Al Dente
1 Capítulo I: O Início.
O cheiro de bolo saindo do forno sempre foi a forma favorita de Louise de marcar os grandes dias. Naquela manhã, o aroma parecia mais forte, quase melancólico. Talvez porque fosse o último bolo que ela assaria em sua própria cozinha por um bom tempo.
O sol do Nordeste entrava pela janela, banhando o balcão de luz dourada. A mala estava pronta no canto da sala, o passaporte cuidadosamente guardado na bolsa de ombro. Tudo o que ela tinha agora era um frio na barriga e um bilhete de embarque para a Itália.
— Tá pronta, minha filha? — a voz da mãe veio da porta, carregada de orgulho e preocupação.
Louise respirou fundo, tentando ignorar o nó na garganta.
— Mais ou menos. — Ela forçou um sorriso. — Acho que nunca dá para estar cem por cento pronta para esse tipo de coisa.
A viagem era um sonho antigo, planejado com meses de economia, noites de estudo e um tanto de ousadia. Estudar gastronomia em Roma, trabalhar ao lado de chefs que ela só conhecia de revistas e documentários... Era tudo o que sempre quis. Mas, agora que estava tão próximo, a realidade pesava: um ano longe de casa, longe dos cheiros familiares, longe da família.
O aeroporto parecia um mundo à parte quando chegaram. Pessoas indo e vindo, despedidas apressadas, reencontros emocionados. Louise segurou firme na mala, como se aquilo fosse mantê-la de pé.
— Orgulho de você! — disse o pai, abraçando-a forte. — Mostra para eles do que você é capaz.
— E come direito! — completou a mãe, num misto de riso e choro.
O voo foi longo, cheio de pensamentos e tentativas frustradas de dormir. Quando finalmente o avião pousou, Louise sentiu o coração acelerar. Roma. O lugar que ela sonhara tantas vezes estava bem ali, logo além das portas do aeroporto.
Mas o encantamento não durou muito. O motorista que deveria levá-la até a casa da família anfitriã se atrasou quase uma hora. Quando finalmente chegou, mal falou com ela, somente apontou para o automóvel e dirigiu em silêncio. Pelas janelas, Louise via as ruas estreitas, o trânsito caótico, as pessoas falando alto. Nada parecia tão romântico quanto nos filmes.
A casa da família anfitriã ficava num bairro afastado do centro, com prédios antigos e fachadas gastas pelo tempo. Quando o automóvel parou, Louise olhou pela janela e sentiu um leve aperto no peito. A construção era baixa, sem adornos, com paredes descascadas e um portão de ferro que rangia quando o motorista o empurrou. Nada como ela imaginava.
— Siamo arrivati — disse ele, pela primeira vez, saindo do automóvel sem esperar resposta.
Louise desceu, puxando a mala com certo esforço, e subiu ambos os degraus até a porta. Antes que pudesse tocar a campainha, ela se abriu com um rangido baixo. Uma mulher de meia-idade apareceu, alta, cabelo preso num coque malfeito e um olhar sério, ainda que não exatamente hostil.
— Você é a Louise?
— Sou sim... muito prazer.
A mulher assentiu com a cabeça, sem sorrir.
— Sou a Clara. Pode entrar!
O interior da casa era escuro, com móveis antigos e paredes nuas, sem quadros ou qualquer decoração. O chão de pedra deixava o ambiente ainda mais frio, e não havia cheiro de comida no ar, nenhum sinal de acolhimento caloroso, nada que lembrasse lar. Somente o som distante de um rádio tocando alguma música clássica, baixa demais para se entender a melodia.
— Seu quarto é por aqui.
Louise a seguiu por um corredor estreito, tentando não bater a mala nos cantos. A porta rangeu ao ser aberta, revelando um quarto pequeno, com uma cama de solteiro coberta por um lençol branco, uma escrivaninha encostada na parede e uma janela sem cortina, de onde entrava uma luz pálida. Tudo parecia limpo... e extremamente impessoal.
— Se precisar de alguma coisa, é só chamar. O jantar é às oito.
— Tudo bem e, muito obrigada! — disse a menina, com medo.
Mas Clara já tinha se virado, sumindo pelo corredor com passos secos.
Louise ficou ali, em pé no centro do quarto, olhando em volta. Sentou-se na beira da cama e passou a mão pelo lençol frio.
Suspirou.
Roma estava ali fora, vibrante, cheia de possibilidades. Mas, dentro daquele quarto silencioso, tudo o que Louise conseguia sentir era saudade. Do calor da casa, do cheiro do forno, das vozes conhecidas.
E, pela primeira vez desde que embarcou, ela se perguntou se fez a escolha certa.
A menina ficou no quarto por um tempo, sem saber bem o que fazer. Sentia o corpo pesado da viagem, mas não queria deitar, tinha receio de adormecer e perder a noção do tempo. Em vez disso, abriu a mala com calma e começou a organizar suas coisas como pôde.
Dobrou as roupas com cuidado e empilhou na prateleira vazia, guardou os cadernos e livros na escrivaninha, colocou suas fotos favoritas na moldura que trouxera de casa. Uma com os pais na varanda de casa, outra com os amigos na formatura do curso técnico. Pequenos pedaços de familiaridade naquele quarto estranho.
Encontrou também a manta que a avó havia feito e, sem pensar muito, estendeu sobre a cama. O tecido macio e colorido foi o primeiro sinal de aconchego naquele lugar.
Ela abriu a janela, tentando deixar o ar circular, mas só entrou um vento seco, trazendo um cheiro distante de fumaça e poluição. Roma parecia grande demais, barulhenta demais. Tudo ali era diferente, os sons, o clima, o silêncio da casa.
Louise sentou-se de novo, olhou o celular sem sinal de notificações novas e passou os dedos pelos cabelos, tentando se recompor. Ainda faltava um pouco para o jantar. Seu estômago reclamava, mas ela não tinha certeza se era fome ou só o nervosismo crescendo.
Alguns passos ecoaram pelo corredor e pararam diante da porta. Um leve toque, quase seco.
— O jantar está pronto — disse a voz de Clara, do outro lado.
Louise respirou fundo antes de responder:
— Já estou indo.
Levantou-se, ajeitou a blusa, olhou-se rapidamente no espelho torto pendurado atrás da porta. Não se sentia exatamente pronta, nem para o jantar, nem para o que viria depois. Mas era o começo.
Abriu a porta devagar e saiu, sem saber o que a esperava do outro lado da mesa.
A sala de jantar ficava ao lado da cozinha, separada por uma meia parede. Era um ambiente estreito, com uma mesa retangular de madeira escura e quatro cadeiras desiguais. Um lustre antigo pendia do teto, lançando uma luz amarelada que deixava o ambiente ainda mais frio.
Clara já estava sentada, servindo o prato de um menino de cerca de dez anos, provavelmente seu filho. Um homem, que parecia o marido, mexia no celular encostado à parede, sem levantar os olhos quando Louise entrou.
— Pode se sentar — disse Clara, indicando a cadeira vazia à frente do menino.
Louise obedeceu, murmurando um "boa noite" que ninguém respondeu de imediato.
No prato, havia uma massa simples, com molho vermelho e pedaços de queijo mal derretido. O cheiro era bom, mas não chegava a ser apetitoso. Talvez fosse o cansaço, talvez o clima.
— Como foi a viagem? — perguntou Clara, após alguns minutos de silêncio, cortando o macarrão com o garfo.
— Foi longa... mas tudo certo. — Louise tentou sorrir. — Obrigada por me receberem.
Clara assentiu com a cabeça, mas não respondeu. O menino comia calado, e o marido continuava com os olhos na tela do celular, como se estivesse em outro lugar. A TV, ligada ao fundo, passava um telejornal local que ninguém realmente assistia.
— Vai estudar onde mesmo? — Clara perguntou, após alguns minutos.
— No Instituto de Gastronomia, perto do centro.
— Ah.
Foi só isso. Um "ah" seco, como se estivesse somente preenchendo o silêncio.
Louise sentia o peso da distância em cada detalhe: o som dos talheres batendo no prato, o tom econômico das falas, a ausência de perguntas. Era o completo oposto dos jantares em sua casa, onde todo mundo falava ao mesmo tempo, onde o assunto mudava a cada minuto, onde sempre tinha alguém repetindo a sobremesa.
Ali, cada palavra parecia medida. Cada gesto, contido.
Ela comeu devagar, tentando disfarçar o desconforto, mas a comida parecia crescer na boca. Quando terminou, agradeceu em voz baixa. Clara somente assentiu, recolheu os pratos e começou a lavar a louça sem olhar para trás.
Louise se levantou com um "boa noite" tímido, que o menino respondeu com um olhar rápido, e subiu as escadas de volta ao quarto.
Fechou a porta atrás de si e encostou a testa na madeira.
Era só o primeiro dia, ela repetiu para si mesma. Só o primeiro de muitos.
Mas a noite parecia longa demais para quem estava tão longe de casa.
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