Além do rio
8 O dono do dente
Notas iniciais
Quinta-Feira
[Cristina]
Brinquei com a pequena caneta presa ao colar em meu pescoço, pensativa. Era difícil focar em outras coisas quando se teve um encontro com o Saci Pererê em pessoa. Depois de pegar um caderno em minha mochila, anotei suas características, desde físicas até a personalidade do brincalhão. Também escrevi cada detalhe de nossa conversa.
—Oi, amiguinho. –Notei que Biscoito estava vindo em minha direção. Fiz carinho em seu queixo, do jeito que ele gostava. –Hoje nós vamos procurar aquele Saci de novo. Era realmente uma lástima o fato de câmeras não captarem sua imagem, afinal, eu gostaria muito de ter registros da aparência do danado. Ou apenas alguma recordação.
Ouvi batidas na porta e guardei o caderno novamente, colocando a mochila em minhas costas. Já sabia quem estava a minha procura.
—Já arrumou suas coisas? –Wesley, depois de muito tempo em choque, parecia bem motivado. Tive a impressão de que ele estava louco para descobrir se as outras lendas também eram reais. Eu finalmente havia arranjado alguém disposto a encarar essa loucura junto comigo. –Cada dia é uma nova aventura.
☀☀☀
A floresta, assim como de costume, estava bem tranquila quando atravessamos o rio. Pássaros cantando, animais andando por aí e insetos nas árvores que tinham suas folhas constantemente balançadas pelo vento suave.
—Vamos um pouco mais longe hoje. –Disse ele enquanto caminhava. –Quem sabe assim fica mais fácil encontra-lo.
—Será que o Saci tem uma espécie de casa?
—Bem, meus avós falavam que essas... –Ele não conseguia achar a palavra adequada. –Essas... criaturas... não gostam de civilizações e procuram ficar o mais longe possível de locais com muitas pessoas. Sinto que, quanto mais entrarmos na floresta, mais coisas nós encontraremos.
—Espero que você tenha razão.
Ficamos alguns minutos em silêncio, depois ele continuou.
—O Saci disse que era divertido brincar contigo por você ser nova nessa região. Se for assim, vai chamar a atenção de outros também. Principalmente porque deixou uma oferenda e mostrou que respeita a floresta. As pessoas não fazem isso há muitas décadas.
—Tu acha que... –Eu estava tentando esquecer esse assunto, mas era impossível. –Também vou chamar a atenção da coisa que assassinou aquele homem?
—Eu não sei. –Ele pareceu decepcionado. Era visível que, por mais que quisesse, ele também não sabia.
Encolhi-me ao relembrar da cena macabra e perturbadora e toquei a cruz de Dona Geraldina. Aquele objeto me ajudava a lembrar de suas palavras tranquilizadoras. O índio percebeu meu comportamento e se aproximou. Paramos.
—Não se preocupe, Cris. –Colocou as mãos em meus ombros, me encarando de maneira carinhosa. –Vai dar tudo certo.
—Obrigada, Wes.
Ele sorriu de canto e fiz o mesmo. Contudo, ao notar nossa proximidade, ele logo se recompôs e caminhou rapidamente, um pouco sem jeito, se perdendo no meio das folhas. Estava com vergonha pela demonstração de afeto.
Senti vontade de rir.
—Espere aí!
Corri mata adentro, mas quando passei pelas folhas, não havia sinal de índio algum.
—Wesley? –Chamei. –Onde está você?
Escutei um barulho de algo se mexendo nas árvores atrás de mim e me virei, mas ele não estava lá. Comecei a me preocupar. Nós havíamos andando uma boa distância naquele dia e eu não saberia voltar sozinha de maneira alguma. Estava perdida. E eu precisava encontra-lo.
Caminhei e vi que logo a minha frente havia uma bela árvore muito alta com algumas folhas vermelhas. Achei-a muito bonita e pensei em tirar uma foto, mas eu não trouxera minha câmera. Ademais, procurar Wesley era mais importante no momento. Será que ele já havia notado que sumi?
Andei por mais alguns minutos, até encontrar uma bela árvore muito alta com algumas folhas vermelhas. Achei-a muito bonita e pensei em tirar uma foto, mas... Espere aí. Havia duas árvores milimetricamente idênticas? Um mau pressentimento atingiu-me com força.
Depois de caminhar apenas mais alguns passos, encontrei uma nova árvore idêntica àquela. Com a sensação ruim crescendo em meu peito, comecei a correr. E foi aí que o desespero tomou conta de mim. Conforme corria, era como se eu voltasse para o mesmo lugar a todo o momento. Não importa para qual direção eu fosse, a árvore sempre aparecia novamente e eu tinha certeza de que era a mesma. Fiquei apavorada.
Finalmente, ouvi alguns passos e fui correndo na direção do som, acreditando que pertenciam ao índio. No entanto, parei imediatamente quando percebi que não era Wesley quem estava lá. Longe de mim, havia uma dupla de homens estranhos. Um deles, o gordo e velho, usava chapéu, botas, um enorme cinto e roupas claras e elegantes. Parecia um daqueles barões do café reencarnado. O outro era mais simples. Magro, usava roupas precárias e aos farrapos. Admirei sua capacidade de ficar descalço em meio àquele solo. Além disso, ele, assim como o “barão” carregavam espingardas.
—Vamos logo, capacho! –Ouvi o mais velho dizer. –Tu já me deste uma trabalheira danada, imprestável. Se tivesse feito o trabalho direito eu não teria ficado sem lucro. Agora preciso ficar aqui, que nem tonto, supervisionando e ajudando empregado que não sabe fazer o serviço direito.
—Perdoa, patrão. –A voz do outro evidenciava o medo que sentia. –Mas esse bicho é ligeiro. A gente tenta pegar e ele logo avoa pra outro sentido. E os bichos tão acabando, restou só um tiquinho... Os engravatados colocam a culpa numa tal de extinção.
—Desculpas e mais desculpas! Tem bicho pra tudo quanto é lado. É só ter uma mira boa que as araras caem aos montes. Anda logo, diabo, eu preciso entregar essas penas até o final do dia.
—Ali, patrão! –Apontou para cima, feliz. –Ali vêm vindo algumas!
—Onde?! Cadê?! –O barão apontou a espingarda para cima e tentou posicioná-la da melhor maneira possível.
Mas o que aconteceu em seguida me fez duvidar da realidade.
Enquanto o empregado gritava “ali!” freneticamente, o barão já não estava mais lá. Em seu lugar, havia nada menos do que uma arara azul real, porém desengonçada. O animal, desesperado, batia as asas tentando voar, mas não conseguia ir muito longe e apenas gritava, chamando a atenção do homem. Quando este percebeu que havia uma presa próxima a si, virou-se imediatamente e disparou.
O barulho da arma foi alto e, além me fazer pular, fez com que centenas de aves gritassem a fugissem imediatamente dali, de modo que o clima do local ficasse ainda mais tenso e desesperador.
No meio da confusão, um sorriso amarelo e com alguns dentes faltando apareceu.
—Consegui! –Gritou ele, sem perceber que estava sozinho. –Consegui patrão, eu peguei o bicho!
Porém, o empregado era realmente ruim de mira. Seu tiro não foi o bastante para matar o animal, de modo que o mesmo ficasse agonizando em uma cena que, além de assustadora, causou-me uma enorme vontade de vomitar. Segurei firme minha barriga e me apoiei em uma árvore. Pensei em correr, mas minhas pernas estavam paralisadas.
Os gemidos de agonia do patrão, que de algum modo havia se transformado em uma arara, ecoavam por toda a floresta, provocando milhares de outros gritos de animais, desde aves até macacos. Aquilo estava um verdadeiro caos.
No entanto, enquanto mil coisas pareciam estar acontecendo ao mesmo tempo, de repente o tempo ficou estranhamente lento. As vozes dos animais ficaram embaçadas ao fundo e tudo o que consegui ouvir, enquanto folhas voavam rapidamente com o vento, eram passos pesados. Uma nuvem muito escura escondeu o sol, tornando tudo mais sombrio e medonho.
Era impossível de se acreditar. Uma criatura estranha que parecia um menino ruivo estava montado em um bicho grande demais para ser um javali. Quando finalmente se aproximou, era como se houvesse fogo em seus olhos. Os cabelos ruivos se mexiam tão rápido com o vento que tive a impressão de estarem e chamas. Seu rosto, firme e concentrado, expressava ódio puro.
—Tu nunca serás digno de pisares em minha floresta novamente. –Seu grito era terrivelmente alto e assustador.
Dito isso, o empregado que ainda estava sob efeitos de sua felicidade ilusória, desmanchou o sorriso e voltou-se para o garoto. Contudo, não lhe restou tempo nem ao menos para piscar.
Primeiro, o homem que não tirava seus olhos do menino, coçou-se involuntariamente, com uma expressão de dúvida em seu olhar ingênuo. Depois, precisou utilizar as duas mãos até que sentiu a necessidade de coçar todo o seu corpo. A coceira era incessante e aumentava a cada segundo, chegando ao ponto em que sua pele começara a sangrar. Então, diversas manchas surgiram na pele marcada pelo sol; no início, pequenas, mas que surgiam e cresciam rapidamente. Pouquíssimo tempo depois, o homem se contorcia no chão, coberto de bolhas, algumas das quais ele arrancava com as unhas desgastadas, causando ainda mais perda de sangue. Rasgava também suas roupas, na tentativa de aliviar a coceira na maior quantidade de locais possível. Esfregar-se na terra também foi uma opção.
Eu estava ofegante. Meu coração prestes a explodir enquanto pude sentir o suor frio escorrendo pelas minhas costas úmidas. E observar o que parecia ser todo o ciclo de uma doença terrível em velocidade ultra acelerada não ajudava em nada. Já estava claro que a próxima etapa seria a morte.
Por fim, a criatura ficou observando os últimos suspiros do homem, que já estava irreconhecível pela quantidade de bolhas e sangue que lhe cobriam o corpo, além do cheiro horrível que emanava. Quanto mais próximo da morte do empregado e de seu patrão-arara que emitia os últimos suspiros roucos, mais tranquilo o ruivo ficava. Os animais pararam de gritar e o sol voltou a brilhar por entre as árvores. Quando tudo parecia calmo, a criatura, assim como se porco do mato gigante, olharam em minha direção.
Como num passe de mágica, minhas pernas destravaram e desatei a correr. Corri como nunca havia corrido, achando que seria a próxima. O desespero tomou conta e senti uma enorme vontade de chorar. Nesse momento lembrei-me de Wesley. Como aquele índio idiota havia me abandonado em um lugar como esse?
—Wesley! –Gritei, desesperada. –Wesley onde está você? Por favor, me responde. Wesley!
Parei de me mexer quando ouvi uma voz em resposta.
—Cristina! –Ele não estava muito longe.
Corri o mais rápido que pude, tomando cuidado para não tropeçar nas raízes e no lodo. Notei que a árvore grande de folhas vermelhas finalmente ficara para trás.
—Cristina! –Chamou novamente.
—Eu estou indo, não sai daí!
Quando finalmente cheguei ao local onde Wesley supostamente estava, tudo o que encontrei foi um bicho parecido com os tucanos que costumava ver nos desenhos para colorir de quando era criança (Araçari). Minha cabeça estava confusa e completamente perdida, eu já não sabia o que estava acontecendo. Será que...
—Wesley...? –Encarei o animal que me olhava do alto de um galho. –É você?
—Cristina! –Pulei de susto com a voz alta e grossa que surgira atrás de mim, chamando meu nome. –Pra onde você foi?
—Wesley, graças a Deus! –Corri e o abracei, mas logo lembrei-me de que ele havia me abandonado e o empurrei para trás. A raiva ultrapassou o medo. –O que tu pensou que estava fazendo, me deixando para trás?
—Foram só alguns passos, era impossível se perder. Só passando por aquelas folhas tu já me encontraria de novo, mas quando olhei tu não estava me seguindo. O que deu em você?
—Em mim? O que deu em você; corrigindo. –Eu estava pronta para brigar ainda mais, mas decidi ir caminhando na frente enquanto falava e gesticulava. No entanto, ao olhar para cima, minha imagem congelou. Não conseguia emitir uma palavra sequer e ele percebeu isso.
Quando Wesley seguiu a direção de meu olhar, seus olhos se arregalaram e eu tive certeza de que ainda não estava maluca. Não completamente.
No galho de uma árvore, um garoto estava deitado como se aquele fosse seu dia de folga, completamente relaxado e rindo enquanto comia uma fruta que, embora estivesse longe, consegui identificar como uma manga. Tinha orelhas pontudas e, mesmo sendo muito parecido com um índio, sua pele era clara e tinha muitos pelos ruivos espalhados pelo corpo. Parecia um adolescente muito baixinho e usava poucos acessórios feitos de folhas da floresta em volta de seus ombros e tornozelos, como se fossem pulseiras. Usava também uma espécie de saia feita do mesmo material. Carregava uma lança e pensei que seus cabelos fossem ruivos, mas ao prestar atenção com muito cuidado, era possível ver que eles eram feitos de chama pura, mas que não queimava. Não ele, pelo menos. Além do mais, seus pés eram invertidos, com os calcanhares para frente.
Wesley, embora estivesse um pouco tenso, manteve sua voz firme.
—Curupira.
—Curupira, Currupira, Caiçara, Pai do Mato... Escolha o que mais for de vosso agrado.
Ele rolou para o lado e caiu em pé, mas pareceu não sentir dor alguma, como se já estivesse acostumado com isso.
Minhas pernas travaram novamente. Era o mesmo monstro que assassinara os caçadores. Ele pareceu ler minha mente.
—Não te preocupas. –Sorriu levemente. Seu olhar expressava superioridade e malícia. Parecia um demônio, ainda mais com as orelhas pontudas. –Somente exerço a nobre função de ser cuidador da floresta. Não machucarei àqueles que não fazem mal à mata e suas criaturas.
De repente, seu semblante ficou sério e intimidante. O lugar escureceu anormalmente e o que pareciam ser milhares de pássaros saíram voando e fazendo barulho. Aquilo era verdadeiramente assustador. Então, ele completou:
—Vocês não vão... –Falou lenta e pausadamente. -...Vão?
Engoli em seco e entendi a ameaça. O curupira só persegue os caras maus. Não sou má e estava disposta a deixar isso bem claro. Endireitei minha postura, olhei diretamente em seus olhos ameaçadores e reuni forças para responder.
—Não. –Falei ainda mais firme do que imaginei que conseguiria. –Não vamos.
—Excelente. –Abriu um sorriso que trouxe de volta toda a luz e calmaria em um segundo.
Wesley olhou para todos os lados, tentando encontrar alguma explicação científica para entender como tantos animais se acalmaram de um momento para o outro. Nunca havia estudado sobre isso na faculdade. Mas logo se tranquilizou também. Provavelmente estava aceitando que não iria encontrar respostas em seus livros didáticos.
Agora que o Curupira estava próximo, notei um detalhe que fez meu corpo se arrepiar. Enquanto o garoto abria a boca para comer o fruto, percebi que seus dentes eram verdes e pontudos, porém, estava faltando um. Coloquei a mão em meu bolso, retirando o objeto enquanto ele observava atentamente o que eu estava fazendo.
—Isso pertence a você, certo? –Reuni minha coragem e estendi o objeto em minha mão, embora ela estivesse tremendo. Eu não conhecia o Curupira e não sabia qual seria sua reação, contudo, eu não podia guardar aquele dente comigo. Poderia ser acusada como ladra e isso era a última coisa que eu poderia desejar, principalmente quando o dono é um guardião da floresta.
—Sim. –Quase gritei quando o vi muito próximo de mim, mas não tive tempo. Num piscar de olhos, ele já havia pegado o objeto e voltado para seu lugar, há uma distância segura de nós. Sua velocidade era sobre-humana. –Obrigado.
Por fim, ele encaixou o dente de volta no lugar, o que foi nojento e incrível ao mesmo tempo. Enquanto o observava, o medo foi ficando de lado. Agora eu estava fascinada com a criatura a minha frente.
—Foi você quem pegou minha oferenda?
—Estava maravilhosa. Há muito não recebo uma oferenda. Podes trazer-me sempre que quiser e ficarei lisonjeado.
—O Saci é mesmo seu filho? –Tenho certeza de que Wesley não parava de pensar sobre isso. Confesso que eu também estava curiosa.
—Bem, eu de fato fui o responsável pela transformação do Pererê. Embora uma boa pessoa, ele teve uma vida mui injusta.
—É... –Concordei. –Ele nos disse que perdeu sua perna lutando capoeira.
—O quê? Não. Essa é apenas a versão distorcida e manipulada que ele faz questão de propagar. –Esclareceu. –Na verdade, sua perna foi arrancada como forma de punição pelos portugueses. Ele era um escravo.
Nesse momento, lembrei-me que as marcas de suas mãos eram muito parecidas com as que vi em meu livro de história, onde havia diversas fotos de escravos que sofreram com chicotadas.
—Todavia, não é para isso que estou aqui. –Continuou. –Vocês certamente são pessoas boas. Destarte, resolvi dar o ar de minha graça para alertá-los.
Wesley e eu ficamos atentos.
—Algo está a caminho. Temo que a segurança de ambos, assim como os demais humanos, possa estar a correr grave risco e estou a sentir que, como protetor da floresta e daqueles que nela vivem, deveria alertá-los. Não quero que criaturas inocentes se machuquem. Por favor, vão embora. Voltem para o rio, lá é mais seguro, foi abençoado por nossa deusa da Lua quando transformou a Vitória Régia há muito.
—Mas... –Eu não queria aceitar o que estava ouvindo.
—Por favor, vão. –Pediu. -Agora! –Seu grito foi tão alto e assustador que era como se a floresta inteira tivesse tremido e pudemos sentir o quão grande era seu poder.
Sua voz parecia ter sido emitida propositalmente para nos causar medo, pois mexeu com nossos sentidos mais primitivos e tudo o que conseguimos fazer foi sair daquele local imediatamente. Wesley segurou minha mão e me puxou, correndo o mais rápido que podia, enquanto eu sentia minhas pernas vacilarem. Naquele dia, remamos mais rápido do que nunca, com os corações acelerados.
Depois que o efeito do grito passou, eu pude pensar com mais calma. Ele tentava nos proteger de algo que estava para chegar, mas não especificou o quê. A curiosidade me intrigava e consumia aos poucos.
Eu não sabia se deveria ou não voltar para aquela floresta.
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