Além do rio
18 Hora de agir
[Wesley]
A notícia de que Lucia estava em perigo ecoava pela minha cabeça. Era inadmissível que tamanha loucura estivesse acontecendo, principalmente com alguém tão próxima e com quem eu e Cristina nos importávamos tanto. Meus batimentos cardíacos estavam acelerados e o corpo muito tenso.
Com a garrafa e o gorro do Saci em mãos, corri tentando acompanhar o ritmo de Cristina (que estava compreensivelmente desesperada) de volta à Vila. A chuva que se formara enquanto conversávamos com o Saci nos acompanhou durante todo o trajeto, em que pausávamos brevemente de vez em quando para repor as energias e respirar de maneira adequada.
Quando finalmente chegamos, partimos direto para a casa de Lucia, que não era muito longe. Por sorte a Vila era realmente muito pequena. Lá, fomos recebidos pela garota que parecia desgastada e infeliz, embora não estivéssemos muito melhores depois de toda aquela corrida. Pelo menos a chuva já havia se encarregado de tirar todo o suor que derramamos em nossas roupas.
—Cris? Wesley? O que aconteceu com vocês?!
Depois de certo tempo com as mãos apoiadas nos joelhos e as costas curvadas, levantei um dedo indicador, pedindo que Lucia aguardasse um momento, pois era quase impossível falar enquanto se estava tão ofegante. Ela entendeu e, percebendo nosso sofrimento, foi até o interior da casa e buscou dois copos d’água.
Como a chuva já havia passado, sentamo-nos na calçada e, depois de uns bons goles d’água, Cris começou a falar. Ela deveria estar em melhor forma do que eu, pois não parecia tão cansada.
—Lucia, você está bem?
—Estou sim. Obrigada por se preocupar, Cris. –Sua voz estava baixa e triste. –Ainda estou tentando fazer meus pais voltarem a confiar em mim, mas está sendo realmente difícil. Mesmo que eu consiga enxergar certo brilho no olhar deles, ainda não conseguem aceitar completamente a ideia de terem que cuidar de um neto, mesmo que eu já tenha dito que serei responsável por tudo. Mas... Isso não é o pior.
Cris e eu nos entreolhamos. Lucia respirou fundo e ficou de pé bem em frente a nós dois.
—Ultimamente, tenho percebido algo muito estranho. No começo pensei que fosse apenas minha mente pregando peças, por causa de toda essa coisa de gravidez. Talvez fosse até mesmo os hormônios agindo ou alguma coisa assim. Então, comecei a ligar os pontos e uma ideia maluca vem me incomodando desde então. Pode parecer insano, porém, tudo faz sentido para mim... A não ser que eu esteja ficando louca de verdade, tenho cada vez mais certeza de que aquilo que pensei é real. É a única maneira de explicar isso:
Lucia ergueu sua blusa e pude notar que a barriga estava muito maior do que da última vez em que a vi. Mesmo que ela houvesse se alimentado de uma quantidade absurda de alimentos calóricos durante o tempo em que eu e Cristina estivemos fora, era impossível ter engordado tudo aquilo que estava diante de meus olhos.
—Está crescendo de maneira anormal, muito mais rápido do que deveria... –Continuou. –Tenho certeza de que o pai dessa criança é o Boto.
Achei que não houvesse entendido direito. O Boto? Pai do filho de Lucia? Era simplesmente muito difícil encaixar todas as peças.
—Posso...? –Levantei-me lentamente com os braços erguidos.
Lucia entendeu e acenou com a cabeça, dando-me permissão para tocar sua barriga. Estava muito firme e com certeza não era a barriga de quem exagerou nos doces e frituras. Também pude jurar que senti algo pulsando. Decididamente aquele ventre abrigava uma vida. Como biólogo, era ainda mais impressionante acreditar no que estava acontecendo.
Cristina, no entanto, parecia ter compreendido muito bem e estava refletindo sobre a situação.
—Como eu não percebi?! –Exclamou. –Todos os sinais estavam lá. Eu sabia que aquele homem não era comum. Oh, Lucia, eu deveria ter feito algo...
—Não, não se preocupe! Isso não é sua culpa, de maneira alguma. –Sorriu levemente e abaixou sua blusa. Nós dois voltamos a nos sentar ao lado de Cristina. –De todos os casos que já ouvi falar sobre moças que foram engravidadas pelo Boto, em 100% deles as crianças nasceram e cresceram normalmente. A maldição que ele sofreu afeta apenas a si mesmo, e não aos seus descendentes. E, pensando bem, eu sempre gostei da ideia de ter um bebê.
Cristina e eu sorrimos junto com ela, mas permanecemos em silêncio.
—Mas... O que realmente me preocupa não é isso. Algo estranho está acontecendo na região. Assim que ouvi as notícias, fiquei com vontade de contar para vocês imediatamente; ainda bem que os dois estão aqui. Bem, ultimamente coisas terríveis têm acontecido por aqui... Algumas mulheres relataram que seus bebês sumiram. Primeiro foi Margarida, seu bebê tinha seis meses. Depois foi Paola, que tornou-se mãe há apenas algumas semanas. Até que... Uma grávida de oito meses e uma de cinco tiveram suas barrigas...
Lucia não conseguiu completar a frase, estava atordoada demais e apertou a barra de sua blusa para disfarçar as mãos trêmulas. Cristina segurou o ombro da amiga em compreensão.
—Nós sabemos.
—Vocês sabem?
—A fonte de todo esse mal está na floresta. –Expliquei. –É de lá que surgem todos os nossos problemas. Agora que tu já sabe que as lendas do folclore são reais, deve ter em mente que o Boto não é o único que vive pelas redondezas.
—Porém, nós não vamos deixar que algo aconteça contigo. E nem com o teu bebê. –Cris falou firmemente.
—Mas... Como vocês...
—Nós temos um plano. Tudo vai ficar bem, eu prometo.
Enquanto abraçava Lucia, Cristina olhou preocupada pra mim. Ela sabia muito bem que nós não tínhamos plano nenhum. Mesmo que descobríssemos a localização da Cuca, não saberíamos o que fazer para detê-la. Todavia, eu também estava disposto a fazer de tudo pra que, não só a bruxa, mas qualquer outra criatura que ousasse importunar a vida dos habitantes daquela Vila, pagasse por todo o mal que fizessem.
E eu sabia que tinha a pessoa certa ao meu lado para me ajudar a acabar com eles.
☀☀☀
De volta à cabana, procurei alimento em meus armários e comi quase tudo o que encontrei. Troquei as roupas ensopadas por novas e, olhando pela janela, percebi que Cristina se divertia muito matando as saudades de Biscoito. O cachorro parecia contente como nunca.
—Ele vai com a gente! –Cristina apareceu em minha cabana depois de um tempo, carregando seu cachorrinho.
—Está louca? A floresta é perigosa. Biscoito pode muito bem ficar aqui sozinho sem problema algum.
—Mas eu não aguento mais ficar longe dele! Além disso, ele é muito inteligente. Pode até nos ajudar. Biscoito vai com a gente, sim. Decidido.
Suspirei e a convidei para entrar. O cãozinho pulou do colo de sua dona e deitou-se no chão. Tirou um longo cochilo enquanto conversávamos, mexendo as patinhas e emitindo sons muito baixos vez ou outra, como se estivesse em um sonho muito agradável.
—Onde está o Saci? –Perguntou.
—Dentro da minha mochila.
—Deveríamos tentar extrair mais informações do malandro.
—Ele já disse que não sabe onde a Cuca está; não há muito que fazer.
—Mas talvez... –O rosto de Cristina se iluminou. – Talvez ele conheça alguém que saiba.
Coloquei a garrafa bem no meio da mesa e puxei uma cadeira para encará-la. O Saci não apareceu. Impaciente, Cristina deu um peteleco no objeto.
—Sabemos que tu está aí dentro, Saci! Não precisa se fazer de desentendido.
Como em um passe de mágica, um homenzinho de uma perna só e sem capuz apareceu, apoiando suas pequenas mãos no vidro.
—Será possível que o Saci não pode tirar nem um cochilo nos dias de hoje em dia?
Ao ver o Saci, Biscoito começou a latir histericamente. Contudo, parou e se encolheu de medo quando o homem fez uma careta para ele, como se aquilo houvesse afetado diretamente o cérebro do pequeno animal.
—Ei, não faça caras feias para o meu cachorro! –Cristina pegou o cãozinho no colo e o tranquilizou.
—Não se preocupe, ele está acostumado com a sua.
Ao som das gargalhadas incansáveis do senhor Pererê, Cristina o fuzilou com o olhar, em silêncio. Confesso que também fiquei com vontade de rir, mas me contive para não arranjar mais problemas com Cris. Acredito que ela não tenha percebido.
—Chega de conversa fiada! Queremos falar com você.
—É, percebi, sim. –Falou com desdém, bocejando. –É claro que querem. Quem não quer falar com o Saci Pererê? Mesmo depois de terem arrancado cada fiozinho de informação do Saci, continuam deixando ele preso, como se fosse um condenado. Ninguém liga pros sentimentos do Saci, não é, não? Mas vão falando logo de uma vez que eu já estou cansado de toda essa algazarra. Se não querem me soltar, pelo menos me deixem dormir um pouco.
—Nós vamos soltá-lo. Mas primeiro precisamos saber onde a Cuca está.
—Mas será o Benedito? –Falou sem paciência. –O Saci já falou um montão de vez que ele não sabe qual é o paradeiro da bendita daquela bruxa carrancuda.
—Já entendemos isso. –Esclareci. –Mas tu parece alguém que tem bom contatos. Agora diga: quem sabe onde a Cuca está?
O Saci, encolhido, permaneceu em silêncio por alguns minutos.
—Olha, é o seguinte. Eu até posso saber de alguém que vive perto do local onde a Cuca despertou, mas tem um porém. O Saci não quer nem saber de chegar perto daquele demo. O Saci tem medo.
—E de quem estamos falando, exatamente? –Perguntou.
—Do Caipora, oras bolas. Bicho mui forte e poderoso, ele. Não gosta das brincadeiras do Saci. Era ele que dava doenças nos bichos, nos índios e nos estrangeiros quando eles vieram pra cá, mas o primo tem afeição por demais com os humanos e animaizinhos, então achou que o doido estava passando dos limites quando viu que tinha gente demais morrendo e empurrou ele pro meio da floresta. Agora Caapora só pode sair nos dias santos, senão tem que fazer suas feitiçarias longe dos outros e mesmo assim o primo ainda bloqueia algumas. Da última vez que Caipora ficou brabo, teve um surto de doença no país inteiro.
—Espere aí. Caipora é homem?
—É. Quer dizer, pode ser. Caapora pode assumir a forma que quiser, tanto de macho quanto de fêmea, desde que continue cheio de pelos e com aquela cara de demônio dos quintos.
—Certo... E quando tu diz “primo”, está se referindo ao primo do Caipora? Está falando sobre o Curupira? –Cristina parecia ter ligado todos os pontos. –Eles não são a mesma pessoa?
—É, sim senhora. Antigamente as pessoas faziam confusão por demais. Viam o Caipora andando por aí maltratando os outros e pensavam que era o paizinho. Curupira é bonzinho, só quer proteger a floresta e só ficava irado de raiva se alguém ultrapassar os limites. Caipora, que só saía à noite, não estava nem aí pra mata, só gostava maltratar e se divertir com os indiozinhos. Muitos pensaram que os dois eram tudo um demônio só.
—Será que ele pode nos ajudar a derrotar a Cuca? –Pude sentir a esperança em minha própria voz.
—Sem chance, sinhô. Caapora não está nem aí com ninguém. E mesmo que tivesse, o paizinho estava tão furioso com ele que lançou uma magia poderosa quando o trancafiou no meio da mata. Ele não consegue andar por mais de alguns metros agora, se não for dia santo. É uma área encantada, como se fosse uma prisão invisível. Mesmo assim, ele ainda é muito poderoso e detesta visitantes no seu cantinho particular. Eu não me meteria com o Caipora se eu fosse ocês, tô avisando. Ouvi falar que ele come carne de gente.
Quase me engasguei com minha própria saliva.
—Mas nós precisamos. –Disse Cris, convicta. -Agora vamos para a floresta e tu irá nos guiar até ele.
—Nem brinca! O Saci prefere ficar na garrafa.
Cristina, depois de soltar Biscoito tão rápido que o pequeno quase caiu no chão, puxou abruptamente e garrafa para si, encarando o Saci Pererê tão de perto que até eu ficaria com medo se aqueles olhos estivessem tão vorazmente direcionados a mim. Imagino o quão medonho deve ter sido para ele que, de dentro da garrafa, viu olhos gigantes, embaçados e furiosos.
—Que é onde o senhor vai ficar pelo resto da eternidade se não fizer o que estamos pedindo. E lembre-se de que ainda temos o teu gorrinho mágico bem aqui.
O Saci a encarou enraivecido. Depois de um longo suspiro, concordou:
—Tudo bem, então. Mas é o seguinte: Assim que Caapora falar o que ocês dois querem ouvir, a gente foge que nem jumento correndo de onça pintada, me ouviram? E depois soltam o Saci e devolvem o gorro dele.
—Ok. –Concordei. -O gorro vai ficar perto da garrafa, assim que abrirmos tu poderá pegá-lo de volta.
—Enquanto isso, pode ficar admirando seu gorro. Mas sem tocá-lo, só para lembrar de que somos nós que estamos no comando agora. E nem pense em tentar nos enganar, senão isso aqui vai pra fogueira!
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