Além do horizonte escuro- Os Lâfrer
3 Capítulo 2 : Uma conversa franca
Richard jogou o paletó de grife sobre a mesa com um desdém coreografado. Por baixo, a camisa de seda preta delineava os ombros que, embora ainda largos, carregavam a tensão de quem esperava um ataque a qualquer momento.
Hadassa luvas de procedimento, o estalar do látex soando como um chicote no silêncio do escritório.
— O braço direito — ordenou ela, apontando para o membro que ele mantinha levemente rígido. — A explosão afetou os nervos periféricos. Vamos testar a amplitude.
Richard estendeu o braço com uma lentidão teatral, os olhos fixos nela, desafiadores.
— Cuidado, enfermeira. Se eu quebrar, minha mãe deduz do seu generoso salário. E eu sei que vocês, profissionais da saúde pública, têm fetiche por contracheques de seis dígitos.
Hadassa segurou o pulso dele. A pele era quente, mas o toque dela era gélido e técnico. Ela começou a rotacionar o membro com firmeza. Richard trincou os dentes quando o movimento atingiu o limite do nervo lesionado, mas se recusou a gemer.
— O único fetiche que eu tenho, capitão, é ver gente arrogante admitindo que precisa de ajuda — ironizou ela, empurrando o braço dele um pouco além do ponto de conforto. — Está doendo?
— Sinto como se um exército de formigas estivesse mastigando meu cotovelo. Mas, comparado à sua personalidade, é uma massagem relaxante.
Hadassa soltou um riso curto e seco, sem desviar os olhos do que estava fazendo.
— Ótimo. Se dói, significa que ainda há algo vivo aí dentro. Eu estava começando a achar que você tinha se transformado em uma estátua de mármore para combinar com a decoração cafona desta casa.
— Cafona? — Richard arqueou a sobrancelha, o sarcasmo pingando. — Esse tapete custa mais do que a sua graduação inteira, Nymerelle.
— E, ainda assim, ele não consegue te ensinar a andar em linha reta sem esbarrar nos móveis, não é? — Ela largou o braço dele e deu a volta na cadeira, posicionando-se atrás dele. — Incline a cabeça para a esquerda. Vou checar a tensão na base do pescoço. A cicatriz repuxa o tecido muscular.
Ele obedeceu, mas não em silêncio.
— Se você me degolar por acidente, tente fazer parecer um acidente heroico. "Ex-fuzileiro morre em combate contra enfermeira irônica". Fica bem no obituário.
As mãos de Hadassa tocaram a nuca dele. Os dedos eram fortes, experientes em desfazer nós de estresse que Richard acumulava há meses. Por um segundo, o sarcasmo dele vacilou; o toque era humano demais, íntimo demais para o deserto emocional em que ele vivia.
— Você fala demais, Lâfrer — ela murmurou perto do ouvido dele, a voz baixando um tom, mas mantendo o fio de ferro. — É um mecanismo de defesa clássico. O barulho serve para abafar o fato de que você está com medo de nunca mais enxergar a própria mão na frente do rosto.
Richard ficou rígido. O único olho azul escureceu.
— Você não sabe nada sobre o meu medo.
— Eu sei o suficiente — ela rebateu, aplicando uma pressão maior em um ponto de gatilho que o fez soltar um arfar contido. — Eu vi homens melhores que você chorarem por menos. Agora, pare de tentar me seduzir com esse seu humor ácido de vilão de cinema e foque na respiração. Se o seu oxigênio não chegar ao cérebro, vamos ter que lidar com a sua burrice além da sua cegueira, e eu só sou paga para tratar uma dessas coisas.
Richard soltou uma risada rouca, encostando a cabeça na mão dela por um breve e perigoso segundo.
— Você é um pesadelo, Hadassa.
— E você é um projeto de reforma, Richard. E eu nunca entrego uma obra inacabada.
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