Quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Alba:Estou no Art Institute of Chicago; é um passeio escolar, e como sempre todos os meus colegas andam como zumbis pelos corredores, fazendo aquilo apenas como uma obrigação. Enquanto eu não quero nem piscar para não perder qualquer coisa – mesmo já tendo passado por estes corredores diversas vezes com mamãe.

Estamos entrando nas galerias surrealistas, e a primeira obra com que nos deparamos são as maravilhosas caixas iluminadas de Joseph Cornell. De todas as vezes que vim ao museu, sempre passo um bom tempo observando-as. Acho espetacular o jeito que Cornell se identifica com os seus pássaros.

A senhora Montgomery vem me ignorando desde o início do Tour. Não vou deixar que passemos pelas caixas de Cornell sem que eu tenha a oportunidade de me expressar. Ela começa a explicar um pouco mais a história da obra, mas não consigo nem ouvir; minha atenção foi completamente sugada pela beleza daquela arte. Eu quero, eu preciso falar algo sobre elas!

- Por que acham que o Sr. Cornell fez essas caixas? – Pergunta curiosamente à turma, sem notar o quão frenética eu estou a balançar a mão, esperando que ela me chame.

- Ele devia gostar de pássaros... – Responde Ronald desinteressado. Foi demais pra mim.

Subitamente levantei-me do banquinho que levávamos, com a mão ainda levantada e comecei a falar:

- Ele fez as caixas porque se sentia só. Não tinha ninguém para amar e fez as caixas para amá-las, e para as pessoas saberem que ele existia, e porque os pássaros são livres e as caixas são esconderijos para os pássaros, para se sentirem em segurança, e ele queria ser livre e estar em segurança. As caixas são para ele, para ele poder ser um pássaro. – Então, calmamente, sento-me.

Todos me olham incrivelmente perplexos. Alguns colegas parecem não se surpreender, enquanto outros ainda me olham com um olhar de repulsa. Não importa. Expressei-me e me sinto mais livre agora, talvez até como um dos pássaros de Cornell. A Sra. Cooper não hesita muito para finalizar:

- Obrigada, Alba, é um interpretação muito perspicaz. – Ao me virar para agradecê-la, percebo a figura de um homem muito familiar mais atrás dela. De repente todo o resto da minha visão fica turva, identificando somente aquele homem me olhando ali parado, com um olhar extremamente espantado. Está um pouco mais novo desde a última vez em que eu o vi, mas é ele, só pode ser ele!

Sem pensar em mais nada, apenas saio correndo em sua direção, esquivando-me de todos os obstáculos no caminho e pulando e me agarrando loucamente em seu pescoço – Papai, papai!

De repente escuto a Professora Cooper perguntando logo atrás da gente:

- Alba, quem é esse? Quem é o senhor?

- Sou Henry DeTamble, o pai da Alba. – Escutar sua voz me deixa ainda mais nostálgica.

- Ele é meu pai!

A professora Cooper parece meio constrangida.

- Senhor, o pai de Alba já morreu.

Olho para papai, ele parece chocado com a notícia. Talvez seja a primeira vez que ele escuta sobre a sua morte. Tento amenizar um pouco as coisas para ele:

- Ele morreu – digo – mas não fica morto continuamente.

Ele finalmente parece voltar a si.

- É meio difícil de explicar... – Sim, é a primeira vez que papai sabe sobre a grande variedade de IDC’s que agora existem. Está tudo muito novo para ele, vou tentar explicar melhor.

- Ele é um IDC. Como eu.

A professora Cooper parece meio chocada em encontrar um “morto” assim. Ela simplesmente fica sem palavras, assim como papai, então aperto sua mão para poder fazê-lo falar algo.

- Ah, Sra...

- Cooper.

- Sra Cooper, há alguma possibilidade de Alba e eu termos uns minutinhos para conversar aqui? Não nos vemos muito.

De repente me pergunto de que época papai está vindo. Será que já está perto de morrer? É tão bom ver que seus pés ainda estão no lugar. Seu rosto parece jovem para ultrapassar os 40. De repente tenho medo de falar qualquer besteira para um papai passado.

- Bem... Eu... nós estamos numa excursão... o grupo... não posso deixá-lo simplesmente tirar uma criança do grupo, e não sei direito quem o senhor é, Sr. DeTamble, entende...

É incrível como apesar de tudo... apesar de todas as explicações, há pessoas nessa época que ainda não confiam em IDC’s, que continuam a tratar-nos como simples bichos. Tudo bem a Sra. Montgomery me ignorar completamente, mas não acredito que até a professora Cooper está duvidando de meu pai.

- Vamos ligar para mamãe. – Corro para minha mochila, pego meu celular e disco para mamãe:

- Mamãe?

- Alba, querida, o que houve? Onde está?

- Estou no Art Institute...

- Aconteceu alguma coisa, querida?

- Não, estou bem... Mamãe, papai está aqui! Diga à Sra. Cooper que é o papai mesmo, sim?...
Uma longa pausa.

- Como?! Alba! Seu pai, o Henry está aí!? Passe para ele, agora!

- É, tudo bem, tchau!

Passo o telefone para papai, que ainda continua um pouco apreensivo.

- Clare?... Clare?

De onde estou, ainda consigo ouvir mamãe gritar “Henry!”. Aposto que a Sra. Cooper também escutou.

- Vou tentar... 2001, justo antes do nascimento de Alba. – Ele me sorri, eu coro um pouco enquanto estou colada ao seu corpo segurando sua mão de um jeito que quero dizer “não vá!”. Ele continua falando com mamãe: — Seria mais rápido. Olhe, daria para você dizer a essa professora que eu sou mesmo eu?

Olho de relance para professora que agora parece meio encabulada de ter duvidado de papai.

- Nos leões. Venha o mais rápido possível, Clare. Não vai demorar muito... Amo você.

Então ele entrega o celular à Sra. Cooper, que tem uma pequena conversa com mamãe antes de nos liberar para a entrada do museu onde vamos encontrar com mamãe. Papai ainda parece um pouco desnorteado para se acostumar com toda essa situação. Deve ser realmente difícil aceitar que agora existam vários Viajantes no Tempo, não apenas ele, e que agora este já é um assunto comum a todos os “humanos normais”. Como ele parece não encontrar nenhuma pergunta específica para fazer, resolvo começar:

- Obrigada pelos vídeos. Mamãe me deu de aniversário. Sei abrir as Yale e as Master, e estou trabalhando nas Walters. — Depois de citar as marcas, vejo que agora ele entende do que estou falando.

- Ótimo. Continue treinando. Escute aqui, Alba.

- Sim, papai?

- O que é um IDC?

Muita calma, Alba.

- Indivíduo Deslocado Cronologicamente.

Estamos sentados em frente ao dragão de porcelana da dinastia Tang, à espera de mamãe. É engraçado. Ele olha tão maravilhado para mim que eu estou começando a me sentir um pouco pressionada.

- Sabe, estou conhecendo você agora.

Rio. Talvez ele era o único aqui a não perceber isso até então.

- Como vai?

Ele continua a me olhar atentamente, espero que não esteja desapontado-o. Não acredito que esteja. Seus olhos ainda brilham muito, apesar de agora aparecer uma pontinha de dúvida.

- A gente se vê muito?

Paro um pouco pra pensar.

- Muito não. A última vez já faz um ano. Vi você algumas vezes quando tinha oito anos. – Lembro daquela vez na praia quando papai me contou muito vagamente sobre ele e mamãe.

- Quantos anos você tinha quando eu morri?

Falo sem pensar.

- Cinco – de repente me lembro que deveria tomar cuidado com o que falo a papai. Sua cara parece meio pálida. – Desculpe! Será que eu não devia ter dito isso?

Ele dá um leve sorriso e me abraça – Tudo bem, eu perguntei, não? – suspira – como vai Clare?

Mamãe, ah mamãe! Desde o dia da morte de papai tem sido difícil fazê-la sorrir. Todos os dias ela continua a espera de que você apareça de novo, mas você só aparece para mim. É difícil, muito difícil para mamãe viver a vida sem você. E ainda tem a mim como uma Viajante do Tempo. Deve ser duro para mamãe passar dias completamente sozinha.

- Bem. Triste.

Ele então muda rapidamente de assunto.

- E você? Como vai a escola? O que está aprendendo?

Rio. Ainda acho um pouco estranho o primeiro encontro com papai.

- Não estou aprendendo muito na escola, mas leio tudo sobre instrumentos antigos, e Egito, e mamãe e eu estamos lendo O Senhor dos Anéis, e estou aprendendo um tango de Astor Piazzolla.

Ele parece um pouco surpreso.

- Violino? Quem é seu professor?

- Vovô. – Sorrio ligeiramente

- Você é boa?

Me controlo para não ter uma crise de risos. Me lembro como papai era ruim com música. Acho que fiquei com todo dom musical de meus avós.

- Sou. Muito boa

- Eu nunca dei pra música.

- É o que vovô diz – rio – mas você gosta de música.

- Eu adoro música. Só não sei tocar nada.

- Ouvi vovó Annette cantar! Ela era maravilhosa!

- Que disco?

- Eu vi de verdade. No Lyric. Ela estava cantando Aída.

Foi maravilhoso! A plateia simplesmente enlouqueceu com a belíssima voz de vovó Annette! Era realmente incrível. Ainda tenho a impressão de ter visto papai e vovô por trás do palco, também aplaudindo loucamente a performance de vovó.

- Você viaja no tempo.

- Claro – abri um largo sorriso. Sei que papai não curte muito as viagens, mas para mim é mágico! – Mamãe diz que você e eu somos iguaizinhos. O Dr. Kendrick diz que eu sou um prodígio.

- Como?

- Às vezes consigo ir aonde e ao tempo que eu quero.

Papai parece meio invejado da nova versão de Viajante do Tempo.

- Você consegue não ir se não quiser?

- Bom, não – fico um pouco constrangida – Mas eu gosto. Quero dizer, às vezes não é conveniente, mas... é interessante, sabe?

Ele balança a cabeça afirmativamente.

- Venha me visitar, se pode estar no tempo que quiser.

- Eu tentei. Uma vez vi você na rua; você estava com uma loura. Mas parecia que talvez estivesse ocupado.

Papai parecia meio... vagabundo, desleixado, naquela época. Acho que ainda não conhecia mamãe.

- Era Ingrid. Eu saía com ela antes de conhecer sua mãe... Por falar na sua mãe, devíamos ir esperá-la lá fora.

Papai fez uma careta antes de se levantar. Será que começava o zumbido que o tiraria ali de mim? De mamãe? Andamos depressa agora para a escadaria principal. Papai cobre-me com seu agasalho enquanto estou firmemente encostada ao se corpo nu. Está chovendo e faz frio. Tento fazer com que este contato que estou tendo com meu pai seja o suficiente para deixá-lo ficar um pouco mais. A tempo de ver mamãe. De matar a saudade que vem matando-a pouco a pouco. A tempo de ver seu sorriso mais maravilhado ao ver papai novamente. De vê-la sorrir de verdade. De ver os dois expressando amor novamente. Só pelo menos mais essa vez... por favor.

- Lá está mamãe! – avisto-a. Ela estaciona o carro no cruzamento mesmo, sem se importar com o caos que está fazendo no trânsito lento de Michigan aquela manhã. Ela vem correndo ao nosso encontro. Os olhos totalmente focalizados em papai. Lágrimas ameaçam cair de seus olhos.

- Henry!

Papai então, se apressa em chegar aos braços de mamãe correndo pela escadaria, acaba tropeçando naquele imenso casaco e cai na escada com os braços estendidos em direção à mamãe – Papai, não! – grito tentando segurá-lo.

Ele já está há poucos passos de mamãe quando de repente desaparece. Fazendo-a apenas abraçar um enorme casaco onde há pouco se encontrava seu marido. Mamãe enrola-se firmemente ao casaco, ajoelhando-se e chorando com o rosto afundado no cheiro de papai que ainda resta sobre a roupa.

Devagar, desço a escadaria, parando ao lado de mamãe, abraço-a, apenas tentando amenizar a sua dor. Ela continua a chorar desesperadamente enquanto sussurra “Henry, não, Henry! Volte, volte!”

Não largo-a nem por um segundo. Agora sou tudo que ela tem e vou abraçá-la e confortá-la até que se sinta melhor. Ah, mamãe, eu sinto muito. Queria estar sempre com você para facilitar mais. Não queria deixar você sozinha numa situação dessa. Viajar no tempo é bom. Mas melhor ainda é te ver feliz.

Então tudo começa a girar, e minha vista começa a ficar confusa. Aquele zumbido vai aumentando cada vez mais. Dali a alguns segundos, tudo que resta ao lado de mamãe é o enorme casaco de papai e meu vestido azul-pavão.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!