que era melhor se não entendesse.
Ivan não tinha os olhos focados em nada em particular. Estava sentado em um brinquedo que ainda possuía certa estrutura para suportá-lo; era perigosa a acomodação; a montanha russa velha poderia se autodestruir a qualquer momento.
O local trazia uma sensação boa para o russo já que o silêncio ao ar livre o incomodava menos que o das paredes de seu lar. O movimento que um dia teve; as pessoas que uma vez caminharam junto as suas famílias; o calor de uma estação distante. Era tudo um engano que um sonho podia proporcionar. Uma ilusão que qualquer um gostaria de comprar para esquecer certas verdades irritantes.
Sorriu quando o cachecol gasto de seu pescoço balançou ignorante a qualquer pensamento seu. Uma brisa fria gentil passava pela paisagem perturbando a passividade das árvores. O que menos queria no momento era divagar sobre questões complicadas; uma voz conhecida o chamou:
— Ivan.
De um jeito ou de outro, como bem imaginava, apenas ele se aproximaria. Ivan não o encarou até que o prussiano enfim conseguisse alcança-lo em meio ao mato e tábuas instáveis. Não o cumprimentou até que Gilbert puxasse uma de suas bochechas com força.
Estava travando consigo mesmo uma batalha. O que queria mesmo era dar um abraço naquela pessoa em especial e esquecer tudo; tinha a sensação de que como neve acumulada era difícil fazê-lo sem que queimasse pelo frio. Franziu as sobrancelhas de descontentamento pela dor interna e externa: era uma atitude atípica sua; mas não considerou muito.
Gilbert ainda era inalcançável para si.
O prussiano puxou a outra bochecha com irritação no olhar. Ivan não poderia pensar em nenhum motivo além do que o outro detestava ser ignorado. Desculpou-se para se ver livre daquela pequena agressão em seu corpo. Estava mais nervoso que qualquer outra coisa, mas era por causa do breve contato daqueles dedos em si; não queria dizê-lo em voz alta; teria de falar algo para que os olhos vermelhos fossem desviados dele, o que acabou por ser:
— Gilbert-kun, você é muito mal comigo. Sempre... — Ivan disse enquanto massageava as próprias bochechas.
O efeito foi o oposto. Gilbert praticamente se jogou ao lado vazio do banco que estava sentado ignorando que poderiam ser soterrados no processo. Não foi uma surpresa quando esse lado cedeu pelo peso e força aplicados. Ivan teve que segurá-lo junto a si para que não caísse no buraco feito.
Gilbert riu enquanto que o russo suspirou de alívio ao perceber que seu lado se mantinha no lugar. Apenas naquele momento tinha percebido o perigo real a qual se encontrava exposto. O ritmo cardíaco de Ivan tinha acelerado. Gilbert tinha se colocado em perigo desnecessário outra vez. Deveria ficar mais preocupado ao invés de cansado.
— Se estava querendo me ver — Gilbert disse balançando as pernas como uma criança. — Podia ter escolhido um lugar melhor.
— Hum... não era como se eu quisesse vir aqui. — Ivan disse com um sorriso sem graça — É só um acidente infeliz.
— Mesmo? — Gilbert disse arqueando uma sobrancelha — Ainda assim... quem disse que podia vir aqui sem me dizer nada? Já que é a minha casa.
Não estava afim de prolongar mais nenhum diálogo. Ainda que fosse o prussiano que estivesse ali acontecia o mesmo: a sensação de deslocamento. Pelo que parecia era unicamente aquilo que as pessoas conseguiam causar nele. De que não havia nada ou ninguém ao qual poderia recorrer. Não era triste, só solitário. Sabia que sua presença não era bem-vinda pela outra parte.
A ideia de que deveria desconfiar do todo e tudo instalava uma incompreensão em seu ser. Como enxergar um monte de borrões e alguém lhe insistir que era um desenho claro: não conseguia encaixar as peças que supostamente seriam coerentes; elas continuavam em seu cérebro sólidas contrastando com seu interior. Queria confiar pelo menos nele.
Aqueles rostos discutindo trivialidades e resolvendo trivialidades; não poderia dizer que fazia diferente. Também não poderia confiar em si mesmo de que não destruiria tudo aquilo um dia.
“Devia ser simples de entender.” Gilbert, todavia, não parecia compartilhar de seus entendimentos. Mesmo que houvesse tanto a ser discutido, todo dia tinha uma surpresa a ser descoberta. Como aquele estranho caso deles dois.
Ainda assim, mesmo tanto tempo em contato, não sabia o que se passava na mente do prussiano; o contrário poderia ser diferente. Gilbert bagunçou seus cabelos com as mãos.
— Gilbert-kun, realmente...
Não podia ser otimista ou se tornaria mais distorcido do que havia se tornado. Assim como não podia sequer imaginar em vê-lo como seu; mesmo que as palavras escapassem de seus lábios em um oposto.
— É, realmente, isso não está certo. — Gilbert disse como se estivessem lendo sua mente.
O prussiano segurou com firmeza os ombros do russo e pareceu meditar profundamente. Ao se dar por satisfeito Gilbert abriu os olhos fechados, e inspirou e expirou o ar como se preparasse a si mesmo para alguma maratona. Ivan o observou sem entender. O prussiano podia ser tão sádico quanto ele: adorava atirar verdades venenosas que rimavam com a solidão de ambos. Esperava qualquer coisa; mas Gilbert nada disse.
Ivan muito menos. O nervosismo não lhe causava nenhum bem; entretanto não conseguia questionar ao outro diretamente o que queria.
Sentia mais raiva de si mesmo por isso que qualquer outra coisa. Gilbert o observava sem discrição o que fazia o rosto de Ivan se avermelhar. Sentia que podia ter um ataque a qualquer momento então pensou que no mínimo tinha que dizer alguma coisa; Gilbert tocou seu rosto suavemente, diferente; estava imaginando coisas.
O prussiano chamou seu nome de uma forma peculiar como se fizesse um pedido. A íris vermelha denotava um sinal de alerta real. Havia uma seriedade que era apenas oferecida para assuntos específicos.
Era seu amigo. Um mau amigo que não diria a ninguém sobre o relacionamento deles. Gilbert o cumprimentou. Um selinho simbólico? Em seus lábios? Ivan poderia crer nisso se o prussiano tivesse insistido um pouco menos. A passagem da língua do outro para sua boca lhe deu um embrulho no estômago.
Se seus nervos já possuíam um abatimento acabaram por se desmantelar. Ivan não se incomodaria de aproveitar mais se a estrutura do brinquedo não tivesse quebrado no processo.
Gilbert não poderia ficar com um sorriso mais sem graça. O rosto estava tão vermelho quanto Ivan; mas possuía um olhar tão claro como o céu. Não parecia que algo pesasse em seu ser similar a arrependimento; mas tal estado de espírito não o impediu de deixar o russo em meio a muitas dúvidas. Não deixava de ser estranho mesmo para a pessoa excêntrica que era Gilbert. Como se sua missão estivesse cumprida.
Ivan tinha se distraído quando percebeu que a brisa se tornou ventania; o prussiano estava tão inalcançável quanto antes. Tentou limpar sua roupa que tinha sido suja de lama e grama sem sucesso algum. A diminuição da adrenalina e distância dele o fez se sentir entristecido, e perdido.
— O que será que quer de mim...? — Ivan disse para si mesmo em um tom sombrio.
Sem pensar muito, se sentindo sufocado, tirou o cachecol de seu pescoço. Observou-o com aflição. Uma ideia singular lhe ocorreu. Não sem muito pesar levantou o braço sobre a cabeça segurando seu objeto de afeição. Viu como a peça de roupa se debatia em suas mãos como em um apelo para que fosse retornada para a antiga dona. Por um período que pareceu longo demais sentiu seu peito arder e os olhos marejarem.
Soltou-a, pois tinha a sensação que todas as memórias desagradáveis atravessariam seu peito com indiferença. Era angustiante esse processo onde culpa era uma preocupação frequente. Mesmo que o tivesse feito parecia ter chegado a um fim da linha onde a volta não é permitida e a frente há apenas um abismo. As engrenagens não se encaixavam mais como deveriam.
Devia estar alucinando, mas via uma neve similar a sua terra natal se acumular ao longe como um sentimento que se desenvolvia progressivamente. Não sabia se era por afeto, ou raiva, ou frio; seu corpo tremeu de leve. Era improvável que sentisse frio com aquela temperatura; abraçou a si mesmo com intenção de mandar seja lá o que fosse embora.
Não era a primeira vez que tinha desejado que Gilbert tivesse ficado um pouco mais. Sua presença seria o suficiente. Podia imaginar uma voz; havia apenas o som do vento e o silencio. O parque morto finalmente pareceu conseguir atormentá-lo. Ivan querendo ou não sentiu um estalo de realização em sua cabeça.
Vários sentimentos se mesclaram em seu interior; a confusão se instalou em seus olhos e em seu corpo. Uma massa condensada de desespero bloqueou a voz em sua garganta. O cenário estava turvo. Porque tão espantado? Queria correr com todas as forças em direção aquele fantasma.
A ventania acompanhou seus passos. As árvores em estado terminal deram lugar a uma rua de concreto. O evento natural não parou ali: como uma sombra não desgrudou de sua pele parecendo até como se fosse parte dele mesmo.
A cidade morta ficou inalterada até que ouviu um assobio dele. O som do vento no ambiente dificultava sua origem. Ivan correu por onde julgava ser o caminho certo. Suas pernas não conseguiam a velocidade que gostaria. O ritmo que empregava deixava sua mente em branco e o coração disparado. Via neve cair junto com o vento.
Não sabia ao certo onde estava indo. Era a terra que havia aprendido a amar. Tão peculiar a seu ver como Gilbert.
O que mais queria era alcançá-lo. Mesmo que somente em um sonho.
O assobio parou de chegar aos seus ouvidos em algum ponto. Ivan parou onde estava. Viu algo ou alguém se aproximar.
Ficou estupidamente feliz ao reconhecer a silhueta. Se fosse tudo real seria um encontro maravilhoso. O sorriso de canto se tornaria mais amplo à medida que se aproximava de Ivan. Gilbert tinha um sorriso muito lindo: transmitia o calor que custava ao russo produzir.
Ivan estendeu sua mão para tocar aquele rosto. Gilbert começou a se desfazer antes mesmo que pudesse fazê-lo. O cenário se encontrava tão borrado como uma pintura recém pronta atingida pela chuva. O sorriso do prussiano se tornou mais melancólico. Nem um “até logo” poderia ser produzido por aqueles lábios.
Ivan queria falar uma palavra mágica que mantivesse aquele doce feitiço por mais tempo; assim que conseguiu recolher o braço sentiu que não poderia mais se mover. Algo o prendia.
Custou-lhe entender que era por causa de uma camisa de força. Ivan se encontrava em um espaço mais desconhecido ainda para si. Não havia luz ou calor no espaço. Era um frio cômodo abandonado por todos. Atordoou-se com a mudança de lugares; não demorou a compreender o que aquilo significava.
Um esclarecimento se fazia mais claro em sua mente à medida que o ar lhe fugia dos pulmões por pânico.
Ele havia atacado Gilbert. Um lado seu não queria mudar. Um instante importante de sua vida foi o suficiente para que perdesse o controle de si mesmo e não conseguisse evitar o que aconteceu. Queria vingança. Não daquela pessoa e principalmente não naquela pessoa.
Descontar os temores que conteve até chegar ali não era algo que estava em seus planos; algo acumulado como a neve que caia em sua terra natal; percebeu quando havia sido sentenciado a cumprir aquele destino: Ivan somente poderia sonhar com uma correspondência por parte daquela pessoa. Como poderia ter o direito de alcançar aquele que havia tido o desprazer de ferir? O homem que ampliou o seu mundo e que ele teve a oportunidade de amar?
O esclarecimento se desfez com a aplicação da medicina.
Enquanto perdia a consciência Ivan podia jurar que tinha escutado um assobio familiar. Aquilo lhe soou como uma canção de ninar. Por um motivo que a enfermeira não saberia o russo sorriu.
Em um tempo onde as explosões de Ivan não eram tão frequentes Gilbert prometeu que não iria deixá-lo. E mesmo quando se tornaram frequentes isso não mudou. Não estaria sozinho. Mesmo que tivesse motivos para isso. Em um quarto escuro ele poderia esperar encontrar a luz de seu sol.
Era o suficiente para que tivesse sonhos que nem o pior de si poderia perturbá-lo; sentiu que a capacidade de raciocínio esvaia rápido. O susto que a enfermeira havia tido a levou a colocar ainda mais medicina em suas veias.
Uma tranquilidade o dominou ainda que não entendesse mais o que acontecia. Nem lembrava que ainda conseguia fazê-lo: Ivan gargalhou fracamente.
Um dia poderia sair dali. Quando isso acontecesse iria com Gilbert a um lugar ensolarado. Um que dificilmente pudesse preocupa-lo sobre algum tempo ruim. Alcançar aquele algo e alguém, ter aquele sorriso e voz perto de si. Não seria o melhor final de todos? A felicidade?
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