Alasca Moon - Campos Elíseos
1 Fujo do orfanato
Se você acha que tudo nesse mundo é normal, simples, sem graça, eu te dou um conselho : Você está enganado. Desde quando era criança, algumas coisas estranhas sempre aconteciam no orfanato onde eu vivi, é, isso inclui monstros, muitos monstros.. É uma pena que não fossem somente isso, e eu não percebesse que sempre estavam atrás de mim, sempre tentando me matar.
Eu não tenho família, fui abandonada na porta do Orfanato, e isso é a única coisa que eu sei, ao menos até agora. Os orfanatos que destruímos eram legais, mas ao mesmo tempo entediantes (E eu também não sei como uma coisa pode ser outra ao mesmo tempo, mas ele realmente era assim), e sim, nós destruímos muitos por causa dos monstros, e sempre se mudamos para novos orfanatos.
As crianças nunca gostaram muito de mim, não importa qual seja o orfanato, minha única amiga sempre é a Antares. Você devia ver ela arrancando a cabeça dos monstros que vinham atrás da gente, ela não tem medo, nunca, de absolutamente nada! Confesso que sempre admirei muito a Antares, ela é minha heroína, eu sempre perguntei a ela sobre seus pais, se ela chegou a conhecê-los , mas ela nunca respondia.
Acho que isso a chateia muito, que ela sabe o que aconteceu e se culpa por isso.
Primeira manhã no Novo orfanato, entediante e triste, principalmente porque tentamos ao menos todos ficarem juntos para comemorar o ano novo, se bem que ninguém queria e nem sabiam do que comemorar, se crianças feridas forem uma razão para se comemorar, teríamos uma bela festa todos os dias. O que aconteceu no antigo? Eu não vou entrar em detalhes, acho que apenas com uma palavra dá pra entender o que aconteceu : monstros.
A Antares sempre me disse para nunca me preocupar com isso, que ela sempre vai me proteger, acho que o fato dela ter 15 e eu ter apenas 12 a faz dela uma irmã mais velha. Eu costumo sempre ficar sentada na janela de todos os orfanatos que fui, não sei mas... Eu gosto de observar as pessoas na rua, era isso que eu sempre via nos outros orfanatos : pessoas, carros, coisas normais, o que me ajudava a pensar que a Antares estava certa. Mas esse orfanato é diferente, ele fica em um bosque, longe de toda a civilização, e sinceramente eu não acho que seja inteligente um orfanato longe das pessoas, como alguém poderia ao menos saber que ali havia um orfanato? Mesmo sendo um bosque muito bonito que chamaria atenção, eu não vi absolutamente ninguém passando pela única estrada que havia na frente do orfanato.
Era apenas o Orfanato e o bosque.
Eu não dormi desde que chegamos, o clima estava tão agradável, tão aconchegante que me deixava assustada, não era possível que nos outros acontecessem aquilo e neste não, era tranquilo, tranquilo demais...
- Alasca vai dormir!
- Não estou com sono, e já é tarde, 10 da manhã. Lembra o que combinamos Antares?
- Ou você dorme ou eu te jogo por essa janela.
Fixei meu olhar lá embaixo, me parecia uma boa idéia pular da janela e me livrar de tudo, do orfanato, tudo! Fugir dali seria uma ótima coisa a se fazer. Mesmo sozinha, eu gostaria de me livrar daquilo, era triste estar desde que nasceu em um orfanato.
- Alasca, eu sei no que está pensando. E você não vai.
- Antares, mas...
Antes que eu pudesse protestar, a Antares jogou um travesseiro na minha cara, o que fez eu quase cair da janela do terceiro andar do orfanato.
A Antares se levantou da cama, com uma cara do tipo "ou você dorme, ou vai morrer", mas quando ela se levantou ela sorriu com esse olhar frio pra mim, pegou seu facão (Que eu também não sei como ela arrumou, e nunca havia percebido que ela sempre usava ele) e sua mochila que tinha tudo o que ela sempre precisava, inclusive roupas que não eram muitas.
- A-Antares? O que você está fazendo?
- Você quer ir embora não é? Não vou deixar você morrer sozinha.
Eu realmente nunca pensei que a Antares fosse ir comigo, ou muito menos me deixar ir. Ela sempre gosta de fazer os outros ficarem em segurança, e por outros eu quero dizer outros mesmo, mesmo tendo apenas eu como amiga, ela sempre protegeu todo mundo do jeito que dava, mas sua prioridade sempre era uma : eu.
Ela parecia apressada, mas não era a hora de ir embora, eu sabia disso.
- Pare de arrumar as coisas.
- Porque Alasca? Você que quis ir embora, então vamos, Agora!
Ela gritou comigo pela primeira vez, isso nunca havia acontecido antes, eu não acreditava mesmo que a Antares fosse gritar comigo um dia, aquilo me deixou zangada.
- Eu que quero ir? Se você não quer, porque quer ir comigo?
- Você não sabe se virar sozinha.
- Vamos ver então.
A Antares me fuzilou com o olhar, seus olhos e cabelos vermelhos faziam ela ter uma personalidade realmente muito forte, teimosa, mandona, mas ao mesmo tempo eu sei que ela se preocupa comigo. Ela resmungou algo como "idiota", ou "estúpida", jogou suas coisas no chão, e se deitou em sua cama. Eu me senti mal, isso havia sido uma briga, e eu não gosto de brigar, eu não sei brigar. As vezes discutíamos, mas eu não sei se eu vencia sempre, ou ela quem sempre desistia.
Olhei mais uma vez lá pra baixo da janela, parecia ser tão bom ser livre. Mas não era a hora de fugir. Não agora. Eu iria esperar até a noite para poder partir, as pessoas estariam dormindo, e mesmo eu sendo fraca, acho que conseguiria sair pela janela e depois pular os portões do orfanato.
Olhei para a Antares, ela estava quase do mesmo jeito, não falava nada, mas estava tremendo e soluçando. Nunca pensei que fosse ver isso, parecia que hoje era o dia do "você vai ver tudo que nunca imaginou que aconteceria" ou coisa assim, mas pela primeira vez vi a Antares chorar. Não tive coragem de chegar perto dela, ou conversar. Aquele dia mal começara e já estava sendo assim.
Desci e fui tomar meu café da manhã, o que era estranho que sempre todo mundo comia junto, mas aqui parecia mais liberal, só a tarde tínhamos aula, e podíamos dormir até quando quiséssemos, a mesma coisa sobre a comida. Não sou muito fã de comer, mas enquanto eu descia a escada vinha um cheiro muito bom da cozinha, no qual nunca senti antes, parecia hambúrguer, e era o que não comia faz tempos, acho que anos. Estava realmente faminta, tudo já estava pronto, a mesa repleta de coisas que as crianças dos outros orfanatos amariam, e isso tudo á vontade, o que eu também achei estranho. Peguei apenas um hambúrguer, e um suco de laranja, mesmo com muita fome não consegui comer direito, fiquei pensando na Antares, na briga, e em como tudo aquilo parecia tranquilo e perfeito demais.
- Preocupada?
Não sei quem era que falava comigo, parecia uns 3 anos mais velho que eu. Ele usava por alguma razão um tapa-olho, era forte, e seu cabelo era um preto puxado pro azul. Ele era lindo. Acho que mesmo sendo inteligente, e a melhor nas aulas, eu consegui apenas dizer algo como "Hã?".
- Ah, desculpe, eu me chamo Ethan Kyuhuyn, é eu sei nome meio engraçado...
- O-Oi.
- Seu suco de laranja.
- O que tem ele?
- Tá derramando em você.
- Ah...
Ele era tão encantador que me fez esbarrar no meu suco, e eu não havia percebido.
Levantei o copo, e me levantei.
- Isso nunca tinha acontecido, comigo. Desculpe.
- Vá tomar um banho e trocar de roupa, pode deixar eu limpo isso aqui.
Ele sorriu pra mim, aquele sorriso era encantador. E não, eu não estava apaixonada por um garoto que acabei de conhecer, mas ele era mesmo um garoto interessante.
Subi as escadas e fui ao banheiro, tomei um banho meio demorado. Ou o cheiro do suco não saia de jeito algum, ou eu estava tão preocupada com meus problemas tentando achar uma solução que não percebi o tempo passar. Quando saí do banheiro, percebi que todos os outros estavam lotados, e uma fila de 16 pessoas esperando na frente deles.
Depois de me vestir, desci as escadas novamente, a mesa estava repleta de órfãos que nem eu comendo hambúrgueres, e várias outras coisas. Todo mundo, até a Antares, menos ele. Meu mundo parecia girar, eu não entendia o que estava acontecendo. Não somente pelo fato dele ter desaparecido, mas também porque já eram 10:00h da manhã, e nada de errado acontecera até aquele momento. Observei todo mundo comendo, rindo, todos fazendo novos amigos, menos Antares, ela estava olhando pro seu colar, sozinha numa mesa lá no fundo, seu prato estava vazio, e seu copo também. Fui até ela.
- Antares?
Ela me ignorou por um momento, fiquei esperando ela responder, mesmo que fosse por toda a eternidade eu esperaria.
- Sabe que eu não vou sair daqui até você me dizer porque estava chorando.
Ela escondeu seu colar, me fuzilou com os olhos, que estavam vermelhos de tanto chorar.
Acredite, não queira ver a Antares com os olhos assim, é de dar medo.
Pensei que ela fosse brigar comigo, falar alguma coisa, mas ela apenas me encarou e depois de alguns segundos abaixou sua cabeça para seu prato vazio. Fiquei envergonhada naquele momento, eu parecia estar pressionando ela. Eu sei que aquilo a chateava, mesmo sem saber o que aquilo é, dava pra perceber.
Não aguentaria ficar lá por mais tempo, a gritaria das crianças era grande, e alta, muito alta. Os professores tentavam diminuir seus ânimos, mas mesmo com ordens e ameaças nada surtia efeito. Saí correndo dali, eu odeio muito barulho, acho que por ser “calma” acabo também gostando de lugares calmos.
Fui a caminho do bosque, realmente era um lugar encantador, eu ainda não havia ido ver de perto.
Eu não estou brincando, aquele lugar calmo me deixou feliz, e com a sensação de estar livre. Havia um caminho de terra, fiquei andando por ele, aquele lugar... Eu já disse que ele é lindo?
Em um ponto do caminho, havia um curva que dava para um lago, eu segui este caminho, as flores e a grama pareciam ficar mais lindas perto deste lago. Me sentei apoiada em uma árvore bem próxima ao lago, e fiquei a admirar o lago e o céu.
- Lindo lugar, não é?
Ethan também estava lá, não sei como ele suportava usar um casaco preto em plena luz do sol, já eram 11h da manhã, o tempo passou bem rápido eu diria, acho que fui longe demais do Orfanato.
- Muito. O que faz aqui, Ethan?
- Eu sempre ando por aqui, e você não me disse seu nome.
- Eu me chamo Alasca.
- Você é albina e está no Sol, sua pele fica engraçada.
- Seu sobrenome é ridículo, e você usa um tapa-olho. O que é mais engraçado, Ethan?
A Antares apareceu no meio de mim e de Ethan, que estava bem perto de mim, ele havia sentado do meu lado a pouco tempo.
- Antares?
- Você me matou de preocupação, sua tola.
-Ei, A culpa não é dela de você a ignorar.
Ethan se levantou.
- Calado, eu falei com ela, não com você.
Ethan se aproximou de Antares. Acho que os dois se conheciam, pois pareciam ter ódio um do outro, talvez tivessem namorado, ou simplesmente não se conhecessem e já se odiassem. Me coloquei no meio dos dois, antes que brigassem.
- Sabe onde ela vai estar segura.
- Comigo ela é segura!
- Do que estão falando?
- Cala a boca, Alasca!
Pela segunda vez naquele dia, Antares havia gritado comigo.
- Não, eu não calo a boca. Você não manda em mim!
Os dois ficaram calados, eu nunca havia gritado com ninguém, mas os dois estavam realmente me irritando muito. Me afastei dos dois lentamente, e gritei coisas que eu nem sabia que existiam. Eles ainda estavam se encarando, como se não me vissem ali.
Acidentalmente pisei num galho, e acabei me desequilibrando e caindo no lago. E por ironia do destino, eu não sabia nadar. Nunca me debati tanto na água, e o lago era fundo, quanto mais eu tentava subir para respirar, mais eu afundava.
Não ouvi direito o que eles disseram, mas acho que estavam gritando um com o outro, a única coisa que entendi enquanto afundava foi “É isso que você chama de a proteger?”.
Fechei os olhos, não consegui mais prender a respiração, soltei o fôlego, e meus olhos foram se fechando, enquanto eu estava morrendo afogada alguém me puxou de volta para a superfície, mas não sabia quem era.
Perdi a consciência.
Acordei no orfanato, minhas roupas estavam encharcadas de água, eu estava em meu quarto, e perto de mim estava Antares, e na porta do quarto estava ele, Ethan.
Mesmo tendo acordado, não queria abrir os olhos, não para que brigassem denovo. Continuei com os olhos fechados.
- Ela tá bem?
- Sim, está respirando normalmente.
A voz da Antares estava estranha, mas ela estava seca.
A Antares também não sabe nadar.
- Ethan.
-Fala, Antares.
- Desculpe, a culpa é minha.
Até mesmo eu estava bem surpresa, realmente hoje era o dia do “as coisas que você nunca imaginou vão acontecer”, A Antares sempre foi meio orgulhosa, mas ela é legal, eu sei disso
. Os dois ficaram em silêncio de repente. Abri meus olhos, A Antares estava seca, e o Ethan completamente molhado na porta, igual ao quarto. Ambos preocupados.
- O que houve?
- Você desmaiou, e a sua amiga não sabe nadar, então eu fui e te salvei. Eu mereço um prêmio, que tal um beijo?
O garoto no qual acabei de conhecer, me pediu um beijo como recompensa, isso era estranho, mesmo, principalmente porquê nunca beijei ninguém na vida. Eu e Antares o fuzilamos com um olhar.
- Calma, foi brincadeira.
Continuei a olhar pra ele, não com raiva e sim um olhar normal.
- Alasca, você desmaiou quando estava na água. Desculpe... A culpa foi minha.
- Não.
O Silêncio tomou conta novamente do quarto. Eu não iria perdoar nenhum dos dois, não até que eu soubesse a verdade.
- Não vou desculpar os dois até me dizerem : Qual o lugar seguro e porque estavam brigando?
Os dois se olharam, mas nenhum respondeu.
- Alasca, já é de noite, descanse, você ficou muito tempo desmaiada.
- Eu não quero dormir, Ethan.
Ethan saiu do quarto com raiva, eu sinceramente estava começando a odiar ele e a Antares, eles escondiam as coisas de mim, e eu também odeio isso.
- Amanhã conversamos.
A Antares se virou, e se deitou em sua cama. Eu não sabia o que estava sentindo agora, mas eu sabia o que fazer.
Agora era a hora certa. Fui tomar um banho, e enquanto isso preparava um plano para a fuga, eu sou ótima em planos. Confesso que sou inteligente, eu gosto de estudar, de todos os orfanatos sempre fui a melhor, mesmo com minha dislexia atrapalhando as vezes, eu conseguia estudar, com um pouco de esforço posso conseguir qualquer coisa. E era isso que vinha na minha mente naquele momento.
Depois do banho me vesti, e fui arrumar as coisas. Peguei tudo de que precisava, fui á cozinha e peguei doces, coisas prontas, afinal, eu iria fugir. Levar macarrão sem ter água ou fogo para cozinhar não seria uma coisa inteligente. A cozinha ficava no segundo andar, logo depois dos quartos, O orfanato era enorme, e até agora nada de monstros, aquele lugar me assustava. Eu conseguia ouvir o barulho da TV do primeiro andar, então havia pessoas lá. Eu só tinha um caminho pelo qual ir.
Parei em frente a janela, a abri, mesmo sendo só o segundo andar, ainda era alto pra mim, eu era atrapalhada, distraída e não era forte, com cordas não daria pra ir, mas tem outro jeito que daria.
Estava frio, havia um moletom numa mesa perto da janela, peguei ele, mesmo sem saber quem era o dono eu não tinha tempo. Me apoiei na janela, e fui descendo com cuidado. Desci segurando nos tijolos que foram usados pra construir o Orfanato, eles realmente eram fortes, mesmo eu pesando 49 KG, e tendo 1,53 de altura, eu conseguia alcançar todos eles, e eram perfeitos, pareciam ter sido feito para isso. Quando terminei de descer, apoiei firme os pés no chão, eu não sei como tive coragem de fazer aquilo. Olhei pra cima e suspirei, era a última vez que eu iria ver e morar em um Orfanato.
Falei pra mim mesma : Se hesitar, todas as oportunidades passarão por você.
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