Além do rio

17 Noite na floresta


[Cristina]

Com o cachimbo do Saci em mãos, eu mal esperava para encontrar aquela peste risonha e finalmente obter as tão aclamadas informações sobre o paradeiro da Cuca. Todavia, cada passo parecia sugar a pouca energia que restara no meu corpo. Toda aquela luta pela sobrevivência contra a Mãe D’Água exigiu muito de mim e até mesmo andar parecia quase impossível quando a sensação era de que havia uma bigorna amarrada em cada pena. Wesley provavelmente viu que minha aparência não era uma das melhores naquele momento.

—Devíamos ir embora e descansar. Eu também estou exausto e, se quisermos encontrar a Cuca, precisaremos estar um pouco mais dispostos do que isso.

—Não. A gente se distanciou demais das cabanas, vamos perder muito tempo indo e voltando para cá. Vamos acampar aqui mesmo.

—Acampar? Eu não trouxe material para isso.

—Mas eu trouxe.

Abri minha enorme mochila que continha mil e uma coisas. Sabia que algum dia aquilo tudo seria necessário. Dela, retirei um saco de dormir que estava ocupando quase todo o espaço e alguns pequenos embrulhos de plástico que continham lanches. Peguei também uma pequena garrafa de suco.

—Hora do jantar!

Wesley e eu sentamo-nos em um tronco caído e inclinado para comermos. Ele retirou de sua própria mochila uma embalagem de hambúrguer e batatas chips, além de uma barra de chocolate que devo ter encarado por tempo demais, pois ele logo pareceu incomodado.

—Quer um pedaço?

Balancei a cabeça e ele entendeu que aquilo era um “sim”.

—Tudo bem, mas em troca eu quero um pouco do seu suco. Fui muito burro em ter me esquecido de pegar algo para beber.

—Tudo bem, eu também me sinto mal por ter esquecido docinhos.

Trocamos alimentos e, após a refeição, Wesley deitou-se no tronco, se espreguiçando. Já estava escuro e quis pegar uma lanterna na minha mochila, mas Wesley disse que tinha uma ideia melhor.

Ele me pediu para procurar por galhos secos e, quando juntamos uma quantidade consideravelmente boa, varremos o chão com o pé e colocamos todos lá. Wesley pegou também folhas secas, procurou por um isqueiro e, após organizarmos os galhos, acendeu o fogo. Além de proporcionar luz e acelerar a secagem das nossas roupas ainda molhadas, agora também estávamos protegidos de animais da floresta, o que me deixou muito tranquila.

Cada um de nós foi para trás de uma árvore diferente e trocamos nossas roupas por vestes secas e confortáveis. Aproveitei também para pentear meus cabelos e passei um pouco do creme para cachos que estava na mochila. Percebi que Wesley passava repelente contra insetos e fiz o mesmo.

Depois disso, voltamos para o tronco e permanecemos em silêncio, ambos pensativos demais para falar qualquer coisa. O único barulho audível era o fogo estralando e os insetos da floresta, acompanhados por um piado aqui ou ali. O silêncio entre nós só foi interrompido quando ouvi a voz de Wesley:

—Sabe o que sempre levo comigo?

—Um bumerangue?

—O quê? Quem carrega isso por aí?

—Nunca se sabe. –Dei de ombros.

-Não, não é um bumerangue. –Riu.

—Então o que é?

Ele foi até sua mochila e voltou com um objeto engraçado e bonito. Parecia uma daquelas flautas feitas de madeira usadas pelos nativos latinos. Era delicada, mas ao mesmo tempo muito firme e já parecia um tanto velha.

—Foi um presente do meu avô. –Explicou. –Ele me ensinou a tocar.

Ao redor da fogueira, fiquei observando as árvores e as sombras dançantes feitas pelas chamas do fogo enquanto Wesley tocava o que pareciam ser músicas indígenas em sua flauta. Como ele teve contato com tribos quando era menor, provavelmente foram, de fato, feitas por índios genuínos. Ele era realmente um bom músico e a melodia tranquilizava minha alma, como se eu estivesse prestes a entrar em um longo estado de meditação. Quando cansou de tocar, ele cantou algumas músicas também indígenas.

Muito tempo depois, varri com os pés as folhas do chão e arrumei um local para colocar o saco de dormir. Percebi que Wesley estava subindo em uma árvore e o observei até que ele sumisse por entre os galhos. Quando ele voltou, pulou até o chão e esfregou suas mãos, limpando as mesmas.

—Essa mata é muito fechada, só consegui observar o céu do alto das árvores.

—Tem razão. –Olhei para cima e tudo o que vi foi uma imensidão de folhas, galhos e troncos, com alguns pequenos espaços vagos em que só havia escuridão.

—São cerca de nove horas.

—Como tu sabe disso?

—Pela posição das estrelas.

—Típico de um índio...

—Fica quieta.

Como ele virou-se para outra direção, não consegui enxergar seu rosto. Porém, pelo tom voz, pude perceber que ele sorria.

Já estava preparada para entrar na cama improvisada e dormir feito uma pedra quando vi que Wesley havia se acomodado no tronco torto e uma espécie de compaixão encheu meu peito. Depois de tudo o que ele já havia feito por mim (como ter me acompanhado naquela loucura por tanto tempo, por exemplo), eu me sentia mal em deixa-lo dormir assim. Sabia que ele iria acordar muito pior no dia seguinte.

—Ei.

—Hum? –Virou-se para mim.

—Tem espaço o bastante para duas pessoas aqui.

—Não sei... Talvez a madame goste de ocupar bastante espaço.

—Vem logo, seu índio imbecil. –Sorri.

Wesley obedeceu e nos aconchegamos dentro do saco de dormir, ainda ouvindo o crepitar do fogo que ardia perto dali. Apoiar-me no índio era uma das melhores sensações que eu já tivera. Poderíamos estar no meio de uma floresta perigosíssima e amaldiçoada, mas, enquanto eu estivesse naquele saco de dormir aninhada ao peito de Wesley, tudo ficaria bem. Quanto mais seus dedos faziam cafuné em meus cabelos, mais meus olhos pesavam.

—Estou feliz que tu não morreu. –Minha voz era quase inaudível pelo sono.

—Eu também. –Sorriu.

Em menos de cinco minutos eu já dormia feito um bebê e, pelo cansaço, não vi nem ouvi mais nada durante muito tempo. O sono foi profundo e sem pesadelos. Em determinada hora, precisei sair do saco de dormir por necessidades básicas e logo voltei. Talvez Wesley tivesse feito o mesmo e eu nem sequer notara. Sorri observando o rosto sereno do índio enquanto ele dormia e peguei no sono com a mesma rapidez e facilidade de outrora.

Acordei com o sol batendo em meus olhos. A fogueira já se apagara e senti que o efeito do repelente também já havia passado, para a minha infelicidade.

Quando me levantei, Wesley estava de pé e se alongava de maneira preguiçosa. Ele virou-se para mim quando bocejei, notando que eu acabara de acordar.

—Bom dia, dorminhoca.

—Bom dia. –Falei com voz de sono.

—Tome seu café da manhã. –Entregou-me um pedaço de sanduíche. –Hoje será um longo dia.

Depois de comer e arrumar meu cabelo que parecia um verdadeiro ninho de passarinhos, peguei meus pertences e os coloquei de volta na mochila. O índio organizado já tinha guardado os dele.

Deixando o local do acampamento improvisado, Wesley orientou-me até o ponto de encontro do Saci, local que vimos o malandro pela última vez. Eu já sabia que não iria ter paciência para brincadeiras desnecessárias quando chegássemos lá.

☀☀☀

—Saci! –Gritei, de modo que alguns pássaros que repousavam nas árvores saíram voando. –Estamos aqui.

—Encontramos o seu cachimbo.

Como se a última palavra fosse mágica, ouvimos imediatamente o barulho de folhas se movimentando, até que um redemoinho formou-se bem na nossa frente. A velocidade do vento foi diminuindo constantemente e uma figura muito sorridente surgiu.

—Assim que o Saci gosta! –Seus olhos brilhavam e o sorriso estava tão largo que quase foi até as orelhas. -Devolve pro pai!

Entreguei o objeto para o Saci, que examinou-o com muito cuidado, parecendo satisfeito. Depois, colocou uma das mãos embaixo de seu gorro e dele tirou pequeninas plantas muitíssimo bem cortas e as esfarelou no local apropriado do cachimbo. Como se fosse encantado, o objeto pegou fogo sozinho e o Saci deu uma boa tragada.

—Como eu senti falta desse tal negocinho! –Fechou os olhos, aproveitando a sensação de prazer que sentia enquanto soltava a fumaça com formatos místicos. –O Saci está mui contente com vocês, crianças. Ah, sim, ele está, sim!

—Bom saber disso. –Falei. –Agora, está na hora de termos uma recompensa pela nossa boa ação.

—É isso aí. –Concordou Wesley. –Tu nos deve informações.

—Informações? –Riu ele, com uma voz muito esganiçada. –Eu?

Wesley e eu nos entreolhamos enquanto ele dava gargalhadas.

—Vocês são muito trouxas, caíram direitinho na brincadeira do Saci! O Saci não vai informar ninguém, não senhor e não senhora.

—Mas tu disse que nos falaria onde está a Cuca se devolvêssemos o cachimbo! –Retruquei.

—É, de fato eu precisava de alguém para apanhar o cachimbo pro Saci. Só que eu não vou contar, não.

—Já entendi tudo. –Wesley o encarava, mas falou comigo. –Ele não sabe onde a Cuca está.

—É claro que o Saci sabe, meu curuminzinho desconfiado. Mas é muito mais divertido ver os dois se coçando pra tentar encontrar e no final não chegar a lugarzinho nenhum.

—Por que está fazendo isso conosco? –Minha voz estava alterada.

—Ô florzinha do meu quintal, tu já perguntou pra ti mesma como deve ser chato pra eu viver por tanto tempo? O Saci gosta de se divertir um pouco de vez em quando.

—E pra isso precisa ver nosso sofrimento. –Era mais uma conclusão feita por mim do que uma dúvida.

—Acertou na mosca e na abelha!

Minha boca abriu, porém nada disse. Estava procurando palavras para demonstrar minha indignação quando ouvi um cochicho de Wesley.

—Psiu, Cris! –Sua boca mal se mexa para não chamar a atenção do Saci, que estava ocupado demais aproveitando seu fumo. –Tu ainda tem aquela garrafa de suco?

—Tenho, mas por quê... –Com um lapso de luz, minha mente clareou-se e eu consegui seguir a linha de raciocínio de Wesley. Ele tinha um plano e eu sabia perfeitamente o que era.

—Mas falta...

—Não se preocupe. –Sussurrei. –Eu estava contando que precisasse usar isso quando viesse para a Amazônia.

Abri minha mochila sorrateiramente e de lá retirei dois objetos com muito cuidado. Fiquei ao lado de Wesley e lhe passei um deles para que o rapaz pudesse me ajudar. Juntos, encaramos o Saci e nos aproximamos lentamente do mesmo, sem dizer uma palavra sequer.

—Bom, agora que já está tudo certo e bonito, o Saci vai se despedindo. –Depois que uma enorme fumaça em forma de araras sumiu, como se elas houvessem alçado voo, o Saci colocou o cachimbo na boca e deixou-o lá. –Tchau pra vocês, crianças. Encontro ocês por aí a fora.

Quando o redemoinho apareceu novamente, corri até o Saci Pererê e imediatamente joguei uma pequena peneira para prendê-lo. Eu sabia que esse material iria ser utilizado, confiante de que algum dia me encontraria cara a cara com o Saci. E esse dia finalmente chegou.

Enquanto ouvíamos os gritos surpresos e assustados do homem de uma perna só, Wesley enfiou a mão por baixo da peneira e puxou o gorro vermelho do Saci, erguendo o objeto como se fosse um troféu. Logo em seguida, abri a garrafa de suco e o vento foi magicamente sugado para dentro do objeto de maneira instantânea e potente, de modo que precisei segurá-lo muito firme para não derrubar. Assim que tudo acabou, tampei a garrafa com muita força e sorri, triunfante. Minhas mãos tremiam de animação: eu acabara de capturar o Saci em pessoa!

—Que brincadeira sem graça é esse? –A voz baixa e abafada vinha de dentro da garrafa. Lá, um mini Saci nos encarava furiosamente com as mãos apoiadas no vidro. –O Saci não gosta nadinha desse tipo de coisa. Deixa eu sair daqui, suas pestes do inferno!

—Nem ferrando. –Wesley sorriu.

—Primeiro o senhor tem que nos dar as informações, como foi combinado. Queremos saber onde está a Cuca.

—Ah, deixa de besteira. Pra que tu quer saber onde aquela velhota se meteu? Mais fácil deixar a Cuca bem quieta onde ela tá. Isso é verdade, sim.

—Sabemos que ela é um perigo para os habitantes daqui. –Esclareci. -Não podemos simplesmente ir embora como se nada estivesse acontecendo.

—Cês dois são burros por demais, isso sim. A sinhazinha não deveria enfiar o nariz onde não é chamada, que as chances de terminar mal são bem mais maiores do que tu pensa, madame.

—Quer saber? Acho que essa garrafa ficaria ótima como decoração do meu closet.

O Saci lançou-me um olhar de puro ódio e impaciência, controlando sua respiração.

—Tá, tudo bem. Mas depois não venha dizer que o Saci num avisou porque foi muito bem avisado. E tenho dito!

—Desembucha.

Depois de permanecer calado por alguns segundos, observando os dois gigantes que o capturaram, ele finalmente resolveu abrir o bico.

—Olha só uma coisa, o Saci não sabe dizer aonde a Cuca tá. Ela vive andando por aí e mudando de residência, não dá pra saber em que buraco aquela coruja velha está na hora de agora. Tudo o que o Saci sabe é o que a maluca anda fazendo. Ah, isso o Saci sabe dizer e sabe mesmo. Por que o Saci viu com os próprios olhos. Os mesmos que estão encarando as duas crianças agorinha.

Encarei Wesley, sei que ele também estava pensando em hipóteses sobre o que a Cuca estaria fazendo. O pequenino homem continuou.

—A Cuca, agora que despertou da dormida que durou uns par de ano, só quer saber de ficar mais fortona pra num ser derrotada outra vez. E o Saci tem medo dela. Muito medo, sim! É certeza que a doida só pensa em ser a criatura mais forte que esse mundinho velho já viu e governar a floresta sozinha, sem mais ninguém. Com ela não tem conversa mole, não. Vai querer matar todo mundo, isso sim. Até o Saci!

—Mas ela está fraca, certo? –Conferi. –Como a Cuca pretende matar todos vocês sob essas condições?

—A danada é uma bruxa. Feiticeira mui antiga e sabe de umas poções que nem o Saci tem coragem de mexer. É coisa braba! E a primeira coisa que a doida fez foi sair por aí procurando os tais ingredientes para colocar no caldeirão imundo. Depois que a velha tomar a poção e ficar fortinha, o Saci quer é estar bem longe daqui!

—Ingredientes? –Minha curiosidade estava apitando. Quanto mais informação recebia, mais detalhes eu queria.

—Sim, sim, madame. Mas tudo envolve magia negra, como as duas crianças já devem ter percebido. São coisas que exigem sacrifícios e muita energia gastada por parte que quem tá fazendo o feitiço, entendeu? Coisa do capiroto, belzebu, cabrito dos infernos... De longe, o Saci ficou muito bem escondidinho pra não ser visto nem ouvido e viu a danada pegando o veneno de sapos salgando e arrancando a pele deles e ela também recolheu ossos de outros animais. Pra fazer isso deixou eles sofrendo por algum tempo, que é pra mó de os ossos ficarem mais suculentos pra agradar aquele que mora lá embaixo e a magia funcionar direito.

—Isso é terrível! –O índio não conseguiu segurar a exclamação.

—E num é só isso, não. A bruxa também precisa de sacrifícios de pessoas humanas, que são as criaturas preferidas da magia negra. Pra isso, ela tá indo atrás de bebês, como sempre fez. Os filhotinhos de gente são mais fáceis de colocar no caldeirão. Só que o casal já deve ter notado que não existem lá muitos bebês por aqui. A Vila, único lugar onde tem gente por perto, é uma cidadezinha pequena por demais. E sei que a Cuca, ainda meio fraca e tonta, num ia ficar indo pra outra cidade. Então... Aquele bicho em forma de gente tá pegando os bebês das senhoras antes mesmo dos pobres coitados nascerem. Primeiro os maiorzinhos, depois os menores... Do jeito que tá indo, ela vai pegar até a semente que acabou de ser plantada no bucho das moças.

—Espere, aí. –Interrompi. –Cuca está pegando fetos? Como ela faz isso?

—Haja paciência... O Saci achou que a sinhazinha fosse ligeira e inteligente, mas parece que a manivela demora um pouquinho pra girar. Ela está arrancando eles da barriga, oxê!

Com essa informação, senti o mundo girar ao meu redor e minha visão escurecer, além de um ruído alucinante ter preenchido completamente meus ouvidos. Precisei jogar a garrafa para Wesley e achei que fosse desmaiar, porém, apenas tive uma tontura por um breve momento. Era terrível imaginar que coisas assim estivessem acontecendo tão perto e fiquei com vontade de vomitar, mas isso também não ocorreu. Ao longe, ouvia a voz baixíssima do Saci afirmando que “É horrível, sim, sim. Elas morrem depois de algum tempo”, o que não ajudou muito. Só voltei ao normal com os chamados hesitantes de Wesley.

-Cris... –Ele estava pálido e parecia pensar em algo que gostaria de guardar apenas para si. No entanto, fez esforço para falar. –Se a Cuca está sofrendo com a falta de bebês e optou por fetos, então isso significa que... Lucia...

O ar fugiu de meu peito enquanto eu o encarava, após ter entendido perfeitamente a lógica de seu raciocínio. Meus lábios tremiam e, mesmo que eu quisesse falar, as palavras não sairiam de minha boca. Olhei para o solo, organizando meus pensamentos e ainda chocada demais para realizar qualquer movimento senão o de apoiar minhas mãos trementes em meus joelhos, ainda na posição de quem achou que iria vomitar.

Se Lucia estava grávida, ela seria uma das vítimas da Cuca.