Além do Tempo
7 A Furia do Leão - Capítulo 7
Notas iniciais
O loiro tentou se esconder na multidão e seu perseguidor não o perdia de vista, sempre avançando mais e mais no intuito de alcançá-lo.
Um jogo perigoso se estabeleceu entre os dois: com a música tocando ao fundo, Aioria observava o rapaz tentar se esconder ora entre as barracas ora entre as pessoas, como em uma dança sensual cada movimento daquele homem loiro deixava o leonino ainda mais intrigado.
Como um felino que observa sua caça, Aioria analisou, seguiu com os olhos, e atrás de uma barraca deu o bote.
Pegou o elfo, encostando-o contra uma parede.
— Mas o que é isso? Como se atreve? – Perguntou o jovem capturado, indignado.
— Quem é você? O que estava fazendo na tenda do Touro? — Aioria questionou, ignorando a pergunta do loiro, mas a pergunta que gostaria de fazer era outra. Gostaria de perguntar "Quem é você que me enfeitiçou?".
— Não lhe devo satisfações — Shaka falava próximo ao rapaz que segurava seus braços acima de sua cabeça, "lindo, absurdamente lindo" era tudo o que conseguia pensar.
— Quem é você? — Aioria repetiu a pergunta, com o rosto ainda mais próximo ao do loiro, perdido naqueles lindos olhos azuis.
Nenhum deles conseguiu cortar o contato visual, e sem aviso algum, seus lábios se tocaram em um beijo urgente e apaixonado.
Aioria sentia uma sensação estranha enquanto beijava o rapaz desconhecido, era uma sensação de reencontro, era a sensação de enfim voltar para casa depois de muito tempo vagando pelo mundo.
Foi tirado dos seus devaneios por Shaka que o empurrou.
— Não devia ter feito isso! — O escravo falou sério.
— Quem é você? Por que sinto que o conheço? — Aioria perguntou, perdido naqueles olhos azuis.
— Não me conhece senhor, sou apenas um escravo, e não deveria estar aqui na rua... principalmente sendo desrespeitado por um forasteiro. — Shaka respondeu com seu jeito altivo se afastando do homem a sua frente.
Aioria, contudo, o segurou pelo pulso antes de perguntar: — Me diga seu nome, somente o nome da criatura mais linda do mundo, diga para que eu possa dizer seu nome enquanto sonho com você.
Shaka tentou não sorrir enquanto se afastou e falou antes de seguir seu caminho: — Shaka.
Aioria sorriu e se encostou em uma parede vendo o loiro sumir de vista, o que eles não sabiam é que estavam sendo observados
Em Gonda nada passava despercebido.
*-*-*-*-*
Camus deixou uma lágrima escapar se tivesse escolhido Vila Rosalie seu filho estaria em segurança agora.
Um barulho na porta o sobressaltou, logo Shaka entrou no recinto.
— Shaka, e então falou com Mu? — Camus perguntou querendo em seu íntimo saber de Milo.
— Estive com Mu Camus, e estive com o seu guardião. — Respondeu Shaka olhando o primo nos olhos.

Além do Tempo — Capítulo 7
O coração de Camus bateu forte quando o primo falou de seu guardião, mas o ruivo já havia tomado sua decisão, não entraria na curta vida de Milo, não tinha o direito de colocá-lo em risco novamente.
Desviando dos olhos de Shaka, Camus se levantou, foi até a janela do quarto que ocupava, e se pôs a olhar o horizonte.
— Não me diga nada, Shaka, não tenho o direito de saber dele. — Falou tristemente Camus.
— Cento e cinquenta anos, Camus, não foi o bastante para estarem separados? — Shaka perguntou ao primo.
— Shaka, você encontrou o seu guardião? — Camus perguntou pegando nas mãos do primo.
— Sim, Camus... eu os vi, eles estão juntos e são amigos como em outrora, eles voltaram para nós, meu primo. — Shaka falou emocionado. — Ele me beijou.
Surpreso, Camus indagou o primo com o olhar.
— De alguma forma ele se lembra, as memórias dos mortais ficam gravadas na alma, você sabe disso. — Shaka respondeu.
Camus se lembrou do olhar de Milo fixo em si quando o viu em meio à multidão, "não, Milo não sofrerá novamente" — pensou o ruivo.
Resignado Camus olhou para Shaka e pediu triste. — Fuja, Shaka! Viva seu amor com a plenitude que ele merece, encontre Hyoga, cuide dele pra mim.
— Camus, — Shaka soltou num sussurro, — jamais te deixaria para trás, devia saber disso.
— Não percebe que o que será feito de mim não já tem a menor importância? A única coisa que importa é o meu filho, Hyoga é a maior vítima da minha teimosia. — Falou Camus com desespero andando pelo quarto.
— Todos nós somos vítimas, Camus. — Falou Shaka.
— Fuja, Shaka, encontre Hyoga, por favor! — Camus implorou ao primo se ajoelhando aos seus pés.
Comovido Shaka se ajoelhou também ficando com os olhos na altura dos do primo e segurando suas mãos, pediu. — Camus, não se ajoelhe perante a mim, quando somos iguais em desgraça.
— Não, Shaka, minha desgraça é maior, uma inocente perdeu a vida por minha causa e agora meu filho, outro inocente está nas mãos do tirano também por minha causa. — Lamentou Camus.
— Eu quis vir, Camus, eu falei sobre o medalhão, não pegue meus pecados para você. Eu o deixei só com o Hyoga, eu jurei protegê-los e os deixei lá. Minha gana de achar o medalhão provocou nossa desgraça. — Shaka falou emocionado e os dois se abraçaram, cada um imerso em sua própria culpa.
Então sentiram que alguém se aproximava.
Shaka fechou os olhos e Camus levantou do chão e sentou na cama, Shaka pôs-se a pentear seus cabelos.
Alguns segundos depois Zeros entrava no quarto.
— Venha, o Grande Rei e Senhor de Gonda quer vê-lo imediatamente. — O lacaio real avisou.
Camus levantou, olhou para a janela, já era dia. Não havia percebido o tempo passar.
Zeros sorriu e falou: — Não você, gostosinho, o Rei quer ter com esse escravo aí.
Camus olhou para Shaka com um mau pressentimento, um aperto no peito. — O que ele quer com Shaka?
— O que ele quer com Shaka, ele quer com o Shaka e não cabe a mim questionar, e nem a você saber. — Respondeu o asqueroso lacaio real, se aproximando de Camus e cheirando uma mecha de seu cabelo.
Camus segurou o lacaio pelo pescoço e falou ameaçador. — Não encoste em mim, não encoste em nem um fio do meu cabelo.
Zeros arregalou os olhos surpreso, Camus o havia levantado a ponto de balançar as pernas dele no ar.
— Me solte, me solte! Não machuque Zeros, não machuque Zeros. — Pediu o serviçal de Radamanthys. — Entendi, não encostar no gostosinho.
Camus o soltou no chão sem cuidado. — Me chame de senhor, sempre que se dirigir a mim e se dirija com respeito! — Ordenou o elfo.
Shaka assistia a tudo quieto, ainda mantinha os olhos fechados, pensando sobre qual assunto Radamanthys gostaria de falar consigo?
Curvando-se em sinal de respeito, Zeros saiu de perto de Camus passando a mão em seu pescoço. — Como queria, senhor Camus, Rei dos Escravos.
Provocou insolente já próximo à porta. — Vamos escravo, ou quer tratamento especial também?
Shaka o seguiu.
ooOoo
Havia uma fogueira, Milo escutava a música sentindo cada nota lhe tocar a alma, sim ele se lembrava daquele lugar, sonhou com ele a vida toda.
O general de Gale ficava ali esperando alguém aparecer, mas quem era? Milo nunca soube dizer.
A música continuava etérea como se todos flutuassem, então uma criatura divina envolta em véus chegou atraindo o olhar do escorpiano. Seguindo o ritmo da música o rapaz dançava para Milo, contudo o escorpiano nunca conseguia ver seu rosto, sentia apenas que se tratava de um rapaz.
Milo nunca conseguia chegar perto dele, o rapaz o chamava, lhe estendendo a mão, contudo sempre que Milo fazia menção de segurar a mão estendida a criatura se afastava.
Mas dessa vez, quando o rapaz lhe estendeu a mão, Milo foi ágil em segurar o rapaz pelos braços e tirar-lhe o véu que cobria seu rosto.
Para a surpresa de Milo quem estava ali era Camus, o escravo do Rei, este o olhava com olhos tristes, Milo não conseguiu saber o motivo daquela tristeza.
No choque com a revelação de quem estava por trás do véu, Milo o soltou e o escravo fugiu triste.
— Não tema! Eu vou salvá-lo, vou tirar você do tirano.
O rapaz nada respondeu apenas correu para longe de Milo...
Milo acordou de sobressalto, o rosto suado, nunca havia visto o rosto do rapaz em seus sonhos, o que aquilo significava?
Olhou ao longe e viu que Aioria se aproximar, o amigo estava voltando da cidade com um sorriso bobo no rosto.
Milo não sabia o que ele tinha ido fazer na cidade àquela hora, mas aquele era o caminho que levava para lá.
Julgando que todos dormiam, Aioria acomodou-se próximo à fogueira e olhando para o céu pensava no jovem que conhecera há pouco.
...
No acampamento os amigos dormiram próxima na fogueira ao ar livre, havia tendas para todos, contudo, Milo e Aioria assim o fizeram, cada um perdido em seus pensamentos, Aldebaran por ter cedido sua tenda ao jovem escravo e Máscara da Morte foi o único que dormiu em sua tenda.
Nós primeiros raios de sol, Milo já estava de pé, apesar de estar sempre pensando no jovem escravo do Rei desde que o conhecera e de ter sonhado com ele naquela noite, Milo era muito responsável e disciplinado sabia que estava ali em missão: Descobrir os pontos fracos do tirano e a fonte de seu incrível poder recente.
— Já acordado? — Perguntou Aioria tolamente ao se aproximar.
— Os jogos de hoje logo começarão, temos que andar pela cidade, temos que descobrir alguma coisa Aioria. — Respondeu Milo.
— Concordo, precisamos investigar mais.
Aioria sentou ao lado de Milo, o leonino estava aéreo com o sonho que tivera naquela noite.
Foi confuso, Aioria se via próximo a uma fogueira e o loiro Shaka, o escravo amigo de Mu, dançava para ele. O sonho era como uma visão dos deuses, não se lembrava de alguma vez ter visto alguém tão belo quanto aquele rapaz.
— ... Então poderemos andar pela cidade sem maiores problemas e... — Milo parou de falar ao ver o amigo aéreo, entretido com seus pensamentos. — Aioria! Por Athena, está me ouvindo?
— Hã.... oi? — Respondeu o leonino.
— Estou falando de irmos para a cidade agora cedo com a desculpa de comprarmos algumas coisas, assim poderemos sondar. — Milo respondeu observando Aioria.
— Sim, sim vamos. — Foi à resposta do leonino.
— Aconteceu alguma coisa ontem? — Questionou o escorpiano.
— Por que a pergunta?
— Ontem você voltou da cidade, tarde, sozinho e sorrindo como um idiota. — Milo respondeu com a sobrancelha erguida, o escorpiano era muito observador e o estado do amigo não havia passado despercebido.
Aioria sentiu que suas bochechas esquentaram, Milo era seu melhor amigo, mas o que viveu na noite anterior com o escravo do tirano foi tão especial que ele pensava em guardar só para si.
— Você conheceu alguém? — Perguntou o sempre direto Milo.
— O escravo, — Começou Aioria, — o escravo que veio ontem aqui para ver o amigo.
— Sim, o loiro. Como é mesmo o nome dele? — Interrompeu Milo.
— Shaka, o nome dele é Shaka. — Respondeu Aioria sentindo o coração bater mais forte só por pronunciar o nome do loiro.
— O que tem ele? — Perguntou novamente Milo.
Aioria se levantou e começou a falar, sem saber se seu amigo entenderia. — Milo, quando vi aquele rapaz ontem senti que já o conhecia, foi como um reencontro, e quando beijei a sua boca senti que enfim eu estava voltando pra casa, sabe?
— VOCÊ... BEIJOU... O RAPAZ? — Milo perguntou abismado.
Aioria sentiu as bochechas esquentarem antes de responder ao primo. — Eu precisava, quando vi o rapaz foi... não sei explicar Milo.
Milo apenas sorriu. — Não precisa explicar, acho que sei... me sinto assim desde que vi aquele anjo preso ao tirano.
— É diferente. — Aioria respondeu se afastando.
— O que tem de diferente? — Quis saber Milo.
— Esse rapaz ruivo pode ser a chave do poder do tirano, e se for ele, você sabe que teremos que matá-lo, não sabe? — Falou direto Aioria.
Milo olhou o amigo horrorizado, “matar Camus? Nunca, jamais!”.
— Ele é um escravo, Aioria, não tem culpa dos desmandos do tirano, não vamos fazer nada precipitado.
Aioria não queria brigar com Milo novamente, então preferiu o silêncio naquele momento.
ooOoo
Shaka seguiu o lacaio Zeros até um aposento onde o Rei tomava seu desjejum, no local havia uma grande mesa de madeira maciça, negra com algumas cadeiras o Rei estava sentado na maior e mais imponente delas, ali não era o local oficial onde Radamanthys servia seus banquetes, não, este era um local privativo, com o tirano estava o feiticeiro de Gonda, Ichi, o encantador de serpentes.
O homem tinha a pele pálida, profundas olheiras e olhos negros, intimidante para qualquer mortal.
Shaka mantinha os olhos fechados como o de costume, todos no castelo o julgavam cego.
— Senhor Radamanthys, Rei de Gonda e senhor de toda a terra, aqui está o escravo conforme solicitado. — Falou Zeros bajulador.
Radamanthys olhou o escravo e fez sinal para que Zeros saísse.
Shaka ao perceber a aproximação do tirano lhe fez uma reverência. — Senhor.
— Shaka, Shaka, Shaka... sabe por que eu o deixo como lacaio do meu querido Camus? — Radamanthys perguntou.
— Por quê? Não, meu senhor, não sei porquê me concede tal honraria. — Respondeu Shaka respeitosamente, quando sentiu uma ligeira tontura.
“O medalhão” — Pensou.
— Eu deixo você cuidar do meu precioso Camus, pelo único motivo de você ser cego. Diga-me Shaka, você é cego de fato? Abra os olhos Shaka. — Ordenou o Rei com a voz macia.
Shaka abriu os olhos conforme lhe foi ordenado, mas manteve-os parados. — Senhor, meus olhos não funcionam como os seus.
Radamanthys olhou para o “escravo” o analisando.
— Me diga, Shaka, você é puro? — Radamanthys questionou.
Shaka nada respondeu.
Ainda rodeando o loiro, Radamanthys virou-se num movimento brusco com intuito de fazer o escravo piscar.
Shaka, contudo manteve seu olhar firme sem piscar uma vez, e sério, como se não notasse as caretas do Rei.
O Rei estreitou os olhos e voltou a sua compostura.
— Viram você ontem à noite na cidade, em meio a festa junto com as meretrizes e os rapazes que se prestam a este trabalho, o que tem a dizer em sua defesa Shaka?
Sempre calmo e sereno, Shaka respondeu. — Senhor, eu fui ao acampamento dos visitantes em volta da cidade, mas para saber notícias de meu amigo Mu, soube que ele foi levado por um gladiador.
Neste momento Ichi se intrometeu na conversa. — Foi visto aos beijos com um forasteiro, isso não é um comportamento aceitável de um lacaio de luxo como você. — Por não fazer trabalhos pesados e sofridos comparando com os demais escravos, os escravos “de casa” eram visto como escravos de luxo, principalmente Shaka que cuidava apenas de Camus.
Shaka virou o rosto para a voz do feiticeiro como se somente neste momento tivesse o percebido ali sua presença, mesmo que soubesse da presença do feiticeiro desde antes de entrar na grande sala.
— Sim, Shaka, explique-se! — Ordenou o Rei.
Muito astuto Shaka abaixou a cabeça antes de responder. — Senhor, meu amigo Mu foi entregue à gente da pior espécie, o tal gladiador e seus amigos... Corri de lá quando percebi as suas nefastas intenções, mas um dos rapazes me seguiu até a cidade, sem que eu percebesse, e me agarrou como se eu fosse um qualquer, mas eu consegui me desvencilhar dele e voltei para o castelo.
Aquela informação deixou Radamanthys curioso a cerca dos visitantes. De certa forma o tirano gostou de saber que “O Touro” e seus amigos não eram fracos borra-botas, ele admirava homens de coragem, mas seriam todos assim, tão valorosos?
Radamanthys sondava e de vez em vez fazia movimentos bruscos para confirmar a cegueira de Shaka, caretas, ameaça de tapa e socos, mas Shaka continuava imóvel como se nada tivesse vendo.
Em um dos movimentos o medalhão que estava sobre as vestes do Rei ficou a mostra os olhos de Shaka desviaram para o objeto, por sorte Radamanthys nada percebeu, mas ao feiticeiro o gesto não passou despercebido.
— Como uma pessoa cega consegue andar pela cidade, pelas estradas tão perigosas, como conseguiu fugir do baderneiro que o seguia? — Ichi, o feiticeiro perguntou analítico e observador como uma serpente.
— Senhor, deve saber que quando nos falta um sentido, os outros ficam aguçados. — Foi a resposta de Shaka.
Radamanthys que analisava o rosto de Shaka, comentou: — Você é um homem muito bonito Shaka, não me surpreende que tenha atiçado os desejos dos viajantes, — com as costas das mãos o tirano acariciou o rosto do escravo. — Sabe, Shaka, não costumo me deitar com escravos, mas talvez abrisse uma exceção pra você.
Sentindo um frio percorrer a espinha e o mal-estar por manter-se tão perto do medalhão, Shaka colocou as mãos nos lábios e começou a tossir, como se de fato tivesse problemas de saúde, fazendo o Rei se afastar com cara de nojo.
— Escravos! — Foi o que o Rei falou antes de mandar seus soldados entrarem. — Mesmo belos, não passam de escravos.
— Leve-o, cego e talvez tísico, não perderei meu tempo com ele.
Shaka se deixou levar pelos soldados, só não sabia pra onde.
— Vai mesmo fazer isso? — Questionou Ichi.
— Camus ainda precisa ser amansado, decidirei até a hora dos jogos.
Logo a porta foi aberta e o general Valentine entrou fazendo uma grande reverência ao Rei. — Senhor.
Trouxe o que eu pedi Valentine? — Perguntou Radamanthys.
— Sim, Senhor, todos os despojos que trouxemos do Egito foram analisados e encontramos o baú com a mesma insígnia do seu medalhão, conforme foi solicitado, aqui está. — Valentine falou mostrando um pequeno baú que trazia em sua mão.
Ichi se aproximou e se pôs a analisar o baú assim que Valentine o colocou em cima de uma mesa próxima.
— O que dizem essas inscrições? — Perguntou o tirano.
— Senhor, essas são inscrições muito, muito antigas, talvez nem eu sabia ao certo lê-las, mas este símbolo tenho certeza significa: Poder.
Radamanthys sorriu e se aproximou do pequeno baú. — Temos que abrir.
— Senhor, tentamos de tudo, machados, lanças, mas nada deu resultado, não conseguimos abrir esse baú. — Lamentou Valentine.
— Maldição! Tanto tempo com este baú sem saber como abrir. — Resmungou Radamanthys. — Deixe-o aí, quero manter este baú próximo a mim.
ooOoo
— Onde está o Shaka? Por que ele não voltou até agora? — Camus questionou aos guardas que vigiavam seu quarto.
Como nenhum dos homens tinha autorização para falar com Camus, ninguém respondeu. Certa vez o Rei mandou castrar um soldado que ousou olhar seu Camus com cobiça. Depois desse dia Radamanthys proibiu qualquer um de conversar com o elfo.
Somente Shaka o fazia por ser cego, e Mu que era responsável por sua alimentação e limpeza do quarto.
— Eu ordeno que me respondam: Onde está Shaka? — Camus voltou a perguntar, contudo continuou a ser ignorado pelos dois soldados a sua porta.
Sem alternativa Camus foi para a janela e se pôs a observar os campos, seu pensamento ora ia para seu filho, ora para Milo.
"Se eu tivesse me afastado de Milo quando meu pai pediu nada disso teria acontecido" — Camus pensou com amargura deixando uma lágrima escorrer por seu belo e pálido rosto.
ooOoo
— Venha Hyoga. — A jovem plebeia que cuidava de algumas crianças órfãs chamou o menino.
Hyoga era a criança mais bonita que ela vira na vida, seus cabelos loiros sedosos e brilhantes, seus olhos azuis celestiais que transmitiam muita paz.
Natassia havia recebido a incumbência de cuidar daquela criança como se fosse seu filho, era uma ordem do Rei, a jovem ainda pensava que o menino era um filho bastardo de Radamanthys, dado os cuidados que o Rei tinha ao mandar mantimentos e ao menos uma vez no mês alguém vinha verificar como a criança estava, tudo deveria ser feito para que Hyoga ficasse bem e feliz.
Além de Hyoga ela cuidava de dois garotos: Seiya e Shiryu, seus sobrinhos, mas um detalhe a deixava apreensiva. Quando Hyoga chegou ele devia ter seu dois ou três anos enquanto Seiya era recém-nascido e Shiryu tinha apenas dois anos, ambos eram filhos de sua irmã que faleceu no parto de Seiya.
A grande questão era: os dois meninos se desenvolveram, Seiya já estava do tamanho de Hyoga e Shiryu há tempo havia passado o amiguinho em tamanho, era como se o tempo não passasse para o pequeno loiro, quase dois anos se passaram sem que Hyoga tivesse alguma mudança em seu crescimento.
Contudo ele aprendia tudo muito mais rápido que os amiguinhos.
Eles moravam nos campos a dois dias de viajem do castelo de Gonda.
— Estou indo, estou indo. — Avisou o pequenino que brincava com o seu copo de água, o menino conseguia transformar a água em gelo, somente o seu amigo secreto “Isaak” sabia disso, mas ele orientou a não falar nada com os outros para não assustá-los.
Hyoga confiava em Isaak por ele dizer que era amigo do seu pai, Camus, e que seu pai não iria tardar a vir buscá-lo, por mais que já fizesse muito tempo, Hyoga sentia e acreditava nas palavras do amigo.
— Vamos plantar hoje? — Hyoga perguntou ao chegar à presença de Natassia e de seus amigos.
— “Quelo” lago. — Pediu Seiya que ainda não aprendera a falar direito.
— Façamos assim, plantamos agora pela manhã e a tarde iremos passear no lago, que tal? — Sugeriu a moça.
Os meninos aceitaram, não que tivessem que plantar para comer ou algo parecido, o Rei sempre mandava suprimentos de sobra além de uma boa quantia em ouro para a jovem, mas ela gostava de fazer os meninos gastarem energia brincando na terra e também aprendendo a plantar.
No começo da tarde conforme havia prometido Natassia levou os meninos para passear no lago, mais afastados dos outros Isaak brincava com o pequeno Hyoga.
— Isaak, conte mais uma história sobre o Rei Crystal e dos príncipes Camus e Degel. — Pedia o menino que apesar da voz infantil possuía a dicção perfeita.
O Rei Crystal havia incumbido Isaak de proteger o neto, o Rei não estava ciente das condições que o filho se encontrava, Isaak não o alarmou quanto a isso, uma vez que ele mesmo ignorava a real situação de Camus, somente seguiu os raptores de Hyoga quando o menino foi capturado, mas ao ver que a criança foi entregue aos cuidados da jovem Natassia ficou ali para protegê-lo, sabia que Camus jamais abandonaria o filho e esperaria ao lado de Hyoga a volta do príncipe.
— Veja, Isaak, é gelo. — A criança mostrava o que havia feito com um punhado de água.
— Parabéns, Hyoga, mas lembre-se: Não pode mostrar isso pra ninguém, tudo bem?
— Tá certo, Isaak! — Hyoga disse e sorriu com o punhado de neve que Isaak fazia cair ali.
ooOoo
A arena estava repleta de gente, todos gritavam fervorosamente a favor ou contra algum corredor.
O evento começou com corridas de vigas.
Camus novamente estava preso com a coleira, sentado aos pés do tirano. O elfo olhava a todos enfadado, ainda não o tinha visto ali em meio a multidão.
...
— Maldição! Andamos por toda a cidade, tudo leva a crer que o rapaz é a chave do poder do maldito! — Expôs Aioria ao seguirem para a arena.
Milo estava em silêncio, todos com quem falavam na cidade sempre diziam que o jovem amante do Rei era, sem dúvidas, a razão da prosperidade de Gonda nas vitórias das guerras travadas.
Quando se dirigiam para a entrada alguns soldados se aproximaram. — Senhor Touro, por favor, venha conosco.
— Ir com vocês pra onde? — Perguntou Aldebaran receoso olhando para os amigos.
— Nosso Rei, o Grande Radamanthys, deseja que assista aos jogos de um lugar de honra. — Informou o soldado.
Os amigos trocaram olhares entre si antes de Aldebaran responder. — O convite se estende aos meus amigos?
— Vá com eles, ó grande Touro! — Ouviram a voz de Máscara da Morte. — Não somos dignos de chegarmos perto do Rei, não fizemos nada para merecermos tal honra.
Aldebaran trocou olhares com os demais e seguiu com os soldados.
— Por que não deixou que fôssemos com ele? — Questionou Milo.
— Não é bom que o verme do Rei conheça nossos rostos de perto. Não de todos nós. — Foi a explicação dada e todos a acataram.
— O que será que ele quer com o Touro? — Milo perguntou desconfiado.
— Não sei, mas espero que nosso amigo fique bem. — Respondeu Aioria.
Os três entraram na arena à procura de lugares livres, assim que Radamanthys entrou em seu campo de visão, Milo logo procurou Camus com o olhar.
Ali estava Camus, lindo, altivo, um ar nobre mesmo sentado aos pés do tirano.
E como se um imã o atraísse, o olhar de Camus foi na direção onde Milo estava, seus olhares se cruzaram.
O coração de Camus batia acelerado somente com a presença, à distância, do homem que amava.
Camus pensou muito naquela noite, não poderia colocar a frágil vida de Milo em risco novamente, não tinha esse direito.
Em seu peito ainda lhe castigava a dor da perda, em ver Milo morto em seus braços, lembranças daquele dia nefasto não saíam de sua mente. "Não tenho o direito de por em risco sua vida novamente" — Pensou Camus olhando triste para Milo.
O loiro por sua vez notou a expressão triste do rapaz ao lado de Radamanthys.
— Não faz sentido! — Milo falou chamando a atenção dos amigos.
— O que não faz sentido, Milo? — Quis saber Aioria.
— Se Camus é a chave do poder de Radamanthys, por que diabos ele se sujeitaria a ser humilhado dessa forma? Não faz sentido, existe algo que não sabemos sobre isso. — Respondeu Milo astuto.
— Talvez o jovem Mu possa auxiliar-nos sobre esses mistérios, hoje não falamos nada por respeito a Aldebaran, mas temos nossa missão que é salvar Gale, e isso é muito mais importante que qualquer coisa. — Respondeu Aioria.
Os amigos concordaram.
O outro lado da arena Aldebaran era levado à presença do Rei.
— Senhor, trouxemos o Touro como ordenou. — O soldado avisou ao Rei que se levantou para receber o grande gladiador.
— Grande Touro, que bom que nos deu a honra de sua presença aqui nos humildes jogos de Gonda. — Falou Radamanthys ao se aproximar do Rei.
Com muito custo para não colocar tudo a perder Aldebaran se abaixou em reverência ao Rei, quando sua vontade de era arrancar a cabeça do maldito ali mesmo. — A honra foi minha, Senhor.
— Em deferência a sua coragem por ter enfrentado o Grande Hércules, e o derrotado no lugar dele, a partir de hoje aquele que se propor a lutar no lugar do desgraçado, o terá por direito, além é claro do prêmio em ouro. — Explicava Radamanthys. — Tenho apreço por homens de coragem, Grande Touro, será que acharemos mais alguém disposto a realizar esse feito?
O gladiador nada respondeu, ficou apenas observando o Rei se levantar para fazer o anúncio ao povo.
— Povo de Gonda! Ontem o Grande Touro nos brindou com uma excelente luta e demonstração de coragem ao pular na arena e pegar a luta de outro para si. — Começou a falar vendo o povo aplaudir o ato do Touro, que fez uma reverência ao público. — Assim sendo, quero saber se teremos mais homens honrados e corajosos em Gonda! Aquele que pular na arena e tomar a luta para si, além de um escravo, ganhará também vinte moedas de ouro! — Concluiu o Rei.
O povo aplaudiu ovacionando o seu imponente Rei.
Logo começaram as lutas dos gladiadores sem que ninguém da plateia se envolvesse.
Camus a tudo observava horrorizado, mesmo que sua expressão permanecesse inalterada. Para o elfo era muito difícil entender o gosto que os mortais tinham pela morte, pois sabendo que suas vidas eram tão curtas eles ainda assim não tinham respeito algum pela vida. Já o seu povo que possuíam vidas demasiadamente longas se comparado as dos mortais, tinham total apreço pela vida, tanto dos seus quanto dos de outra espécie.
Para se evitar uma guerra élfica todas as tentativas de paz eram tomadas, a vida para os elfos tem um valor inestimável.
Na arena homens gladiavam com espadas em riste, um dos homens da arena fez um movimento que lembrou a Camus o gesto que seu primo Surt fez ao ferir Milo mortalmente no passado, Camus virou a cabeça fechando os olhos.
Gesto que não passou despercebido por Aldebaran que de esguelha observava o escravo sentado aos pés de Radamanthys, também não passou despercebido ao gladiador que o homem de cabelos de fogo olhava fixamente na direção de Milo, seu amigo. De onde estava, Aldebaran também notou que Milo mantinha os olhos presos no ruivo.
Não, eles não estavam próximos, ou perto que pudessem levantar suspeitas ao Rei, mas de tanto Milo falar no rapaz dos cabelos vermelhos, para o astuto Aldebaran nada ficou despercebido.
“Esse rapaz me parece tão frágil quanto Um, como pode ser ele a chave dos poderes de tirano? Tem que haver outra explicação” — Pensava o gladiador, que assistia aos jogos em pé ao lado do Rei, supostamente um lugar de honra.
— Veja, Grande Touro, até o momento não houve ninguém com sua coragem para desafiar algum oponente na arena. — Comentou o Rei enfadado.
Camus desviou os olhos de Milo e encarou Aldebaran, tranquilizando sua alma por saber que ali estava um homem bom e justo, com sorte ele libertaria Mu.
Assim durante três horas homens lutaram até a morte naquela arena em lutas mortais e sangrentas, o povo sempre aplaudir o vencedor, como se a vida do perdedor nada valesse.
Começaria então a execução dos prisioneiros, ali estavam ladrões, falsários e, em sua maioria, desafetos do Rei. Na realidade não chamavam o horrendo espetáculo de “execução” e sim de lutas com os leões, como de fosse possível alguém sair vitorioso dessas lutas.
O primeiro a entrar foi um senhor de meia idade que havia feito os filhos fugirem para não lutar nas guerras ao lado de Radamanthys, depois de um ano de prisão finalmente ele teve sua sentença final.
O detalhe mais cruel era que as pessoas que “desafiavam” os leões deveriam lutar sem armas, somente lutariam contando com sua força física.
No primeiro ataque do animal o homem teve sua cabeça degolada pela fera faminta.
Radamanthys sorria divertido com os ataques do animal, sempre que possível olhava para Camus, lhe era prazeroso ver a expressão de nojo no rosto do escravo.
— Caro Touro, és um homem de coragem, veja! Já estamos quase finalizando os entretenimentos deste dia e até o momento nenhum ato heroico como o seu foi visto, como me explica isso? — Perguntou o Rei ao gladiador, mas olhando para Camus.
— Talvez não queiram glórias hoje, senhor. — Respondeu Aldebaran.
— Talvez. — Respondeu Radamanthys estudando as expressões do ruivo, ato que não passou despercebido ao sempre atento Touro.
Radamanthys fez um sinal para os guardas, pouco tempo depois as portas da arena se abriram e Shaka foi jogado ali para o desespero de Camus e Aioria.
— Shaka! — Sussurrou Camus se levantando.
“Não é justo Shaka perder a vida justamente quando o seu amor retornou” — pensou Camus em desespero.
— Por quê? — Perguntou o Camus ao tirano que mantinha um sorriso nos lábios.
— Para que você aprenda a ser dócil comigo quando eu quiser. — Respondeu Radamanthys ignorando a presença de Aldebaran que a tudo olhava com atenção, porém mantendo-se distante.
— Eu odeio você. — Camus falou voltando sua atenção ao amigo, pensando no que faria para ajudá-lo, Radamanthys não sabia da ligação de amizade deles, achava que tinham somente uma relação escravo e senhor, e pensando assim já sacrificaria o “escravo pessoal” de Camus, sem imaginar a real ligação ou a verdade sobre Shaka, Camus temia só de pensar. O elfo olhou em volta e olhando para Milo viu que algo acontecia ali também.
Do outro lado da arena Aioria gritou assim que viu Shaka sendo jogado na arena. — SHAKA!
Milo desviou os olhos de Camus e olhou para o amigo que gritava em desespero.
— Aioria, o que houve? — Perguntou preocupado tentando segurar o amigo. — O que vai fazer?
— Me larga, Milo, não vou deixar ele morrer, não vou deixar! — Disse Aioria em desespero empurrando Milo e Máscara da Morte que foi ao auxílio do escorpiano, segurar o amigo.
Assim que se livrou dos dois, com sua força os empurrando e fazendo com que ambos fossem ao chão, Aioria olhou para Shaka que permanecia imóvel e resignado de joelhos com os olhos fechados, enquanto o animal o rondava preparando o ataque.
Aioria pulou na arena. — AQUI GATINHO, AQUI! — Gritou chamando a atenção da fera.
Ao ouvir aquela, voz Shaka abriu os olhos e sem acreditar falou. — Aioria.
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