Além do Olhar

5 Luz, Câmera e Tensão


A rotina na faculdade já não era a mesma. A amizade entre David e Kyara havia se tornado o assunto favorito dos corredores, mas nenhum dos dois parecia se importar. Para David, a companhia de Kyara era um respiro de leveza; para ela, ele era o porto seguro que sua casa nunca foi.


​O convite foi direto, bem ao estilo de David: "Tem um documentário sobre fisiologia do esporte... mentira, é um filme de ação com muitas explosões. Quer ir como amigos?". Kyara aceitou antes mesmo dele terminar a frase.

​No saguão do cinema, David estava encostado na pilastra, usando uma jaqueta de couro e jeans escuros. Quando Kyara se aproximou, ele assobiou baixo, com um sorriso de canto.

​— Para quem vinha "como amigos", você está perigosamente bonita, Stanford — brincou ele.

​— E você está perigosamente convencido, Sinclair — ela rebateu, ajeitando o cachecol. — Mas obrigada. Agora, compre a pipoca logo porque eu sou uma "amiga" com muita fome.

​Já dentro da sala escura, a atmosfera mudou. Eles estavam sentados lado a lado, e a proximidade era inevitável. Sempre que o braço de David encostava no dela no apoio da poltrona, Kyara sentia uma eletricidade percorrer seu corpo. Ela o olhava de soslaio; ele parecia focado na tela, mas seus dedos tamborilavam no balde de pipoca em um ritmo que denunciava que ele também não estava tão indiferente assim.

​— Kyara? — ele sussurrou, aproximando o rosto do ouvido dela para não atrapalhar os outros. O hálito dele era quente contra sua pele.

​— Oi? — ela respondeu, sentindo o coração disparar.

​— Você está segurando esse punhado de pipoca há cinco minutos. Vai comer ou vai fazer uma análise científica delas?

​Ela riu baixinho, sentindo o rosto queimar.

— Cala a boca, David! Estou prestando atenção na trama.

​— Sei... a trama é ótima. Especialmente a parte em que o carro explode sem motivo nenhum — ele provocou, voltando a encostar o ombro no dela e deixando o contato permanecer por mais tempo do que o necessário entre "apenas amigos".

​O Confronto no Saguão

​Quando as luzes se acenderam e eles saíram rindo da sala, Kyara estava distraída, comentando sobre como o filme era irrealista. David a ouvia com um olhar sereno, as mãos nos bolsos, aproveitando o momento.

​Mas o sorriso dela morreu instantaneamente quando, ao atravessarem a saída, deram de cara com uma figura familiar saindo da sala vip ao lado: Arthur, o irmão dela.

​Arthur parou, os olhos arregalados de choque, que rapidamente se transformaram em fúria.

​— Mas o que é isso? — Arthur gritou, atraindo a atenção de quem passava. — Kyara? Você está no cinema com... com esse cara?

​— Arthur, fala baixo! — Kyara pediu, a voz tremendo de vergonha. — Nós estamos apenas...

​— Apenas o quê? Envergonhando nossa família publicamente? — Arthur deu um passo à frente, ignorando as pessoas ao redor. Ele olhou para David com um nojo visceral. — Eu te avisei na festa, não avisei? O que você quer com a minha irmã? Dinheiro? Uma indicação?

​David deu um passo à frente da Kyara, mantendo a postura ereta e a voz perigosamente baixa.

— Arthur, se controle. Estamos em um lugar público e você está passando vergonha sozinho.

​— Não me diga o que fazer, seu... — Arthur começou, as veias do pescoço saltadas. — Kyara, sai de perto dele agora! Você tem ideia do que as pessoas vão dizer? A filha dos Stanford andando com um professor negro de subúrbio?

​Kyara sentiu uma onda de fúria maior do que o medo. Ela se colocou entre os dois, empurrando levemente o peito do irmão.

​— Chega, Arthur! — ela gritou, a voz firme. — O único "subúrbio" aqui é o da sua mente pequena e preconceituosa. O David é dez vezes o homem que você jamais será. Ele tem dignidade, algo que você perdeu tentando ser uma cópia mal feita do papai.

​— Você está defendendo ele? — Arthur riu, uma risada histérica. — Você está louca!

​— Eu estou lúcida pela primeira vez na vida — Kyara retrucou. Ela se virou para David, pegando na mão dele na frente de todos. — Vamos embora daqui, David. O ar ficou pesado demais.

​David olhou para Arthur com uma calma absoluta que foi mais humilhante do que qualquer soco.

— Melhore, doutor. Pela sua saúde mental e pela sua irmã.

​Eles saíram deixando Arthur falando sozinho no meio do saguão. No estacionamento, o silêncio durou alguns segundos até Kyara desabar em um suspiro longo.

​— Ele é um idiota, David. Eu sinto muito de novo.

​David parou na frente dela e, pela primeira vez, levou a mão ao rosto dela, afastando uma mecha de cabelo loiro.

— Não sinta. Eu já te disse, o que ele pensa não me define. Mas o que você fez... defender um "professor de subúrbio" daquele jeito... foi bem corajoso, pequena Stanford.

​Kyara sorriu, meiga, apesar dos olhos ainda marejados.

— Eu não defendi um professor, David. Eu defendi o meu melhor amigo.

​David a olhou por um longo tempo, o olhar sereno finalmente dando lugar a algo mais intenso.

— É. Amigos. Vamos focar nisso por enquanto.