Além do rio
23 Arrumando a bagunça
Notas iniciais
[Cristina]
Depois de tanto sufoco, estresse e muito cansaço, não hesitei em passar alguns dias descansando, afinal, eu precisava disso. Aproveitei a pausa para escrever a aventura, anotando cada detalhe sobre as criaturas da floresta e relatando toda a loucura que me acontecera.
Wesley ainda assimilava todo o ocorrido. Passava longos períodos distraído, brincando com Biscoito. Ele gostava muito de ter uma companhia animalesca em sua cabana e os dois pareciam se dar excepcionalmente bem.
O ócio só foi interrompido quando recebemos a notícia de que o bebê de Lucia estava prestes a nascer, por meio de uma conhecida da garota que veio nos avisar.
Quando Lucia voltou do hospital em que fora levada (na Cidade), Wesley e eu logo partimos para sua casa. A criança era belíssima! Decididamente herdara as melhores qualidades dos pais e poderia ser até mesmo a mais bonita que eu já vi em toda a minha vida. Como o casal era muito bonito, já era de se esperar que o bebê também fosse.
—Qual é o nome dela? –Perguntei fazendo caretas e brincando com a criança enquanto Wesley a carregava.
—Cristina. –Disse Lucia naturalmente.
—O quê? –Falei depois de uma pausa, encarando-a. –Tu só pode estar zoando com a minha cara.
—Não, não estou. –Lucia riu e depois carregou sua menina. –Quando minha filha crescer, quero que ela seja corajosa igual você, Cris. Tu salvou a minha vida. –Admirou a bebê com ternura e um sorriso nos lábios. Ela estava ultra feliz e orgulhosa. — A nossa vida.
Com os olhos lacrimejando de emoção, abracei Lucia. Ela nos contou também que seus pais ficaram tão bobões ao verem a neta, que agora nem se importavam mais com o Boto e passaram a tratar Lucia muito melhor, ajudando-a a cuidar da filha. Só não queriam vê-lo novamente nunca mais.
Antes que a garota fosse ao hospital, mandei revelar a foto que tiramos quando estávamos experimentando roupas engraçadas na véspera da festa junina. Ficara tão espontânea que a admirei por muito tempo e entreguei uma cópia a Lucia. Agora, eu acabara de perceber que ela havia deixado a imagem em um belo porta retrato no quarto que dividia com o berço da neném e pensei em fazer o mesmo quando voltasse para o Rio.
Lucia também nos informou sobre as novidades da Vila. A mais comentada era que Dona Geraldina havia fugido com um padre, homem esse por quem era loucamente apaixonada. Chegaram a essa conclusão, pois ambos sumiram na mesma noite (após a festa junina) e alegavam que o homem levara consigo suas malas, roupas e muitos outros pertences. Minha mente, porém, começou a trabalhar com suas próprias engrenagens. Seria aquela mula-sem-cabeça que aparecera para ajudar-nos na floresta...? Após o choque, já estava pronta para preocupar-me quando me lembrei de que as criaturas místicas da floresta pareciam, apesar de tudo, muito acolhedoras. Dona Geraldina ficaria bem com elas.
Wesley se lembrou de que ele tinha algo que queria muito fazer e perguntou se eu gostaria de acompanha-lo. Após nos despedirmos de Lucia e da criança maravilhosa, segui Wesley até a floresta, mas não antes de comprar algumas frutas frescas.
☀☀☀
Quando chegamos lá, fomos recebidos por uma velha figura conhecida. Wesley ficou para trás para que eu pudesse ter uma conversa particular com Otto. No entanto, o índio agora já não ficava furioso ao ver Honorato e respeitava nosso espaço. Talvez toda a ajuda que ele oferecera alguns dias antes tenha servido para mostrar sua lealdade, coisa que Wesley reconhecia muito bem.
—Olá, Cris.
—Oi, Otto. –Eu já não ficava corada ao vê-lo. Talvez meus sentimentos tenham finalmente decidido onde queriam ficar. –Eu estava mesmo querendo falar contigo.
—Estava? –Pareceu surpreso.
—Sim. Bem... Eu estive pensando e decidi que estou disposta a acabar com a sua maldição. Só me diga como e eu farei de tudo para ajudar.
—Ah... –Ele olhou para baixo e sorriu, como se estivesse procurando as palavras certas. –Eu... Eu estive pensando também. Depois de tudo o que aconteceu, percebi que a floresta não é só um monte de mato e bicho espalhado por aí. Ela é mágica, é muito mais do que as pessoas pensam. E eu pertenço a ela. Fui abençoado com algo incrível e eu não deveria simplesmente jogar fora o que sou. –Agora adquiriu um tom sério. — Além do mais, eu sei que iremos correr perigo novamente, algum dia. E eu quero estar aqui para ajudar e garantir que tudo fique bem.
Sorri. Eu realmente gostei da aceitação de Otto. Também entendia completamente o que ele queria dizer. A Cuca não estava morta; lendas nunca morrem. Ela iria adormecer no fundo do rio por mais sete anos e, quando você menos pensar... Ela vem te pegar.
—Só quero que saiba que em momento algum eu fingi ser alguém que não sou com você, Cris. Realmente gostei de ter te conhecido.
—Sabe de uma coisa? –Sorri de maneira suave. –Eu também.
Otto se despediu com um beijo na bochecha muito lento e significativo. Quando se ergueu, sorriu plenamente sem mostrar os dentes e, com um aceno que levava dois dedos à cabeça e depois os apontava para mim, sumiu no meio da mata. O sol já estava se pondo e, logo, vi uma cobra muito grande mergulhar na água e nadar de maneira precisa e elegante para longe.
Wesley e eu esperamos sentados em rochas até que a noite tomasse conta do local. Para passar o tempo, fiquei brincando de escrever na terra com um pequeno galho, contudo ele manteve seus olhos concentrados no rio o tempo todo. Ele ainda não havia me contado o que planejava fazer.
—Agora! –Levantando-se, ele me empurrou para trás das rochas e ficamos escondidos.
De lá, vi o homem indescritível e galanteador da noite da festa junina saindo das águas, de maneira que fiquei imediatamente petrificada. Eu sentia uma espécie de nuvem e um perfume místico tomarem conta de minha mente e corpo. No entanto, o efeito desapareceu no exato momento em que segurei com força a mão de Wesley e deixei que outros sentimentos tomassem conta. O Boto não teria mais efeitos sobre mim. Não com Wesley por perto para me trazer de volta ao mundo real.
De um pulo, Wesley correu em direção ao homem e lhe surpreendeu com um soco muito forte em seu rosto tão perfeito quanto uma escultura grega. O Boto, com um gemido de susto e dor, caiu desacordado do chão e o índio massageou sua mão machucada pela força que exercera sobre o crânio do homem-animal.
—Ótimo. –Falei ironicamente, juntando-me aos dois. –O que fazemos agora?
Ajudei Wesley a carregar o homem desmaiado até uma parte mais distante do rio. O Boto era muito mais pesado do que parecia. Quando finalmente chegamos, o atiramos dentro da água, molhando nossas roupas. O homem acordou muito assustado ao fazer contato com a água, sem saber o que estava acontecendo. Escondemo-nos atrás das árvores e observamos por algum tempo.
Não demorou muito até que outra criatura metade animal, metade humana, aparecesse nas margens do rio. Iara e Boto se encararam por alguns instantes, estudando um ao outro de cima a baixo, muito curiosos. Eles também nadaram ao redor do outro como se fossem dois animais que houvessem acabado de se conhecer e tentavam descobrir informações sobre o desconhecido. Todavia, a Mãe D’água logo sorriu, ela parecia ter gostado do bonitão. Boto também gostava do que via.
Quando decidimos ir embora de mansinho para não atrapalhá-los, eu e o índio percebemos que os dois pombinhos pareciam ter muito assunto para pôr em dia. Conversavam freneticamente, ambos sentados em cima de um galho que flutuava no rio, com suas caudas a mostra. De vez em quando lançavam olhares encantados e cheios de significados um ao outro.
Na volta, falei que precisava fazer algo a mais. Fui até a árvore de raízes gigantes e lá deixei uma última oferenda de frutas. No entanto, dessa vez as criaturas já pareciam familiarizadas demais para fazer suspense. Curupira logo apareceu e agarrou uma manga. Ele parecia totalmente recuperado da luta que deixaria estragos fatais em um humano normal. Um de seus dentes verdes e pontudos caiu quando ele colocou a fruta na boca, mas ele logo percebeu e o encaixou de volta. Aquilo sempre era nojento.
—Agradeço imensamente pela oferenda, menina Cristina. –Disse o ruivo. –E pela ajuda com a Cuca. Agradeço a ti também, Wesley, pela bravura.
—Que isso... É o mínimo que poderíamos fazer. –Falei sem jeito, enquanto Wesley acenava com a cabeça, com um sorriso satisfeito. –Eu é que agradeço por ter lutado por nós.
Com um latido que pensei ser de Papa-Mel, o cachorro raivoso, Curupira voltou sua atenção para a floresta.
—Temo que eu precise ir. –Já terminava de devorar a última fruta. –Devo continuar a vigiar a floresta contra possíveis ameaças. No entanto, quero que saibam que ambos serão sempre bem-vindos.
Com essas palavras, desapareceu, deixando a mim e Wesley sozinhos com o barulho das aves e insetos noturnos.
☀☀☀
De volta à cabana, Wesley e eu deitamo-nos no chão e ficamos encarando o céu coberto de galhos e folhas das copas das árvores a procura de alguma estrela. Biscoito dormia muito confortável aos nossos pés.
—Já organizou tudo para escrever tua história? –Perguntou ele, olhando para cima.
—História?
—Sim, a que tu veio aqui procurando fatos e informações para publicar.
—Ah, sim. A história...
—Há algo de errado? –Virou-se para mim, preocupado.
—Bem, eu desisti dessa ideia de história. Enquanto fazia minhas anotações, percebi que não seria nada legal expor as criaturas da floresta. E tudo o que aconteceu foi tão pessoal, sabe? Não gostaria de mostrar para o mundo todo.
—Entendo. –Voltou a olhar para cima.
—Sabe... –Falei algo que estava entalado em minha garganta, depois de alguns minutos de silêncio. –Penso que talvez seja melhor eu parar com essa loucura de viajar por aí procurando por coisas bizarras e sem base nenhuma. Está na hora de eu arranjar um emprego de verdade.
—Acho uma excelente ideia. Assim tu pode ganhar dinheiro e me ajudar a pagar o aluguel.
—Aluguel? –Confusa, virei-me para ele, que ainda encarava as folhas no alto das árvores.
—É. –Finalmente virou-se para mim e olhou diretamente em meus olhos. –Sabe... Eu estive pensando em me mudar para o Rio de Janeiro. É uma cidade enorme, tenho certeza que terei boas oportunidades por lá.
Exibi um de meus maiores e mais significativos sorrisos, cheio de felicidade plena e verdadeira. Ele pareceu ter ficado muito alegre ao ver minha reação e também sorriu. Embora fosse um sorriso muito menor e meio torto, era tão lindo e sincero que fez minha barriga dar um nó. Estávamos virados de lado, fitando um ao outro, tão próximos que talvez ele pudesse ouvir os tamborilados contentes de meu coração.
Uma brisa forte derrubou várias folhas das árvores e percebi que o índio estava rindo. Ele aproximou sua mão e retirou algumas pequenas folhas que ficaram presas em meus cabelos. Logo depois, notou que uma também caíra em meu rosto e desceu sua mão levemente para tirá-la. Quando já estávamos livres de incômodos, sua mão permaneceu apoiada em minha pele, segurando meu queixo com muita suavidade que contrastava de uma maneira belíssima com seu ar de índio selvagem. Finalmente, depois de alguns longos segundos em que apenas estudamos os olhos do outro, Wesley puxou leve e vagarosamente meu queixo para ele, colando nossos lábios de maneira doce e sem pressa.
Nesse momento, a brisa voltou com tamanha intensidade que agora se transformara em uma rajada de vento que bagunçou os cachos de meu cabelo e a franja muito lisa do rapaz. Ecoando pela floresta, ouvimos um riso malandro que parecia debochar e tirar sarro de nós dois. Rapidamente, o som sumiu, junto com o vento.
Depois de encararmos a floresta (mas sem enxergar nada, nem ninguém), voltamos ao que estávamos fazendo. Agora, porém, sorríamos e eu me sentia segura e aquecida com os braços de Wesley ao redor dos meus.
Eu estava pronta para dar início a mais uma louca aventura.
Fim
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